
Cemitrio de Indigentes

Patricia Daniels Cornwell



C
CCCCCCCCE
EEEEEEEEM
MMMMMMMMI
IIIIIIIIT
TTTTTTTT
R
RRRRRRRRI
IIIIIIIIO
OOOOOOOOD
DDDDDDDDE
EEEEEEEEI
IIIIIIIIN
NNNNNNNND
DDDDDDDDI
IIIIIIIIG
GGGGGGGGE
EEEEEEEEN
NNNNNNNNT
TTTTTTTTE
EEEEEEEES
SSSSSSSS

P
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DDDD.
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http://groups.google.com/group/digitalsource



#
PATRICIA
D.
CORNWELL


C
CCE
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MMI
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R
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IIO
OOD
DDE
EEI
IIN
NND
DDI
IIG
GGE
EEN
NNT
TTE
EES
SS

Traduo:
LUCIANO
VIEIRA
MACHADO


1"
reimpresso



#
Copyright

1995
by



Proibida
a
venda 
em 
Portugal 


Ttulo 
original: 


From 
potter's 
field 


Capa: 
Joo 
Baptista 
da 
Costa 
Aguiar 


Preparao: 
Roberto 
de 
Albuquerque 


Reviso: 
Ceclia 
Madars 
Isabel 
Jorge 
Cury 


Dados 
Internacionais 
de 
Catalogao 
na 
Publicao 
(CIP) 
(Cmara 
Brasileira 
do 
Livro, 
SP, 
Brasil) 


Cornwell, 
Patrcia 
Daniels. 
Cemitrio 
de 
indigentes 
/ 
Patrcia 
Cornwell 
; 
traduo 
Luciano 
Vieira 
Machado. 
 
So 
Paulo 
Companhia 
das 
Letras, 
1997. 


Ttulo 
original: 
From 
potters 
field. 
ISBN 
85-7164-637-6 
1. 
Romance 
norte-americano 
i. 
Ttulo 
97-0241 
cdd-813.5 


ndices 
para 
catlogo 
sistemtico: 


1. 
Romances 
: 
Sculo 
20 
: 
Literatura 
norte-americana 
813.5 
2. 
Sculo 
20 
: 
Romances 
: 
Literatura 
norte-americana 
813.5 
2000 


Todos 
os 
direitos 
desta 
edio 
reservados 
 
EDITORA 
SCHWARCZ 
LTDA. 


#
Orelha 
do 
Livro 


 
possvel 
existir 
algo 
alm 
do 
horror? 
Para 
Temple 
Brooks 
Gault 


o 
horror 
no 
 
o 
fim, 
mas 
o 
comeo. 
Assassino 
por 
natureza, 
Gault 
 
tambm 
um 
manipulador, 
e 
tem 
estilo 
prprio. 
Suas 
vtimas 
carregam 
literalmente 
na 
carne 
a 
sua 
assinatura, 
marca 
macabra 
que, 
muitas 
vezes, 
perturba 
a 
mais 
mrbida 
imaginao. 
Como 
um 
filho 
rejeitado, 
parece 
buscar 
a 
aprovao 
da 
dra. 
Kay 
Scarpetta, 
legista-chefe 
do 
estado 
de 
Virgnia 
e 
consultora 
especial 
do 
FBI, 
a 
quem 
persegue 
com 
seus 
"presentes", 
brutalmente 
envoltos 
em 
mistrio. 
Como 
aquele 
corpo 
de 
mulher, 
nu, 
com 
vrios 
cortes 
e 
a 
cabea 
perfurada 
por 
um 
tiro. 
Apoiado 
num 
banco 
do 
Central 
Park, 
em 
meio 
 
neve 
que 
cobre 
Nova 
York, 
o 
cadver, 
sem 
nenhum 
indcio 
que 
o 
identifique, 
constitui 
um 
desafio 
monstruoso 
 
dra. 
Scarpetta, 
 
polcia 
e 
ao 
FBI. 
E 
o 
desafio 
adentra 
o 
campo 
pessoal: 
Gault 
passa 
a 
ameaar 
a 
jovem 
Lucy, 
sobrinha 
de 
Scarpetta, 
que 
 
responsvel 
pelo 
CAIN, 
o 
complexo 
sistema 
de 
informtica 
utilizado 
pelo 
FBI 
no 
qual 
o 
criminoso 
insidiosamente 
conseguira 
penetrar. 


Agora, 
para 
a 
mdica-legista, 
no 
se 
trata 
apenas 
de 
buscar 
justia; 
sua 
prpria 
sobrevivncia 
corre 
perigo. 
Com 
o 
auxlio 
de 
seus 
companheiros, 
o 
tenente 
da 
polcia 
Pete 
Marino 
e 
o 
agente 
do 
FBI 
Benton 
Wesley, 
Kay 
Scarpetta 
tenta 
chegar 
ao 
final 
da 
investigao. 
E 
o 
confronto 
alcana 
seu 
auge 
no 
labirntico 
metr 
de 
Nova 
York. 


Srie 
Scarpetta, 
em 
ordem 
de 
lanamento 
nos 
EUA 
(todos 
publicados 
pela 
Companhia 
das 
Letras): 


Post-mortem, 
Corpo 
de 
delito, 
Restos 
mortais, 
Desumano 
e 
degradante, 
Lavoura 
de 
corpos, 
Cemitrio 
de 
indigentes, 
Causa 
mortis 


#
 
dra. 
Erika 
Blanton 
( 
Scarpetta 
com 
certeza 
seria 
sua 
amiga) 


E 
o 
Senhor 
disse-lhe: 
"Que 
fizeste? 
Eis 
que 
a 
voz 
do 
sangue 
do 
teu 
irmo 
clama 
por 
mim 
desde 
a 
terra 
". 


Gnesis 
4:10 


#
ERA 
VSPERA 
DE 
NATAL 


Ele 
caminhou 
com 
passos 
firmes 
pela 
neve, 
que 
estava 
muito 
alta 
no 
Central 
Park. 
Era 
tarde, 
mas 
ele 
no 
sabia 
as 
horas, 
e 
para 
os 
lados 
da 
Ramble 
j 
escurecia. 
Ele 
conseguia 
ver 
e 
ouvir 
a 
prpria 
respirao, 
porque 
no 
era 
como 
as 
outras 
pessoas. 
Temple 
Gault 
sempre 
tivera 
algo 
de 
mgico, 
um 
deus 
num 
corpo 
de 
homem. 
Ele 
no 
escorregava 
ao 
andar 
na 
neve, 
por 
exemplo, 
quando 
era 
certo 
que 
outros 
o 
fariam, 
e 
no 
sabia 
o 
que 
era 
o 
medo. 
Sob 
a 
aba 
do 
bon 
de 
beisebol, 
seus 
olhos 
estavam 
vigilantes. 


Naquele 
lugar 
e 
ele 
sabia 
exatamente 
onde 
se 
encontrava, 
Gault 
se 
agachou, 
afastando 
a 
aba 
do 
casaco 
preto 
comprido. 
Colocou 
sobre 
a 
neve 
uma 
velha 
mochila 
de 
campanha 
e 
estendeu 
as 
mos 
ensangentadas 
diante 
de 
si. 
Elas 
estavam 
muito 
frias, 
mas 
no 
insuportavelmente 
frias. 
Gault 
no 
gostava 
de 
usar 
luvas, 
a 
menos 
que 
fossem 
de 
borracha, 
que 
alis 
tambm 
no 
serviam 
para 
esquentar. 
Ele 
limpou 
as 
mos 
e 
o 
rosto 
com 
a 
neve 
macia 
e 
fresca, 
depois 
fez 
uma 
bola 
com 
a 
neve 
ensangentada 
e 
a 
colocou 
junto 
 
mochila, 
porque 
no 
podia 
abandonar 
nem 
uma 
nem 
outra. 


Riu 
seu 
riso 
contido. 
Sentia-se 
feliz 
como 
um 
co 
cavoucando 
a 
areia 
da 
praia 
ao 
revolver 
a 
neve, 
apagando 
pegadas 
e 
procurando 
a 
sada 
de 
emergncia. 
Sim, 
ela 
se 
encontrava 
bem 
onde 
Gault 
supunha, 
e 
ele 
removeu 
mais 
neve 
at 
encontrar 
a 
chapa 
de 
alumnio 
dobrada, 
que 
colocara 
entre 
aporta 
e 
o 
batente. 
Agarrou 
uma 
argola 
que 
funcionava 
como 
puxador 
e 
abriu 
o 
tampo. 
L 
embaixo, 
as 
negras 
entranhas 
do 
metr 
e 
o 
silvo 
de 
um 
trem. 
Deixou 
cair 
a 
mochila 
e 
a 
bola 
de 
neve. 
Suas 
botas 
fizeram 
ressoar 
a 
escada 
de 
metal, 
quando 
ele 
desceu. 


#
1 


A 
vspera 
de 
Natal 
estava 
fria 
e 
traioeira, 
cheia 
de 
gelo 
sujo 
e 
crime 
pipocando 
em 
nossas 
tevs. 
Era 
raro 
eu 
passar 
pelos 
conjuntos 
habitacionais 
de 
Richmond 
depois 
do 
anoitecer 
sem 
estar 
dirigindo. 
Normalmente 
era 
eu 
mesma 
quem 
dirigia. 
Costumava 
ir 
sozinha 
ao 
volante 
do 
rabeco 
azul, 
que 
eu 
levava 
para 
as 
cenas 
de 
mortes 
violentas 
e 
inexplicveis. 
Mas 
naquela 
noite 
eu 
estava 
ao 
lado 
do 
motorista 
de 
um 
Crown 
Victoria, 
com 
uma 
msica 
natalina 
entremeando 
a 
fala 
dos 
controladores 
e 
dos 
policiais, 
que 
conversavam 
em 
cdigo. 


"O 
xerife 
Papai 
Noel 
acabou 
de 
entrar 
 
direita 
bem 
ali." 
Eu 
apontei 
para 
a 
frente. 
"Acho 
que 
ele 
se 
perdeu." 


", 
acho 
que 
ele 
est 
bbado", 
disse 
o 
capito 
Pete 
Marino, 
comandante 
do 
violento 
distrito 
policial 
que 
estvamos 
atravessando. 
"Da 
prxima 
vez 
que 
a 
gente 
parar, 
d 
uma 
olhada 
em 
seus 
olhos." 


Para 
mim 
no 
era 
surpresa. 
O 
xerife 
Lamont 
Brown 
tinha 
um 
Cadillac, 
usava 
pesadas 
jias 
de 
ouro 
e 
era 
amado 
pela 
comunidade 
por 
causa 
do 
papel 
que 
desempenhava 
na 
ocasio. 
Aqueles 
de 
ns 
que 
sabiam 
a 
verdade 
no 
ousavam 
dizer 
nem 
uma 
palavra. 
Afinal 
de 
contas, 
 
um 
sacrilgio 
dizer 
que 
Papai 
Noel 
no 
existe 
e, 
naquele 
caso, 
ele 
no 
existia 
mesmo. 
O 
xerife 
Brown 
cheirava 
cocana, 
e 
provavelmente 
todo 
ano 
roubava 
metade 
do 
que 
era 
doado 
a 
ele 
para 
distribuir 
aos 
pobres. 
Era 
um 
canalha 
que 
havia 
pouco 
tempo 
mexera 
os 
pauzinhos 
para 
que 
eu 
fosse 
convocada 
a 
fazer 
parte 
de 
um 
jri, 
porque 
a 
antipatia 
que 
sentia 
por 
mim 
era 
plenamente 
correspondida. 


Os 
limpadores 
de 
pra-brisa 
deslizavam 
pelo 
vidro. 
Flocos 
de 
neve 
rodopiavam 
e 
resvalavam 
no 
carro 
de 
Marino 
como 
donzelas 
saltitantes, 
timidamente 
vestidas 
de 
branco. 
Eles 
pululavam 
 
luz 
dos 
faris 
e 
ficavam 
pretos 
como 
o 
gelo 
que 
cobria 
as 
ruas. 
Fazia 
muito 
frio. 
Quase 
todos 
na 
cidade 
estavam 
em 
casa 
com 
a 
famlia, 
rvores 
iluminadas 
ocupando 
as 
janelas 
e 
lareiras 
acesas. 
Karen 
Carpenter 
estava 
sonhando 
com 
um 
Natal 
branco 
quando 
Marino 
mudou 


#
bruscamente 
de 
estao. 


"No 
tenho 
o 
menor 
respeito 
por 
uma 
mulher 
que 
toca 
bateria", 
disse, 
acendendo 
o 
isqueiro. 


"Karen 
Carpenter 
j 
morreu", 
comentei, 
como 
se 
isso 
fosse 
alguma 
garantia 
contra 
outros 
insultos, 
"E 
agora 
ela 
no 
estava 
tocando 
bateria." 


"Oh, 
sim." 
Ele 
pegou 
um 
cigarro. 
" 
verdade. 
Ela 
tinha 
um 
desses 
problemas 
digestivos. 
Esqueci 
como 
voc 
o 
chama." 


O 
coro 
do 
Tabernculo 
Mrmon 
comeou 
a 
cantar 
o 
trecho 
da 
Aleluia. 
Eu 
deveria 
voar 
para 
Miami 
na 
manh 
seguinte 
para 
ver 
minha 
me, 
minha 
irm 
e 
Lucy, 
minha 
sobrinha. 
Fazia 
vrias 
semanas 
que 
minha 
me 
estava 
internada 
no 
hospital. 
Houve 
uma 
poca 
em 
que 
ela 
fumava 
tanto 
quanto 
Marino. 
Abri 
um 
pouco 
a 
minha 
janela. 


"Ento 
o 
corao 
parou. 
Foi 
isso 
que 
deu 
cabo 
dela 
no 
final", 
ele 
continuou 
falando. 


"Na 
verdade, 
 
isso 
que 
d 
cabo 
de 
todo 
mundo, 
no 
final 
das 
contas." 


"No 
por 
estas 
bandas. 
Aqui 
neste 
maldito 
lugar 
 
envenamento 
por 
chumbo." 


Estvamos 
entre 
duas 
radiopatrulhas 
da 
polcia 
de 
Richmond, 
com 
luzes 
vermelhas 
e 
azuis 
piscando 
numa 
comitiva 
de 
policiais, 
reprteres 
e 
equipes 
de 
tev. 
A 
cada 
parada, 
a 
imprensa 
demonstrava 
seu 
esprito 
natalino, 
abrindo 
caminho 
com 
blocos 
de 
anotaes, 
microfones 
cmaras. 
Alvoroados, 
os 
reprteres 
lutavam 
para 
fazer 
uma 
cobertura 
emocionada 
do 
xerife 
Papai 
Noel, 
que, 
radiante, 
distribua 
presentes 
e 
alimentos 
para 
as 
crianas 
esquecidas 
dos 
conjuntos 
habitacionais 
e 
suas 
mes 
sobressaltadas. 
Marino 
e 
eu 
nos 
encarregvamos 
dos 
cobertores, 
porque 
naquele 
ano 
cabia 
a 
mim 
distribu-los. 


Adiante, 
as 
portas 
dos 
carros 
se 
abriam 
em 
toda 
a 
extenso 
da 
rua 
Magnlia, 
em 
Whitcomb 
Court. 


Um 
pouco 
mais 
 
frente, 
vi 
de 
relance 
um 
vulto 
vermelho 
brilhante, 
quando 
Papai 
Noel 
passou 
pela 
luz 
dos 
faris, 
seguido 


#
imediatamente 
pelo 
chefe 
da 
polcia 
de 
Richmond 
e 
por 
outros 
figures 
de 
alto 
coturno. 
As 
cmaras 
de 
tev 
erguiam-se 
e 
deslocavam-se 
no 
ar 
como 
OVNIS, 
e 
os 
flashes 
pipocavam. 


Marino 
resmungava, 
carregando 
sua 
pilha 
de 
cobertores. 
"Esses 
troos 
me 
cheiram 
a 
coisa 
barata. 
Onde 
voc 
os 
conseguiu? 
Numa 
loja 
de 
animais?" 


"Eles 
so 
quentes, 
lavveis, 
e 
no 
produzem 
gases 
txicos 
como 
cianeto, 
em 
caso 
de 
incndio", 
respondi. 


"Jesus! 
Isso 
est 
fazendo 
voc 
ficar 
em 
clima 
de 
feriado." 


"Eu 
no 
usaria 
um 
desses 
nem 
na 
casinha 
do 
cachorro", 
continuou 
ele. 


"Voc 
no 
tem 
nem 
casa, 
nem 
casa 
de 
cachorro, 
e 
eu 
no 
estou 
oferecendo 
a 
voc 
nenhum 
cobertor. 
Por 
que 
estamos 
indo 
para 
esse 
apartamento? 
Ele 
no 
est 
na 
relao." 


"Essa 
 
uma 
boa 
pergunta." 


Reprteres 
e 
gente 
da 
justia 
e 
dos 
servios 
sociais 
estavam 
 
porta 
de 
um 
apartamento 
que 
se 
assemelhava 
a 
todos 
os 
outros, 
num 
conjunto 
que 
lembrava 
as 
instalaes 
de 
um 
quartel. 
Marino 
e 
eu 
tentvamos 
passar, 
enquanto 
os 
refletores 
das 
cmaras 
flutuavam 
na 
escurido, 
os 
faris 
brilhavam 
e 
o 
xerife 
Papai 
Noel 
berrava: 


"HO! 
HO! 
HO!". 


Conseguimos 
enfim 
abrir 
caminho 
porta 
adentro. 
Papai 
Noel 
estava 
com 
um 
menininho 
no 
colo 
e 
lhe 
dava 
muitos 
brinquedos 
embrulhados 
em 
papel 
de 
presente. 
O 
nome 
do 
menino, 
como 
pude 
ouvir, 
era 
Trevi, 
e 
ele 
usava 
um 
bon 
azul 
com 
o 
desenho 
de 
uma 
folha 
de 
maconha 
acima 
da 
aba. 
Seus 
olhos 
eram 
grandes, 
e 
olhavam 
perplexos 
para 
aquele 
colo 
de 
veludo 
vermelho 
junto 
de 
uma 
rvore 
prateada 
enfeitada 
de 
luzes. 
A 
salinha 
estava 
muito 
quente, 
abafada, 
e 
cheirava 
a 
gordura 
ranosa. 


"Olhe 
a 
frente, 
dona." 
Um 
cmara 
forou 
a 
passagem 
me 
acotovelando. 


"Voc 
pode 
colocar 
a 
pilha 
bem 
a", 
disse 
a 
Marino. 


"Quem 
est 
com 
o 
resto 
dos 
brinquedos?" 


#
"Oua, 
dona, 
voc 
vai 
ter 
que 
se 
afastar 
um 
pouco." 


O 
cmara 
praticamente 
me 
empurrou. 
Senti 
minha 
presso 
subir. 


"Precisamos 
de 
mais 
uma 
caixa..." 


"No, 
no 
temos. 
L 
do 
outro 
lado." 


"... 
de 
alimentos. 
Ah, 
certo. 
Bingo!" 


"Se 
voc 
 
do 
servio 
social", 
disse-me 
o 
cmara, 
"que 
tal 
ficar 
l 
do 
outro 
lado?" 


"Se 
voc 
tivesse 
pelo 
menos 
metade 
do 
crebro, 
poderia 
perceber 
que 
ela 
no 
 
do 
servio 
social", 
falou 
Marino, 
fuzilando-o 
com 
o 
olhar. 


Uma 
velha 
num 
vestido 
empapuado 
comeou 
a 
chorar 
no 
sof, 
e 
um 
policial 
de 
camisa 
branca 
e 
distintivo 
sentou-se 
junto 
a 
ela 
para 
confort-la. 
Marino 
aproximou-se 
de 
mim 
e 
cochichou: 


"A 
filha 
dela 
foi 
morta 
no 
ms 
passado, 
sobrenome 
King. 
Lembra 
do 
caso?" 


Fiz 
que 
no 
com 
a 
cabea. 
Havia 
tantos 
casos. 


"O 
malandro 
que 
a 
gente 
pensa 
ser 
o 
culpado 
 
um 
traficante 
valento 
chamado 
Jones", 
continuou 
ele, 
tentando 
refrescar 
minha 
memria. 


Balancei 
a 
cabea 
novamente. 
Eram 
tantos 
os 
traficantes 
valentes, 
e 
o 
nome 
Jones 
era 
to 
comum. 


Naquele 
momento, 
o 
xerife 
Papai 
Noel 
me 
lanou 
um 
olhar 
frio, 
cheio 
de 
desprezo. 
Ao 
virar 
o 
rosto, 
o 
cmara 
me 
deu 
mais 
um 
esbarro. 


"Eu 
no 
faria 
isso 
mais 
uma 
vez 
se 
fosse 
voc", 
adverti-o, 
num 
tom 
que 
no 
deixava 
dvidas 
sobre 
minha 
seriedade. 


A 
imprensa 
voltara 
sua 
ateno 
para 
a 
av. 
Essa 
era 
a 
histria 
da 
noite. 
Algum 
fora 
assassinado, 
a 
me 
da 
vtima 
estava 
chorando 
e 
Trevi 
ficara 
rfo. 
O 
xerife 
Papai 
Noel, 
no 
mais 
sob 
a 
luz 
dos 
refletores, 
ps 
o 
menino 
no 
cho. 


"Capito 
Marino, 
vou 
pegar 
um 
desses 
cobertores", 
disse 
uma 
assistente 
social. 


"No 
sei 
por 
que 
estamos 
aqui 
neste 
cubculo", 
comentou 
ele, 
passando-lhe 
a 
pilha 
de 
cobertores. 
"Eu 
queria 
que 
algum 
me 


#
dissesse." 


"Aqui 
h 
apenas 
uma 
criana. 
Por 
isso 
no 
precisamos 
de 
todos 
esses", 
disse 
ela, 
ao 
pegar 
um 
cobertor 
dobrado 
e 
devolver 
o 
resto, 
como 
se 
Marino 
tivesse 
feito 
algo 
errado. 


"Constava 
que 
haveria 
cinco 
crianas. 
Como 
j 
disse, 
este 
cubculo 
no 
estava 
na 
lista", 
resmungou 
Marino. 


Um 
reprter 
aproximou-se 
de 
mim. 


"Desculpe-me, 
doutora 
Scarpetta, 
o 
que 
a 
traz 
aqui 
esta 
noite? 
Est 
esperando 
que 
algum 
morra?" 


Ele 
trabalhava 
para 
o 
jornal 
da 
cidade, 
que 
nunca 
me 
tratara 
bem. 
Fingi 
que 
no 
ouvi. 
Enquanto 
isso, 
o 
xerife 
Papai 
Noel 
foi 
entrando 
na 
cozinha, 
e 
eu 
achei 
aquilo 
um 
pouco 
estranho, 
pois 
nem 
pediu 
licena. 
Mas 
a 
av, 
sentada 
no 
sof, 
no 
estava 
em 
condies 
de 
ver 
ou 
se 
preocupar 
com 
o 
que 
o 
xerife 
estava 
fazendo. 


Ajoelhei-me 
ao 
lado 
de 
Trevi, 
que 
estava 
sozinho, 
no 
cho, 
deslumbrado 
com 
os 
brinquedos 
novos. 
"Olha, 
voc 
tem 
a 
um 
caminho 
de 
bombeiros", 
disse-lhe. 


"Ele 
acende." 
Ele 
me 
mostrou 
uma 
luzinha 
vermelha 
no 
teto 
do 
caminho 
de 
brinquedo 
que 
acendia 
quando 
ele 
apertava 
um 
boto. 


Marino 
tambm 
se 
agachou 
do 
lado 
dele. 
"Eles 
lhe 
deram 
pilhas 
sobressalentes 
para 
esse 
brinquedo?" 
Tentava 
parecer 
sisudo, 
mas 
no 
podia 
disfarar 
o 
sorriso 
no 
tom 
de 
voz. 
"Voc 
tem 
que 
comprar 
do 
tamanho 
certo. 
Est 
vendo 
este 
compartimento 
aqui? 
As 
pilhas 
vo 
a, 
certo? 
E 
voc 
tem 
que 
usar 
as 
de 
tamanho 
C..." 


O 
primeiro 
disparo, 
vindo 
da 
cozinha, 
soou 
como 
o 
estampido 
de 
um 
escapamento 
defeituoso. 
Percebi 
os 
olhos 
de 
Marino 
vidrados 
no 
momento 
em 
que 
sacava 
sua 
pistola 
do 
coldre. 
Trevi 
encolheu-se 
no 
cho 
como 
uma 
centopia, 
e 
eu 
colei 
meu 
corpo 
no 
dele. 
Os 
disparos 
explodiam 
rapidamente, 
 
medida 
que 
um 
pente 
de 
uma 
semi-
automtica 
ia 
sendo 
esvaziado 
em 
alguma 
parte 
alm 
da 
porta 
da 
cozinha. 


"Abaixem-se! 
ABAIXEM-SE!" 


"Oh, 
meu 
Deus!" 


#
"Jesus!" 


Cmaras 
e 
microfones 
desabaram 
no 
cho 
quando 
as 
pessoas 
se 
precipitaram 
para 
a 
porta, 
atropelando-se 
e 
se 
jogando 
no 
cho. 


"TODO 
MUNDO 
NO 
CHO!" 


Marino 
dirigiu-se 
 
cozinha 
em 
posio 
de 
combate, 
empunhando 
a 
nove-milmetros. 
Os 
disparos 
cessaram 
e 
a 
sala 
ficou 
em 
silncio. 


Eu 
levantei 
Trevi, 
o 
corao 
aos 
saltos. 
Comecei 
a 
tremer. 
A 
av 
continuava 
no 
sof, 
encurvada, 
os 
braos 
cobrindo 
a 
cabea 
como 
se 
estivesse 
num 
avio 
prestes 
a 
se 
espatifar. 
Sentei-me 
ao 
seu 
lado, 
mantendo 
o 
menino 
junto 
de 
mim. 
Ele 
estava 
tenso, 
e 
sua 
av 
soluava 
aterrorizada. 


"Oh, 
Jesus. 
Por 
favor, 
no, 
Jesus." 
Ela 
gemia 
e 
tremia. 


"Est 
tudo 
bem", 
disse-lhe 
firmemente. 
"No, 
no 
quero 
mais 
nada 
disso! 
No 
agento 
mais! 
Meu 
bom 
Jesus!" 


Tomei 
sua 
mo. 
"Tudo 
vai 
ficar 
bem. 
Oua. 
Agora 
est 
tudo 
calmo. 
Parou." 


Ela 
tremia 
e 
chorava, 
com 
Trevi 
agarrado 
ao 
seu 
pescoo. 


Marino 
reapareceu 
no 
vo 
da 
porta 
entre 
a 
cozinha 
e 
a 
sala, 
o 
rosto 
tenso, 
os 
olhos 
fuzilando. 
"Doutora." 
Ele 
me 
fez 
um 
sinal. 


Segui-o 
e 
chegamos 
a 
um 
quintal 
srdido, 
cheio 
de 
varais 
cedios, 
onde 
a 
neve 
torvelinhava 
ao 
redor 
de 
uma 
negra 
elevao 
na 
grama 
congelada. 
A 
vtima 
era 
um 
jovem 
negro, 
deitado 
de 
costas, 
olhos 
entreabertos, 
fixados 
cegamente 
no 
cu 
leitoso. 
Sua 
camiseta 
azul 
apresentava 
rasges 
minsculos. 
Uma 
bala 
entrara 
em 
sua 
face 
direita, 
e 
quando 
apertei 
seu 
peito 
e 
soprei 
em 
sua 
boca, 
o 
sangue 
cobriu 
minhas 
mos 
e 
logo 
se 
esfriou 
em 
meu 
rosto. 
Eu 
no 
podia 
salv-lo. 
As 
sirenes 
berravam 
e 
gemiam 
na 
noite, 
como 
uma 
turba 
de 
espritos 
selvagens 
protestando 
contra 
mais 
uma 
morte. 


Com 
a 
ajuda 
de 
Marino, 
levantei-me, 
ofegante. 
Naquele 
momento 
eu 
percebi, 
pelo 
canto 
do 
olho, 
a 
movimentao 
de 
uns 
vultos. 
Voltei-me 
e 
vi 
trs 
agentes 
levando 
o 
xerife 
Papai 
Noel, 
algemado. 
Seu 
gorro 
tinha 
cado, 
e 
eu 
o 
avistei 
no 
muito 
longe 
de 
mim, 
onde 
as 
cpsulas 


#
brilhavam 
 
luz 
da 
lanterna 
de 
Marino. 


"Por 
Deus, 
o 
que 
est 
havendo?", 
indaguei, 
chocada. 


"Parece 
que 
o 
velho 
Sat 
aborreceu 
o 
velho 
Crack 
e 
eles 
tiveram 
uma 
briguinha 
aqui 
no 
ptio", 
disse 
Marino, 
muito 
agitado 
e 
ofegante. 
"Foi 
por 
isso 
que 
desviaram 
a 
parada 
justamente 
para 
c. 
Ele 
s 
estava 
no 
itinerrio 
do 
xerife." 


Eu 
estava 
aturdida. 
Senti 
o 
cheiro 
de 
sangue 
e 
pensei 
na 
AIDS. 


O 
chefe 
de 
polcia 
veio 
e 
ps-se 
a 
fazer 
perguntas. 


Marino 
comeou 
a 
contar. 
"Parece 
que 
o 
xerife 
tinha 
em 
mente 
entregar 
mais 
do 
que 
presentes 
aqui 
na 
redondeza." 


"Drogas?" 


" 
o 
que 
estamos 
supondo." 


"Eu 
estava 
me 
perguntando 
por 
que 
paramos 
aqui", 
disse 
o 
chefe. 
"Este 
endereo 
no 
estava 
na 
lista." 


"Bem, 
a 
est 
o 
porqu." 
Marino 
olhou 
inexpressivamente 
para 
o 
corpo. 


"Sabemos 
de 
quem 
se 
trata?" 


"Anthony 
Jones, 
do 
famigerado 
bando 
dos 
irmos 
Jones. 
Dezessete 
anos, 
j 
foi 
preso 
mais 
vezes 
do 
que 
a 
doutora 
foi 
 
pera. 
Seu 
irmo 
mais 
velho 
foi 
espancado 
no 
ano 
passado 
por 
um 
detetive. 
Foi 
na 
Fairfield 
Court, 
na 
rua 
Phaup. 
E 
parece 
que 
no 
ms 
passado 
Anthony 
assassinou 
a 
me 
de 
Trevi, 
mas 
voc 
sabe 
como 
so 
as 
coisas 
por 
aqui. 
Ningum 
viu 
nada. 
No 
 
um 
caso 
de 
polcia. 
Talvez 
agora 
possamos 
esclarecer 
isso." 


"Trevi? 
Voc 
est 
se 
referindo 
quele 
menino?" 
A 
expresso 
do 
rosto 
do 
chefe 
no 
mudou. 


"Sim. 
E 
acredito 
que 
Anthony 
 
o 
pai 
do 
menino. 
Ou 
era." 


"E 
quanto 
 
arma?" 


"Em 
que 
caso?" 


"Neste." 


"Smith 
& 
Wesson 
38, 
com 
todos 
os 
cartuchos 
disparados. 
Jones 
ainda 
no 
tinha 
descarregado 
sua 
arma 
e 
achamos 
um 
cartucho 
na 
grama." 


#
"Ele 
atirou 
cinco 
vezes 
e 
errou 
todas", 
disse 
o 
chefe, 
em 
seu 
uniforme 
brilhante. 
A 
neve 
se 
acumulava 
no 
alto 
do 
seu 
quepe. 


" 
difcil 
afirmar. 
O 
xerife 
Brown 
estava 
usando 
um 
colete." 


"Ele 
usava 
um 
colete 
 
prova 
de 
balas 
por 
baixo 
de 
sua 
roupa 
de 
Papai 
Noel." 
O 
chefe 
continuou 
repetindo 
os 
informes, 
como 
se 
estivesse 
tomando 
notas. 


"Sim." 
Marino 
aproximou-se 
de 
um 
poste 
do 
varal 
meio 
cado. 
Um 
raio 
de 
luz 
deslizava 
pelo 
metal 
enferrujado. 
Com 
o 
polegar 
enluvado, 
Marino 
esfregou 
uma 
covinha 
feita 
por 
uma 
bala. 
"Bem, 
bem", 
continuou, 
"parece 
que 
esta 
noite 
mataram 
um 
negro 
e 
um 
polaco."1 


O 
chefe 
ficou 
calado 
por 
um 
instante, 
depois 
disse: 
"Minha 
mulher 
 
polonesa, 
capito". 


Marino 
ficou 
sem 
graa 
e 
eu 
o 
senti 
encolher 
por 
dentro. 
"O 
sobrenome 
dela 
no 
 
polons", 
disse 
ele. 


"Ela 
adotou 
meu 
nome 
e 
eu 
no 
sou 
polons", 
explicou 
o 
chefe, 
que 
era 
negro. 
"Sugiro 
que 
voc 
evite 
fazer 
piadinhas 
tnicas 
e 
raciais, 
capito", 
advertiu 
ele, 
com 
as 
mandbulas 
crispadas. 


A 
ambulncia 
chegou. 
Comecei 
a 
tremer. 


"Oua, 
no 
tive 
a 
inteno...", 
comeou 
Marino. 


O 
chefe 
interrompeu. 
"Acho 
que 
voc 
 
um 
candidato 
perfeito 
para 
o 
curso 
de 
reeducao 
de 
diversidade 
cultural." 


"Eu 
j 
fiz 
esse 
curso." 


"J 
fez, 
e 
vai 
fazer 
novamente, 
capito." 


"Mas 
eu 
j 
fiz 
trs 
vezes! 
No 
 
necessrio 
me 
mandar 
fazer 
mais 
uma 
vez", 
disse 
Marino, 
que 
preferia 
ir 
ao 
proctologista 
a 
freqentar 
novamente 
um 
curso 
daqueles. 


Ouvimos 
portas 
batendo, 
e 
logo 
o 
pessoal 
da 
maa 
chegou. 


"Marino, 
no 
h 
nada 
mais 
a 
fazer 
aqui." 
Eu 
queria 
calar 
sua 
boca 
antes 
que 
ele 
se 
complicasse 
ainda 
mais. 
"E 
preciso 
ir 
ao 


1 Trocadilho 
com 
a 
palavra 
pole, 
que 
em 
ingls 
significa 
poste, 
estaca, 
mas 
tambm 
polaco, 
polons. 
(N. 
T.) 


#
necrotrio." 
"O 
qu? 
Voc 
vai 
examin-lo 
esta 
noite?" 
Marino 
estava 
abatido. 
"Acho 
que 
 
uma 
boa 
idia, 
dadas 
as 
circunstncias", 
disse-lhe 


com 
toda 
a 
seriedade. 
"E 
vou 
viajar 
amanh 
de 
manh." 
"Natal 
com 
a 
famlia?", 
perguntou 
o 
chefe 
Tucker, 
que 
era 
muito 


jovem 
para 
o 
cargo 
que 
ocupava. 
"Sim." 
"Isso 
 
bom", 
disse 
ele, 
sem 
sorrir. 
"Venha 
comigo, 
doutora 


Scarpetta. 
Eu 
lhe 
dou 
uma 
carona 
at 
o 
necrotrio." 
Marino 
ficou 
olhando 
para 
mim, 
enquanto 
acendia 
um 
cigarro. 
"Vou 
at 
l 
assim 
que 
resolver 
as 
coisas 
por 
aqui", 
disse 
ele. 


#
2 


Paul 
Tucker 
fora 
nomeado 
chefe 
da 
polcia 
de 
Richmond 
j 
havia 
alguns 
meses, 
mas: 
s 
tnhamos 
nos 
encontrado 
rapidamente 
em 
cerimnias 
oficiais. 
Aquela 
noite 
era 
a 
primeira 
vez 
em 
que 
nos 
achvamos 
juntos 
na 
cena 
de 
um 
crime, 
e 
o 
que 
eu 
sabia 
sobre 
ele 
caberia 
numa 
fichinha 
de 
arquivo. 


Ele 
fora 
uma 
estrela 
do 
basquetebol 
na 
Universidade 
de 
Maryland 
e 
bolsista 
Rhodes. 
Diplomado 
pela 
Academia 
Nacional 
do 
FBI, 
era 
muitssimo 
competente 
e 
brilhante. 
Eu 
no 
estava 
bem 
certa 
se 
gostava 
dele. 


"Marino 
no 
falou 
por 
mal", 
disse-lhe, 
quando 
passvamos 
pelo 
sinal 
amarelo 
na 
rua 
East 
Broad. 


Pude 
sentir 
os 
olhos 
negros 
de 
Tuck 
em 
meu 
rosto 
e 
notei 
sua 
curiosidade. 
"O 
mundo 
est 
cheio 
de 
gente 
que 
no 
tem 
inteno 
de 
fazer 
mal, 
mas 
que 
no 
faz 
outra 
coisa." 
Ele 
tinha 
uma 
voz 
sonora 
e 
profunda, 
que 
me 
lembrava 
bronze 
e 
madeira 
polida. 


"No 
posso 
negar 
isso, 
coronel 
Tucker." 
"Pode 
me 
chamar 
de 
Paul." 


Eu 
no 
lhe 
disse 
que 
podia 
me 
chamar 
de 
Kay, 
porque 
sendo 
mulher 
h 
tanto 
tempo 
num 
mundo 
como 
este, 
eu 
aprendera. 


"No 
vai 
adiantar 
nada 
mand-lo 
para 
outro 
curso 
de 
reeducao", 
continuei. 


"Marino 
precisa 
aprender 
disciplina 
e 
respeito", 
disse, 
olhando 
novamente 
para 
a 
frente. 


"Ele 
tem 
as 
duas 
coisas, 
l 
 
sua 
maneira." 


"Ele 
precisa 
ter 
as 
duas 
coisas 
da 
maneira 
certa." 


"Voc 
no 
vai 
conseguir 
mud-lo, 
coronel", 
disse-lhe. 
"Ele 
 
difcil, 
irritante, 
mal-educado, 
e 
o 
melhor 
detetive 
de 
homicdios 
com 
quem 
j 
trabalhei." 


Tucker 
ficou 
em 
silncio 
at 
passarmos 
pela 
Escola 
de 
Medicina 
da 
Virgnia, 
dobrando 
a 
rua 
14. 


"Diga-me 
uma 
coisa, 
doutora 
Scarpetta. 
A 
senhora 
acha 
que 
seu 


#
amigo 
Marino 
 
um 
bom 
comandante 
de 
distrito?" 


A 
pergunta 
me 
apanhou 
desprevenida. 
Eu 
me 
surpreendera 
quando 
Marino 
foi 
promovido 
a 
tenente 
e 
fiquei 
simplesmente 
estupefata 
quando 
se 
tornou 
capito. 
Ele 
sempre 
odiara 
o 
pessoal 
das 
altas 
patentes, 
e 
agora 
que 
se 
tornara 
um 
deles, 
continuava 
a 
odi-los 
como 
se 
no 
o 
fosse. 


"Acho 
que 
Marino 
 
um 
excelente 
oficial. 
Ele 
 
honestssimo 
e 
tem 
um 
bom 
corao", 
comentei. 


"Quer 
responder 
 
minha 
pergunta, 
ou 
no?" 
O 
tom 
de 
Tucker 
era 
um 
tanto 
divertido. 


"Ele 
no 
 
diplomtico." 


"Com 
certeza." 


O 
relgio 
da 
torre 
da 
estao 
Main 
Street 
marcou 
a 
hora 
do 
alto 
da 
cpula 
da 
velha 
estao, 
com 
seu 
telhado 
de 
terracota 
e 
sua 
rede 
de 
trilhos. 
Por 
trs 
"do 
edifcio 
dos 
Laboratrios 
Reunidos, 
estacionamos 
numa 
vaga 
com 
a 
indicao 
LEGISTA 
TITULAR, 
uma 
pequena 
faixa 
de 
asfalto 
onde 
meu 
carro 
passava 
a 
maior 
parte 
do 
tempo. 


"Ele 
fica 
muito 
tempo 
por 
conta 
do 
FBI", 
continuou 
Tuck. 


"Ele 
presta 
um 
servio 
inestimvel", 
disse-lhe. 


"Sim, 
sim, 
eu 
sei, 
e 
a 
senhora 
tambm 
faz 
isso. 
Mas 
no 
caso 
dele, 
isso 
nos 
traz 
um 
srio 
problema. 
Ele 
deve 
trabalhar 
no 
Primeiro 
Distrito, 
e 
no 
ficar 
se 
metendo 
em 
crimes 
de 
outras 
cidades. 
Estou 
tentando 
dirigir 
um 
departamento 
de 
polcia." 


"Quando 
a 
violncia 
ocorre 
em 
qualquer 
lugar, 
ela 
 
um 
problema 
de 
todos, 
no 
importando 
qual 
seja 
o 
seu 
distrito 
ou 
departamento." 


Tucker 
ficou 
olhando 
para 
a 
frente 
pensativamente, 
fitando 
a 
porta 
de 
ao 
do 
ptio, 
at 
que 
disse: 
"Eu 
garanto 
que 
no 
teria 
condies 
de 
fazer 
o 
que 
a 
senhora 
faz, 
tarde 
da 
noite, 
sem 
ningum 
por 
perto, 
a 
no 
ser 
o 
pessoal 
de 
dentro 
do 
refrigerador". 


"No 
 
deles 
que 
tenho 
medo", 
respondi, 
prosaicamente. 


"Por 
mais 
irracional 
que 
isso 
seja, 
eu 
teria 
muito 
medo 
deles." 


A 
luz 
dos 
faris 
iluminava 
o 
estuque 
sujo 
e 
o 
ao, 
pintados 
com 


#
o 
mesmo 
bege 
inspido. 
Um 
cartaz 
vermelho 
numa 
das 
portas 
laterais 
anunciava 
aos 
visitantes 
que 
tudo 
o 
que 
se 
encontrava 
l 
dentro 
constitua 
material 
perigoso 
para 
a 
sade, 
e 
dava 
algumas 
instrues 
sobre 
como 
manipular 
os 
cadveres. 
"Preciso 
lhe 
fazer 
uma 
pergunta", 
disse 
o 
coronel 
Tucker. 


O 
tecido 
de 
l 
do 
seu 
uniforme 
raspava 
no 
estofamento 
do 
carro 
fazendo 
um 
barulhinho 
quando 
ele 
mudava 
de 
posio, 
aproximando-se 
mais 
de 
mim. 
Ele 
cheirava 
a 
colnia 
Hermes. 
Era 
bonito, 
com 
as 
mas 
do 
rosto 
pronunciadas 
e 
fortes 
dentes 
brancos, 
o 
corpo 
vigoroso, 
como 
se 
sua 
cor 
negra 
fosse 
a 
pele 
de 
um 
leopardo 
ou 
de 
um 
tigre. 


"Por 
que 
a 
senhora 
faz 
isso?", 
perguntou-me. 


"Por 
que 
eu 
fao 
o 
qu, 
coronel?" 


Ele 
se 
recostou 
no 
assento 
do 
carro. 
"Olhe", 
disse, 
enquanto 
as 
luzes 
danavam 
no 
nosso 
painel 
de 
controle. 
"A 
senhora 
 
advogada. 
 
mdica. 
A 
senhora 
 
chefe 
e 
eu 
sou 
chefe. 
 
por 
isso 
que 
estou 
perguntando. 
No 
perguntei 
por 
mal." 


Eu 
sabia 
que 
no. 
"No 
sei 
por 
qu", 
confessei. 


Ele 
ficou 
calado 
por 
um 
momento. 
Depois, 
continuou. 
"Meu 
pai 
era 
manobrista 
de 
ferrovia 
e 
minha 
me 
fazia 
faxina 
na 
casa 
de 
gente 
rica, 
em 
Baltimore." 
Fez 
uma 
pausa. 
"Agora, 
quando 
vou 
at 
l, 
eu 
me 
hospedo 
em 
bons 
hotis 
e 
como 
nos 
restaurantes 
do 
porto. 
As 
pessoas 
me 
cumprimentam. 
Sou 
chamado 
de 
'Excelncia' 
em 
algumas 
correspondncias 
que 
recebo. 
Tenho 
uma 
casa 
em 
Windsor 
Farms." 


"Tenho 
sob 
meu 
comando", 
prosseguiu, 
"mais 
de 
seiscentas 
pessoas 
armadas 
nesta 
sua 
cidade 
violenta. 
A 
senhora 
sabe 
por 
que 
eu 
fao 
isso, 
doutora 
Scarpetta. 
Porque 
eu 
no 
tinha 
nenhum 
poder 
quando 
era 
criana. 
Vivia 
com 
pessoas 
que 
no 
tinham 
nada, 
e 
aprendi 
que 
todo 
o 
mal 
contra 
o 
qual 
me 
advertiam 
na 
igreja 
fundava-se 
no 
abuso 
dessa 
coisa 
que 
eu 
no 
tinha, 
poder." 


O 
ritmo 
e 
a 
coreografia 
da 
neve 
no 
mudaram. 
Fiquei 
olhando-a 
acumular-se 
lentamente 
no 
capo 
do 
seu 
carro. 
"Coronel 
Tucker", 
disse-lhe, 
" 
vspera 
de 
Natal 
e, 
ao 
que 
me 
consta, 
o 
xerife 
Papai 
Noel 
matou 
uma 
pessoa 
a 
tiros 
em 
Whitcomb 


#
Court. 
A 
imprensa 
vai 
ficar 
louca 
com 
isso. 
O 
que 
voc 
aconselha?" 


"Vou 
passar 
a 
noite 
no 
quartel. 
Providenciarei 
para 
que 
seu 
edifcio 
seja 
vigiado. 
A 
senhora 
quer 
ser 
escoltada 
at 
sua 
casa?" 


"Acho 
que 
Marino 
vai 
me 
acompanhar, 
mas 
eu 
ligo 
se 
precisar 
de 
reforo. 
 
preciso 
que 
o 
senhor 
entenda 
que 
a 
situao 
 
ainda 
mais 
complicada 
pelo 
fato 
de 
que 
Brown 
me 
odeia, 
e 
agora 
vou 
ser 
testemunha 
no 
seu 
caso." 


"Se 
todo 
mundo 
tivesse 
a 
mesma 
sorte." 


"No 
me 
sinto 
feliz." 


"Tem 
razo." 
Ele 
suspirou. 
"A 
senhora 
no 
deve 
se 
sentir 
feliz, 
porque 
felicidade 
no 
tem 
nada 
a 
ver 
com 
isso." 


"Meu 
caso 
est 
chegando", 
disse-lhe, 
ao 
perceber 
que 
a 
ambulncia 
estacionava 
no 
ptio, 
com 
as 
luzes 
e 
as 
sirenes 
desligadas, 
pois 
no 
h 
a 
mnima 
pressa 
quando 
se 
transportam 
mortos. 


"Feliz 
Natal, 
doutora 
Scarpetta", 
disse 
Tucker, 
despedindo-se. 


Entrei 
por 
uma 
porta 
lateral 
e 
apertei 
um 
boto 
na 
parede. 
A 
porta 
do 
ptio 
foi 
abrindo 
devagar, 
chiando, 
e 
a 
ambulncia 
entrou. 
Os 
auxiliares 
abriram 
a 
tampa 
traseira. 
Pegaram 
a 
maa 
e 
foram 
empurrando 
o 
corpo 
rampa 
acima, 
enquanto 
eu 
abria 
a 
entrada 
do 
interior 
do 
necrotrio. 


Iluminao 
fluorescente, 
foscas 
lajes 
de 
concreto 
e 
assoalho 
davam 
ao 
corredor 
uma 
ilusria 
aparncia 
assptica. 
Nada 
era 
assptico 
naquele 
lugar. 
Pelos 
padres 
sanitrios 
normais, 
nada 
chegava 
a 
ser 
ao 
menos 
limpo. 


"Quer 
que 
o 
coloque 
no 
refrigerador?", 
perguntou-me 
um 
dos 
membros 
da 
equipe. 


"No. 
Pode 
lev-lo 
para 
a 
sala 
de 
radiografia." 
Abri 
mais 
algumas 
portas, 
a 
maa 
fazendo 
barulho 
atrs 
de 
mim, 
deixando 
gotas 
de 
sangue 
no 
ladrilho. 


"A 
senhora 
vai 
ficar 
sozinha 
aqui 
esta 
noite?", 
indagou-me 
um 
auxiliar 
que 
parecia 
ser 
de 
origem 
latina. 


"Temo 
que 
sim." 


Desdobrei 
um 
avental 
plstico 
e 
enfiei-o 
pela 
cabea, 
torcendo 


#
para 
que 
Marino 
aparecesse 
logo. 
No 
vestirio, 
peguei 
uma 
luva 
cirrgica 
de 
uma 
prateleira 
e 
calcei 
pantufas 
e 
dois 
pares 
de 
luvas. 


"Quer 
que 
a 
gente 
ajude 
a 
pr 
ele 
na 
mesa?", 
perguntou 
um 
auxiliar. 


"Seria 
timo." 


"Ei, 
pessoal, 
vamos 
pr 
ele 
na 
mesa 
para 
a 
doutora." 


"Claro." 


"Ora, 
esse 
saco 
est 
vazando. 
Precisamos 
arrumar 
outros 
novos." 


"De 
que 
lado 
quer 
que 
ponha 
a 
cabea?" 


"Deste 
aqui." 


"De 
costas?" 


"Sim", 
respondi. 
"Obrigada." 


"Certo. 
Um, 
dois, 
trs, 
upa!" 


Passamos 
Anthony 
Jones 
da 
maa 
para 
a 
mesa, 
e 
um 
dos 
auxiliares 
comeou 
a 
abrir 
o 
zper 
da 
bolsa. 


"No, 
no, 
pode 
deixar 
fechada", 
disse 
eu. 
"Vou 
trabalhar 
no 
corpo 
cortando 
a 
bolsa." 


"Quanto 
tempo 
vai 
levar?" 


"No 
vai 
demorar 
muito." 


"A 
senhora 
vai 
precisar 
de 
ajuda 
para 
mudar 
o 
corpo 
de 
posio." 


"Vou 
aceitar 
toda 
a 
ajuda 
que 
me 
oferecerem", 
respondi. 


"Podemos 
ficar 
por 
aqui 
mais 
alguns 
minutos. 
Vai 
mesmo 
fazer 
todo 
o 
trabalho 
sozinha?" 


"Estou 
esperando 
uma 
outra 
pessoa." 


Um 
pouco 
mais 
tarde, 
levamos 
o 
corpo 
para 
a 
sala 
de 
autpsia 
e 
despimo-lo 
em 
cima 
da 
primeira 
mesa 
de 
ao. 
Os 
auxiliares 
foram 
embora, 
e 
o 
necrotrio 
voltou 
ao 
seu 
barulho 
habitual, 
gua 
correndo 
nas 
pias 
e 
instrumentos 
de 
ao 
batendo 
contra 
ao. 
Fixei 
as 
radiografias 
da 
vtima 
nos 
negatoscpios, 
onde 
as 
sombras 
e 
as 
formas 
dos 
seus 
rgos 
e 
ossos 
despiam 
sua 
alma 
para 
mim. 
As 
balas 
e 
seus 
inmeros 
fragmentos 
eram 
como 
uma 
nevasca 
letal, 
que 
devastara 
fgado, 


#
pulmes, 
corao 
e 
crebro. 
Ele 
tinha 
uma 
bala 
antiga 
na 
ndega 
esquerda 
e 
uma 
fratura 
j 
cicatrizada 
no 
mero 
direito. 
O 
sr. 
Jones, 
como 
tantos 
outros 
pacientes 
meus, 
morrera 
da 
forma 
como 
vivera. 


Eu 
estava 
fazendo 
uma 
inciso 
em 
forma 
de 
Y 
quando 
ouvi 
uma 
sirene 
tocando 
l 
fora. 
Continuei 
trabalhando. 
O 
guarda 
se 
encarregaria 
de 
ver 
quem 
era. 
Logo 
depois 
ouvi 
passos 
pesados 
no 
corredor, 
e 
Marino 
entrou. 


"Eu 
queria 
ter 
vindo 
mais 
cedo, 
mas 
todos 
os 
vizinhos 
decidiram 
apreciar 
a 
cena." 


"Que 
vizinhos?" 
Olhei 
ironicamente 
para 
ele, 
o 
bisturi 
levantado 
no 
ar. 


"Os 
vizinhos 
do 
vagabundo 
de 
Whitcomb 
Court. 
A 
gente 
comeou 
a 
temer 
que 
houvesse 
um 
puta 
dum 
escarcu. 
Correu 
a 
notcia 
de 
que 
ele 
fora 
morto 
por 
um 
tira, 
e 
que 
foi 
Papai 
Noel 
quem 
o 
acertou. 
A 
comeou 
a 
aparecer 
gente 
de 
tudo 
quanto 
 
buraco." 


Marino, 
ainda 
de 
uniforme, 
tirou 
o 
casaco 
e 
colocou-o 
numa 
cadeira. 
"Esto 
todos 
l, 
em 
volta 
de 
suas 
garrafas 
de 
Pepsi 
dois 
litros, 
sorrindo 
para 
as 
cmeras 
de 
tev. 
Que 
coisa 
incrvel", 
disse, 
puxando 
um 
mao 
de 
Marlboro 
do 
bolso 
da 
camisa. 


"Achei 
que 
voc 
estava 
melhor 
com 
essa 
histria 
de 
fumar", 
comentei. 


"E 
estou. 
A 
coisa 
vai 
melhorando 
cada 
vez 
mais." 


"Marino, 
isso 
no 
 
assunto 
para 
brincadeiras." 
Pensei 
em 
minha 
me 
e 
na 
sua 
traqueotomia. 
O 
enfisema 
no 
curara 
seu 
vcio, 
at 
que 
ela 
teve 
uma 
parada 
respiratria. 


"Certo." 
Ele 
se 
aproximou 
mais 
da 
mesa. 
"Vou 
lhe 
dizer 
a 
verdade. 
Cortei 
para 
meio 
mao 
por 
dia, 
doutora." 


Fui 
cortando 
o 
cadver 
atravs 
das 
costelas 
e 
removi 
o 
peitoral. 


"Molly 
no 
me 
deixa 
fumar 
nem 
no 
carro 
nem 
na 
casa 
dela." 


"Faz 
ela 
bem", 
comentei, 
referindo-me 
 
mulher 
com 
quem 
Marino 
comeou 
a 
ter 
um 
caso 
no 
dia 
de 
Ao 
de 
Graas. 
"Como 
vo 
as 
coisas 
entre 
vocs?" 


"Muito 
bem." 


#
"Vocs 
vo 
passar 
o 
Natal 
juntos?" 


"Ah, 
sim. 
Com 
sua 
famlia 
em 
Urbana. 
Eles 
preparam 
um 
peru 
grande, 
de 
uns 
cinco 
quilos." 
Ele 
bateu 
o 
cigarro, 
fazendo 
a 
cinza 
cair 
no 
cho, 
e 
se 
calou. 


"Isso 
aqui 
vai 
demorar 
um 
pouco", 
falei. 
"As 
balas 
se 
. 
fragmentaram, 
como 
voc 
pode 
ver 
pelas 
radiografias." 


Marino 
ficou 
olhando 
o 
mrbido 
claro-escuro 
exibido 
nos 
negatoscpios 
em 
volta 
da 
sala. 


"O 
que 
ele 
estava 
usando? 
Hydra-Shok?", 
perguntei. 


"Todos 
os 
policiais 
por 
aqui 
esto 
usando 
Hydra-Shok 
atualmente. 
Acho 
que 
d 
pra 
entender 
por 
qu. 
A 
coisa 
funciona." 


"Seus 
rins 
tm 
a 
superfcie 
finamente 
granulada. 
Ele 
 
muito 
jovem 
para 
isso." 


"Que 
 
que 
isso 
significa?" 
Marino 
olhou 
com 
interesse. 


"Talvez 
um 
sinal 
de 
hipertenso." 


Ele 
ficou 
quieto, 
provavelmente 
se 
perguntando 
se 
seus 
rins 
pareciam 
com 
aqueles, 
e 
eu 
desconfio 
que 
sim. 


"Ajudaria 
bastante 
se 
voc 
fizesse 
as 
anotaes", 
disse-lhe. 


"Tudo 
bem, 
desde 
que 
voc 
soletre 
palavra 
por 
palavra." 


Marino 
foi 
at 
o 
balco, 
pegou 
uma 
prancheta 
e 
uma 
caneta 
e 
ps 
luvas. 


Eu 
mal 
havia 
comeado 
a 
ditar 
pesos 
e 
medidas 
quando 
o 
pager 
dele 
tocou. 
Ele 
o 
tirou 
do 
cinto 
e 
levantou-o 
para 
ler 
a 
mensagem. 
Seu 
rosto 
ficou 
sombrio. 


Marino 
foi 
at 
o 
telefone 
do 
lado 
extremo 
da 
sala 
de 
autpsias 
e 
discou. 
Ele 
estava 
de 
costas 
para 
mim, 
e 
eu 
ouvia 
apenas 
uma 
ou 
outra 
palavra, 
que 
abria 
caminho 
atravs 
dos 
rudos 
de 
minha 
mesa. 
Pude 
perceber 
que 
o 
que 
ele 
estava 
ouvindo 
no 
era 
coisa 
boa. 


Quando 
desligou, 
eu 
estava 
extraindo 
fragmentos 
de 
chumbo 
do 
crebro 
e 
tomando 
notas 
com 
um 
lpis 
num 
saquinho 
de 
luvas 
vazio 
e 
ensangentado. 
Interrompi 
o 
que 
fazia 
e 
olhei 
para 
ele. 


"O 
que 
est 
havendo?", 
perguntei, 
supondo 
que 
o 
telefonema 
tivesse 
relao 
com 
o 
que 
acontecera, 
que 
j 
fora 
bastante 
ruim. 


#
Marino 
estava 
suando, 
o 
rosto 
vermelho. 
"Benton 
mandou 
um 
911 
ao 
meu 
pager." 


"Ele 
mandou 
o 
qu?", 
perguntei. 


" 
o 
cdigo 
que 
combinamos 
para 
o 
caso 
de 
Gault 
voltar 
a 
atacar." 


"Oh, 
meu 
Deus", 
foi 
s 
o 
que 
consegui 
dizer. 


"Eu 
disse 
a 
Benton 
que 
no 
se 
preocupasse 
em 
ligar 
para 
voc, 
porque 
estou 
aqui 
e 
posso 
contar 
tudo 
pessoalmente." 


Descansei 
as 
mos 
na 
extremidade 
da 
mesa. 
"Onde?", 
perguntei, 
tensa. 


"Encontraram 
um 
corpo 
no 
Central 
Park. 
Sexo 
feminino, 
branca, 
talvez 
na 
casa 
dos 
trinta 
anos. 
Parece 
que 
Gault 
resolveu 
comemorar 
o 
Natal 
em 
Nova 
York." 


Eu 
temia 
este 
dia. 
Esperava 
e 
rezava 
para 
que 
o 
silncio 
de 
Gault 
durasse 
eternamente, 
para 
que 
ele 
estivesse 
doente 
ou 
morto 
em 
alguma 
cidadezinha 
onde 
ningum 
sabia 
seu 
nome. 


"O 
FBI 
est 
mandando 
um 
helicptero 
para 
nos 
pegar", 
continuou 
Marino. 
"Logo 
que 
voc 
encerrar 
esse 
exame, 
doutora, 
vamos 
embora. 
Desgraado, 
filho 
da 
puta!" 
Comeou 
a 
andar 
de 
um 
lado 
para 
o 
outro 
furiosamente. 
"Ele 
tinha 
que 
fazer 
isso 
na 
vspera 
de 
Natal!" 
Marino 
lanava 
olhares 
furiosos. 
" 
de 
propsito! 
Ele 
calcula 
o 
tempo." 


"V 
ligar 
para 
Molly", 
sugeri, 
tentando 
manter 
a 
calma 
e 
trabalhar 
mais 
depressa. 


"Quem 
diria 
que 
eu 
ia 
ter 
que 
vestir 
essa 
coisa 
de 
novo." 
Ele 
se 
referia 
ao 
uniforme. 


"Voc 
tem 
uma 
muda 
de 
roupa?" 


"Vou 
ter 
que 
passar 
em 
casa 
bem 
rpido. 
Tenho 
que 
deixar 
minha 
arma. 
O 
que 
voc 
vai 
fazer?" 


"Eu 
sempre 
deixo 
umas 
coisas 
aqui. 
Quando 
sair, 
voc 
pode 
ligar 
para 
minha 
irm 
em 
Miami? 
Lucy 
deve 
ter 
chegado 
l 
ontem. 
Conte-lhe 
o 
que 
aconteceu 
e 
que 
no 
vou 
para 
l, 
pelo 
menos 
no 
agora." 
Dei-lhe 
o 
nmero 
e 
ele 
foi 
embora. 


Perto 
da 
meia-noite, 
a 
neve 
j 
parar 
de 
cair 
e 
Marino 
voltara. 


#
Anthony 
Jones 
tinha 
sido 
trancado 
no 
refrigerador, 
e 
cada 
um 
dos 
seus 
ferimentos, 
novos 
e 
antigos, 
tinha 
sido 
documentado 
para 
o 
meu 
depoimento 
em 
juzo. 


Dirigimo-nos 
ao 
terminal 
do 
Aero 
Services 
International, 
onde 
ficamos 
por 
trs 
de 
um 
vidro, 
e 
vimos 
Benton 
Wesley 
descer 
turbulentamente 
num 
Belljet 
Ranger. 
O 
helicptero 
aterrissou 
numa 
pequena 
plataforma 
de 
madeira 
enquanto 
um 
caminho 
de 
combustvel 
surgia 
da 
escurido. 
As 
nuvens 
deslizavam 
como 
vus 
pela 
face 
da 
lua 
cheia. 


Eu 
observei 
Wesley 
descer 
e 
afastar-se 
rapidamente 
das 
hlices. 
Percebi 
raiva 
nas 
suas 
atitudes 
e 
impacincia 
na 
forma 
como 
andava 
a 
passos 
largos. 
Ele 
era 
alto 
e 
desempenado, 
e 
possua 
uma 
fora 
tranqila 
que 
dava 
medo 
nas 
pessoas. 


"Vai 
levar 
uns 
dez 
minutos 
para 
reabastecer", 
disse 
ele, 
ao 
se 
aproximar 
de 
ns. 
"Ser 
que 
a 
tem 
caf?" 


" 
uma 
boa 
idia. 
Marino, 
quer 
que 
a 
gente 
traga 
um 
pouco 
pra 
voc?" 


"No." 


Deixamos 
Marino 
e 
andamos 
em 
direo 
a 
uma 
saleta 
que 
ficava 
entre 
dois 
toaletes. 


"Sinto 
muito 
por 
esse 
aborrecimento", 
disse 
Wesley, 
delicadamente. 


"No 
temos 
escolha." 


"Ele 
tambm 
tem 
conscincia 
disso. 
O 
momento 
que 
escolheu 
no 
foi 
por 
acaso." 
Ele 
encheu 
dois 
copinhos 
de 
poliestireno. 
"Este 
aqui 
est 
muito 
forte." 


"Quanto 
mais 
forte, 
melhor. 
Voc 
parece 
exausto." 


"Eu 
sempre 
dou 
essa 
impresso." 


"Seus 
filhos 
vo 
passar 
o 
Natal 
em 
casa?" 


"Sim. 
Todo 
mundo 
vai 
estar 
l 
 
exceto 
eu, 
naturalmente." 
Por 
um 
instante, 
ele 
fitou 
o 
vazio. 
"Ele 
est 
jogando 
cada 
vez 
mais 
pesado." 


"Se 
realmente 
for 
Gault, 
concordo." 


"Sei 
que 
 
ele", 
disse 
Wesley, 
com 
uma 
dura 
calma 
que 


#
disfarava 
a 
raiva. 
Ele 
odiava 
Temple 
Brooks 
Gault. 
Wesley 
se 
enfurecia 
e 
ficava 
perplexo 
com 
o 
gnio 
maligno 
de 
Gault. 


O 
caf 
no 
estava 
muito 
quente 
e 
ns 
o 
tomamos 
rapidamente. 
Wesley 
no 
deu 
nenhuma 
mostra 
da 
familiaridade 
que 
havia 
entre 
ns, 
exceto 
pelo 
olhar, 
que 
eu 
aprendera 
a 
entender 
muito 
bem. 
Ele 
no 
precisava 
de 
palavras, 
e 
eu 
j 
tinha 
grande 
prtica 
em 
ouvir 
seu 
silncio. 


"Vamos", 
falou, 
ao 
tocar 
no 
meu 
cotovelo, 
e 
alcanamos 
Marino 
quando 
ele 
j 
estava 
saindo 
com 
nossas 
malas. 


Nosso 
piloto 
era 
membro 
da 
Equipe 
de 
Resgate 
de 
Refns, 
ou 
ERR, 
Vestindo 
um 
traje 
de 
vo 
negro, 
e 
alerta 
ao 
que 
acontecia 
 
sua 
volta, 
olhou 
para 
ns 
para 
demonstrar 
que 
percebia 
a 
nossa 
chegada. 
Mas 
ele 
no 
nos 
acenou, 
no 
sorriu, 
nem 
disse 
nada 
quando 
abriu 
as 
portas 
do 
helicptero. 
Abaixamo-nos 
para 
evitar 
as 
hlices, 
e 
na 
minha 
mente, 
o 
barulho 
e 
o 
vento 
causados 
por 
elas 
ficariam 
associados 
para 
sempre 
a 
assassinatos. 
Toda 
vez 
que 
Gault 
atacava, 
o 
FBI 
chegava 
num 
turbilho 
de 
ar 
deslocado 
e 
de 
metal 
brilhante, 
e 
me 
levava 
embora. 


J 
fazia 
muitos 
anos 
que 
procurvamos 
peg-lo, 
e 
seria 
impossvel 
fazer 
um 
levantamento 
completo 
de 
todo 
o 
mal 
que 
ele 
causara. 
No 
sabamos 
ao 
certo 
quantas 
vtimas 
ele 
fizera, 
mas 
conhecamos 
pelo 
menos 
cinco, 
incluindo 
uma 
mulher 
grvida, 
que 
trabalhara 
para 
mim 
em 
certa 
ocasio, 
e 
um 
menino 
de 
treze 
anos, 
chamado 
Eddie 
Heath. 
No 
sabamos 
tambm 
quantas 
vidas 
ele 
envenenara 
com 
suas 
maquinaes, 
mas 
com 
certeza 
a 
minha 
era 
uma 
delas. 


Wesley 
estava 
atrs 
de 
mim 
com 
seu 
fone 
de 
ouvido; 
o 
encosto 
do 
meu 
assento 
era 
muito 
alto, 
e 
me 
impedia 
de 
v-lo 
ao 
olhar 
para 
trs. 
As 
luzes 
de 
dentro 
do 
helicptero 
se 
apagaram 
e 
comeamos 
a 
subir 
devagar, 
voando 
de 
lado 
e 
tomando 
a 
direo 
nordeste. 
O 
cu 
estava 
cheio 
de 
nuvens 
que 
se 
deslocavam 
rapidamente, 
e 
lagos 
e 
rios 
brilhavam 
como 
espelhos 
na 
noite 
de 
inverno. 


"Em 
que 
estado 
ela 
se 
encontra?" 
A 
voz 
de 
Marino 
soou 
abruptamente 
no 
meu 
fone 
de 
ouvido. 


#
Wesley 
respondeu: 
"Est 
congelada". 


"Isso 
quer 
dizer 
que 
ela 
pode 
ter 
estado 
l 
por 
vrios 
dias, 
sem 
comear 
a 
se 
decompor. 
Certo, 
doutora?" 


"Se 
ela 
estivesse 
l 
por 
vrios 
dias", 
disse, 
"pode-se 
imaginar 
que 
algum 
j 
a 
teria 
encontrado 
antes." 


"Achamos 
que 
ela 
foi 
assassinada 
na 
noite 
passada. 
Estava 
exposta, 
encostada...", 
continuou 
Wesley. 


"Sim, 
aquele 
verme. 
Isso 
 
coisa 
dele." 


"Ele 
os 
faz 
sentar 
ou 
os 
mata 
quando 
esto 
sentados", 
comentou 
Wesley. 
"Fez 
isso 
com 
todos 
at 
agora." 


"Pelo 
menos 
com 
aqueles 
de 
que 
temos 
conhecimento", 
lembrei-
lhes. 


"As 
vtimas 
de 
que 
temos 
notcia." 


"Certo. 
Sentadas 
num 
carro, 
numa 
cadeira, 
encostadas 
num 
lato 
de 
lixo." 


" 
O 
menino 
em 
Londres." 


", 
ele 
no 
estava 
sentado." 


"Parece 
que 
foi 
simplesmente 
desovado 
perto 
dos 
trilhos 
da 
ferrovia." 


"No 
sabemos 
quem 
cometeu 
esse 
crime." 
Wesley 
parecia 
ter 
razo. 
"No 
acho 
que 
tenha 
sido 
Gault." 


"Na 
sua 
opinio, 
por 
que 
 
importante 
para 
ele 
que 
os 
corpos 
fiquem 
sentados?", 
perguntei. 


" 
o 
seu 
jeito 
de 
dar 
uma 
banana 
para 
ns", 
disse 
Marino. 


"Desprezo, 
zombaria", 
acrescentou 
Wesley. 
" 
a 
sua 
assinatura. 
Acho 
que 
deve 
haver 
uma 
razo 
mais 
profunda." 


Eu 
tambm 
achava. 
Todas 
as 
vtimas 
de 
Gault 
encontravam-se 
sentadas, 
as 
cabeas 
inclinadas 
para 
a 
frente, 
mos 
no 
colo 
ou 
pendentes 
dos 
lados, 
como 
se 
fossem 
bonecos. 
A 
nica 
exceo 
era 
uma 
policial 
chamada 
Helen. 
Seu 
corpo, 
vestido 
de 
uniforme, 
estava 
numa 
cadeira, 
mas 
sem 
a 
cabea. 


"Com 
certeza, 
a 
posio...", 
comecei 
a 
falar, 
mas 
as 
vozes 
dos 
microfones 
nunca 
ficavam 
em 
sincronia, 
de 
forma 
que 
era 
difcil 
se 


#
comunicar. 


"O 
filho 
da 
puta 
quer 
esfregar 
nosso 
nariz 
nisso." 


"No 
acho 
que 
seja 
s..." 


"Nesse 
exato 
instante, 
ele 
quer 
que 
a 
gente 
saiba 
que 
est 
em 
Nova 
York..." 


"Marino, 
deixe-me 
terminar. 
No 
acho 
que 
seja 
s 
o 
simbolismo." 


"Gault 
poderia 
expor 
os 
corpos 
de 
muitas 
formas. 
Mas 
at 
agora 
escolheu 
sempre 
a 
mesma 
posio. 
Ele 
os 
faz 
sentar. 
Isso 
faz 
parte 
de 
sua 
fantasia." 


"Que 
fantasia?" 


"Se 
eu 
soubesse 
qual, 
Marino, 
talvez 
essa 
viagem 
no 
fosse 
necessria." 


Dali 
a 
algum 
tempo, 
nosso 
piloto 
falou 
conosco: 
"O 
Departamento 
de 
Aviao 
emitiu 
um 
SIGMET". 


"Que 
diabo 
 
isso?" 


"Um 
aviso 
sobre 
turbulncia. 
Est 
ventando 
muito 
em 
Nova 
York, 
vinte 
e 
cinco 
ns, 
com 
rajadas 
de 
trinta 
e 
sete." 


"Quer 
dizer 
que 
no 
podemos 
aterrissar?", 
perguntou 
Marino, 
que 
odiava 
voar 
e 
parecia 
estar 
com 
um 
pouco 
de 
medo. 


"Vamos 
voar 
a 
baixa 
altura. 
Os 
ventos 
estaro 
soprando 
mais 
acima." 


"O 
que 
voc 
quer 
dizer 
com 
'baixa 
altura'? 
Voc 
j 
prestou 
ateno 
na 
altura 
dos 
edifcios 
de 
Nova 
York?" 


Eu 
estendi 
a 
mo 
entre 
meu 
assento 
e 
a 
porta, 
e 
dei 
um 
tapinha 
no 
joelho 
de 
Marino. 
Estvamos 
a 
quarenta 
milhas 
nuticas 
de 
Manhattan, 
e 
eu 
mal 
podia 
enxergar 
uma 
luz 
piscando 
no 
topo 
do 
Empire 
State. 
A 
lua 
estava 
inchada, 
avies 
chegavam 
e 
partiam 
do 
La 
Guardi 
como 
estrelas 
flutuantes, 
e 
as 
chamins 
lanavam 
no 
ar 
enormes 
plumas 
brancas. 
Atravs 
da 
cpula 
de 
vidro 
sob 
meus 
ps, 
observei 
doze 
faixas 
de 
trfego 
na 
auto-estrada 
de 
Nova 
Jersey, 
e 
por 
toda 
parte 
as 
luzes 
brilhavam 
como 
jias, 
como 
se 
a 
cidade 
e 
suas 
pontes 
tivessem 
sado 
da 
ourivesaria 
de 
Faberg. 


Voamos 
por 
trs 
da 
Esttua 
da 
Liberdade, 
passamos 
pela 
ilha 


#
Ellis, 
onde 
meus 
avs 
tiveram 
seu 
primeiro 
contato 
com 
a 
Amrica, 
num 
posto 
de 
imigrao 
apinhado 
de 
gente, 
em 
um 
dia 
frio 
de 
inverno. 
Eles 
tinham 
deixado 
Verona, 
onde 
no 
havia 
nenhuma 
perspectiva 
para 
meu 
av, 
o 
quarto 
filho 
de 
um 
ferrovirio. 


Eu 
descendia 
de 
uma 
famlia 
de 
gente 
sadia 
e 
trabalhadora, 
que 
emigrara 
da 
ustria 
e 
da 
Sua 
no 
comeo 
do 
sculo 
passado, 
o 
que 
explicava 
meus 
cabelos 
loiros 
e 
meus 
olhos 
azuis. 
Apesar 
de 
minha 
me 
dizer 
que, 
quando 
Napoleo 
cedeu 
Verona 
 
ustria, 
nossos 
ancestrais 
mantiveram 
a 
pureza 
da 
linhagem 
italiana, 
eu 
era 
de 
opinio 
contrria. 
Desconfiava 
de 
que 
havia 
uma 
razo 
gentica 
para 
a 
predominncia 
de 
caracteres 
germnicos 
em 
mim. 


O 
Macy's, 
os 
outdoors 
e 
os 
arcos 
dourados 
do 
McDonald's 
comearam 
a 
aparecer 
 
medida 
que 
Nova 
York 
se 
materializava 
l 
embaixo, 
com 
estacionamentos 
e 
ruas 
cobertas 
de 
neve, 
a 
qual 
mesmo 
l 
de 
cima 
se 
podia 
perceber 
que 
estava 
suja. 
Demos 
uma 
volta 
sobre 
o 
heliporto 
VIP 
na 
rua 
30 
Oeste, 
iluminando 
e 
agitando 
as 
guas 
escuras 
do 
Hudson 
no 
momento 
em 
que 
soprava 
a 
virao. 
Descemos 
num 
espao 
prximo 
a 
um 
brilhante 
Sikorssky 
S-76, 
que 
fazia 
todos 
as 
outras 
aeronaves 
parecerem 
comuns. 


"Cuidado 
com 
o 
rotor 
traseiro", 
advertiu 
nosso 
piloto. 


J 
dentro 
de 
um 
pequeno 
edifcio 
no 
muito 
bem 
aquecido, 
fomos 
cumprimentados 
por 
uma 
mulher 
de 
uns 
trinta 
anos, 
cabelos 
pretos, 
expresso 
inteligente 
no 
rosto 
e 
olhos 
cansados. 
Embrulhada 
num 
grosso 
casaco 
de 
l, 
calas 
largas, 
botas 
de 
cadaro 
e 
luvas 
de 
couro, 
apresentou-se 
como 
comandante 
Francs 
Penn, 
da 
Polcia 
de 
Trnsito 
de 
Nova 
York. 


"Muitssimo 
obrigada 
por 
terem 
vindo", 
disse 
ela, 
estendendo 
a 
mo 
para 
cada 
um 
de 
ns. 
"Se 
todo 
mundo 
estiver 
pronto, 
j 
temos 
carros 
esperando." 


"Estamos 
prontos", 
disse 
Wesley. 


Ela 
nos 
levou 
ento 
de 
volta 
ao 
frio 
cortante. 
Duas 
radiopatrulhas 
nos 
esperavam, 
com 
dois 
agentes 
em 
cada 
uma 
delas, 
os 
motores 
funcionando, 
e 
com 
o 
sistema 
de 
calefao 
ligado. 
Houve 
um 


#
momento 
de 
hesitao, 
quando 
abrimos 
as 
portas 
sem 
saber 
quem 
iria 
com 
quem. 
Como 
costuma 
acontecer, 
dividimo-nos 
por 
sexo, 
a 
comandante 
Penn 
e 
eu 
ficamos 
juntas. 
Comecei 
a 
indag-la 
sobre 
questes 
de 
jurisdio, 
porque 
num 
caso 
de 
tanta 
repercusso 
como 
aquele, 
certamente 
haveria 
muita 
gente 
achando 
que 
deveria 
assumir 
a 
responsabilidade. 


"A 
Polcia 
de. 
Trnsito 
entende 
que 
o 
caso 
envolve 
sua 
competncia, 
pois 
achamos 
que 
a 
vtima 
encontrou 
seu 
agressor 
no 
metr", 
explicou 
a 
comandante, 
um 
dos 
trs 
delegados-chefes 
do 
sexto 
maior 
departamento 
de 
polcia 
dos 
listados 
Unidos. 
"O 
crime 
deve 
ter 
acontecido 
no 
final 
da 
tarde 
de 
ontem." 


"Como 
voc 
sabe?" 


" 
uma 
coisa 
impressionante. 
Um 
dos 
nossos 
agentes 
a 
paisana, 
fazia 
a 
ronda 
na 
estao 
de 
metr 
da 
81 
com 
a 
Central 
Park 
West 
quando, 
l 
pelas 
cinco 
e 
meia 
da 
tarde, 
ele 
notou 
um 
estranho 
casal 
que 
surgiu 
da 
sada 
do 
Museu 
de 
Histria 
Natural, 
a 
qual 
leva 
diretamente 
ao 
metr." 


Esbarrvamos 
em 
gelo 
e 
caamos 
em 
crateras 
que 
sacolejavam 
os 
ossos 
das 
minhas 
pernas. 


"O 
homem 
imediatamente 
acendeu 
um 
cigarro 
e 
a 
mulher 
estava 
com 
um 
cachimbo." 


"Interessante", 
comentei. 


" 
proibido 
fumar 
no 
metr, 
e 
isso 
 
um 
dos 
motivos 
que 
fizeram 
com 
que 
nosso 
agente 
se 
lembrasse 
deles." 


"Eles 
foram 
intimados?" 


"O 
homem, 
sim. 
A 
mulher, 
no, 
porque 
no 
acendeu 
o 
cachimbo. 
O 
homem 
mostrou 
ao 
agente 
sua 
carteira 
de 
motorista, 
que 
agora 
imaginamos 
ser 
falsa." 


"Voc 
disse 
que 
o 
casal 
tinha 
uma 
aparncia 
estranha. 
"Como 
assim?" 


"Ela 
usava 
um 
grande 
casaco 
masculino 
e 
um 
bon 
do 
Atlanta 
Braves, 
do 
beisebol. 
Tinha 
a 
cabea 
raspada. 
Na 
verdade, 
o 
agente 
no 
sabia 
ao 
certo 
se 
se 
tratava 
de 
um 
homem 
ou 
de 
uma 
mulher. 
No 
incio, 


#
ele 
pensou 
que 
eles 
eram 
um 
casal 
homossexual." 


"Descreva 
o 
homem 
com 
quem 
ela 
estava", 
disse, 


"Altura 
mediana, 
magro, 
com 
feies 
esquisitas 
e 
olhos 
azuis 
estranhssimos. 
O 
cabelo 
era 
vermelho 
cor-de-cenoura." 


"A 
primeira 
vez 
que 
vi 
Gault, 
seus 
cabelos 
eram 
loiros 
esbranquiados. 
Quando 
eu 
o 
vi 
em 
outubro 
passado, 
estavam 
pretos, 
da 
cor 
de 
cera 
de 
sapato." 


"Ontem 
estavam 
com 
certeza 
vermelhos 
cor-de-cenoura." 


"E 
provavelmente 
hoje 
esto 
de 
outra 
cor. 
Ele 
realmente 
tem 
olhos 
estranhos. 
Muito 
intensos." 


"Ele 
 
muito 
inteligente." 


"No 
h 
maneira 
de 
definir 
o 
que 
ele 
." 


"A 
gente 
pensa 
na 
encarnao 
do 
mal, 
doutora 
Scarpetta", 
disse 
ela. 


"Por 
favor, 
pode 
me 
chamar 
de 
Kay." 


"Se 
voc 
me 
chamar 
de 
Francs." 


"Quer 
dizer 
que 
eles 
visitaram 
o 
Museu 
de 
Histria 
Natural 
ontem 
 
tarde", 
disse. 
"Que 
exposio 
est 
tendo 
l?" 


"Tubares." 


Olhei 
para 
ela, 
seu 
rosto 
continuava 
serio, 
enquanto 
o 
jovem 
agente 
dirigia 
habilmente, 
enfrentando 
o 
trnsito 
de 
Nova 
York. 


"Acho 
que 
todos 
os 
tipos 
de 
tubares, 
desde 
o 
comeo 
dos 
tempos", 
acrescentou. 


Fiquei 
calada. 


"At 
onde 
podemos 
supor", 
continuou 
Penn, 
"Gault 
 
vamos 
cham-lo 
assim, 
pois 
achamos 
que 
 
com 
ele 
que 
estamos 
lidando 
 
levou-a 
a 
uma 
parte 
do 
Central 
Park 
chamada 
Cherry 
Hill, 
matou-a 
a 
tiros 
e 
deixou 
seu 
corpo 
nu 
encostado 
ao 
chafariz." 


"Por 
que 
ela 
o 
acompanharia 
ao 
Central 
Park 
depois 
do 
anoitecer? 
Ainda 
mais 
com 
esse 
tempo?" 


"Achamos 
que 
ele 
a 
convidou 
para 
um 
passeio 
na 
Ramble." 


"Que 
 
freqentada 
por 
homossexuais." 


"Sim. 
 
um 
ponto 
de 
encontro, 
uma 
rea 
muito 
rochosa, 
com 


#
mata 
fechada 
e 
trilhas 
tortuosas 
que 
parecem 
no 
levar 
a 
lugar 
nenhum. 
Nem 
mesmo 
os 
agentes 
do 
distrito 
do 
Central 
Park, 
do 
Departamento 
de 
Polcia 
de 
Nova 
York, 
gostam 
de 
ir 
l. 
Voc 
se 
perde, 
no 
importa 
o 
nmero 
de 
vezes 
que 
tenha 
ido 
at 
l. 
 
alta 
a 
criminalidade. 
Talvez 
uns 
vinte 
e 
cinco 
por 
cento 
de 
todos 
os 
crimes 
cometidos 
no 
Central 
Park 
aconteam 
na 
Ramble. 
Assalto, 
na 
maioria 
das 
vezes." 


"Se 
 
assim, 
Gault 
deve 
conhecer 
bem 
o 
Central 
Park, 
j 
que 
ele 
a 
levou 
 
Ramble 
depois 
do 
anoitecer." 


"Deve 
conhecer 
mesmo." 


Tal 
fato 
sugeria 
que 
Gault 
devia 
estar 
escondido 
em 
Nova 
York 
havia 
algum 
tempo, 
e 
isso 
me 
frustrou 
tremendamente. 
Talvez 
ele 
estivesse 
sob 
as 
nossas 
barbas 
e 
a 
gente 
no 
sabia. 


A 
comandante 
Penn 
falou: 
"A 
cena 
do 
crime 
est 
sendo 
preservada. 
Imaginei 
que 
voc 
gostaria 
de 
dar 
uma 
olhada, 
antes 
de 
a 
deixarmos 
em 
segurana 
no 
hotel". 


"Claro", 
disse. 
"Que 
me 
diz 
de 
vestgios?" 


"Retiramos 
um 
cartucho 
de 
dentro 
do 
chafariz 
com 
a 
marca 
da 
agulha 
compatvel 
com, 
uma 
Glock 
nove-milmetros. 
E 
achamos 
cabelo." 


"Onde?" 


"Junto 
 
vtima, 
nas 
volutas 
de 
uma 
estrutura 
de 
ferro 
lavrado 
dentro 
do 
chafariz. 
O 
fio 
de 
cabelo 
deve 
ter 
ficado 
preso 
quando 
ele 
estava 
ajeitando 
o 
corpo." 


"De 
que 
cor?" 


"Vermelho 
brilhante." 


"Gault 
 
cuidadoso 
demais 
para 
deixar 
uma 
cpsula 
ou 
cabelo", 
comentei. 


"Provavelmente 
ele 
no 
viu 
onde 
a 
cpsula 
caiu", 
disse 
Penn. 
"Estava 
escuro. 
A 
cpsula 
devia 
estar 
muito 
quente 
quando 
caiu 
na 
neve. 
A 
d 
para 
imaginar 
o 
que 
aconteceu." 


"Sim", 
disse. 
"D 
sim." 


#
3 


Minutos 
depois 
de 
ns, 
Marino 
e 
Wesley 
chegaram 
a 
Cherry 
Hill. 
Foram 
colocadas 
lmpadas 
para 
reforar 
a 
iluminao 
dos 
velhos 
postes 
na 
periferia 
de 
uma 
praa 
circular. 
O 
que 
antes 
era 
um 
espao 
para 
manobra 
de 
carruagens 
e 
um 
bebedouro 
para 
os 
cavalos, 
agora 
estava 
cheio 
de 
neve, 
delimitado 
com 
a 
fita 
amarela 
que 
se 
usa 
para 
circunscrever 
a 
cena 
do 
crime. 


No 
centro 
desse 
espetculo 
soturno, 
um 
chafariz 
de 
ferro 
batido 
e 
trabalhado, 
coberto 
de 
gelo, 
que 
no 
funcionava 
em 
nenhuma 
poca 
do 
ano, 
segundo 
nos 
disseram. 
Foi 
ali 
que 
encontraram 
o 
corpo 
nu 
de 
uma 
jovem 
mulher. 
Ela 
fora 
mutilada, 
e 
acredito 
que 
dessa 
vez 
a 
inteno 
de 
Gault 
no 
fosse 
disfarar 
os 
ferimentos, 
mas 
deixar 
sua 
assinatura 
de 
forma 
que 
pudssemos 
imediatamente 
identificar 
o 
artista. 


Tanto 
quanto 
se 
podia 
imaginar, 
Gault 
forara 
sua 
ltima 
vtima 
a 
se 
despir 
e 
a 
andar 
descala 
at 
o 
chafariz, 
onde 
seu 
corpo 
foi 
encontrado 
congelado. 
Ele 
atirou 
nela 
de 
perto, 
na 
tmpora 
direita, 
e 
retirou 
pedaos 
de 
pele 
da 
parte 
interna 
das 
coxas 
e 
do 
ombro 
esquerdo. 
Pegadas 
de 
duas 
pessoas 
iam 
em 
direo 
ao 
chafariz, 
mas 
afastando-se 
dele 
s 
havia 
pegadas 
de 
uma. 
O 
sangue 
da 
mulher 
cujo 
nome 
desconhecamos 
salpicava 
a 
neve 
de 
manchas 
brilhantes, 
e 
para 
alm 
da 
cena 
de 
sua 
morte 
hedionda 
o 
Central 
Park 
dissolvia-se 
em 
espessas 
e 
agourentas 
sombras. 


Fiquei 
bem 
perto 
de 
Wesley, 
nossos 
braos 
se 
tocando, 
como 
se 
precisssemos 
do 
calor 
um 
do 
outro. 
Ele 
no 
falou 
nada 
enquanto 
olhava 
atentamente 
as 
pegadas 
e 
o 
chafariz, 
e 
a 
sombra 
longnqua 
da 
Ramble. 
Percebi 
que 
seus 
ombros 
ergueram-se 
quando 
ele 
respirou 
profundamente, 
e 
ento 
ele 
se 
apoiou 
mais 
pesadamente 
em 
mim. 


"Jesus", 
murmurou 
Marino. 


"Suas 
roupas 
foram 
encontradas?", 
perguntei 
 
comandante 
Penn, 
embora 
eu 
j 
soubesse 
a 
resposta. 


"Nem 
o 
menor 
vestgio." 
Ela 
estava 
olhando 
em 
volta. 
"S 


#
aparecem 
marcas 
de 
ps 
nus 
aqui 
na 
rea 
da 
praa." 
Ela 
; 
apontou 
uma 
distncia 
de 
cinco 
metros 
a 
oeste 
do 
chafariz. 
"D 
para 
ver 
perfeitamente 
o 
ponto 
em 
que 
comeam 
as 
i 
marcas 
de 
ps 
descalos. 
Antes 
disso, 
ela 
usava 
uma 
espcie 
de 
bota, 
suponho. 
Algo 
com 
sola 
lisa 
e 
salto, 
como 
uma 
bota 
de 
cano 
curto 
ou 
de 
caubi, 
talvez." 


"E 
ele?" 


"Encontramos 
pegadas 
suas 
na 
direo 
oeste, 
desde 
a, 
Ramble, 
mas 
no 
podemos 
afirmar 
com 
certeza. 
H 
muitas 
pegadas 
por 
ali 
e 
muita 
neve 
pisoteada." 


"Ento 
os 
dois 
saram 
do 
Museu 
de 
Histria 
Natural 
passando 
pela 
estao 
de 
metr, 
entraram 
no 
parque 
pelo 
lado 
oeste, 
provavelmente 
andaram 
at 
a 
Ramble, 
e 
vieram 
para 
c." 
Tentei 
reconstituir 
os 
fatos. 
"Dentro 
da 
praa, 
ele 
pelo 
visto 
forou-a 
a 
se 
despir 
e 
a 
tirar 
os 
sapatos. 
Ela 
andou 
descala 
at 
o 
chafariz, 
onde 
ele 
atirou 
em 
sua 
cabea." 


" 
isso 
que 
nos 
parece 
agora", 
disse 
um 
troncudo 
detetive 
do 
Departamento 
de 
Polcia 
de 
Nova 
York 
que 
se 
apresentou 
como 
O'Donnell. 


"A 
temperatura 
est 
a 
quantos 
graus?", 
perguntou 
Wesley. 
"Ou 
melhor, 
qual 
era 
a 
temperatura 
ontem 
 
noite?" 


"Ela 
desceu 
a 
onze 
graus", 
disse 
O'Donnell, 
que 
era 
jovem, 
irritadio 
e 
tinha 
grossos 
cabelos 
pretos. 
"O 
efeito 
de 
resfriamento 
do 
vento 
chegava 
a 
dez 
abaixo 
de 
zero." 


"E 
ela 
tirou 
as 
roupas 
e 
os 
sapatos", 
falou 
Wesley, 
como 
para 
si 
mesmo. 
"Isso 
 
estranho." 


"No 
se 
algum 
est 
apontando 
uma 
arma 
para 
sua 
cabea." 
O'Donnell 
bateu 
os 
ps 
no 
cho. 
As 
mos 
estavam 
enterradas 
nos 
bolsos 
de 
um 
casaco 
azul-escuro 
da 
polcia, 
que 
no 
era 
quente 
o 
bastante 
para 
as 
baixas 
temperaturas 
dessa 
poca 
do 
ano, 
mesmo 
com 


o 
colete 
de 
proteo. 
"Se 
voc 
 
forca 
do 
a 
se 
despir 
ao 
ar 
livre 
com 
um 
tempo 
desses", 
considerou 
Wesley, 
com 
toda 
a 
razo, 
"voc 
sabe 
que 
vai 
morrer." 
Ningum 
falou 
nada. 


#
"De 
outro 
modo, 
voc 
no 
seria 
forado 
a 
tirar 
roupas 
e 
sapatos. 
O 
prprio 
fato 
de 
se 
despir 
contraria 
qualquer 
vestgio 
de 
instinto 
de 
sobrevivncia, 
porque, 
obviamente, 
aqui 
no 
se 
pode 
sobreviver 
por 
muito 
tempo 
sem 
roupas." 


Todos 
continuamos 
em 
silncio 
enquanto 
olhvamos 
a 
terrvel 
exposio 
do 
chafariz. 
Ele 
estava 
cheio 
de 
neve, 
e 
dava 
para 
ver 
as 
amolgaduras 
feitas 
pelas 
ndegas 
nuas 
da 
vtima, 
quando 
seu 
corpo 
foi 
colocado 
naquele 
lugar. 
Seu 
sangue, 
congelado, 
conservava 
o 
mesmo 
brilho 
do 
momento 
de 
sua 
morte. 


Ento 
Marino 
falou: 
"Por 
que 
diabos 
ela 
no 
correu?". 


Wesley 
afastou-se 
abruptamente 
de 
mim 
e 
se 
agachou 
para 
observar 
o 
que 
considervamos 
as 
pegadas 
de 
Gault. 
"Essa 
 
a 
pergunta 
do 
dia", 
disse 
ele. 
"Por 
que 
ela 
no 
correu?" 


Abaixei-me 
ao 
seu 
lado 
para 
tambm 
observar 
as 
pegadas. 
As 
marcas 
deixadas 
pelo 
sapato 
na 
neve 
eram 
muito 
curiosas. 
Gault 
usava 
alguma 
espcie 
de 
calado 
com 
solado 
de 
um 
padro 
intrincado 
de 
losangos 
e 
faixas 
onduladas. 
Percebiam-se 
a 
marca 
do 
fabricante 
na 
altura 
do 
dorso 
do 
p 
e 
um 
logotipo 
entranado 
no 
salto. 
Calculei 
que 
seu 
nmero 
era 
trinta 
e 
nove 
ou 
quarenta. 


"Como 
vocs 
esto 
conservando 
essas 
pegadas?", 
perguntei 
 
comandante 
Penn. 


O 
detetive 
ODonnell 
respondeu. 
"Ns 
as 
fotografamos, 
e 
ali 
adiante", 
ele 
apontou 
um 
grupo 
de 
agentes, 
"temos 
outras 
melhores. 
Estamos 
tentando 
fazer 
um 
molde." 


Tirar 
moldes 
de 
pegadas 
na 
neve 
envolve 
muitos 
riscos. 
Se 
a 
massa 
de 
prottico 
no 
estivesse 
fria 
o 
bastante 
e 
a 
neve 
no 
estivesse 
suficientemente 
dura, 
terminava-se 
por 
derreter 
o 
vestgio. 
Wesley 
e 
eu 
nos 
levantamos 
e 
caminhamos 
em 
silncio 
at 
o 
lugar 
que 
o 
detetive 
apontara. 
Olhando 
em 
volta, 
vi 
as 
pegadas 
de 
Gault. 


Ele 
no 
se 
preocupou 
com 
as 
pegadas 
ntidas 
que 
deixou 
na 
neve, 
nem 
com 
o 
fato 
de 
deixar 
uma 
trilha, 
que 
iramos 
diligentemente 
rastrear 
at 
chegar 
ao 
seu 
extremo. 
Estvamos 
decididos 
a 
descobrir 
cada 
lugar 
por 
onde 
ele 
passara, 
e 
isso 
lhe 
era 
indiferente. 
Ele 
no 


#
acreditava 
que 
pudssemos 
peg-lo. 


Os 
agentes 
do 
outro 
lado 
do 
chafariz 
borrifavam 
duas 
pegadas 
com 
cera 
para 
recolher 
impresses 
na 
neve, 
segurando 
latas 
de 
aerossol 
a 
uma 
distncia 
segura 
e 
num 
ngulo 
calculado, 
a 
fim 
de 
evitar 
que 
a 
cera 
vermelha, 
pressurizada, 
apagasse 
as 
frgeis 
marcas 
na 
neve. 
Um 
agente 
mexia 
a 
massa 
de 
prottico 
num 
balde 
de 
plstico. 


Quando 
vrias 
camadas 
de 
cera 
tivessem 
sido 
aplicadas 
nas 
pegadas, 
a 
massa 
de 
prottico 
j 
estaria 
fria 
o 
bastante 
para 
derramar 
e 
fazer 
os 
moldes. 
As 
condies 
estavam 
de 
fato 
muito 
boas 
para 
uma 
tarefa 
que 
 
normalmente 
muito 
delicada. 
No 
havia 
sol 
nem 
vento, 
e, 
ao 
que 
parece, 
os 
tcnicos 
do 
DPNY 
tinham 
tido 
o 
cuidado 
de 
manter 
a 
cera 
na 
temperatura 
adequada, 
porque 
ela 
no 
perdera 
a 
presso. 
Os 
jatos 
no 
saam 
fortes 
demais, 
e 
os 
orifcios 
de 
sada 
no 
entupiam, 
como 
eu 
j 
vira 
tantas 
vezes 
ocorrer. 


"Talvez 
dessa 
vez 
a 
gente 
tenha 
sorte", 
disse 
a 
Wesley 
no 
momento 
em 
que 
Marino 
se 
aproximava 
de 
ns. 


"Ns 
vamos 
precisar 
de 
muita 
sorte", 
disse 
ele, 
lanando 
um 
olhar 
 
mata 
escura. 


A 
leste 
de 
onde 
estvamos, 
ficavam 
os 
limites 
dos 
quinze 
hectares 
conhecidos 
como 
a 
Ramble, 
uma 
rea 
isolada 
do 
Central 
Park, 
notria 
por 
ser 
um 
bom 
ponto 
de 
observao 
de 
pssaros 
e 
por 
suas 
trilhas 
tortuosas 
entre 
a 
mata 
fechada, 
em 
terreno 
rochoso. 
Todos 
os 
guias 
tursticos 
que 
eu 
conhecia 
advertiam 
que 
no 
era 
conveniente 
andar 
na 
Ramble 
sozinho, 
fosse 
qual 
fosse 
a 
estao 
ou 
a 
hora 
do 
dia. 
Eu 
me 
perguntava 
como 
Gault 
teria 
conseguido 
atrair 
sua 
vtima 
para 
o 
parque, 
onde 
ele 
a 
teria 
encontrado 
e 
o 
que 
o 
fizera 
decidir-se 
a 
cometer 


o 
crime. 
Talvez 
ela 
tenha 
surgido 
como 
Lima 
oportunidade 
inesperada 
e 
ele 
estivesse 
predisposto 
a 
aproveit-la. 
"Como 
se 
vem 
da 
Ramble 
at 
aqui?", 
perguntei 
aos 
que 
estavam 
ao 
alcance 
de 
minha 
voz. 
O 
agente 
que 
mexia 
a 
massa 
de 
prottico 
olhou-me 
nos 
olhos. 
Ele 
tinha 
mais 
ou 
menos 
a 
mesma 
idade 
de 
Marino, 
bochechas 
gordas 
e 
vermelhas 
de 
frio. 


#
"H 
um 
caminho 
beirando 
o 
lago", 
disse 
ele, 
o 
hlito 
condensando-se 
numa 
nuvem. 


"Que 
lago?" 


"No 
d 
para 
ver 
muito 
bem. 
Est 
congelado 
e 
coberto 
de 
neve." 


"Voc 
sabe 
se 
foi 
esse 
o 
caminho 
que 
eles 
tomaram?" 


"O 
parque 
 
muito 
grande, 
senhora. 
A 
neve 
est 
pisoteada 
em 
vrios 
outros 
lugares, 
como 
a 
Ramble, 
por 
exemplo. 
Nada 
 
nem 
trs 
metros 
de 
neve 
 
vai 
impedir 
que 
as 
pessoas 
apaream 
por 
l 
em 
busca 
de 
drogas 
ou 
de 
um 
encontro. 
Mas 
aqui 
em 
Cherry 
Hill 
 
outra 
histria. 
 
proibida 
a 
circulao 
de 
carros, 
e 
com 
certeza 
os 
cavalos 
no 
vm 
at 
aqui 
num 
tempo 
desses. 
Tivemos 
sorte. 
A 
cena 
do 
crime 
ficou 
preservada." 


"Por 
que 
voc 
imagina 
que 
o 
criminoso 
e 
a 
vtima 
saram 
da 
Ramble?", 
perguntou 
Wesley, 
que 
era 
sempre 
muito 
direto 
e 
objetivo 
quando 
sua 
mente 
analtica 
se 
punha 
a 
trabalhar 
intensamente, 
vasculhando 
seu 
tremendo 
banco 
de 
dados. 


"Um 
dos 
caras 
acha 
que 
ele 
deve 
ter 
desfeito 
as 
pegadas 
da 
vtima 
l", 
disse 
o 
agente, 
que 
gostava 
de 
falar. 
"O 
problema 
 
que 
as 
dela, 
como 
voc 
pode 
ver, 
no 
so 
muito 
ntidas." 


Olhamos 
a 
neve 
que 
ia 
ficando 
cada 
vez 
mais 
pisoteada 
pelos 
policiais. 
O 
calado 
da 
vtima 
tinha 
a 
sola 
lisa, 
no 
deixou 
marcas. 


"Alm 
disso", 
continuou 
ele, 
"uma 
vez 
que 
deve 
haver 
um 
componente 
homossexual, 
estamos 
considerando 
a 
Ramble 
como 
o 
ponto 
de 
partida 
deles." 


"Que 
componente 
homossexual?", 
perguntou 
Wesley, 
calmamente. 


"Com 
base 
nas 
descries 
feitas 
anteriormente, 
eles 
pareciam 
um 
casal 
homossexual." 


"No 
estamos 
falando 
de 
dois 
homens", 
disse 
Wesley. 


"Vista 
de 
relance, 
a 
vtima 
no 
parecia 
ser 
mulher." 


"Vista 
por 
quem?" 


"Pela 
Polcia 
de 
Trnsito. 
Voc 
precisa 
falar 
com 
eles." 


"Ei, 
Mossberg, 
j 
colocou 
a 
massa 
para 
o 
molde?" 


#
"Tenho 
que 
aplicar 
mais 
uma 
camada." 


"J 
aplicamos 
quatro. 
Vamos 
ler 
uma 
bela 
frma, 
isso 
se 
o 
seu 
material 
estiver 
frio 
o 
bastante." 


O 
agente 
Mossberg 
agachou-se 
e 
comeou 
a 
derramar 
com 
cuidado 
a 
massa 
pastosa 
na 
pegada 
coberta 
de 
cera 
vermelha. 
As 
pegadas 
da 
vtima 
estavam 
prximas 
das 
que 
queramos 
preservar, 
as 
do 
mesmo 
tamanho 
que 
o 
p 
de 
Gault. 
Eu 
me 
perguntava 
se 
algum 
dia 
ainda 
conseguiramos 
encontrar 
suas 
botas. 
Os 
meus 
olhos 
seguiam 
a 
trilha 
em 
direo 
a 
uma 
rea 
distante 
aproximadamente 
quatro 
metros 
do 
chafariz, 
onde 
comeavam 
as 
pegadas 
de 
ps 
descalos. 
Vinte 
e 
dois 
passos 
levaram 
a 
vtima 
direto 
ao 
chafariz 
onde 
Gault 
atirou 
em 
sua 
cabea. 


Olhando 
as 
sombras 
que 
se 
avolumavam 
para 
alm 
da 
praa 
iluminada 
e 
sentindo 
o 
aguilho 
do 
frio 
intenso, 
eu 
no 
conseguia 
entender 
a 
atitude 
daquela 
mulher. 
No 
conseguia 
entender 
sua 
submisso 
e 
passividade 
na 
noite 
anterior. 


"Por 
que 
ela 
no 
ofereceu 
resistncia?", 
perguntei. 


"Porque 
Gault 
a 
aterrorizou 
de 
tal 
forma 
que 
ela 
ficou 
fora 
de 
si", 
disse 
Marino, 
que 
agora 
estava 
do 
meu 
lado. 


"Haveria 
algum 
motivo 
que 
fizesse 
voc 
tirar 
suas 
roupas 
num 
lugar 
como 
esse?" 


"Eu 
no 
sou 
ela", 
respondeu 
ele, 
com 
raiva. 


"No 
sabemos 
nada 
sobre 
ela", 
acrescentou, 
sensatamente, 
Wesley. 


"Exceto 
que 
raspou 
a 
cabea 
por 
algum 
motivo 
maluco", 
disse 
Marino. 


"No 
sabemos 
o 
bastante 
para 
entender 
seu 
comportamento", 
disse 
Wesley. 
"A 
gente 
nem 
sabe 
quem 
 
ela." 


"O 
que 
voc 
acha 
que 
ele 
fez 
com 
suas 
roupas?", 
perguntou 
Marino 
olhando 
em 
volta, 
com 
as 
mos 
nos 
bolsos 
de 
um 
comprido 
casaco 
de 
couro 
de 
camelo, 
que 
passara 
a 
usar 
depois 
de 
alguns 
encontros 
com 
Molly. 


"Provavelmente 
a 
mesma 
coisa 
que 
fez 
com 
as 
de 
Eddie 
Heath", 


#
disse 
Wesley, 
no 
resistindo 
 
tentao 
de 
andar 
um 
pouco 
mata 
adentro. 


Marino 
olhou 
para 
mim. 
"No 
sabemos 
o 
que 
Gault 
fez 
com 
as 
roupas 
do 
garoto." 


"Acho 
que 
a 
 
que 
est 
o 
problema." 
Olhei 
Wesley 
com 
o 
corao 
pesado. 


"Eu, 
pessoalmente, 
no 
acho 
que 
esse 
verme 
as 
guarde 
como 
suvenir. 
Ele 
no 
deve 
querer 
um 
monte 
de 
trastes 
consigo 
quando 
vai 
de 
um 
lado 
para 
outro." 


"Ele 
deve 
dar 
um 
fim 
a 
elas", 
confirmei. 


Um 
isqueiro 
Bic 
falhou 
vrias 
vezes 
antes 
de 
oferecer, 
de 
m 
vontade, 
uma 
tmida 
chama 
a 
Marino. 


"Ela 
estava 
totalmente 
sob 
seu 
controle", 
pensei 
alto. 
"Ele 
a 
trouxe 
at 
aqui, 
ordenou 
que 
se 
despisse, 
e 
ela 
obedeceu. 
D 
para 
ver 
onde 
acabam 
as 
marcas 
dos 
sapatos 
e 
onde 
comeam 
as 
dos 
ps. 
No 


houve 
nenhuma 
luta, 
nenhuma 
inteno 
de 
fugir. 
Nenhuma 
resistncia." 
Marino 
acendeu 
um 
cigarro. 
Wesley 
afastou-se 
da 
mata, 


prestando 
ateno 
onde 
pisava. 
Percebi 
que 
me 
olhava. 


"Eles 
tinham 
um 
caso", 
afirmei. 


"Gault 
no 
tem 
caso 
com 
ningum", 
disse 
Marino. 


"Ele 
os 
tem 
em 
seu 
prprio 
estilo. 
Tortos 
e 
perversos 
que 
sejam. 
Envolveu-se 
com 
a 
diretora 
da 
penitenciria 
de 
Richmonde 
com 
a 
guarda 
Helen." 


"Sim, 
e 
acabou 
com 
as 
duas. 
Cortou 
a 
cabea 
de 
Helen 
e 
largou-
a 
num 
saco 
de 
boliche 
em 
um 
descampado. 
O 
lavrador 
que 
achou 
o 
presentinho 
at 
hoje 
no 
se 
refez 
do 
susto. 
Ouvi 
falar 
que 
ele 
comeou 
a 
beber 
feito 
gamb, 
e 
no 
quer 
saber 
de 
plantar 
nada 
naquele 
lugar. 
Ele 
no 
deixa 
nem 
as 
vacas 
pastarem 
mais 
l." 


"Eu 
no 
quis 
dizer 
que 
ele 
no 
mata 
as 
pessoas 
com 
as 
quais 
se 
relaciona", 
respondi. 
"Eu 
apenas 
disse 
que 
ele 
mantm 
algum 
tipo 
de 
relao." 


Olhei 
para 
as 
pegadas 
da 
vtima 
ali 
perto. 
Ela 
devia 
calar 
trinta 


#
e 
oito 
ou 
trinta 
e 
nove. 


"Espero 
que 
consigam 
tirar 
moldes 
das 
pegadas 
da 
moa 
tambm", 
disse. 


O 
agente 
Mossberg 
usava 
um 
misturador 
de 
tinta 
para 
espalhar 
a 
massa 
cuidadosamente 
em 
cada 
uma 
das 
partes 
da 
pegada 
que 
estava 
tentando 
lixar 
num 
molde. 
Comeara 
a 
nevar 
novamente, 
pequenos 
flocos 
duros 
e 
ardentes. 


"Eles 
no 
vo 
fazer 
moldes 
das 
pegadas 
da 
moa", 
disse 
Marino. 
"Eles 
vo 
tirar 
fotografias 
e 
no 
vai 
passar 
disso, 
j 
que 
ela 
prpria 
no 
poder 
sentar 
em 
nenhum 
banco 
de 
testemunhas 
neste 
mundo." 


Eu 
estava 
acostumada 
a 
testemunhas 
que 
no 
falavam 
para 
ningum, 
exceto 
para 
mim. 
"Eu 
gostaria 
de 
um 
molde 
da 
marca 
de 
seus 
sapatos", 
falei. 
"Precisamos 
identific-la. 
Talvez 
ajude." 


Marino 
foi 
at 
Mossberg 
e 
seus 
colegas, 
e 
comearam 
a 
conversar, 
olhando 
de 
vez 
em 
quando 
em 
minha 
direo. 
Wesley 
olhou 
para 
o 
cu 
nublado 
e 
escuro, 
quando 
a 
neve 
comeou 
a 
cair 
mais 
forte. 
"Cristo", 
disse 
ele. 
"Espero 
que 
isso 
pare." 


Nevava 
ainda 
mais 
pesadamente 
quando 
Francs 
nos 
levava 
de 
carro 
ao 
Athletic 
Club 
de 
Nova 
York, 
no 
Central 
Park 
South. 
No 
se 
podia 
fazer 
mais 
nada 
at 
o 
nascer 
do 
sol, 
e 
eu 
temia 
que 
nesse 
meio 
tempo 
se 
perdessem 
os 
vestgios 
do 
ato 
assassino 
de 
Gault. 


A 
comandante 
Penn 
estava 
pensativa, 
enquanto 
dirigia 
pelas 
ruas 
desertas 
em 
direo 
 
cidade. 
Eram 
quase 
duas 
e 
meia 
da 
manh. 
Nenhum 
de 
seus 
agentes 
estava 
conosco. 
Eu 
ia 
na 
frente, 
Marino 
e 
Wesley 
atrs. 


"Para 
falar 
com 
franqueza, 
confesso 
que 
no 
gosto 
de 
investigaes 
multijurisdicionais", 
disse-lhe. 


"Ento 
voc 
deve 
ter 
bastante 
experincia 
com 
elas. 
Qualquer 
um 
que 
tenha 
idia 
de 
como 
elas 
so, 
as 
detesta." 


"Elas 
so 
um 
verdadeiro 
p 
no 
saco", 
comentou 
Marino, 
enquanto 
Wesley, 
como 
de 
costume, 
mantinha-se 
calado. 


"Como 
voc 
acha 
que 
a 
coisa 
vai 
se 
desenrolar?", 
perguntei, 


#
tentando 
ser 
o 
mais 
diplomtica 
possvel. 
Mas 
ela 
sabia 
o 
que 
eu 
queria. 


"O 
Departamento 
de 
Polcia 
vai 
trabalhar 
oficialmente 
nesse 
caso, 
mas 
sero 
meus 
agentes 
que 
estaro 
fuando, 
dedicando 
mais 
tempo 
e 
fazendo 
o 
trabalho 
braal. 
 
sempre 
assim, 
quando 
partilhamos 
um 
caso 
que 
atrai 
a 
ateno 
da 
mdia." 


"Meu 
primeiro 
emprego 
foi 
no 
DPNY", 
disse 
Marino. 


A 
comandante 
Penn 
olhou-o 
pelo 
retrovisor. 


"Sa 
daquele 
esgoto 
porque 
quis", 
acrescentou 
ele, 
com 
sua 
habitual 
diplomacia. 


"Voc 
ainda 
conhece 
algum 
l?", 
perguntou 
ela. 


"Muitos 
dos 
caras 
com 
quem 
comecei 
a 
trabalhar 
provavelmente 
j 
se 
aposentaram, 
esto 
juridicamente 
inaptos, 
ou 
foram 
promovidos 
e 
esto 
gordos 
e 
amarrados 
a 
suas 
mesas." 


Eu 
me 
interrogava 
se 
Marino 
no 
considerava 
a 
possibilidade 
de 
seus 
colegas 
virem 
a 
dizer 
o 
mesmo 
dele 
no 
futuro. 


Ento 
Wesley 
falou. 
"No 
 
uma 
m 
idia 
ver 
se 
ainda 
tem 
algum 
conhecido 
por 
l, 
Pete. 
Amigos, 
quero 
dizer." 


"Bem, 
no 
espere 
muito 
disso." 


"No 
queremos 
que 
haja 
problemas 
nessa 
rea." 


"No 
h 
maneira 
de 
evitar 
isso", 
disse 
Marino. 
"Os 
policiais 
vo 
brigar 
por 
isso, 
alm 
de 
regular 
tudo 
o 
que 
sabem 
a 
respeito. 
Todo 
mundo 
quer 
virar 
heri." 


"No 
podemos 
nos 
dar 
ao 
luxo 
dessas 
picuinhas", 
continuou 
Wesley, 
sem 
a 
menor 
variao 
no 
tom 
de 
voz. 


"Realmente 
no." 


"Procurem-me 
quando 
quiserem", 
disse 
a 
comandante 
. 
Penn. 
"Vou 
fazer 
o 
que 
puder." 


"Se 
eles 
deixarem...", 
retrucou 
Marino, 


A 
Polcia 
de 
Trnsito 
tinha 
trs 
comandos, 
e 
o 
dela 
era 
a 
Gerncia 
de 
Apoio 
e 
Fomento. 
Ela 
era 
encarregada 
de 
educao, 
instruo 
e 
anlise 
criminal. 
Os 
detetives 
ligados 
ao 
seu 
departamento 
ficavam 
sob 
o 
Comando 
de 
Campo, 
e 
no 
estavam 
sob 
suas 
ordens. 


"Eu 
cuido 
dos 
computadores 
e, 
como 
vocs 
sabem, 
o 
nosso 


#
departamento 
tem 
um 
dos 
mais 
sofisticados 
sistemas 
de 
computao 
dos 
Estados 
Unidos. 
Foi 
por 
estarmos 
conectados 
ao 
CAIN 
que 
pude 
avisar 
Quantico 
to 
depressa. 
Estou 
participando 
das 
investigaes. 
No 
precisam 
se 
preocupar", 
disse 
Penn, 
calmamente. 


"Fale 
um 
pouco 
mais 
sobre 
o 
papel 
do 
CAIN 
neste 
caso", 
-pediu 
Wesley. 


"Logo 
que 
fiquei 
sabendo 
dos 
detalhes 
da 
natureza 
do 
homicdio, 
percebi 
que 
havia 
nele 
algo 
de 
familiar. 
Coloquei 
o 
que 
sabia 
no 
terminal 
PCCV 
e 
acertei 
na 
mosca. 
Assim, 
pude 
contatar 
vocs 
praticamente 
ao 
mesmo 
tempo 
em 
que 
o 
CAIN 
entrava 
em 
contato 
comigo." 


"Voc 
j 
ouviu 
falar 
de 
Gault?", 
perguntou-lhe 
Wesley. 


"No 
posso 
dizer 
que 
conheo 
a 
fundo 
seu 
rnodus 
operandi." 


"Agora 
pode", 
corrigiu 
Wesley. 


A 
comandante 
Penn 
parou 
em 
frente 
ao 
Athletic 
Club 
e 
abriu 
as 
portas. 


"Sim", 
disse 
ela, 
sombriamente. 
"Agora 
sim." 


Passamos 
por 
um 
balco 
vazio, 
num 
bonito 
saguo 
com 
decorao 
de 
poca, 
e 
Marino 
dirigiu-se 
rapidamente 
ao 
elevador. 
Nem 
esperou 
por 
ns, 
e 
eu 
sabia 
por 
qu. 
Queria 
telefonar 
para 
Molly, 
por 
quem 
continuava 
perdidamente 
apaixonado, 
e 
no 
estava 
se 
preocupando 
nem 
um 
pouco 
com 
o 
que 
eu 
e 
Wesley 
fizssemos 
ou 
deixssemos 
de 
fazer. 


"No 
sei 
se 
o 
bar 
est 
aberto 
a 
essa 
hora", 
disse-me 
Wesley, 
quando 
as 
portas 
metlicas 
do 
elevador 
se 
fecharam 
e 
Marino 
subiu 
para 
o 
seu 
andar. 


"Tenho 
quase 
certeza 
de 
que 
no 
est." 


Ficamos 
por 
um 
instante 
olhando 
ao 
redor 
do 
saguo, 
como 
se, 
permanecendo 
ali 
o 
tempo 
suficiente, 
aparecesse 
algum 
miraculosamente 
com 
copos 
e 
garrafas. 


"Vamos." 
Ele 
tocou 
delicadamente 
meu 
cotovelo 
e 
subimos 
para 


o 
nosso 
andar. 
No 
dcimo 
segundo 
andar, 
ele 
me 
levou 
at 
o 
meu 
quarto. 
Eu 
#
estava 
meio 
nervosa 
ao 
tentar 
passar 
o 
carto 
magntico 
para 
abrir 
a 
porta. 
Enfiei-o 
do 
lado 
errado 
e 
no 
conseguia 
colocar 
a 
faixa 
magnetizada 
na 
posio 
certa. 
Acendeu-se 
uma 
luzinha 
vermelha 
perto 
da 
maaneta. 


" 
assim", 
disse 
Wesley. 


"Acho 
que 
agora 
deu." 


"Podemos 
tomar 
um 
nightcap?",2* 
perguntou 
ele 
quando 
abri 
a 
porta 
do 
quarto 
e 
acendi 
a 
luz. 


"A 
essa 
hora, 
acho 
que 
seria 
melhor 
tomarmos 
uma 
plula 
para 
dormir." 


"Mas 
 
pra 
isso 
que 
o 
nightcap 
serve." 


Meus 
aposentos 
eram 
modestos 
mas 
muito 
bem 
mobiliados. 
Joguei 
minha 
bolsa 
na 
cama 
queen-sized. 


"Voc 
 
scio 
disso 
aqui 
por 
causa 
do 
seu 
pai?", 
perguntei. 


Wesley 
e 
eu 
nunca 
estivramos 
em 
Nova 
York 
juntos, 
e 
me 
incomodava 
o 
fato 
de 
que, 
alm 
disso, 
havia 
ainda 
muitas 
outras 
coisas 
dele 
que 
eu 
desconhecia. 


"Ele 
trabalhava 
em 
Nova 
York. 
Ento, 
 
isso 
mesmo. 
Eu 
costumava 
vir 
muito 
aqui 
na 
minha 
adolescncia." 


"O 
minibar 
fica 
embaixo 
da 
tev", 
disse-lhe. 


"Preciso 
da 
chave." 


"Claro." 


Seus 
olhos 
tinham 
um 
brilho 
maroto 
quando 
pegou 
a 
chavezinha 
da 
minha 
mo 
aberta, 
os 
dedos 
tocando 
minha 
palma 
com 
uma 
delicadeza 
que 
me 
lembrou 
outros 
tempos. 
Wesley 
tinha 
um 
modo 
de 
ser 
muito 
seu, 
diferente 
de 
todo 
mundo. 


"Quer 
que 
eu 
pegue 
gelo?" 
Ele 
tirou 
a 
tampa 
de 
uma 
garrafinha 
de 
duas 
doses 
de 
Dewars. 


"Pra 
mim, 
pura 
est 
timo." 


"Voc 
bebe 
como 
um 
homem." 
Ele 
me 
passou 
o 
copo. 


Observei-o 
tirar 
o 
sobretudo 
preto 
de 
l 
e 
o 
casaco 
de 
corte 


2 Drinque 
que 
se 
toma 
antes 
de 
dormir 
para 
facilitar 
o 
sono. 
(N.T.) 


#
impecvel. 
Sua 
camisa 
branca 
engomada 
estava 
amarrotada 
pelas 
lides 
do 
longo 
dia, 
e 
ele 
tirou 
o 
coldre 
do 
ombro 
e 
a 
pistola, 
colocando-os 
no 
criado-mudo. 


" 
esquisito 
ficar 
desarmado", 
disse-lhe. 
Eu 
sempre 
trazia 
comigo 
meu 
38, 
ou, 
em 
perodos 
de 
maior 
turbulncia, 
o 
Browning 
High 
Power. 
Mas 
as 
leis 
de 
porte 
de 
arma 
em 
Nova 
York 
nem 
sempre 
favoreciam 
a 
polcia 
de 
outros 
estados, 
ou 
visitantes 
como 
eu. 


Wesley 
sentou-se 
na 
cama 
oposta 
 
minha. 
Bebericamos 
nossos 
drinques 
olhando 
um 
para 
o 
outro. 


"No 
temos 
estado 
muito 
juntos 
nos 
ltimos 
meses", 
comentei. 


Ele 
assentiu. 


"Acho 
que 
a 
gente 
podia 
tentar 
discutir 
isso", 
continuei. 


"Certo." 
Seu 
olhar 
no 
desviou 
do 
meu. 
"Continue." 


"Sei. 
Eu 
 
que 
tenho 
que 
comear." 


"Eu 
poderia 
comear, 
mas 
voc 
no 
iria 
gostar 
do 
que 
tenho 
a 
dizer." 


"Eu 
gostaria 
de 
ouvir, 
seja 
l 
o 
que 
for 
que 
voc 
queira 
dizer." 


Ele 
falou: 
"Penso 
que 
estamos 
na 
manh 
do 
dia 
de 
Natal, 
e 
eu 
estou 
rio 
seu 
quarto 
de 
hotel. 
Connie 
est 
sozinha 
dormindo 
em 
nossa 
cama 
e 
triste 
porque 
no 
estou 
l. 
As 
crianas 
tambm 
esto 
tristes 
porque 
no 
estou 
l". 


"Eu 
deveria 
estar 
em 
Miami. 
Minha 
me 
est 
muito 
doente", 
disse-lhe. 


Ele 
fitou 
o 
vazio 
em 
silncio, 
e 
eu 
senti 
que 
amava 
os 
ngulos 
e 
as 
sombras 
de 
suas 
faces. 


"Lucy 
est 
l 
e, 
como 
de 
costume, 
eu 
no 
estou. 
Voc 
tem 
idia 
de 
quantos 
feriados 
deixei 
de 
passar 
com 
minha 
famlia?" 


"Sim. 
Eu 
sei 
muito 
bem", 
respondeu 
ele. 


"Pra 
falar 
a 
verdade, 
nem 
sei 
se 
consigo 
me 
lembrar 
de 
algum 
feriado 
em 
que 
meus 
pensamentos 
no 
tenham 
sido 
perturbados 
por 
algum 
caso 
terrvel. 
E 
j 
que 
 
assim, 
quase 
no 
faz 
diferena 
se 
estou 
com 
minha 
famlia 
ou 
sozinha." 


"Voc 
tem 
que 
aprender 
a 
desligar, 
Kay." 


#
"Eu 
aprendi 
a 
fazer 
isso 
tanto 
quanto 
se 
pode 
aprender." 


"Voc 
tem 
que 
deixar 
essas 
preocupaes 
do 
lado 
de 
fora 
da 
porta, 
como 
a 
roupa 
suja 
da 
cena 
de 
um 
crime." 


Mas 
eu 
no 
conseguia 
fazer 
isso. 
No 
havia 
um 
dia 
sem 
que 
me 
viesse 
uma 
lembrana, 
sem 
que 
eu 
fosse 
assaltada 
por 
uma 
alguma 
imagem 
terrvel: 
um 
rosto 
inchado 
por 
espancamento 
e 
morte, 
um 
corpo 
em 
cativeiro. 
Assistia 
ao 
sofrimento 
e 
 
aniquilao 
em 
detalhes 
insuportveis, 
porque 
nada 
era 
escondido 
de 
mim. 
Eu 
conhecia 
as 
vtimas 
bem 
demais. 
Fechei 
os 
olhos 
e 
vi 
pegadas 
na 
neve. 
Vi 
sangue 
no 
vermelho 
brilhante 
do 
Natal. 


"Benton, 
no 
quero 
passar 
o 
Natal 
aqui", 
disse, 
profundamente 
deprimida. 


Ele 
sentou-se 
perto 
de 
mim 
e 
me 
puxou 
para 
si, 
e 
ficamos 
de 
mos 
dadas 
por 
algum 
tempo. 
No 
podamos 
ficar 
perto 
sem 
nos 
tocar. 


"No 
devamos 
estar 
fazendo 
isso", 
falei, 
enquanto 
continuava 
a 
acariciar-lhe 
a 
mo. 


"Eu 
sei." 


"E 
 
realmente 
muito 
difcil 
falar 
sobre 
isso." 


"Eu 
sei." 
Ele 
estendeu 
a 
mo 
para 
o 
interruptor 
e 
desligou 
a 
luz. 


"Acho 
isso 
irnico", 
disse-lhe. 
"Quando 
se 
pensa 
na 
experincia 
que 
partilhamos,, 
em 
tudo 
o 
que 
vimos. 
No 
devia 
ser 
difcil 
falar." 
"Esses 
espetculos 
terrveis 
no 
tm 
nada 
a 
ver 
com 
relaes 
ntimas", 
afirmou 
Wesley. 


"Tm 
sim." 


"Ento 
por 
que 
voc 
no 
as 
tem 
com 
Marino? 
Ou 
com 
seu 
assistente, 
Fielding?" 


"Trabalhar 
com 
os 
mesmos 
horrores 
no 
quer 
dizer 
que 
o 
passo 
seguinte 
seja 
ir 
para 
a 
cama 
com 
eles. 
Mas 
acho 
que 
eu 
no 
conseguiria 
ser 
ntima 
de 
algum 
que 
no 
entendesse 
o 
que 
isso 
significa 
para 
mim." 


"Eu 
no 
sei." 
Suas 
mos 
se 
aquietaram. 


"Voc 
contou 
a 
Connie?" 
Eu 
me 
referia 
 
sua 
mulher, 
que 
no 
sabia 
que 
no 
ltimo 
outono 
ns 
nos 
tornramos 
amantes. 


#
"Eu 
no 
lhe 
conto 
tudo." 


"O 
que 
ela 
sabe?" 


"Ela 
nada 
sabe 
de 
certas 
coisas." 
Ele 
fez 
uma 
pausa. 
"Na 
verdade, 
ela 
sabe 
muito 
pouco 
sobre 
meu 
trabalho. 
No 
quero 
que 
ela 
saiba." 


Fiquei 
em 
silncio. 


"No 
quero 
que 
ela 
saiba 
por 
causa 
dos 
efeitos 
que 
isso 
tem 
sobre 
ns. 
Ns 
mudamos 
de 
cor, 
da 
mesma 
forma 
como 
as 
mariposas, 
quando 
as 
cidades 
se 
tornam 
poludas." 


"No 
quero 
me 
prender 
ao 
lado 
srdido 
do 
nosso 
meio. 
Recuso-
me 
a 
isso." 


"Voc 
pode 
se 
recusar 
ao 
que 
quiser." 


"Voc 
acha 
que 
 
bom 
esconder 
tanta 
coisa 
de 
sua 
mulher?", 
disse 
calmamente, 
apesar 
de 
minha 
carne 
estar 
em 
brasa 
nos 
pontos 
em 
que 
ele 
a 
afagava. 


"No 
 
bom 
para 
ela, 
nem 
para 
mim." 


"Mas 
voc 
sente 
que 
no 
tem 
escolha." 


"Sei 
que 
no 
tenho. 
Connie 
percebe 
que 
em 
mim 
h 
muitas 
coisas 
inacessveis 
a 
ela." 


"E 
 
assim 
que 
ela 
quer 
que 
seja?" 


"Sim." 
Percebi 
que 
ele 
pegava 
o 
copo 
de 
usque. 
"Pronta 
para 
um 
outro 
round?" 


"Sim", 
respondi. 


Ele 
se 
levantou 
e 
o 
metal 
estalou 
na 
escurido 
quando 
ele 
abriu 
mais 
uma 
garrafinha. 
Ps 
usque 
puro 
em 
nossos 
copos 
e 
sentou 
novamente. 


" 
o 
nico 
que 
temos, 
a 
menos 
que 
voc 
queira 
mudar 
para 
uma 
coisa 
diferente." 


"E 
eu 
nem 
preciso 
tanto 
disso." 


"Se 
voc 
quer 
saber 
se 
o 
que 
fizemos 
 
certo, 
no 
sei", 
disse 
ele. 
"Eu 
no 
diria 
isso." 


"Eu 
sei 
que 
o 
que 
fizemos 
no 
 
certo." 


Tomei 
um 
gole 
da 
minha 
bebida 
e 
quando 
estendi 
a 
mo 
para 


#
colocar 
o 
copo 
no 
criado-mudo, 
suas 
mos 
se 
movimentaram. 
Beijamo-
nos 
profundamente, 
e 
ele 
no 
perdeu 
tempo 
com 
botes 
quando 
suas 
mos 
subiam 
e 
desciam 
afagando 
tudo 
o 
que 
encontravam 
pelo 
caminho. 
Estvamos 
excitadssimos, 
como 
se 
nossas 
roupas 
estivessem 
em 
chamas 
e 
precisssemos 
nos 
livrar 
delas. 


Mais 
tarde, 
as 
cortinas 
comearam 
a 
brilhar 
 
luz 
da 
manh, 
enquanto 
flutuvamos 
entre 
a 
paixo 
e 
o 
sono, 
as 
bocas 
com 
gosto 
de 
usque 
velho. 
Sentei-me, 
puxando 
as 
cobertas 
 
minha 
volta. 


"Benton, 
so 
seis 
e 
meia." 


Resmungando, 
ele 
cobriu 
os 
olhos 
com 
um 
brao, 
como 
se 
o 
sol 
fosse 
muito 
grosseiro 
em 
acord-lo. 
Ficou 
deitado 
de 
costas, 
embrulhado 
nos 
lenis, 
enquanto 
eu 
tomei 
banho 
e 
comecei 
a 
me 
vestir. 
A 
gua 
quente 
desanuviou 
minha 
cabea. 


Aquela 
era 
a 
primeira 
manh 
de 
Natal, 
em 
muitos 
anos, 
em 
que 
eu 
acordava 
com 
algum 
na 
mesma 
cama 
que 
eu. 
Sentia 
como 
se 
tivesse 
roubado 
alguma 
coisa. 


"Voc 
no 
pode 
ir 
a 
lugar 
nenhum", 
murmurou 
Wesley, 
ainda 
meio 
dormindo. 


Abotoei 
meu 
casaco. 
"Tenho 
que 
ir", 
disse, 
olhando 
para 
ele 
com 
tristeza. 


" 
Natal." 


"Esto 
esperando 
por 
mim 
no 
necrotrio." 


"Sinto 
muito 
em 
ouvir 
isso", 
falou 
com 
a 
boca 
enfiada 
no 
travesseiro. 
"No 
sabia 
que 
voc 
estava 
se 
sentindo 
to 
mal." 


#
4 


A 
sede 
do 
Departamento 
de 
Medicina 
Legal 
de 
Nova 
York 
ficava 
na 
Primeira 
Avenida, 
no 
edifcio 
em 
frente 
ao 
hospital 
em 
estilo 
gtico, 
de 
tijolos 
vermelhos, 
chamado 
Bellevue, 
onde, 
h 
muito 
tempo, 
se 
faziam 
as 
autpsias 
da 
cidade. 
Videiras 
castanhas, 
ferro 
batido, 
paredes 
cobertas 
de 
grafite 
e 
gordos 
sacos 
de 
lixo 
pretos 
em 
cima 
da 
neve 
esperando 
ser 
recolhidos. 
Canes 
de 
Natal 
tocavam 
sem 
parar 
dentro 
do 
txi 
caindo 
aos 
pedaos. 
Quando 
finalmente 
chegamos 
ao 
nosso 
destino, 
ele 
freou 
cantando 
os 
pneus, 
na 
avenida 
quase 
sempre 
muito 
movimentada. 


"Preciso 
de 
um 
recibo", 
falei 
para 
o 
chofer 
russo, 
que 
passara 
os 
ltimos 
dez 
minutos 
me 
explicando 
o 
que 
estava 
errado 
no 
mundo. 


"De 
quanto?" 


"Oito." 
Fui 
generosa. 
Era 
manh 
de 
Natal. 


Ele 
fez 
um 
movimento 
com 
a 
cabea, 
comeou 
a 
rabiscar, 
enquanto 
eu 
observava 
um 
homem 
na 
calada, 
perto 
das 
grades 
do 
Bellevue, 
olhando 
para 
mim. 
Barba 
por 
fazer, 
cabelos 
compridos 
desgrenhados, 
jaqueta 
jeans 
forrada 
de 
l 
e 
bainha 
das 
calas 
manchadas 
enfiada 
no 
cano 
das 
botas 
de 
caubi, 
em 
petio 
de 
misria. 
Quando 
desci 
do 
txi, 
ele 
comeou 
a 
cantar 
e 
a 
tocar 
uma 
guitarra 
imaginria: 


Bate 
o 
sino, 
pequenino, 
sino 
de 
Belm/ 
Que 
legal, 
ir 
pra 
Galveston, 
no 
ano 
que 
vem-eeeemmm... 


"Veja 
s, 
voc 
arranjou 
um 
admirador", 
disse 
o 
chofer, 
divertido, 
ao 
me 
passar 
o 
recibo 
pela 
janela 
do 
carro. 


Ele 
arrancou 
e 
sumiu 
numa 
nuvem 
de 
fumaa. 
No 
havia 
carros 
nem 
ningum 
 
vista, 
e 
a 
horrvel 
cantoria 
aumentou 
de 
volume. 
Ento 
meu 
baratinado 
admirador 
veio 
atrs 
de 
mim. 
Entrei 
em 
pnico 
quando 
ele 
comeou 
a 
gritar 
"Galveston!", 
como 
se 
fosse 
meu 
nome 
ou 
uma 


#
acusao. 
Corri 
para 
o 
saguo 
do 
edifcio. 


"Tem 
um 
sujeito 
me 
seguindo", 
falei 
para 
uma 
guarda 
de 
segurana 
que, 
sentada 
 
sua 
mesa, 
parecia 
carecer 
de 
esprito 
natalino. 


O 
msico 
desequilibrado 
apertou 
a 
cara 
contra 
o 
vidro 
da 
porta 
e 
ficou 
olhando 
para 
dentro, 
o 
nariz 
amassado, 
as 
faces 
lvidas. 
Escancarou 
a 
boca 
e 
comeou 
a 
passar 
a 
lngua 
no 
vidro 
e 
a 
movimentar 
a 
plvis 
para 
a 
frente 
e 
para 
trs, 
como 
se 
estivesse 
fazendo 
sexo 
com 
o 
edifcio. 
A 
guarda, 
uma 
mulher 
troncuda 
que 
usava 
trancinhas 
afro, 
aproximou-se 
da 
porta 
e 
bateu 
nela 
com 
os 
punhos. 


"Benny, 
d 
o 
fora 
daqui", 
gritou 
ela. 
"Caia 
fora 
daqui 
agora 
mesmo, 
Benny." 
Ela 
bateu 
com 
mais 
fora. 
"No 
me 
obrigue 
a 
ir 
a 
fora." 


Benny 
afastou-se 
do 
vidro. 
De 
repente, 
transformou-se 
em 
Nureyev, 
fazendo 
piruetas 
na 
rua 
deserta. 


"Sou 
a 
doutora 
Scarpetta", 
falei 
para 
a 
guarda. 
"O 
doutor 
Horowitz 
est 
me 
esperando." 


"Impossvel. 
 
Natal", 
disse 
ela, 
olhando-me 
com 
aqueles 
olhos 
negros 
experientes 
que 
j 
haviam 
visto 
tudo. 
"Se 
voc 
quiser, 
posso 
chamar 
o 
doutor 
Pinto." 
Ela 
voltou 
para 
seu 
posto. 


"Eu 
sei 
que 
 
Natal", 
fui 
atrs 
dela, 
"mas 
ficou 
acertado 
que 
o 
doutor 
Horowitz 
iria 
me 
esperar 
aqui." 
Tirei 
minha 
carteira 
e 
mostrei 
meu 
distintivo 
dourado 
de 
legista 
titular. 


Ela 
no 
se 
impressionou. 
"J 
veio 
aqui 
antes?" 


"Muitas 
vezes." 


"Hum. 
Bem, 
tenho 
certeza 
de 
que 
no 
vi 
o 
chefe 
hoje. 
Mas 
isso 
no 
quer 
dizer 
que 
ele 
no 
tenha 
entrado 
pelo 
estacionamento 
sem 
me 
avisar. 
s 
vezes 
eles 
ficam 
a 
horas 
a 
fio 
sem 
eu 
saber. 
Humm. 
 
isso, 
ningum 
se 
d 
ao 
trabalho 
de 
me 
avisar." 


Ela 
pegou 
o 
telefone. 
"Humm. 
No, 
senhor, 
eu 
no 
preciso 
saber 
de 
nada." 
Discou. 
"Eu 
no 
preciso 
saber 
de 
coisa 
nenhuma. 
Doutor 
Horowitz? 
Aqui 
 
Bonita, 
da 
segurana. 
Est 
aqui 
uma 
pessoa 
chamada 
Scarlet." 
Ela 
fez 
uma 
pausa. 
"No 
sei." 
Olhou 
para 
mim. 
"Como 
se 
soletra 
isso?" 


#
"S-c-a-r-p-e-t-t-a", 
falei, 
pacientemente. 


Ela 
no 
conseguiu 
pronunciar 
direito, 
mas 
chegou 
perto. 
"Sim, 
senhor, 
mando 
sim." 
Em 
seguida, 
desligou 
e 
disse: 
"Pode 
entrar 
e 
sentar 
ali". 


A 
decorao 
e 
o 
carpete 
da 
sala 
de 
espera 
eram 
cinza, 
havia 
revistas 
sobre 
mesas 
pretas 
e 
uma 
modesta 
rvore 
de 
Natal 
no 
centro. 
Havia 
uma 
inscrio 
latina 
na 
parede 
de 
mrmore: 
Taceant 
Colloquia 
Effugiat 
Risus 
Hic 
Locus 
Est 
Ubi 
Mors 
Gaudet 
Succurrere 
Vitae, 
que 
queria 
dizer 
que 
no 
se 
podia 
esperar 
encontrar 
risos 
e 
conversas 
naquele 
lugar 
onde 
a 
morte 
se 
comprazia 
em 
ajudar 
os 
vivos. 
Um 
casal 
de 
orientais 
estava 
sentado 
de 
mos 
dadas 
no 
sof 
 
minha 
frente. 
Eles 
no 
falavam, 
nem 
levantavam 
os 
olhos. 
Dali 
para 
a 
frente 
o 
Natal 
para 
eles 
seria 
mergulhado 
em 
tristeza. 


Eu 
me 
perguntava 
por 
que 
estavam 
ali 
e 
quem 
haviam 
perdido, 
e 
pensei 
em 
tudo 
o 
que 
sabia. 
Desejei 
poder 
ajud-los 
e 
confort-los 
de 
alguma 
forma, 
embora 
eu 
no 
tivesse 
jeito 
para 
esse 
tipo 
de 
coisa. 
Depois 
de 
todos 
aqueles 
anos, 
a 
melhor 
coisa 
que 
eu 
podia 
dizer 
queles 
que 
haviam 
perdido 
uma 
pessoa 
querida 
era 
que 
a 
morte 
fora 
rpida 
e 
que 
ela 
no 
sofrer. 
Na 
maioria 
das 
vezes, 
essas 
palavras 
no 
eram 
verdadeiras. 
Como 
se 
pode 
medir 
a 
angstia 
de 
uma 
mulher 
obrigada 
a 
se 
despir 
num 
parque 
deserto, 
numa 
noite 
gelada? 
Como 
imaginar 
o 
que 
ela 
sentiu 
quando 
Gault 
a 
conduziu 
quele 
chafariz 
cheio 
de 
neve 
e 
engatilhou 
a 
arma? 


Obrig-la 
a 
se 
despir 
era 
um 
sinal 
de 
sua 
profunda 
crueldade 
e 
de 
sua 
insacivel 
sede 
de 
zombaria. 
A 
nudez 
no 
era 
necessria. 
Ela 
no 
precisava 
ser 
informada 
previamente 
de 
que 
iria 
morrer 
sozinha 
no 
Natal, 
sem 
ningum 
saber 
o 
seu 
nome. 
Gault 
poderia 
simplesmente 
mat-la 
a 
tiros, 
e 
ponto 
final. 
Ele 
poderia 
sacar 
sua 
Glock, 
pegando-a 
desprevenida. 
O 
filho 
da 
puta. 


"Senhor 
e 
senhora 
Li?" 
Uma 
mulher 
de 
cabelos 
brancos 
surgiu 
diante 
do 
casal. 


"Sim." 


"Posso 
ir 
com 
os 
senhores, 
se 
j 
estiverem 
prontos." 


#
"Sim, 
sim", 
disse 
o 
homem, 
enquanto 
a 
mulher 
comeava 
a 
chorar. 


Eles 
foram 
levados 
 
sala 
em 
que 
se 
fazia 
o 
reconhecimento, 
para 
onde 
o 
corpo 
de 
seu 
ente 
querido 
seria 
levado 
do 
necrotrio 
por 
um 
elevador 
especial. 
Muitas 
pessoas 
simplesmente 
se 
recusam 
a 
acreditar 
na 
morte, 
antes 
de 
t-la 
visto 
e 
tocado. 
Quanto 
a 
mim, 
apesar 
de 
ter 
visto 
e 
testemunhado 
inmeras 
cenas 
de 
reconhecimento 
de 
corpo, 
no 
conseguia 
me 
imaginar 
participando 
daquele 
ritual. 
Acho 
que 
no 
conseguiria 
suportar 
esse 
ltimo 
e 
rpido 
olhar 
atravs 
do 
vidro. 
Sentindo 
o 
comeo 
de 
uma 
dor 
de 
cabea, 
fechei 
os 
olhos 
e 
comecei 
a 
massagear 
minhas 
tmporas. 
Fiquei 
sentada 
ali 
por 
muito 
tempo, 
at 
sentir 
a 
presena 
de 
algum. 


"Doutora 
Scarpetta?" 
A 
secretria 
do 
dr. 
Horowitz 
estava 
de 
p 
ao 
meu 
lado, 
parecendo 
preocupada 
comigo. 
"A 
senhora 
est 
bem?" 


"Emily", 
disse, 
surpresa. 
"Sim, 
estou 
bem, 
mas 
no 
esperava 
encontrar 
voc 
aqui 
hoje." 
Levantei-me. 


"Quer 
um 
Tylenol?" 


"Agradeo 
a 
sua 
gentileza, 
mas 
estou 
bem." 


"Eu 
tambm 
no 
esperava 
encontrar 
a 
senhora 
aqui 
hoje. 
Mas 
no 
se 
pode 
dizer 
exatamente 
que 
as 
coisas 
esto 
dentro 
da 
normalidade. 
E 
de 
surpreender 
o 
fato 
de 
que 
voc 
tenha 
conseguido 
chegar 
aqui 
sem 
ser 
importunada 
por 
uma 
multido 
de 
reprteres." 


"No 
vi 
reprter 
nenhum", 
comentei. 


"Ontem 
 
noite 
eles 
estavam 
em 
toda 
parte. 
A 
senhora 
viu 
o 
Times, 
no 
viu?" 


"No 
tive 
muito 
tempo 
pra 
isso", 
respondi, 
um 
tanto 
constrangida. 
Fiquei 
imaginando 
se 
Wesley 
ainda 
estava 
na 
cama. 


"Est 
a 
maior 
confuso", 
disse 
Emily, 
uma 
jovem 
de 
cabelos 
compridos 
e 
pretos, 
sempre 
to 
recatada 
e 
com 
roupas 
to 
modestas 
que 
parecia 
ser 
de 
outra 
poca. 
"At 
o 
prefeito 
apareceu. 
No 
 
esse 
tipo 
de 
publicidade 
que 
a 
cidade 
quer 
ou 
precisa. 
Ainda 
no 
me 
acostumei 
com 
a 
idia 
de 
que 
foi 
um 
reprter 
que 
encontrou 
o 
corpo." 


Lancei-lhe 
um 
olhar 
rpido 
e 
intenso, 
"Um 
reprter?" 


#
"Bem, 
na 
verdade 
ele 
 
uma 
espcie 
de 
editor 
de 
texto 
do 
Times 


 
um 
desses 
malucos 
que 
no 
podem 
deixar 
de 
correr, 
chova 
ou 
faa 
sol. 
Aconteceu 
ento 
dele 
estar 
ontem 
l 
pelas 
nove 
da 
noite 
no 
parque 
dando 
uma 
volta 
em 
Cherry 
Hill. 
Fazia 
muito 
frio, 
nevava 
e 
a 
rea 
estava 
deserta. 
Ele 
se 
aproximou 
do 
chafariz 
e 
l 
encontrou 
a 
pobre 
mulher. 
Nem 
 
preciso 
dizer 
que 
o 
jornal 
da 
manh 
trouxe 
uma 
descrio 
completa, 
e 
as 
pessoas 
ficaram 
fora 
de 
si 
de 
to 
assustadas." 
Aps 
passarmos 
por 
vrias 
portas, 
ela 
ps 
a 
cabea 
na 
sala 
do 
chefe 
para 
anunciar 
a 
nossa 
chegada 
e 
evitar 
que 
entrssemos 
intempestivamente. 
O 
dr. 
Horowitz, 
que 
j 
no 
era 
mais 
moo, 
estava 
ouvindo 
cada 
vez 
menos. 
Seu 
escritrio 
exalava 
o 
leve 
perfume 
de 
diversas 
flores, 
pois 
ele 
gostava 
de 
orqudeas, 
violetas 
africanas 
e 
gardnias, 
e, 
sob 
seus 
cuidados, 
elas 
vicejavam. 


"Bom 
dia, 
Kay." 
Ele 
se 
levantou 
da 
escrivaninha. 
"Veio 
algum 
com 
voc?" 


"O 
capito 
Marino 
deve 
vir 
tambm." 


"Emily 
vai 
lhe 
mostrar 
o 
caminho. 
A 
menos 
que 
voc 
queira 
esperar 
por 
ele." 


Eu 
sabia 
que 
o 
dr. 
Horowitz 
no 
queria 
esperar. 
No 
havia 
tempo 
para 
isso. 
Ele 
dirigia 
o 
maior 
departamento 
de 
medicina 
legal 
do 
pas, 
onde 
oito 
mil 
pessoas 
por 
ano 
 
a 
populao 
de 
uma 
cidade 
pequena 
 
eram 
submetidas 
a 
autpsia 
em 
suas 
mesas 
de 
ao. 
Um 
quarto 
delas, 
vtimas 
de 
homicdio, 
e 
muitas 
nunca 
seriam 
identificadas. 
Nova 
York 
tinha 
tal 
dificuldade 
em 
identificar 
seus 
mortos 
que 
a 
diviso 
de 
detetives 
do 
DPNY 
possua 
uma 
unidade 
de 
pessoas 
desaparecidas 
funcionando 
no 
edifcio 
do 
dr. 
Horowitz. 


O 
chefe 
pegou 
o 
telefone 
c 
falou 
com 
uma 
pessoa 
sem 
a 
chamar 
pelo 
nome. 
"A 
doutora 
Scarpetta 
chegou. 
J 
estamos 
descendo." 


"No 
se 
preocupem 
que 
eu 
me 
encarrego 
de 
levar 
Marino 
at 
os 
senhores", 
disse 
Emily. 
"Acho 
que 
esse 
nome 
no 
me 
 
estranho." 


"J 
faz 
muito 
tempo 
que 
trabalhamos 
juntos", 
falei. 
"E 
ele 
tem 
trabalhado 
como 
assistente 
da 
Unidade 
de 
Apoio 
a 
Investigaes 
do 
FBI 
em 
Quantico, 
desde 
que 
ela 
foi 
criada." 


#
"Eu 
pensava 
que 
se 
chamava 
Unidade 
de 
Cincia 
Comportamental, 
como 
nos 
filmes." 


"O 
FBI 
mudou 
o 
nome, 
mas 
o 
trabalho 
 
o 
mesmo", 
expliquei, 
referindo-me 
ao 
pequeno 
grupo 
de 
agentes, 
famoso 
por 
sua 
abordagem 
psicolgica 
e 
pela 
perseguio 
de 
agressores 
sexuais 
e 
assassinos. 
Quando, 
no 
faz 
muito 
tempo, 
fui 
nomeada 
patologista 
forense 
consultora 
da 
unidade, 
eu 
no 
acreditava 
que 
ainda 
havia 
muito 
para 
ser 
visto. 
Estava 
enganada. 


O 
sol 
entrava 
pelas 
janelas 
do 
escritrio 
do 
dr. 
Horowitz 
e 
batia 
nas 
prateleiras 
de 
vidro, 
cheias 
de 
flores 
e 
rvores 
em 
miniatura. 
Eu 
sabia 
que 
no 
banheiro 
mido 
e 
escuro 
ele 
cultivava 
orqudeas 
em 
perchas 
ao 
redor 
da 
pia 
e 
da 
banheira, 
e 
que 
tinha 
uma 
estufa 
em 
casa. 
A 
primeira 
vez 
em 
que 
o 
vi, 
achei-o 
parecido 
com 
Lincoln. 
Tanto 
um 
quanto 
outro 
tinham 
rostos 
ossudos 
e 
benevolentes, 
devastados 
por 
uma 
guerra 
que 
dilacerava 
a 
sociedade. 
Eles 
suportavam 
a 
tragdia 
como 
se 
tivessem 
sido 
escolhidos 
para 
isso, 
e 
tinham 
grandes 
e 
pacientes 
mos. 


Descemos 
pelas 
escadas 
em 
direo 
ao 
que 
o 
Departamento 
de 
Polcia 
de 
Nova 
York 
chamava 
de 
sua 
casa 
mortura, 
um 
apelido 
estranhamente 
eufmico 
para 
o 
necrotrio 
de 
uma 
das 
cidades 
mais 
violentas 
dos 
Estados 
Unidos. 
O 
ar 
que 
se 
insinuava 
ali, 
vindo 
do 
ptio, 
era 
muito 
frio 
e 
cheirava 
a 
cigarro 
velho 
e 
a 
morte. 
Cartazes 
fixados 
nas 
paredes 
azul-esverdeadas 
pediam 
que 
as 
pessoas 
no 
jogassem 
lenis 
ensangentados, 
mortalhas, 
trapos 
ou 
vasilhas 
nos 
lates 
de 
lixo 
era 
obrigatrio 
o 
uso 
de 
pantufas, 
no 
se 
podia 
comer, 
e 
em 
quase 
todas 
as 
portas 
havia 
cartazes 
advertindo 
sobre 
a 
existncia 
de 
material 
perigoso 
 
sade. 
O 
dr. 
Horowitz 
informou 
que 
uni 
dos 
seus 
trinta 
subdelegados 
iria 
proceder 
 
autpsia 
da 
desconhecida, 
que 
acreditvamos 
ser 
a 
ltima 
vtima 
de 
Gault. 


Entramos 
num 
vestirio 
onde 
o 
dr. 
Lewis 
Rader, 
de 
avental, 
atava 
um 
jogo 
de 
pilhas 
 
cintura. 


"Doutora 
Scarpetta", 
disse 
o 
dr. 
Horowitz, 
"voc 
j 
conhece 
o 
doutor 
Rader?" 


#
"J 
faz 
uma 
eternidade 
que 
nos 
conhecemos", 
disse 
Rader, 
com 
um 
sorriso. 


" 
sim", 
confirmei, 
calorosamente. 
"Mas 
a 
ltima 
vez 
que 
nos 
vimos 
foi 
em 
San 
Antnio, 
se 
no 
me 
engano." 


"Puxa. 
Faz 
tanto 
tempo 
assim?" 


Fora 
na 
Academia 
Americana 
de 
Cincias 
Forenses, 
no 
encontro 
que 
legistas 
realizavam 
uma 
vez 
por 
ano, 
com 
o 
tema 
Traga 
sua 
prpria 
lmina, 
para 
expor 
e 
falar. 
Rader 
apresentara 
o 
caso 
da 
estranha 
morte 
de 
uma 
jovem, 
provocada 
por 
um 
raio. 
Como 
suas 
roupas 
sumiram 
e 
ela 
batera 
com 
a 
cabea 
no 
concreto 
ao 
cair, 
ela 
dera 
entrada 
no 
Departamento 
de 
Medicina 
Legal 
como 
um 
caso 
de 
agresso 
sexual. 
Os 
policiais 
aceitaram 
essa 
verso 
at 
o 
momento 
em 
que 
Rader 
mostrou-
lhes 
que 
a 
fivela 
de 
seu 
cinto 
estava 
magnetizada, 
e 
que 
havia 
uma 
pequena 
queimadura 
na 
sola 
de 
um 
de 
seus 
ps. 


Lembro-me 
que, 
depois 
da 
apresentao, 
Rader 
me 
servira 
um 
Jack 
Daniels 
puro 
num 
copo 
de 
papel 
e 
rememoramos 
os 
velhos 
tempos 
em 
que 
havia 
poucos 
patologistas 
forenses, 
e 
eu 
era 
a 
nica 
mulher 
do 
grupo. 
Rader 
beirava 
os 
sessenta 
e 
tinha 
o 
reconhecimento 
de 
seus 
pares. 
Mas 
ele 
no 
daria 
um 
bom 
chefe. 
No 
lhe 
agradava 
lidar 
com 
papelada 
e 
politicagem. 


Parecia 
que 
estvamos 
nos 
preparando 
para 
uma 
viagem 
espacial 
quando 
colocamos 
tubos 
de 
oxignio, 
mscaras 
protetoras 
e 
toucas 
cirrgicas. 
Trabalhar 
com 
AIDS 
 
um 
problema, 
porque 
voc 
pode 
levar 
uma 
picada 
de 
agulha 
ou 
um 
corte 
ao 
lidar 
com 
um 
corpo 
infectado, 
mas 
as 
infeces 
de 
transmisso 
area, 
como 
tuberculose 
e 
meningite, 
constituam 
um 
perigo 
ainda 
maior. 
Naqueles 
dias 
ns 
usvamos 
duas 
luvas, 
respirvamos 
ar 
purificado, 
e 
vestamos 
roupas 
descartveis. 
Alguns 
legistas, 
como 
Rader, 
usavam 
malhas 
de 
ao 
inoxidvel 
que 
faziam 
lembrar 
as 
antigas 
cotas 
de 
malha. 


Eu 
estava 
colocando 
a 
touca 
cirrgica 
quando 
O'Donnell, 
o 
detetive 
que 
conhecramos 
na 
noite 
anterior, 
entrou 
na 
sala 
junto 
com 
Marino, 
que 
parecia 
estar 
irritado 
e 
de 
ressaca. 
Eles 
colocaram 
mscaras 
cirrgicas 
e 
luvas, 
e 
ningum 
olhava 
para 
ningum. 
Nosso 


#
caso 
sem 
nome 
encontrava-se 
na 
gaveta 
de 
ao 
nmero 
121, 
e 
enquanto 
saamos 
do 
vestirio, 
os 
funcionrios 
do 
necrotrio 
tiraram 
o 
corpo 
e 
o 
colocaram 
numa 
maa. 
A 
mulher 
morta 
estava 
nua 
e 
inspirava 
pena 
em 
seu 
frio 
leito 
de 
ao. 


As 
partes 
dos 
ombros 
e 
das 
coxas 
que 
haviam 
sofrido 
cortes 
e 
amputaes 
exibiam 
feias 
manchas 
de 
sangue 
coagulado 
e 
enegrecido. 
Sua 
pele 
apresentava 
a 
colorao 
rosa 
brilhante 
do 
livor 
mortis 
do 
frio, 
tpico 
de 
corpos 
congelados 
ou 
mortos 
por 
exposio 
a 
baixas 
temperaturas. 
O 
ferimento 
do 
tiro 
na 
sua 
tmpora 
direita 
era 
de 
grosso 
calibre, 
e 
pude 
ver 
imediatamente 
a 
marca 
que 
o 
cano 
deixara 
em 
sua 
pele, 
quando 
Gault 
encostou 
a 
arma 
e 
apertou 
o 
gatilho. 


Homens 
de 
avental 
e 
mscaras 
levaram-na 
para 
a 
sala 
de 
raios 
X, 
onde 
cada 
um 
de 
ns 
recebeu 
um 
par 
de 
culos 
de 
plstico 
cor-de-
laranja 
para 
acrescentar 
a 
nossa 
armadura. 
Rader 
ligou 
um 
gerador 
de 
energia 
chamado 
Luma-Lite, 
uma 
caixa 
preta 
simples, 
com 
um 
cabo 
de 
fibra 
ptica 
azul 
bastante 
aperfeioado. 
Era 
como 
se 
fosse 
mais 
um 
par 
de 
olhos 
que 
viam 
o 
que 
no 
conseguamos 
ver, 
uma 
suave 
luz 
branca 
que 
tornava 
as 
impresses 
digitais 
fluorescentes, 
e 
fazia 
cabelos, 
fibras, 
manchas 
de 
smen 
e 
de 
narcticos 
brilharem 
como 
fogo. 


"Algum 
a 
apague 
as 
luzes." 


No 
escuro, 
ele 
comeou 
a 
iluminar 
o 
corpo 
com 
o 
Luma-Lite, 
e 
inmeras 
fibras 
comearam 
a 
brilhar 
como 
filamentos 
metlicos 
incandescentes. 
Usando 
um 
frceps, 
Rader 
coletou 
material 
dos 
plos 
pubianos, 
ps, 
mos 
e 
dos 
cabelos 
curtos 
do 
couro 
cabeludo, 
Umas 
manchas 
amarelas 
brilharam 
como 
o 
sol 
quando 
rir 
iluminou 
algumas 
partes 
dos 
dedos 
de 
sua 
mo 
direita. 


"Temos 
aqui 
alguma 
substancia 
qumica", 
disse 
Rader. 


"s 
vezes, 
o 
smen 
tem 
o 
mesmo 
brilho." 


"No.acho 
que 
seja 
isso." 


"Pode 
se 
tratar 
de 
substncias 
que 
aderem 
ao 
nosso 
corpo 
na 
rua", 
opinei. 


"Vamos 
colher 
material 
para 
exame", 
disse 
Rader. 
Onde 
est 
o 
cido 
clordrico?" 


#
"J 
est 
chegando." 


O 
material 
foi 
colhido 
e 
Rader 
prosseguiu. 
A 
luzinha 
branca 
foi 
passeando 
pelo 
corpo 
sem 
vida 
da 
mulher, 
pelos 
recessos 
escuros 
onde 
sua 
carne 
fora 
arrancada, 
pela 
plancie 
de 
seu 
ventre 
e 
pelos 
suaves 
aclives 
de 
seus 
seios. 
Praticamente 
no 
havia 
nenhum 
vestgio 
revelador 
em 
seus 
ferimentos. 
Isso 
corroborava 
nossa 
teoria 
de 
que 
Gault 
a 
matara 
e 
mutilara 
no 
mesmo 
lugar 
onde 
fora 
encontrada, 
porque 
se 
ela 
tivesse 
sido 
levada 
para 
l 
depois 
do 
crime, 
poderiam 
ser 
encontrados 
alguns 
detritos 
no 
sangue 
coagulado. 
Mas, 
na 
verdade, 
os 
ferimentos 
eram 
as 
reas 
mais 
limpas 
de 
seu 
corpo. 


Trabalhamos 
no 
escuro 
por 
mais 
de 
uma 
hora, 
e 
a 
vtima 
foi 
se 
revelando 
palmo 
a 
palmo. 
Sua 
pele 
era 
delicada, 
e 
parecia 
nunca 
ter 
visto 
o 
sol. 
Ela 
no 
era 
nem 
um 
pouco 
musculosa, 
magra, 
um 
metro 
e 
cinqenta 
e 
trs 
de 
altura. 
A 
orelha 
esquerda 
tinha 
sido 
furada 
trs 
vezes, 
a 
direita, 
duas, 
e 
ela 
usava 
brinquinhos 
e 
argolinhas 
de 
ouro. 
Tinha 
curtssimos 
cabelos 
loiros 
no 
muito 
claros, 
olhos 
azuis 
e 
aparncia 
serena 
que 
talvez 
no 
se 
mostrasse 
to 
tranqila 
se 
no 
tivesse 
a 
cabea 
raspada 
e 
no 
estivesse 
morta. 
As 
unhas 
no 
eram 
pintadas 
e 
estavam 
rodas 
at 
a 
carne 
viva. 


Os 
nicos 
sinais 
de 
ferimentos 
antigos 
eram 
cicatrizes 
na 
testa 
e 
no 
alto 
da 
cabea, 
na 
altura 
do 
osso 
parietal 
esquerdo. 
As 
cicatrizes 
eram 
lineares 
e 
mediam 
de 
quatro 
a 
cinco 
centmetros. 
O 
resduo 
visvel 
do 
disparo 
em 
suas 
mos 
era 
a 
marca 
do 
ejetor 
na 
palma 
da 
mo 
direita, 
entre 
o 
indicador 
e 
o 
polegar, 
mostrando 
que 
ela 
colocara 
a 
mo 
em 
posio 
defensiva 
quando 
a 
pistola 
foi 
disparada. 
Esses 
vestgios 
excluam 
totalmente 
a 
hiptese 
de 
suicdio, 
mesmo 
que 
muitos 
outros 
sinais 
o 
sugerissem, 
o 
que 
no 
era 
o 
caso. 


"Acho 
que 
no 
d 
para 
saber 
se 
ela 
era 
manidestra", 
a 
voz 
do 
dr. 
Horowitz 
soou 
na 
escurido, 
em 
algum 
ponto 
atrs 
de 
mim. 


"Sua 
mo 
direita 
 
ligeiramente 
mais 
desenvolvida 
que 
a 
esquerda", 
observei. 


"Manidestra, 
ento; 
 
o 
que 
acho. 
Sua 
higiene 
pessoal 
e 
sua 
comida 
eram 
pobres", 
disse 
o 
dr. 
Horowitz. 


#
"Como 
uma 
pessoa 
que 
mora 
na 
rua 
ou 
uma 
prostituta. 
 
isso 
que 
estou 
supondo", 
comentou 
O'Donnell. 


"Nenhuma 
prostituta 
que 
conheo 
rasparia 
a 
cabea", 
soou 
a 
voz 
mal-humorada 
de 
Marino 
na 
escurido, 
do 
outro 
lado 
da 
mesa. 


"Isso 
depende 
de 
quem 
ela 
queria 
seduzir", 
disse 
O'Donnell. 
"O 
agente 
que 
a 
viu 
no 
metr 
pensou 
a 
princpio 
que 
ela 
era 
um 
homem." 


"Isso 
foi 
quando 
ela 
estava 
com 
Gault", 
falou 
Marino. 


"Quando 
ela 
estava 
com 
o 
cara 
que 
vocs 
imaginam 
que 
era 
Gault." 


"Eu 
tenho 
certeza", 
disse 
Marino, 
"era 
com 
ele 
que 
ela 
estava. 
Eu 
quase 
consigo 
farejar 
o 
filho 
da 
puta, 
como 
se 
ele 
deixasse 
um 
mau 
cheiro 
por 
onde 
passa." 


"Acho 
que 
o 
fedor 
que 
voc 
sentiu 
 
dela", 
comentou 
O'Donnell. 


"Puxe 
um 
pouco 
para 
baixo, 
aqui. 
Est 
bem, 
obrigado." 
Rader 
colheu 
mais 
fibras 
enquanto 
vozes 
descarnadas 
continuavam 
a 
conversar 
numa 
escurido 
espessa 
como 
veludo. 


A 
certa 
altura 
comentei: 
"Acho 
isso 
muito 
fora 
do 
comum. 
Normalmente 
associo 
essa 
quantidade 
de 
resduos 
a 
algum 
que 
foi 
embrulhado 
num 
lenol 
sujo 
e 
transportado 
no 
porta-malas 
de 
um 
carro". 


" 
evidente 
que 
j 
fazia 
algum 
tempo 
que 
ela 
no 
tomava 
banho, 
e 
estamos 
no 
inverno", 
disse 
Rader, 
enquanto 
continuava 
a 
mover 
o 
cabo 
de 
fibra 
ptica, 
iluminando 
uma 
cicatriz 
de 
infncia, 
causada 
pela 
vacina 
contra 
varola. 
"Ela 
j 
devia 
estar 
usando 
as 
mesmas 
roupas 
por 
muitos 
dias, 
e 
se 
andava 
de 
metr 
ou 
de 
nibus, 
elas 
se 
encheram 
de 
resduos." 


Isso 
significava 
que 
ela 
era 
uma 
mulher 
cujo 
desaparecimento, 
pelo 
que 
eu 
sabia, 
no 
fora 
reclamado 
por 
ningum, 
porque 
ela 
no 
tinha 
um 
lar, 
nem 
ningum 
que 
se 
preocupasse 
com 
ela 
ou 
se 
incomodasse 
com 
o 
que 
lhe 
acontecesse. 
Ela 
era 
a 
tragicamente 
tpica 
sem-teto, 
supnhamos, 
at 
o 
momento 
em 
que 
a 
colocamos 
na 
mesa 
nmero 
seis 
da 
sala 
de 
autpsias, 
onde 
o 
dentista 
forense, 
o 
dr. 
Graham, 
esperava 
para 
examinar 
seus 
dentes. 


#
Ele 
era 
um 
jovem 
de 
ombros 
largos, 
que 
eu 
associava 
a 
professores 
da 
escola 
de 
medicina, 
e 
fora 
cirurgio-dentista 
na 
ilha 
Staten, 
quando 
trabalhava 
com 
os 
vivos. 
Mas 
aquele 
era 
dia 
de 
trabalhar 
com 
quem 
se 
queixava 
com 
lnguas 
silenciosas, 
o 
que 
ele 
fazia 
por 
uma 
remunerao 
que 
provavelmente 
no 
daria 
nem 
para 
cobrir 
as 
despesas 
com 
o 
txi 
e 
a 
refeio. 
O 
rigor 
mortis 
j 
dominara 
seu 
corpo, 
e 
como 
uma 
criana 
que 
odeia 
o 
dentista, 
a 
defunta 
se 
recusava 
a 
cooperar. 
Afinal, 
ele 
conseguiu 
abrir 
suas 
mandbulas 
com 
uma 
lima 
fina. 


"Feliz 
Natal", 
disse, 
aproximando 
a 
luz. 
"Ela 
tem 
a 
boca 
cheia 
de 
ouro." 


"Muito 
interessante", 
acrescentou 
o 
dr. 
Horowitz, 
como 
um 
matemtico 
refletindo 
sobre 
um 
problema. 


"So 
restauraes 
de 
ouro." 
Graham 
comeou 
a 
apontar 
obturaes 
em 
forma 
de 
feijo 
prximas 
 
linha 
das 
gengivas, 
em 
cada 
um 
dos 
dentes 
da 
frente. 
"Tem 
aqui, 
aqui 
e 
aqui." 
Ele 
mostrava 
e 
tornava 
a 
mostrar. 
"Seis, 
ao 
todo. 
Isso 
 
muitssimo 
raro. 
Pra 
falar 
a 
verdade, 
nunca 
vi 
algo 
assim. 
No 
num 
necrotrio." 


"Mas 
que 
diabo 
 
essa 
tal 
de 
restaurao 
de 
ouro?", 
perguntou 
Marino. 


" 
um 
p 
no 
saco, 
 
o 
que 
", 
disse 
Graham. 
"Um" 
tipo 
de 
restaurao 
difcil 
e 
chata." 


"Acho 
que 
antigamente 
era 
preciso 
saber 
faz-las 
para 
obter 
o 
diploma", 
comentei. 


"Isso 
mesmo. 
E 
os 
estudantes 
a 
odiavam." 


Ele 
continuou 
a 
explicar, 
dizendo 
que 
nesse 
tipo 
de 
restaurao, 
o 
dentista 
tinha 
que 
colocar 
bolinhas 
de 
ouro 
dentro 
de 
um 
dente, 
e 
um 
mnimo 
de 
saliva 
j 
seria 
capaz 
de 
fazer 
a 
obturao 
cair. 
Embora 
essas 
restauraes 
fossem 
muito 
boas, 
elas 
eram 
trabalhosas, 
penosas 
e 
caras. 


"E 
poucos 
pacientes", 
acrescentou 
ele, 
"querem 
ter 
ouro 
 
mostra 
na 
superfcie 
dos 
dentes 
da 
frente." 


Graham 
continuava 
a 
examinar 
vrias 
restauraes, 
extraes, 


#
formas 
e 
deformaes 
que 
definiam 
quem 
era 
aquela 
mulher. 
Sua 
mordida 
era 
levemente 
aberta, 
e 
havia 
um 
desgaste 
semicircular 
nos 
dentes 
da 
frente, 
compatvel 
com 
o 
fato 
dela 
usar 
cachimbo, 
dado 
que 
fora 
vista 
com 
um 
na 
mo. 


"Se 
ela 
fosse 
uma 
fumante 
contumaz 
de 
cachimbo, 
os 
dentes 
no 
teriam 
manchas 
de 
fumo?", 
perguntei, 
ao 
no 
identificar 
nenhum 
vestgio 
disso. 


"Possivelmente. 
Mas 
note 
como 
a 
superfcie 
dos 
dentes 
est 
desgastada 
 
essas 
reas 
escavadas 
ao 
longo 
da 
gengiva 
que 
precisaram 
das 
restauraes 
de 
ouro", 
ele 
mostrou. 


"O 
maior 
estrago 
de 
seus 
dentes 
deve 
ter 
sido 
causado 
por 
excesso 
de 
escovao." 


"Quer 
dizer 
que 
se 
ela 
escovasse 
os 
dentes 
dez 
vezes 
por 
dia, 
no 
teria 
manchas 
de 
fumo", 
disse 
Marino. 


"Essa 
superescovao 
no 
combina 
com 
seus 
pobres 
hbitos 
higinicos", 
comentei. 
"Na 
verdade, 
sua 
boca 
no 
combina 
com 
mais 
nada 
que 
sabemos 
dela." 


"D 
para 
saber 
quando 
esse 
trabalho 
foi 
feito?", 
perguntou 
Rader. 


"Pra 
falar 
a 
verdade, 
no", 
falou 
Graham, 
enquanto 
continuava 
o 
exame. 
"Mas 
 
um 
trabalho 
excelente. 
Eu 
diria 
que 
foi 
o 
mesmo 
dentista 
que 
fez 
todas 
elas, 
e 
o 
nico 
lugar 
no 
pas 
em 
que 
ainda 
se 
fazem 
boas 
restauraes 
de 
ouro 
 
na 
Costa 
Oeste." 


"Fico 
me 
perguntando 
como 
pode 
saber 
tudo 
isso", 
disse 
o 
detetive 
ODonnell. 


"Voc 
s 
consegue 
que 
lhe 
faam 
esse 
tipo 
de 
restaurao 
onde 
haja 
gente 
que 
ainda 
as 
faa. 
Eu 
no 
fao, 
nem 
conheo 
ningum 
que 
faa. 
Mas 
existe 
uma 
organizao 
chamada 
Academia 
Americana 
de 
Restauraes 
de 
Ouro, 
que 
possui 
vrias 
centenas 
de 
membros 
 
dentistas 
que 
se 
orgulham 
de 
ainda 
fazer 
esse 
tipo 
de 
trabalho. 
E 
a 
maior 
concentrao 
deles 
 
no 
estado 
de 
Washington." 


"Por 
que 
uma 
pessoa 
pode 
querer 
uma 
restaurao 
desse 
tipo?", 
perguntou 
O'Donnell. 


#
"Ouro 
dura 
muito 
tempo." 
Graham 
olhou 
para 
ele. 
"Existem 
pessoas 
que 
se 
preocupam 
com 
o 
que 
pem 
na 
boca. 
As 
substncias 
qumicas 
das 
obturaes 
normais 
podem 
causar 
danos 
aos 
nervos. 
Elas 
mancham 
e 
estragam 
mais 
rpido. 
Certas 
pessoas 
acreditam 
que 
a 
prata 
pode 
causar 
todo 
tipo 
de 
dano, 
desde 
fibrose 
cstica 
at 
queda 
de 
cabelo." 


Ento 
Marino 
falou-. 


"Bom, 
muitos 
sujeitos 
simplesmente 
gostam 
de 
ouro". 


"Sim. 
Ela 
devia 
ser 
uma 
dessas." 


Mas 
eu 
achava 
que 
no. 
Aquela 
mulher 
no 
me 
parecia 
preocupar-se 
com 
a 
prpria 
aparncia. 
Eu 
desconfiava 
que 
ela 
no 
tinha 
raspado 
a 
cabea 
para 
assumir 
alguma 
posio 
ou 
porque 
estivesse 
na 
moda. 
Quando 
comeamos 
a 
examin-la 
por 
dentro, 
fui 
entendendo 
melhor, 
ainda 
que 
o 
mistrio 
aumentasse, 
ao 
invs 
de 
diminuir. 


Ela 
sofrer 
uma 
histerectomia 
que 
extrara 
seu 
tero 
por 
via 
vaginal, 
poupando 
os 
ovrios, 
e 
seus 
ps 
eram 
chatos. 


Tinha 
tambm 
um 
antigo 
hematoma 
intracerebral 
no 
lobo 
frontal 
do 
crebro, 
oriundo 
de 
uma 
pancada 
que 
fraturara 
seu 
crnio 
sob 
as 
cicatrizes 
que 
havamos 
descoberto. 


"Ela 
foi 
vitima 
de 
agresso, 
provavelmente 
h 
muitos 
anos", 
comentei, 
"li 
este 
 
o 
tipo 
de 
traumatismo 
que 
a 
gente 
associa 
a 
mudana 
de 
personalidade." 
Pensei 
na 
vtima 
vagando 
pelo 
mundo, 
sem 
que 
ningum 
sentisse 
a 
sua 
falta. 
"Provavelmente 
ela 
vivia 
afastada 
da 
famlia 
e 
tinha 
ataques 
apoplticos." 


O 
dr. 
Horowitz 
voltou-se 
para 
Rader. 
"Veja 
se 
podemos 
detectar 
txico. 
Talvez 
encontremos 
difeniliadantona." 


#
5 


Pouco 
se 
podia 
fazer 
no 
resto 
do 
dia. 
A 
cidade 
estava 
com 
a 
cabea 
no 
Natal, 
e 
laboratrios 
e 
muitos 
departamentos 
estavam 
fechados. 
Marino 
e 
eu 
andamos 
vrios 
quarteires 
em 
direo 
ao 
Central 
Park, 
antes 
de 
pararmos 
numa 
cafeteria 
grega 
onde 
tomei 
apenas 
caf, 
pois 
no 
conseguia 
comer. 
Ento 
achamos 
um 
txi. 


Wesley 
no 
estava 
em 
seu 
quarto. 
Voltei 
para 
o 
meu, 
e 
fiquei 
por 
muito 
tempo 
diante 
da 
janela, 
olhando 
a 
escurido, 
a 
mata 
fechada 
e 
as 
rochas 
negras 
em 
meio 
 
imensido 
nevada 
do 
parque. 
O 
cu 
estava 
cinzento 
e 
carregado. 
Eu 
no 
conseguia 
enxergar 
o 
rinque 
de 
patinao 
nem 
o 
chafariz 
onde 
o 
cadver 
da 
mulher 
fora 
encontrado. 
Embora 
ela 
j 
no 
se 
encontrasse 
l 
quando 
visitei 
a 
cena 
do 
crime, 
eu 
tinha 
examinado 
as 
fotografias. 
O 
que 
Gault 
fez 
foi 
terrvel, 
e 
me 
perguntava 
onde 
estaria 
ele 
agora. 


Eu 
j 
perdera 
a 
conta 
das 
mortes 
violentas 
com 
que 
trabalhara 
desde 
o 
incio 
de 
minha 
carreira, 
embora 
pudesse 
compreend-las 
muito 
mais 
do 
que 
podia 
deixar 
transparecer, 
quando 
me 
encontrava 
no 
banco 
das 
testemunhas. 
No 
 
muito 
difcil 
compreender 
pessoas 
que 
se 
encontram 
to 
enfurecidas, 
drogadas, 
apavoradas 
ou 
enlouquecidas 
que 
chegam 
a 
matar. 
At 
os 
psicopatas 
tm 
sua 
lgica 
tortuosa. 
Mas 
Temple 
Brooks 
Gault 
parecia 
fora 
do 
alcance 
de 
qualquer 
tentativa 
de 
explicao 
ou 
decifrao. 


A 
primeira 
vez 
em 
que 
ele 
se 
defrontou 
com 
a 
justia 
criminal 
foi 
h 
menos 
de 
cinco 
anos. 
Gault 
bebia 
White 
Russians 
num 
bar 
em 
Abingdon, 
Virgnia, 
quando 
um 
chofer 
de 
caminho 
bbado, 
que 
no 
gostava 
de 
efeminados, 
comeou 
a 
importun-lo. 
Sem 
dizer 
nada, 
Gault, 
que 
era 
faixa 
preta 
de 
carat, 
sorriu 
seu 
sorriso 
estranho, 
levantou-se, 
rodopiou 
e 
acertou 
a 
cabea 
do 
chofer 
com 
um 
pontap. 
Havia 
meia 
dzia 
de 
agentes 
da 
polcia 
estadual 
numa 
mesa 
prxima-
foi 
s 
por 
isso 
que 
ele 
foi 
preso 
e 
acusado 
de 
homicdio 
culposo. 


Sua 
permanncia 
na 
Penitenciria 
do 
Estado 
da 
Virgnia 
foi 
breve 
e 
estranha. 
Primeiro, 
ele 
conquistou 
a 
proteo 
de 
um 
guarda 


#
corrupto 
que 
falsificou 
sua 
identidade 
e 
facilitou 
sua 
fuga. 
Pouco 
tempo 
depois 
de 
sair 
da 
priso, 
encontrou 
por 
acaso 
um 
menino 
chamado 
Eddie 
Heath, 
e 
matou-o 
da 
mesma 
forma 
que 
chacinara 
a 
mulher 
no 
Central 
Park. 
Depois, 
matou 
minha 
supervisora, 
a 
diretora 
do 
presdio, 
e 
uma 
guarda 
chamada 
Helen. 
quela 
altura, 
Gault 
tinha 
trinta 
e 
dois 
anos. 


Flocos 
de 
neve 
comearam 
a 
se 
acumular 
junto 
 
minha 
janela 
e 
l 
adiante, 
caindo 
sobre 
as 
rvores, 
pareciam 
um 
nevoeiro. 
Ouvi 
o 
barulho 
de 
patas 
no 
calamento 
quando 
uma 
carruagem 
passou 
sem 
passageiro, 
apenas 
com 
o 
velho 
cocheiro 
envolto 
em 
uma 
manta 
xadrez. 
A 
gua 
branca 
era 
velha 
e 
um 
tanto 
trpega, 
e 
quando 
ela 
escorregava, 


o 
, 
cocheiro 
batia 
nela 
com 
fora. 
Outros 
cavalos 
destacavam-se 
tristemente 
contra 
o 
tempo, 
cabeas 
baixas, 
plos 
desalinhados, 
e 
senti 
uma 
revolta 
como 
que 
subindo 
pela 
minha 
garganta 
feito 
fel. 
Meu 
corao 
comeou 
a 
bater 
furiosamente. 
Voltei-me 
de 
repente, 
porque 
algum 
batia 
 
porta. 
"Quem 
?", 
perguntei. 


Wesley 
disse, 
depois 
de 
uma 
pausa: 
"Kay?". 


Fi-lo 
entrar. 
O 
bon 
de 
beisebol 
e 
as 
ombreiras 
do 
seu 
sobretudo 
estavam 
midos 
de 
neve. 
Ele 
tirou 
as 
luvas 
de 
couro 
e 
enfiou-as 
nos 
bolsos, 
e 
depois 
tirou 
o 
casaco, 
olhando 
fixamente 
para 
mim. 


"O 
que 
est 
havendo?", 
perguntou. 


"Vou 
lhe 
dizer 
exatamente 
o 
que 
est 
havendo." 
Minha 
voz 
estava 
trmula. 
"Venha 
aqui 
e 
olhe." 
Tomei-o 
pela 
mo 
e 
puxei-o 
para 
a 
janela. 
"Veja! 
Voc 
acha 
que 
aqueles 
pobres 
cavalos 
tiveram 
pelo 
menos 
um 
dia 
de 
descanso? 
Voc 
acha 
que 
so 
bem 
tratados? 
Voc 
acha 
que 
eles 
so 
escovados 
ou 
adequadamente 
ferrados? 
Voc 
sabe 
o 
que 
acontece 
quando 
eles 
tropeam 
-quando 
o 
cho 
est 
coberto 
de 
gelo 
e 
eles 
esto 
podres 
de 
velhos 
e 
quase 
caem?" 


"Kay..." 


"Batem 
neles 
com 
mais 
fora." 


"Kay... 


"Ento 
porque 
voc 
no 
faz 
alguma 
coisa?", 
perguntei, 
enfurecida. 


#
"O 
que 
voc 
quer 
que 
eu 
faa?" 


"Faa 
alguma 
coisa, 
s 
isso. 
O 
mundo 
est 
cheio 
de 
pessoas 
que 
no 
fazem 
nada, 
e 
j 
estou 
cansada 
disso!" 


"Voc 
quer 
que 
eu 
faa 
uma 
denncia 
 
Sociedade 
Protetora 
dos 
Animais?", 
perguntou. 


"Sim, 
quero", 
disse. 
"E 
eu 
tambm 
vou 
fazer." 


"Voc 
no 
se 
incomodaria 
se 
eu 
fizesse 
isso 
amanh, 
j 
que 
no 
deve 
haver 
nada 
aberto 
hoje, 
no 
?" 


Continuei 
a 
olhar 
pela 
janela 
enquanto 
o 
cocheiro 
comeava 
a 
bater 
novamente 
no 
cavalo. 
"No 
falei?", 
disse-lhe, 
rispidamente. 


"Aonde 
voc 
est 
indo?" 
Ele 
me 
seguiu 
porta 
afora 
e 
se 
precipitou 
atrs 
de 
mim, 
quando 
me 
encaminhei 
para 
o 
elevador. 
Cruzei 


o 
saguo 
e 
sa, 
sem 
casaco, 
pela 
porta 
de 
entrada 
do 
hotel. 
Agora 
a 
nevasca 
estava 
mais 
forte, 
e 
a 
neve 
escorregadia 
por 
causa 
do 
gelo. 
O 
alvo 
da 
minha 
fria 
era 
um 
velho 
de 
chapu, 
encurvado 
no 
banco 
do 
cocheiro. 
Ele 
endireitou 
o 
corpo 
quando 
viu 
aquela 
mulher 
de 
meia-
idade 
se 
aproximando, 
seguida 
de 
um 
homem 
alto. 
"Gostaria 
de 
dar 
um 
belo 
passeio 
de 
carruagem?", 
perguntou 
ele, 
com 
um 
sotaque 
carregado. 


A 
gua 
voltou 
o 
pescoo 
em 
minha 
direo 
e 
esticou 
as 
orelhas 
como 
se 
soubesse 
o 
que 
ia 
acontecer. 
Ela 
no 
passava 
de 
pele 
e 
osso, 
e 
estava 
coberta 
de 
cicatrizes, 
patas 
enormes, 
olhos 
baos 
e 
debruados 
de 
rosa. 


"Como 
 
o 
nome 
da 
gua?", 
perguntei. 


"Branca 
de 
Neve." 
Ele 
parecia 
to 
desgraado 
quanto 
a 
pobre 
gua, 
quando 
comeou 
a 
me 
dar 
os 
seus 
preos. 


"No 
estou 
interessada 
nos 
seus 
preos", 
disse-lhe, 
enquanto 
ele 
olhava 
para 
mim, 
o 
rosto 
abatido. 


Ele 
deu 
de 
ombros. 
"Voc 
quer 
fazer 
uma 
corrida 
at 
onde?" 


"No 
sei", 
respondi, 
rspida. 
"Quanto 
tempo 
precisamos 
andar 


antes 
que 
voc 
recomece 
a 
bater 
em 
Branca 
de 
Neve? 
E 
voc 
costuma 
bater 
nela 
quando 
 
dia 
de 
Natal?" 
"Eu 
sou 
bom 
para 
ela", 
disse 
ele, 
estupidamente. 


#
"Voc 
 
cruel 
com 
ela 
e 
provavelmente 
com 
tudo 
o 
que 
vive 
e 
respira", 
afirmei. 


"Tenho 
que 
trabalhar", 
falou, 
os 
olhos 
apertados. 


"Eu 
sou 
mdica 
e 
vou 
denunci-lo", 
disse-lhe, 
elevando 
a 
voz. 


"O 
qu?" 
Ele 
deu 
um 
riso 
de 
deboche. 
"Voc 
 
mdica 
de 
cavalos?" 


Aproximei-me 
ento 
do 
assento 
do 
cocheiro 
at 
ficar 
a 
um 
palmo 
de 
suas 
pernas 
cobertas 
com 
a 
manta. 
"Se 
voc 
chicotear 
essa 
gua 
mais 
uma 
vez, 
eu 
vou 
ver", 
disse-lhe, 
com 
a 
fria 
calma 
que 
reservava 
s 
pessoas 
que 
odiava. 
"E 
este 
homem 
aqui 
do 
meu 
lado 
tambm. 
Daquela 
janela 
ali" 
 
apontei. 
"E 
um 
belo 
dia 
voc 
vai 
acordar 
e 
descobrir 
que 
comprei 
a 
sua 
empresa 
e 
o 
despedi." 


"Voc 
no 
compra 
empresa 
nenhuma", 
disse 
ele, 
olhando 
com 
curiosidade 
o 
edifcio 
do 
Athletic 
Club. 


"Voc 
no 
tem 
a 
menor 
noo 
das 
coisas." 


Ele 
enfiou 
o 
queixo 
dentro 
da 
gola 
e 
me 
ignorou. 


Voltei 
para 
o 
meu 
quarto 
em 
silncio 
e 
tampouco 
Wesley 
disse 
alguma 
coisa. 
Respirei 
fundo, 
e 
minhas 
mos 
no 
paravam 
de 
tremer. 
Ele 
foi 
ao 
minibar 
e 
serviu 
um 
usque 
para 
cada 
um, 
me 
fez 
sentar 
na 
cama, 
ps 
algumas 
almofadas 
atrs 
de 
mim, 
tirou 
o 
casaco 
e 
o 
estendeu 
sobre 
as 
minhas 
pernas. 


Ele 
apagou 
as 
luzes, 
sentou-se 
perto 
de 
mim 
e 
ficou 
acarinhando 
meu 
pescoo 
por 
algum 
tempo, 
enquanto 
eu 
olhava 
pela 
janela. 
Em 
tempo 
de 
neve, 
o 
cu 
fica 
cinzento 
e 
mido, 
mas 
no 
to 
feio 
quanto 
quando 
chove. 
Eu 
pensava 
sobre 
essa 
diferena. 
Por 
que 
a 
neve 
parecia 
to 
suave 
e 
a 
chuva 
to 
pesada 
e 
at 
mais 
fria? 


Fazia 
muito 
frio 
e 
chovia 
horrivelmente 
em 
Richmond 
no 
Natal 
em 
que 
a 
polcia 
descobriu 
o 
corpo 
frgil 
e 
nu 
de 
Eddie 
Heath. 
Ele 
estava 
encostado 
num 
continer 
de 
lixo, 
atrs 
de 
um 
edifcio 
abandonado 
com 
janelas 
lacradas 
com 
tbuas, 
e 
embora 
no 
tenha 
mais 
recuperado 
a 
conscincia, 
ainda 
no 
estava 
morto 
quando 
foi 
encontrado. 
Gault 
o 
havia 
seqestrado 
em 
uma 
loja 
de 
convenincia, 
onde, 
a 
pedido 
da 
me, 
o 
menino 
fora 
comprar 
uma 
laia 
de 
sopa. 


#
Eu 
nunca 
iria 
esquecer 
a 
desolao 
daquele 
lugar 
malcheiroso 
onde 
encontraram 
o 
menino, 
nem 
a 
crueldade 
gratuita 
de 
Gault 
em 
colocar 
perto 
do 
corpo 
uma 
bolsinha 
contendo 
a 
lata 
de 
sopa 
e 
um 
doce 
que 
Eddie 
comprara 
na 
loja. 
Os 
detalhes 
eram 
to 
cruis 
que 
at 
o 
agente 
de 
Henrico 
County 
chorou. 
Lembrei-me 
dos 
ferimentos 
de 
Eddie 
e 
da 
morna 
presso 
de 
sua 
mo 
quando 
o 
examinei 
na 
UTT 
da 
pediatria, 
antes 
de 
desligarem 
os 
equipamentos 
que 
o 
mantinham 
vivo. 


"Oh, 
Deus", 
murmurei 
na 
penumbra 
do 
quarto. 
"Oh, 
Deus, 
estou 
to 
cansada 
de 
tudo 
isso." 


Wesley 
no 
respondeu. 
Ele 
se 
levantara 
e 
estava 
de 
p, 
junto 
 
janela, 
com 
o 
copo 
na 
mo. 


"Estou 
to 
cansada 
da 
crueldade! 
Estou 
to 
cansada 
de 
ver 
gente 
batendo 
em 
cavalos, 
matando 
meninos 
e 
mulheres 
com 
problemas 
mentais." 


Wesley 
no 
se 
voltou. 
Ele 
disse: 
" 
Natal. 
Voc 
devia 
ligar 
para 
sua 
famlia". 


"Voc 
tem 
razo. 
 
disso 
mesmo 
que 
estou 
precisando 
para 
me 
animar 
um 
pouco." 
Eu 
assoei 
o 
nariz, 
acendi 
as 
luzes 
e 
peguei 
o 
telefone. 


Na 
casa 
de 
minha 
irm 
em 
Miami 
ningum 
atendeu. 
Tirei 
uma 
caderneta 
de 
endereos 
da 
bolsa 
e 
liguei 
para 
o 
hospital 
onde 
minha 
me 
estava 
j 
fazia 
algumas 
semanas. 
Uma 
enfermeira 
na 
UTI 
disse 
que 
Dorothy 
estava 
com 
minha 
me 
e 
ela 
iria 
cham-la. 


"Al." 


"Feliz 
Natal", 
disse 
 
minha 
nica 
irm. 


"Considerando 
o 
lugar 
onde 
estou, 
imagino 
que 
voc 
deve 
estar 
ironizando. 
No 
h 
nada 
de 
felicidade 
neste 
lugar, 
nada 
de 
que 
voc 
possa 
ter 
a 
exata 
noo, 
uma 
vez 
que 
no 
est 
aqui." 


"Eu 
sei 
muito 
bem 
o 
que 
 
terapia 
intensiva", 
disse-lhe. 
"Onde 
est 
Lucy 
e 
como 
est 
ela?" 


"Ela 
saiu 
com 
uma 
amiga. 
Elas 
me 
deixaram 
aqui 
e 
vo 
voltar 
daqui 
a 
uma 
hora 
mais 
ou 
menos. 
E 
ento 
vamos 
 
missa. 
Bem, 
nem 
sei 
se 
a 
amiga 
vai, 
porque 
ela 
no 
 
catlica." 


#
"A 
amiga 
de 
Lucy 
tem 
nome. 
Ela 
se 
chama 
Janet, 
e 
 
muito 
simptica." 


"No 
vou 
discutir 
isso 
com 
voc 
agora." 


"Como 
est 
mame?" 


"Na 
mesma." 


"Na 
mesma 
como, 
Dorothy?", 
perguntei, 
j 
comeando 
a 
me 
impacientar. 


"Tiveram 
que 
pr 
um 
dreno 
nela 
hoje 
por 
um 
tempo. 
No 
sei 
qual 
 
o 
problema, 
mas 
voc 
no 
pode 
imaginar 
como 
 
horrvel 
v-la 
tentar 
tossir 
e 
no 
sair 
nem 
um 
som, 
por 
causa 
daquele 
tubo 
pavoroso 
na 
garganta. 
Hoje 
ela 
s 
se 
livrou 
do 
respirador 
por 
cinco 
minutos." 


"Ser 
que 
ela 
sabe 
que 
dia 
 
hoje?" 


"Ah, 
sim", 
disse 
Dorothy, 
num 
tom 
sombrio. 
"Sim, 
claro. 
Eu 
coloquei 
uma 
arvorezinha 
em 
sua 
mesa. 
Ela 
chorou 
um 
bocado." 


Senti 
uma 
forte 
dor 
no 
peito. 


"Quando 
voc 
vem 
para 
c?", 
continuou 
ela. 


"No 
sei. 
No 
podemos 
sair 
de 
Nova 
York 
agora." 


"Voc 
nunca 
se 
incomoda 
com 
o 
fato 
de 
que 
passa 
a 
maior 
parte 
da 
vida 
preocupando-se 
com 
defuntos, 
Katie?" 
Sua 
voz 
ia 
se 
tornando 
cada 
vez 
mais 
aguda. 
"Acho 
que 
todos 
os 
seus 
relacionamentos 
so 
com 
pessoas 
mortas..." 


"Dorothy, 
diga 
a 
mame 
que 
a 
amo 
e 
que 
eu 
telefonei. 
Por 
favor, 
diga 
a 
Lucy 
e 
a 
Janet 
que 
vou 
tentar 
falar 
com 
elas 
mais 
tarde 
ou 
amanh." 


Desliguei 
e 
tornei 
a 
apagar 
as 
luzes. 


Wesley 
ainda 
estava 
diante 
da 
janela, 
de 
costas 
para 
mim. 
Ele 
conhecia 
muito 
bem 
os 
problemas 
de 
minha 
famlia. 


"Sinto 
muito", 
disse 
ele, 
carinhosamente. 


"Ela 
estaria 
da 
mesma 
forma 
se 
eu 
estivesse 
l." 


"Eu 
sei. 
Mas 
a 
questo 
 
que 
voc 
deveria 
estar 
l 
e 
eu, 
em 
minha 
casa." 


Quando 
ele 
falava 
sobre 
sua 
casa, 
eu 
me 
sentia 
incomodada, 
porque 
sua 
casa 
e 
a 
minha 
no 
eram 
a 
mesma. 
Voltei 
a 
pensar 
sobre 


#
esse 
caso, 
e 
quando 
fechei 
os 
olhos, 
vi 
a 
mulher 
que 
parecia 
um 
manequim 
sem 
roupas 
ou 
cabeleira. 
Lembrei-me 
de 
seus 
terrveis 
ferimentos. 


"Benton, 
quem 
voc 
acha 
que 
ele 
est 
matando 
quando 
mata 
essas 
pessoas?", 
perguntei. 


"A 
si 
mesmo", 
disse 
ele. 
"Gault 
est 
matando 
a 
si 
mesmo." 


"Mas 
isso 
no 
explica 
tudo." 


"No, 
mas 
em 
parte 
 
isso." 


"Para 
ele, 
isso 
 
um 
esporte", 
comentei. 


"Isso 
tambm 
 
verdade." 


"E 
quanto 
 
sua 
famlia? 
Descobriu-se 
mais 
alguma 
coisa?" 


"No." 
Ele 
no 
se 
voltou. 
"A 
me 
e 
o 
pai 
esto 
bem 
e 
com 
sade, 
em 
Beaufort, 
na 
Carolina 
do 
Sul." 


"Eles 
se 
mudaram 
de 
Albany?" 


"Lembre-se 
da 
enchente." 


"Ah, 
sim. 
A 
tempestade." 


"O 
sul 
da 
Gergia 
quase 
foi 
varrido 
do 
mapa. 
Parece 
que 
os 
Gault 
se 
mudaram 
e 
agora 
esto 
em 
Beaufort. 
Acho 
tambm 
que 
eles 
esto 
buscando 
proteger 
sua 
privacidade." 


"D 
para 
imaginar." 


"nibus 
tursticos 
passavam 
por 
sua 
casa, 
na 
Gergia. 
Reprteres 
batiam 
em 
sua 
porta. 
Eles 
no 
vo 
cooperar 
com 
as 
autoridades. 
Como 
voc 
sabe, 
tentei 
falar 
com 
eles 
vrias 
vezes 
e 
eles 
se 
recusaram." 


"Gostaria 
que 
soubssemos 
mais 
sobre 
sua 
juventude." 


"Ele 
cresceu 
na 
fazenda 
da 
famlia, 
que 
era 
basicamente 
uma 
grande 
casa 
branca 
com 
vigamento 
de 
madeira, 
em 
meio 
a 
muitos 
hectares 
de 
nogueiras. 
Ali 
perto 
ficava 
a 
fbrica 
de 
doce 
de 
nozes 
e 
outros 
doces 
que 
voc 
encontra 
em 
restaurantes 
de 
beira 
de 
estrada, 
principalmente 
no 
sul. 
Quanto 
ao 
que 
se 
passava 
naquela 
casa 
 
poca 
em 
que 
Gault 
l 
vivia, 
no 
sabemos." 


"E 
sua 
irm?" 


"Continua 
em 
algum 
lugar 
da 
Costa 
Oeste, 
suponho. 
No 


#
conseguimos 
localiz-la. 
De 
qualquer 
modo, 
provavelmente 
ela 
no 
iria 


querer 
falar." 


"Qual 
a 
probabilidade 
de 
que 
Gault 
a 
procure?" 


"Difcil 
dizer. 
Mas 
no 
temos 
nenhuma 
indicao 
de 
que 
os 
dois 
tenham 
tido 
alguma 
vez 
na 
vida 
uma 
relao 
mais 
prxima. 
Parece 
que 
Gault 
nunca 
esteve 
prximo 
 
em 
termos 
de 
normalidade 
 
de 
ningum 
em 
toda 
a 
sua 
vida." 


"Onde 
voc 
esteve 
hoje?" 
Minha 
voz 
estava 
mais 
tranqila, 
e 
eu 
me 
sentia 
mais 
relaxada. 


"Falei 
com 
vrios 
detetives 
e 
andei 
bastante." 


"Andou 
para 
fazer 
exerccio 
ou 
a 
trabalho?" 


"Mais 
a 
trabalho, 
mas 
tambm 
para 
me 
exercitar. 
A 
propsito, 
Branca 
de 
Neve 
se 
foi. 
O 
cocheiro 
foi 
embora 
com 
a 
carruagem 
vazia. 
E 
ele 
no 
bateu 
nela." 


Abri 
os 
olhos. 
"Por 
favor, 
fale-me 
mais 
sobre 
as 
suas 
andanas." 


"Andei 
pela 
rea 
onde 
Gault 
foi 
visto 
no 
metr 
com 
a 
vtima, 
no 
Central 
Park 
e 
na 
81. 
Dependendo 
do 
tempo 
e 
do 
caminho 
que 
voc 
toma, 
essa 
entrada 
de 
metr 
fica 
a 
uns 
cinco 
minutos 
a 
p 
da 
Ramble." 


"Mas 
no 
sabemos 
se 
eles 
foram 
por 
ali." 


"Ns 
no 
sabemos 
droga 
nenhuma", 
disse 
ele, 
deixando 
escapar 
um 
suspiro 
fundo 
e 
cansado. 
" 
certo 
que 
conseguimos 
reconstituir 
as 
pegadas. 
Mas 
h 
tantas 
outras 
marcas 
de 
sapatos, 
de 
cascos 
de 
cavalos, 
patas 
de 
cachorros 
e 
sabe 
Deus 
mais 
o 
qu. 
Ou 
pelo 
menos 
havia," 
Ele 
fez 
uma 
pausa, 
enquanto 
a 
neve 
continuava 
a 
cair 
alm 
da 
janela. 


"Voc 
acha 
que 
ele 
mora 
aqui 
por 
perto?" 


"A 
estao 
do 
metr 
 
terminal. 
As 
pessoas 
que 
saem 
dela 
ou 
moram 
no 
Upper 
West 
Side, 
ou 
esto 
indo 
a 
algum 
dos 
restaurantes, 
ao 
museu 
ou 
a 
algum 
evento 
no 
parque." 


"E 
esse 
 
o 
motivo 
pelo 
qual 
no 
acredito 
que 
Gault 
esteja 
morando 
nessas 
redondezas", 
afirmei. 
"Numa 
estao 
como 
a 
81, 
ou 
outras 
ali 
por 
perto, 
voc 
costuma 
ver 
as 
mesmas 
pessoas 
muitas 
e 
muitas 
vezes. 
O 
agente 
da 
Polcia 
de 
Trnsito 
que 
abordou 
Gault 
muito 


#
provavelmente 
o 
teria 
reconhecido 
se 
ele 
morasse 
por 
ali 
e 
usasse 
o 
metr 
com 
freqncia." 


"Bem 
pensado", 
disse 
Wesley. 
"Parece 
que 
Gault 
conhecia 
muito 
bem 
a 
rea 
que 
escolheu 
para 
cometer 
o 
crime. 
No 
existe, 
porm, 
nenhuma 
indicao 
de 
que 
ele 
freqentasse 
a 
regio. 
Como, 
ento, 
ele 
poderia 
conhec-la 
bem?" 
Ele 
se 
voltou 
para 
me 
olhar 
de 
frente. 


Como 
as 
luzes 
do 
quarto 
estavam 
apagadas, 
Wesley 
se 
destacara 
contra 
o 
cu 
cinzento 
e 
a 
neve. 
Ele 
parecia 
magro, 
as 
calas 
escuras 
escorregando 
pela 
cintura, 
o 
cinturo 
um 
furo 
mais 
apertado. 


"Voc 
perdeu 
peso", 
comentei. 


"Sinto-me 
lisonjeado 
por 
voc 
ter 
notado", 
disse 
ele, 
com 
uma 
careta. 


"Eu 
s 
conheo 
seu 
corpo 
quando 
voc 
est 
sem 
roupa", 
disse-
lhe, 
prosaicamente. 
"Nessas 
condies, 
voc 
 
bonito." 


"Ento 
imagino 
que 
essas 
situaes 
so 
as 
nicas 
que 
importam." 


"No, 
no 
so. 
Quantos 
quilos 
voc 
perdeu 
e 
por 
qu?" 


"No 
sei 
quanto. 
Eu 
nunca 
me 
peso. 
s 
vezes 
me 
esqueo 
de 
comer." 
. 


"Voc 
j 
comeu 
hoje?", 
perguntei, 
como 
se 
fosse 
seu 
mdico. 


"No." 


"Ponha 
o 
casaco." 


Andamos 
de 
mos 
dadas 
ao 
longo 
do 
muro 
do 
parque, 
e 
no 
conseguia 
me 
lembrar 
se 
alguma 
vez 
tnhamos 
nos 
acarinhado 
em 
pblico. 
Mas 
as 
poucas 
pessoas 
que 
estavam 
na 
rua 
no 
podiam 
ver 
nossos 
rostos 
muito 
bem. 
No 
que 
isso 
importasse. 
Por 
um 
momento 
meu 
corao 
ficou 
leve, 
e 
o 
barulhinho 
da 
neve 
caindo 
no 
cho 
dava 
a 
impresso 
de 
neve 
batendo 
contra 
uma 
vidraa. 


Caminhamos 
em 
silncio 
por 
muitos 
quarteires, 
e 
pensei 
em 
minha 
famlia. 
Com 
certeza 
eu 
iria 
ligar 
para 
elas 
antes 
do 
fim 
do 
dia, 
e 
em 
troca 
ouviria 
mais 
queixas. 
Elas 
estavam 
descontentes 
comigo 
porque 
eu 
no 
fizera 
o 
que 
esperavam 
que 
fizesse, 
e 
em 
qualquer 


#
situao, 
eu 
desejava 
ardentemente 
fugir 
delas, 
como 
se 
fossem 
um 
emprego 
ruim 
ou 
um 
vcio. 
Na 
verdade, 
eu 
me 
preocupava 
muito 
com 
Lucy, 
a 
quem 
sempre 
amara 
como 
se 
fosse 
minha 
filha. 
Quanto 
 
minha 
me, 
eu 
nunca 
conseguia 
satisfaz-la. 
E 
no 
gostava 
de 
Dorothy. 


Fiquei 
mais 
perto 
de 
Benton 
e 
tomei 
seu 
brao. 
Ele 
estendeu 
sua 
mo 
e 
pegou 
a 
minha, 
enquanto 
eu 
apertava 
meu 
corpo 
contra 
o 
seu. 
Ambos 
estvamos 
usando 
capuz, 
o 
que 
praticamente 
nos 
impedia 
de 
beijar. 
Por 
isso 
paramos 
na 
calada 
em 
meio 
s 
sombras 
que 
j 
se 
aproximavam, 
puxamos 
os 
capuzes 
para 
trs 
e 
resolvemos 
o 
problema. 
Ento 
rimos 
um 
para 
outro 
da 
nossa 
aparncia. 


"Diabo, 
eu 
queria 
ter 
uma 
mquina 
fotogrfica 
aqui." 
Wesley 
riu 
um 
pouco 
mais. 


"No, 
voc 
no 
queria." 


Puxei 
o 
capuz 
para 
a 
posio 
normal 
enquanto 
imaginava 
algum 
tirando 
uma 
fotografia 
de 
ns 
dois 
juntos. 
Isso 
me 
lembrou 
que 
ramos 
clandestinos, 
e 
a 
felicidade 
daquele 
instante 
acabou. 
Continuamos 
a 
andar. 


"Benton, 
isso 
no 
pode 
durar 
para 
sempre", 
disse. 


Ele 
no 
falou 
nada. 


"Voc 
 
na 
realidade 
um 
marido 
dedicado. 
Mas 
ento 
ns 
samos 
da 
nossa 
cidade." 


"Como 
se 
sente 
em 
relao 
a 
isso?", 
perguntou-me, 
novamente 
com 
a 
voz 
tensa. 


"Acho 
que 
me 
sinto 
como 
a 
maioria 
das 
pessoas, 
quando 
esto 
tendo 
um 
caso. 
Culpa, 
vergonha, 
medo, 
tristeza. 
Tenho 
dores 
de 
cabea 
e 
voc 
perde 
peso." 
Fiz 
uma 
pausa. 
"Ento 
passamos 
a 
nos 
encontrar." 


"E 
o 
que 
voc 
me 
diz 
do 
cime?" 


Hesitei. 
"Eu 
me 
disciplino 
para 
no 
sentir 
isso." 


"Uma 
pessoa 
no 
pode 
se 
disciplinar 
para 
no 
sentir." 


"Claro 
que 
pode. 
Ns 
dois 
fazemos 
isso 
o 
tempo 
todo, 
quando 
estamos 
trabalhando 
em 
casos 
como 
o 
de 
agora." 


"Voc 
tem 
cime 
da 
Connie?", 
insistiu, 
continuando 
a 
andar. 


"Eu 
sempre 
gostei 
de 
sua 
mulher 
e 
acho 
que 
ela 
 
uma 
pessoa 


#
simptica." 


"Mas 
voc 
tem 
cime 
do 
meu 
relacionamento 
com 
ela? 
Seria 
muito 
compreensvel. 


Interrompi-o. 
"Pra 
que 
ficar 
especulando 
sobre 
isso, 
Benton?" 


"Porque 
eu 
quero 
que 
a 
gente 
encare 
a 
situao 
de 
frente 
para, 
de 
certa 
forma, 
tentar 
resolv-la." 


"Certo, 
mas 
ento 
me 
diga 
uma 
coisa", 
respondi. 
"Quando 
eu 
estava 
com 
o 
Mark, 
na 
poca 
em 
que 
ele 
era 
seu 
scio 
e 
melhor 
amigo, 
voc 
alguma 
vez 
sentiu 
cime?" 


"De 
quem?", 
perguntou, 
querendo 
fazer 
gracinha. 


"Voc 
alguma 
vez 
sentiu 
cime 
de 
meu 
relacionamento 
com 
o 
Mark?", 
continuei. 


Ele 
demorou 
um 
pouco 
para 
responder. 


"Eu 
estaria 
mentindo 
se 
negasse 
que 
sempre 
senti 
atrao 
por 
voc. 
Muita 
atrao", 
disse 
ele, 
finalmente. 


Pensei 
no 
tempo 
em 
que 
Mark, 
Wesley 
e 
eu 
trabalhvamos 
juntos. 
Procurei 
na 
memria 
algum 
indcio, 
por 
mais 
tnue 
que 
fosse, 
do 
que 
ele 
acabara 
de 
confessar. 
No 
me 
lembrei 
de 
nada. 
Mas 
quando 
eu 
estava 
com 
o 
Mark, 
eu 
s 
me 
interessava 
por 
ele. 


"Eu 
fui 
honesto", 
continuou 
Wesley. 
"Vamos 
voltar 
a 
falar 
de 
Connie 
e 
de 
voc. 
Eu 
preciso 
saber." 


"Por 
qu?" 


"Preciso 
saber 
se 
ainda 
 
possvel 
que 
ns 
trs 
nos 
encontremos", 
disse. 
"Como 
nos 
velhos 
tempos 
em 
que 
jantvamos 
juntos, 
quando 
voc 
vinha 
nos 
visitar. 
Connie 
tem 
perguntado 
por 
que 
voc 
no 
aparece 
mais 
para 
jantar 
conosco." 


"Voc 
quer 
dizer 
que 
acha 
que 
ela 
est 
desconfiando 
de 
alguma 
coisa?" 


"O 
que 
estou 
dizendo 
 
que 
o 
assunto 
surgiu. 
Ela 
gosta 
de 
voc. 
Agora 
que 
eu 
e 
voc 
estamos 
trabalhando 
juntos, 
ela 
se 
pergunta 
por 
que 
v 
voc 
menos 
do 
que 
antes, 
quando 
era 
de 
se 
esperar 
que 
a 
visse 
mais 
vezes." 


"Eu 
entendo 
por 
que 
ela 
estranha 
isso", 
comentei. 


#
"Para 
onde 
estamos 
indo?" 


Eu 
estivera 
na 
casa 
de 
Benton 
e 
o 
vira 
com 
a 
mulher 
e 
os 
filhos. 
Lembrei-me 
da 
forma 
como 
se 
tocavam, 
dos 
risos 
e 
das 
aluses 
a 
coisas 
que 
eu 
no 
entendia, 
quando 
eles 
partilhavam 
seu 
mundo 
com 
os 
amigos. 
Mas 
naquela 
poca 
era 
diferente, 
porque 
eu 
estava 
apaixonada 
pelo 
Mark, 
que 
agora 
estava 
morto. 


Soltei 
a 
mo 
de 
Wesley. 
Os 
txis 
passavam 
por 
ns 
em 
meio 
a 
jatos 
de 
neve, 
e 
as 
luzes 
brilhavam 
calidamente 
nas 
janelas 
dos 
edifcios. 
O 
parque 
tinha 
o 
brilho 
branco 
dos 
fantasmas 
sob 
os 
altos 
postes 
de 
iluminao. 


"No 
posso 
fazer 
isso", 
disse-lhe. 


Entramos 
no 
Central 
Park. 


"Sinto 
muito, 
mas 
simplesmente 
no 
posso 
me 
encontrar 
com 
voc 
e 
com 
Connie 
juntos", 
acrescentei. 


"Pensei 
que 
tinha 
dito 
que 
era 
capaz 
de 
disciplinar 
suas 
emoes." 


"Pra 
voc 
 
fcil 
dizer 
isso 
porque 
no 
tenho 
outra 
pessoa 
em 
minha 
vida." 


"A 
certa 
altura 
voc 
vai 
ter 
que 
enfrentar 
essa 
situao. 
Mesmo 
que 
a 
gente 
termine 
tudo, 
ter 
que 
encarar 
a 
minha 
famlia. 
Se 
continuarmos 
trabalhando 
juntos, 
se 
voltamos 
a 
ser 
meros 
amigos." 


"Quer 
dizer 
que 
voc 
est 
me 
dando 
uni 
ultimato." 


"Voc 
sabe 
que 
no." 


Apressei 
o 
passo. 
Desde 
a 
primeira 
vez 
que 
fizemos 
amor, 
minha 
vida 
se 
tornou 
cem 
vezes 
mais 
complicada. 
Com 
certeza, 
eu 
no 
ignorava 
as 
implicaes 
disso. 
Sobre 
a 
minha 
mesa 
de 
autpsias, 
eu 
tinha 
visto 
mais 
de 
um 
infeliz 
que 
tinha 
decidido 
se 
envolver 
com 
uma 
pessoa 
casada. 
As 
pessoas 
destruam 
a 
si 
mesmas 
e 
aos 
outros. 
Elas 
ficavam 
mentalmente 
doentes 
e 
eram 
processadas. 


Passamos 
pela 
Tavern 
on 
lhe 
Green. 
Olhei 
para 
o 
Dakota 
 
minha 
esquerda, 
onde 
John 
Lennon 
fora 
assassinado 
anos 
atrs. 
A 
estao 
de 
metr 
ficava 
muito 
perto 
de 
Cherry 
Hill, 
e 
eu 
me 
perguntava 
se 
Gault 
tinha 
sado 
do 
parque 
e 
vindo 
para 
c. 
Parei 
e 
fiquei 
olhando. 


#
Naquela 
noite, 
8 
de 
dezembro, 
eu 
estava 
indo 
para 
casa, 
depois 
de 
uma 
sesso 
do 
jri, 
quando 
ouvi 
no 
rdio 
do 
carro 
a 
notcia 
de 
que 
Lennon 
tinha 
sido 
assassinado 
a 
tiros, 
por 
um 
annimo 
que 
carregava 
um 
exemplar 
de 
O 
apanhador 
no 
campo 
de 
centeio. 


"Benton", 
disse, 
"Lennon 
morava 
aqui." 


"Sim. 
Ele 
foi 
morto 
bem 
na 
entrada." 


"H 
alguma 
possibilidade 
de 
que 
Gault 
tivesse 
isso 
em 
mente?" 


"Eu 
no 
havia 
pensado 
nisso." 


"A 
gente 
deve 
considerar 
essa 
possibilidade?" 


Ele 
ficou 
calado, 
enquanto 
olhava 
para 
o 
Dakota 
com 
seus 
tijolos 
lavados 
a 
jato 
de 
areia, 
ferro 
batido 
e 
remates 
de 
cobre. 


"Devemos 
considerar 
todas 
as 
possibilidades", 
respondeu 
ele. 


"Gault 
era 
adolescente 
quando 
Lennon 
foi 
assassinado. 
Pelo 
que 
me 
lembro 
do 
seu 
apartamento 
em 
Richmond, 
ele 
parecia 
preferir 
msica 
clssica 
e 
jazz. 
No 
me 
recordo 
de 
ter 
visto 
nenhum 
lbum 
do 
Lennon 
ou 
dos 
Beatles." 


"Se 
ele 
linha 
Lennon 
em 
mente", 
disse 
Wesley, 
"no 
seria 
por 
causa 
de 
sua 
musica. 
Gault 
devia 
estar 
fascinado 
pelo 
crime 
sensacional." 


Continuamos 
a 
andar. 
"No 
existe 
gente 
bastante 
para 
fazer 
as 
perguntas 
que 
nos 
interessam", 
comentei. 


"A 
gente 
precisaria 
de 
todo 
um 
departamento 
de 
polcia. 
Talvez 
o 
FBI 
inteiro." 


"Ser 
que 
 
possvel 
verificarmos 
se 
algum 
coma 
mesma 
descrio 
de 
Gault 
foi 
visto 
nos 
arredores 
do 
Dakota?", 
perguntei. 


"Diabo, 
ele 
podia 
estar 
hospedado 
l", 
Wesley, 
imaginou, 
amargamente. 
"Pelo 
menos 
at 
agora, 
dinheiro 
parece 
no 
ser 
problema 
para 
ele." 


Perto 
do 
Museu 
de 
Histria 
Natural, 
vimos 
o 
toldo 
cor-de-rosa 
coberto 
de 
neve 
de 
um 
restaurante 
chamado 
Scaletta, 
que 
me 
surpreendeu 
por 
estar 
aberto 
e 
movimentado. 
Um 
casal 
entrou 
e 
desceu 
as 
escadas, 
e 
me 
perguntei 
se 
no 
devamos 
fazer 
o 
mesmo. 
Para 
falar 
a 
verdade, 
eu 
estava 
comeando 
a 
sentir 
fome, 
e 
Wesley 
no 
precisava 


#
perder 
mais 
peso. 


"Voc 
est 
disposto 
a 
entrar 
aqui?", 
perguntei-lhe. 


"Claro. 
Scaletta 
 
parente 
seu", 
brincou. 


"Acho 
que 
no." 


Fomos 
at 
a 
entrada, 
onde 
o 
maitre 
nos 
informou 
que 
o 
restaurante 
estava 
fechado. 


"No 
 
o 
que 
parece", 
disse, 
sentindo-me 
subitamente 
cansada 
e 
sem 
nimo 
para 
continuar 
andando. 


"Mas 
estamos, 
senhora." 
Ele 
era 
pequeno, 
careca 
e 
usava 
um 
smoking 
com 
uma 
faixa 
na 
cintura 
vermelho 
brilhante. 
"Trata-se 
de 
uma 
festa 
particular." 


"Quem 
 
Scaletta?", 
perguntou-lhe 
Wesley. 


"Por 
que 
o 
senhor 
quer 
saber?" 


" 
um 
nome 
interessante, 
muito 
parecido 
com 
o 
meu", 
respondi. 


"E 
qual 
 
o 
da 
senhora?" 


"Scarpetta." 


Ele 
olhou 
para 
Wesley 
com 
ateno, 
e 
pareceu 
ficar 
meio 
desconcertado. 
"Sim, 
claro. 
Mas 
ele 
no 
est 
com 
a 
senhora 
esta 
noite?" 


Olhei 
para 
ele 
sem 
entender 
nada. 
"Quem 
no 
est 
comigo?" 


"O 
senhor 
Scarpetta. 
Ele 
foi 
convidado. 
Sinto 
muito 
no 
ter 
previsto 
que 
a 
senhora 
viria." 


"Convidado 
para 
qu?" 
Eu 
no 
tinha 
a 
menor 
idia 
do 
que 
ele 
estava 
falando. 
Meu 
nome 
era 
raro. 
Eu 
nunca 
encontrei 
nenhuma 
outra 
pessoa 
chamada 
Scarpetta, 
nem 
mesmo 
na 
Itlia. 


O 
maitre 
hesitou. 
"A 
senhora 
no 
 
parente 
do 
Scarpetta 
que 
costuma 
vir 
aqui?" 


"Que 
Scarpetta?", 
disse, 
incomodada. 


"Um 
homem. 
Ele 
tem 
vindo 
aqui 
muitas 
vezes 
nos 
ltimos 
tempos. 
Um 
cliente 
excelente. 
Ele 
foi 
convidado 
para 
a 
nossa 
festa 
de 
Natal. 
Quer 
dizer 
ento 
que 
os 
senhores 
no 
foram 
convidados 
por 
ele?" 


"Conte-nos 
mais 
sobre 
ele." 


"Um 
homem 
jovem. 
Ele 
gasta 
muito 
dinheiro." 
O 
maitre 
sorriu. 


Percebi 
que 
Wesley 
ia 
ficando 
cada 
vez 
mais 
interessado. 
"Pode 


#
descrev-lo?", 
perguntou 
ele. 


"H 
muita 
gente 
aqui. 
A 
gente 
reabre 
amanh..." 


Wesley 
mostrou 
discretamente 
seu 
distintivo 
da 
polcia. 
O 
homem 
olhou-o 
sem 
se 
perturbar. 


"Claro." 
Ele 
foi 
gentil 
e 
tranqilo. 
"Vou 
conseguir 
uma 
mesa." 


"No, 
no", 
disse 
Wesley. 
"No 
 
necessrio. 
Mas 
precisamos 
fazer 
mais 
algumas 
perguntas 
sobre 
esse 
homem 
que 
afirma 
chamar-se 
Scarpetta." 


"Entrem." 
Ele 
nos 
fez 
entrar. 
"Se 
a 
gente 
fica 
conversando, 
 
melhor 
sentar. 
Se 
a 
gente 
senta, 
 
melhor 
comer. 
Meu 
nome 
 
Eugnio." 


Ele 
nos 
levou 
a 
uma 
mesa 
coberta 
com 
uma 
toalha 
cor-de-rosa, 
num 
canto 
bem 
distante 
da 
multido 
de 
convidados 
que, 
em 
trajes 
de 
festa, 
ocupava 
quase 
todo 
o 
salo. 
Faziam 
brindes, 
comiam, 
sorriam 
 
maneira 
dos 
italianos. 


"Nosso 
menu 
de 
hoje 
 
noite 
no 
est 
completo", 
desculpou-se 
Eugnio. 
"Posso 
lhes 
servir 
costoletta 
di 
vitello 
allagriglia, 
ou 
pollo 
al 
limone 
com 
quem 
sabe 
um 
pouco 
de 
cappellin 
iprimavera, 
ou 
rigatoni 
con 
broccolo. 


Aceitamos 
tudo 
e 
pedimos 
tambm 
uma 
garrafa 
de 
Dolcetto 
D'Alba, 
que 
era 
um 
dos 
meus 
favoritos, 
e 
meio 
difcil 
de 
encontrar. 


Eugnio 
foi 
pegar 
nosso 
vinho 
enquanto 
minha 
cabea 
girava 
e 
eu 
sentia 
um 
aperto 
de 
medo 
no 
corao. 


"Nem 
pense 
em 
levantar 
hipteses", 
disse 
a 
Wesley. 


"Ainda 
no 
estou 
levantando 
hiptese 
nenhuma." 


Nem 
era 
necessrio 
que 
ele 
o 
fizesse. 
O 
restaurante 
ficava 
muito 
perto 
da 
estao 
do 
metr 
onde 
Gault 
fora 
visto. 
O 
restaurante 
Scaletta 
deve 
ter 
chamado 
sua 
ateno 
por 
causa 
do 
nome. 
Deve 
t-lo 
feito 
pensar 
em 
mim, 
e 
eu 
era 
uma 
das 
pessoas 
em 
quem 
ele 
mais 
pensava. 


Quase 
imediatamente, 
Eugnio 
voltou 
com 
nossa 
garrafa. 
Ele 
tirou 
o 
lacre 
e 
foi 
girando 
o 
saca-rolhas 
enquanto 
falava. 
"Veja, 
1979, 
um 
vinho 
muito 
suave. 
Muito 
parecido 
com 
um 
Beaujolais." 
Ele 
tirou 
a 
rolha 
e 
ps 
um 
pouco 
para 
que 
eu 
experimentasse. 


Fiz 
que 
sim 
com 
a 
cabea, 
e 
ele 
encheu 
nossos 
copos. 


#
"Queira 
sentar-se, 
Eugnio", 
disse 
Wesley. 
"Tome 
um 
pouco 
de 
vinho. 
Fale-nos 
de 
Scarpetta." 


Ele 
deu 
de 
ombros. 
"O 
que 
eu 
posso 
dizer 
 
que 
a 
primeira 
vez 
em 
que 
ele 
esteve 
aqui 
foi 
h 
algumas 
semanas. 
Tenho 
certeza 
de 
que 
no 
o 
vira 
antes. 
Para 
dizer 
a 
verdade, 
ele 
era 
um 
tanto 
esquisito." 


"Esquisito 
como?", 
perguntou 
Wesley. 


"Na 
aparncia. 
Cabelos 
vermelhos 
brilhantes, 
magro, 
roupas 
diferentes. 
Sabe, 
um 
casaco 
de 
couro 
preto 
comprido, 
calas 
italianas 
e 
acho 
que 
uma 
camiseta." 
Ele 
levantou 
os 
olhos 
para 
o 
teto 
e 
deu 
de 
ombros 
novamente. 
"D 
pra 
imaginar 
uma 
pessoa 
com 
calas 
finas 
e 
sapatos 
Armani 
usando 
uma 
camiseta 
que 
alm 
do 
mais 
 
amarrotada?" 


"Ele 
 
italiano?", 
perguntei. 


"Oh, 
no. 
Ele 
podia 
enganar 
muita 
gente, 
mas 
no 
a 
mim." 
Eugnio 
balanou 
a 
cabea 
e 
se 
serviu 
de 
um 
pouco 
de 
vinho. 
"Ele 
 
americano. 
Talvez 
falasse 
italiano, 
porque 
usou 
a 
parte 
italiana 
do 
menu 
e 
pediu 
em 
italiano, 
sabe? 
No 
quis 
pedir 
em 
ingls. 
Na 
verdade, 
ele 
era 
muito 
bom." 


"Ele 
pagou 
com 
o 
qu?" 


"Sempre 
com 
carto 
de 
crdito." 


"E 
o 
nome 
que 
estava 
no 
carto 
era 
Scarpetta?", 
perguntei. 


"Sim, 
tenho 
certeza. 
Sem 
o 
primeiro 
nome. 
S 
a 
inicial 
K. 
Ele 
disse 
que 
seu 
nome 
era 
Kirk. 
Que 
no 
 
bem 
um 
nome 
italiano." 
Ele 
sorriu 
e 
deu 
de 
ombros. 


"Quer 
dizer 
que 
ele 
era 
uma 
pessoa 
amistosa", 
disse 
Wesley, 
enquanto 
aquela 
informao 
continuava 
martelando 
minha 
cabea. 


"s 
vezes 
era 
muito 
amistoso, 
e 
s 
vezes 
nem 
tanto. 
Ele 
sempre 
tinha 
alguma 
coisa 
para 
ler. 
Jornais." 


"Ele 
estava.sozinho?", 
perguntou 
Wesley. 


"Sempre." 


"Qual 
era 
o 
carto?". 


Ele 
pensou 
um 
pouco. 
"American 
Express. 
Acho 
que 
 
um 
bom 
carto." 


#
Wesley 
olhou 
para 
mim. 
"Voc 
est 
com 
o 
seu 
a?" 


"Acho 
que 
sim." 


Tirei 
minha 
carteira 
da 
bolsa. 
O 
carto 
no 
estava 
l. 


"No 
entendo." 
Senti 
o 
sangue 
me 
subir 
 
cabea. 


"Qual 
foi 
a 
ltima 
vez 
que 
voc 
o 
usou?" 


"No 
sei", 
respondi, 
meio 
zonza. 
"No 
costumo 
us-lo 
muito. 
Muitos 
lugares 
no 
o 
aceitam." 


Ficamos 
em 
silncio. 
Wesley 
tomou 
um 
gole 
de 
vinho 
e 
deu 
uma 
olhada 
na 
sala. 
Eu 
estava 
assustada 
e 
perplexa. 
No 
sabia 
o 
que 
isso 
podia 
significar. 
Por 
que 
Gault 
viera 
aqui, 
fingindo 
ser 
eu? 
Como 
conseguira 
meu 
carto 
de 
crdito? 
De 
ir 
pente, 
veio-me 
 
mente 
uma 
negra 
suspeita. 
Quntico! 


Eugnio 
sara 
da 
nossa 
mesa 
para 
ver 
os 
pratos 
que 
pedramos. 


"Benton", 
disse, 
com 
o 
sangue 
latejando 
nas 
veias. 
"Foi 
Lucy 
quem 
usou 
o 
carto 
pela 
ltima 
vez." 


"Logo 
que 
ela 
comeou 
a 
trabalhar 
conosco?", 
perguntou 
ele, 
franzindo 
o 
cenho. 


"Sim. 
Eu 
lhe 
passei 
o 
carto 
quando 
ela 
saiu 
do 
UVA 
e 
estava 
indo 
 
Academia. 
Teria 
que 
ficar 
indo 
e 
voltando 
para 
me 
visitar. 
Ela 
iria 
viajar 
a 
Miami 
nos 
feriados 
e 
tudo 
o 
mais. 
Eu 
lhe 
dei 
o 
meu 
carto 
para 
que 
ela 
usasse, 
principalmente 
em 
passagens 
de 
avio 
e 
de 
trem." 


"E 
depois 
disso 
voc 
nunca 
mais 
o 
viu?" 


"Pra 
falar 
a 
verdade, 
no 
pensei 
mais 
nisso. 
Normalmente 
uso 
Mastercard 
ou 
Visa, 
e 
acho 
que 
meu 
American 
Express 
s 
 
vlido 
at 
fevereiro. 
Eu 
devo 
ter 
pensado 
que 
a 
Lucy 
poderia 
us-lo 
at 
essa 
data." 


" 
melhor 
voc 
ligar 
para 
ela." 


"Vou 
ligar." 


"Porque 
se 
o 
carto 
no 
estiver 
com 
ela, 
Kay, 
podemos 
concluir 
que 
Gault 
o 
roubou 
quando 
o 
Departamento 
de 
Pesquisas 
em 
Engenharia 
sofreu 
um 
arrombamento, 
em 
outubro 
passado." 


Era 
isso 
o 
que 
eu 
temia. 


"E 
as 
suas 
contas?", 
perguntou 
ele. 
"Voc 
chegou 
a 
notar 
alguma 
cobrana 
inesperada 
nos 
ltimos 
meses?" 


#
"No", 
respondi. 
"No 
me 
lembro 
de 
nenhuma 
despesa 
nem 
em 
outubro, 
nem 
em 
novembro." 
Fiz 
uma 
pausa. 
"Voc 
acha 
que 
devo 
anular 
o 
carto, 
ou 
podemos 
us-lo 
para 
tentar 
localizar 
Gault?" 


"Tentar 
localiz-lo 
com 
o 
carto 
pode 
ser 
um 
problema." 


"Por 
causa 
do 
dinheiro." 


Wesley 
hesitou. 
"Vou 
ver 
o 
que 
posso 
fazer." 


Eugnio 
voltou 
com 
a 
nossa 
massa, 
dizendo 
que 
estava 
tentando 
se 
lembrar 
de 
mais 
alguma 
coisa. 


"Acho 
que 
a 
ltima 
vez 
que 
esteve 
aqui 
foi 
na 
quinta-feira 
 
noite." 
Ele 
contou 
nos 
dedos. 
"H 
quatro 
dias. 
Ele 
gosta 
de 
bistecca, 
de 
carpaccio. 
Hum... 
deixe-me 
ver. 
Comeu 
funghi 
e 
carciofi 
uma 
vez 
e 
capelline 
puro. 
Sem 
molho, 
s 
com 
um 
pouco 
de 
manteiga. 
No 
convidamos 
para 
a 
festa. 
Todos 
os 
anos 
fazemos 
isso 
para 
mostrar 
o 
nosso 
apreo 
pelos 
clientes 
especiais." 


"Ele 
fumou?", 
perguntou 
Wesley. 


"Fumou 
sim." 


"Voc 
se 
lembra 
o 
qu?" 


"Nat 
Shermans." 


"E 
o 
que 
ele 
bebeu?" 


Ele 
gosta 
de 
scoth 
caro 
e 
bom 
vinho. 
S 
que 
ele 
 
um 
tanto...", 
ele 
levantou 
o 
nariz, 
"esnobe. 
Pensa 
que 
s 
os 
franceses 
fazem 
vinho." 
Eugnio 
riu. 
"Ele 
normalmente 
pede 
Chteau 
Carbonnieux 
ou 
Chteau 
Olivier, 
e 
a 
safra 
s 
pode 
ser 
at 
de 
1989." 


"Ele 
s 
tomou 
vinho 
branco?", 
perguntei. 


"Nada 
de 
tinto. 
Nesse 
ele 
nem 
toca. 
Mandei 
que 
lhe 
servissem 
uma 
taa 
do 
vinho 
da 
casa 
e 
ele 
devolveu." 


Eugnio 
e 
Wesley 
trocaram 
cartes 
de 
visita 
e 
outras 
informaes, 
e 
ento 
o 
nosso 
maitre 
voltou 
a 
ateno 
para 
a 
festa, 
que 
agora 
estava 
comeando 
a 
ficar 
animada. 


"Kay", 
disse 
Wesley, 
"voc 
tem 
alguma 
outra 
explicao 
para 
o 
que 
acabamos 
de 
ouvir?" 


"No", 
respondi. 
"A 
aparncia 
do 
homem 
 
a 
mesma 
de 
Gault. 
Por 
que 
ele 
faz 
isso 
comigo?" 
Meu 
medo 
estava 
se 
transformando 
em 


#
fria. 


O 
olhar 
de 
Wesley 
estava 
duro. 
"Pense. 
Aconteceu 
alguma 
coisa 
estranha 
nos 
ltimos 
tempos 
que 
voc 
possa 
me 
contar? 
Telefonemas 
estranhos, 
cartas, 
problemas?" 


"Nada. 
Nenhum 
telefonema 
estranho, 
nem 
nada 
importuno. 
Recebi 
algumas 
correspondncias 
esquisitas, 
mas 
isso 
 
comum 
no 
meu 
trabalho." 


"Nada 
mais? 
E 
o 
seu 
alarme 
contra 
ladres? 
Ele 
tem 
disparado 
mais 
do 
que 
o 
normal?" 


Balancei 
a 
cabea, 
devagar. 
"Ele 
disparou 
algumas 
vezes 
este 
ms, 
mas 
no 
h 
nenhum 
sinal 
de 
que 
esteja 
avariado. 
E 
no 
acho 
que 
Gault 
tenha 
ficado 
por 
um 
tempo 
em 
Richmond." 


"Voc 
precisa 
ter 
muito 
cuidado", 
disse 
ele, 
quase 
impaciente, 
como 
se 
eu 
no 
estivesse 
tomando 
cuidado. 


"Eu 
sempre 
tenho 
muito 
cuidado", 
respondi. 


#
6 


No 
dia 
seguinte, 
a 
cidade 
voltou 
ao 
trabalho, 
e 
eu 
levei 
Marino 
para 
almoar 
no 
Tatou, 
pois 
adiava 
que 
ns 
dois 
precisvamos 
de 
um 
ambiente 
estimulante 
antes 
de 
irmos 
a 
Brooklyn 
Heights 
encontrar 
a 
comandante 
Penn. 


Havia 
um 
jovem 
tocando 
harpa, 
o 
a 
maioria 
das 
mesas 
estava 
ocupada 
por 
mulheres 
e 
homens 
atraentes 
e 
bem 
vestidos, 
que 
provavelmente 
pouco 
conheciam 
alm 
dos 
seus 
grandes 
negcios 
que 
consumiam 
suas 
vicias. 


Fiquei 
perturbada, 
sentindo-me 
deslocada 
naquele 
ambiente. 
Senti-me 
sozinha, 
observando, 
do 
outro 
lado 
da 
mesa, 
a 
gravata 
barata 
de 
Marino 
e 
sua 
jaqueta 
de 
veludo 
verde, 
as 
manchas 
de 
nicotina 
nas 
suas 
grandes 
unhas 
estiladas. 
Embora 
eu 
gostasse 
de 
sua 
companhia, 
no 
poderia 
partilhar 
meus 
pensamentos 
mais 
profundos 
com 
ele. 
Ele 
no 
iria 
entender. 


"Acho 
que 
voc 
pode 
tomar 
um 
copo 
de 
vinho 
no 
almoo, 
doutora", 
disse 
Marino, 
olhando-me 
com 
ateno. 
"Pode 
tomar, 
eu 
vou 
dirigir." 


"No, 
no 
vai. 
Vamos 
tomar 
um 
txi." 


"O 
que 
eu 
quero 
dizer 
 
que 
como 
voc 
no 
vai 
dirigir, 
pode 
relaxar." 


"Na 
verdade, 
voc 
 
que 
est 
querendo 
 
tomar 
um 
copo 
de 
vinho." 


"No 
precisa 
se 
preocupar 
com 
isso", 
disse 
ele 
quando 
a 
garonete 
chegou. 
"O 
que 
voc 
tem 
a 
que 
merea 
ser 
bebido?", 
perguntou-lhe. 


Ela 
reagiu 
bem, 
no 
se 
mostrando 
ofendida 
quando 
comeou 
a 
desfiar 
uma 
lista 
impressionante, 
que 
deixou 
Marino 
perdido. 
Sugeri 
que 
ele 
tomasse 
um 
Beringer 
reserve 
cabernet 
que 
sabia 
ser 
bom; 
depois 
pedimos 
sopa 
de 
lentilhas 
e 
espaguete 
 
bolonhesa. 


"Essa 
defunta 
est 
me 
botando 
louco", 
comentou, 
quando 
a 
garonete 
saiu. 


#
Inclinando-se 
para 
mim, 
acrescentou: 
"Ele 
a 
pegou 
por 
algum 
motivo". 


"Provavelmente 
a 
pegou 
porque 
ela 
estava 
l", 
disse-lhe, 
cheia 
de 
raiva. 
"Suas 
vtimas 
nada 
significam 
para 
ele." 


"Sim... 
bem, 
eu 
acho 
que 
deve 
haver 
algo 
alm 
disso. 
E 
eu 
queria 
saber 
tambm 
o 
que 
 
que 
trouxe 
esse 
desgraado 
aqui 
para 
Nova 
York. 
Voc 
acha 
que 
ele 
a 
encontrou 
no 
museu?" 


"Deve 
ter 
sido. 
Talvez 
a 
gente 
descubra 
alguma 
coisa 
dando 
um 
pulo 
l, 
antes 
de 
irmos 
a 
Brooklyn 
Heights." 


"Paga-se 
para 
entrar 
no 
museu?" 


"Sim, 
se 
voc 
vai 
ver 
as 
exposies." 


"Mesmo 
com 
todo 
aquele 
ouro 
na 
boca, 
no 
me 
parece 
que 
ela 
dispunha 
de 
muito 
dinheiro 
quando 
morreu." 


"Eu 
tambm 
me 
surpreenderia 
se 
ela 
tivesse. 
Mas 
de 
qualquer 
forma, 
Gault 
e 
ela 
entraram 
no 
museu. 
Eles 
foram 
vistos 
saindo." 


"Talvez 
ele 
a 
tenha 
encontrado 
antes, 
levou-a 
at 
l 
e 
pagou-lhe 
o 
ingresso." 


A 
comida 
estava 
maravilhosa, 
e 
eu 
ficaria 
l 
por 
horas. 


Sentia-me 
totalmente 
exausta, 
como 
algumas 
vezes 
me 
acontece. 
Meu 
temperamento 
era 
produto 
de 
muita 
dor 
e 
tristeza, 
que 
vieram 
naturalmente 
quando 
eu 
era 
jovem. 
Depois, 
ao 
longo 
dos 
anos, 
aquilo 
foi 
crescendo. 
Com 
muita 
freqncia 
eu 
ficava 
deprimida, 
como 
naquele 
momento. 


Paguei 
a 
conta 
porque 
quando 
ia 
com 
Marino 
a 
um 
restaurante, 
era 
eu 
quem 
assumia 
as 
despesas. 
Marino 
no 
tinha 
condies 
de 
pagar 
o 
Tatou. 
Ele 
no 
podia 
com 
as 
despesas 
de 
Nova 
York. 
Olhando 
para 
meu 
Mastercard, 
lembrei-me 
do 
American 
Express, 
e 
isso 
me 
deprimiu 
mais 
ainda. 


Para 
ver 
a 
exposio 
sobre 
tubares 
do 
Museu 
de 
Histria 
Natural, 
tivemos 
que 
pagar 
cinco 
dlares 
cada 
um 
e 
ir 
at 
o 
terceiro 
andar. 
Marino 
subiu 
as 
escadas 
mais 
devagar 
que 
eu 
e 
tentou 
disfarar 
que 
estava 
ofeganle. 


"Diabo, 
era 
de 
se 
esperar 
que 
tivesse 
um 
elevador 
nessa 
joa", 


#
queixou-se. 


"E 
tem", 
afirmei. 
"Mas 
subir 
escada 
faz 
bem. 
Hoje 
em 
dia 
esse 
deve 
ser 
o 
nico 
tipo 
de 
exerccio 
que 
a 
gente 
faz". 


Entramos 
na 
exposio 
de 
rpteis 
e 
anfbios, 
e 
passamos 
por 
um 
crocodilo 
de 
uns 
quatro 
metros 
e 
meio, 
morto 
h 
uns 
cem 
anos, 
na 
baa 
Biscayne. 
Marino 
no 
se 
continha 
e 
ficava 
um 
bom 
tempo 
diante 
de 
cada 
uma 
das 
peas, 
apreciando 
lagartos, 
cobras, 
iguanas 
e 
lagartos 
venenosos. 


"Vamos", 
cochichei. 


"Olhe 
o 
tamanho 
desse 
bicho." 
Marino 
maravilhava-se 
diante 
dos 
despojos 
de 
uma 
serpente 
reticulada 
de 
sete 
metros. 
"J 
pensou 
voc 
topar 
com 
uma 
coisa 
dessas 
no 
mato?" 


Os 
museus 
sempre 
me 
deixavam 
fria, 
independentemente 
do 
quanto 
eu 
gostava 
deles. 
Eu 
punha 
a 
culpa 
no 
soa-lho 
de 
mrmore 
e 
no 
teto 
alto. 
Mas 
eu 
detestava 
cobras 
e 
sua 
terrvel 
peonha. 
Desprezava 
aquelas 
cuspidoras, 
lagartos 
cheios 
de 
baba, 
crocodilos 
com 
dentes 
 
mostra. 
Um 
guia 
acompanhava 
um 
grupo 
de 
jovens 
que 
estava 
fascinado 
diante 
de 
uma 
montra 
cheia 
de 
rpteis 
de 
Komodo, 
na 
Indonsia, 
e 
de 
tartarugas-de-couro, 
que 
nunca 
mais 
voltariam 
a 
andar 
na 
areia 
e 
na 
gua. 


"Eu 
recomendo 
a 
vocs", 
dizia 
o 
guia, 
com 
a 
eloqncia 
de 
um 
evangelista, 
"que 
quando 
estiverem 
na 
praia 
e 
com 
um 
copo 
de 
plstico 
na 
mo, 
o 
joguem 
no 
lixo, 
porque 
esses 
animais 
so 
uns 
analfabetos. 
Eles 
vo 
pensar 
que 
 
uma 
gua 
viva..." 


"Marino, 
vamos 
embora." 
Puxei-o 
pela 
manga. 


"Sabe, 
no 
voltei 
a 
um 
museu 
desde 
que 
eu 
era 
criana. 
Espere 
um 
pouco." 
Ele 
parecia 
surpreso. 
"Mas 
ora 
veja 
s! 


Doris 
me 
trouxe 
aqui 
uma 
vez. 
Bem 
que 
eu 
estava 
achando 
isso 
muito 
familiar." 


Doris 
era 
sua 
ex-mulher. 


"Eu 
acabara 
de 
entrar 
para 
o 
DPNY, 
e 
ela 
estava 
grvida 
de 
Rocky. 
Lembro-me 
de 
ter 
visto 
macacos 
empalhados 
e 
gorilas 
e 
de 
ter 
comentado 
com 
ela 
que 
aquilo 
dava 
azar. 
Disse-lhe 
que 
o 
menino 
ia 


#
acabar 
pulando 
de 
galho 
em 
galho 
nas 
rvores 
e 
comendo 
bananas." 


"Fao 
um 
apelo 
a 
vocs. 
Seu 
nmero 
est 
diminuindo, 
diminuindo, 
diminuindo!" 
O 
guia 
continuava 
com 
sua 
pregao 
sobre 
a 
situao 
das 
tartarugas 
marinhas. 


"Talvez 
seja 
por 
isso 
que 
tenha 
acontecido 
aquilo 
com 
ele", 
continuou 
Marino. 
"Deve 
ter 
sido 
por 
termos 
vindo 
a 
esta 
joa." 


Raramente 
eu 
ouvia 
Marino 
falar 
de 
seu 
filho 
nico. 
Para 
falar 
a 
verdade, 
embora 
eu 
conhecesse 
Marino 
to 
bem, 
nada 
sabia 
de 
seu 
filho. 


"Eu 
no 
sabia 
que 
o 
nome 
de 
seu 
filho 
era 
Rocky", 
disse-lhe 
calmamente, 
quando 
recomeamos 
a 
andar. 


"Na 
verdade, 
ele 
se 
chama 
Richard. 
Quando 
era 
criana, 
a 
gente 


o 
chamava 
de 
Ricky. 
Depois, 
no 
sei 
por 
que, 
virou 
Rocky. 
Tem 
gente 
que 
o 
chama 
de 
Rocco. 
Ele 
 
chamado 
de 
muitos 
nomes." 


"Voc 
tem 
muito 
contato 
com 
ele?" 


"Olhe 
ali 
uma 
loja 
de 
presentes. 
Quem 
sabe 
eu 
compre 
um 
chaveiro 
de 
tubaro 
ou 
alguma 
outra 
coisinha 
para 
Molly." 


"Podemos 
comprar 
sim." 


Ele 
mudou 
de 
idia. 
"Acho 
que 
vou 
levar 
uns 
pezinhos." 


Eu 
no 
queria 
forar 
a 
conversa 
sobre 
seu 
filho, 
mas 
estvamos 
falando 
dele, 
e 
eu 
achava 
que 
a 
distncia 
que 
havia 
entre 
eles 
era 
a 
causa 
de 
muitos 
dos 
seus 
problemas. 


"Onde 
est 
Rocky?", 
perguntei, 
cautelosa. 


"Numa 
cidade 
chamada 
Darien, 
l 
no 
fim 
do 
mundo." 


"Connecticut? 
Mas 
l 
no 
 
nenhum 
fim 
de 
mundo." 


"Essa 
Darien 
fica 
na 
Gergia." 


"Fico 
surpresa 
de 
s 
saber 
disso 
agora." 


"Ele 
no 
faz 
nada 
que 
possa 
te 
interessar." 
Marino 
inclinou-se 


para 
a 
frente, 
o 
rosto 
colado 
no 
vidro, 
enquanto 
observava 
dois 
tubarezinhos 
nadando 
no 
fundo 
de 
um 
aqurio. 
"Parecem 
bagres 
grandes", 
disse 
ele, 
observando-os 
olhar 
com 
olhos 
mortos, 
as 
caudas 
abanando 
na 
gua. 
Fomos 
entrando 
pela 
exposio, 
e 
no 
tivemos 
que 
enfrentar 


#
filas, 
porque 
havia 
pouca 
gente 
nesse 
dia 
de 
trabalho. 
Passamos 
por 
guerreiros 
das 
ilhas 
Kiribati, 
vestidos 
de 
palhas 
de 
coqueiro 
tranadas, 
e 
pela 
pintura 
de 
Winslow 
Romer 
sobre 
o 
Gulf 
Stream. 
Havia 
desenhos 
de 
tubares 
em 
avies. 
E 
explicava-se 
eles 
so 
capazes 
de 
perceber 
odores 
 
distncia 
aproximada 
de 
uni 
campo 
de 
futebol 
e 
cargas 
eltricas 
de 
um 
milionsimo 
de 
volt. 
Eles 
tm 
nada 
menos 
que 
quinze 
fileiras 
de 
dentes 
sobressalentes, 
e 
a 
conformao 
de 
seu 
corpo 
facilita 
o 
ataque 
rpido 
dentro 
da 
gua. 


Um 
pequeno 
filme 
mostrava 
um 
grande 
tubaro 
branco 
investindo 
contra 
uma 
gaiola 
e 
atacando 
um 
atum 
amarrado 
numa 
corda. 
O 
narrador 
explicava 
que 
os 
tubares 
so 
lendrios 
caadores 
das 
profundezas, 
perfeitas 
mquinas 
de 
matar, 
as 
mandbulas 
da 
morte, 
os 
senhores 
do 
oceano. 
So 
capazes 
de 
farejar 
uma 
gota 
de 
sangue 
em 
noventa 
e 
cinco 
litros 
de 
gua, 
e 
de 
sentir 
as 
ondas 
provocadas 
pela 
passagem 
de 
outros 
animais. 
Eles 
alcanam 
rapidamente 
sua 
presa/e 
no 
se 
sabe 
ao 
certo 
por 
que 
atacam 
seres 
humanos. 


"Vamos 
embora 
daqui", 
disse 
a 
Marino 
quando 
o 
filme 
acabou. 


Abotoei 
meu 
casaco 
e 
calcei 
minhas 
luvas, 
imaginando 
Gault 
assistindo 
ao 
espetculo 
desses 
monstros 
dilacerando 
carne, 
e 
o 
sangue 
espalhando-se 
sinistramente 
na 
gua. 
Eu 
via 
seu 
olhar 
frio 
e 
a 
perversidade 
por 
trs 
de 
seu 
risinho 
curto. 
Nos 
mais 
horripilantes 
recessos 
de 
minha 
mente, 
sabia 
que 
ele 
ria 
quando 
estava 
matando. 
Ele 
deixava 
transparecer 
toda 
a 
sua 
crueldade 
naquele 
estranho 
sorriso 
que 
eu 
vira 
nas 
vrias 
ocasies 
em 
que 
estive 
perto 
dele. 


Imaginei-o 
sentado 
no 
auditrio 
escuro 
com 
a 
mulher 
cujo 
nome 
eu 
desconhecia, 
o 
ela 
assistindo 
sem 
saber 
 
prpria 
morte 
na 
leia. 
Ela 
viu 
seu 
prprio 
sangue 
espirrar, 
sua 
prpria 
carne 
ser 
retalhada. 
Gault 
lhe 
dera 
uma 
prvia 
do 
que 
estava 
preparando 
para 
ela. 
A 
exposio 
tinha 
sido 
sua 
pr-estria. 


Voltamos 
 
rotunda, 
onde 
um 
bando 
de 
estudantes 
rodeava 
o 
fssil 
de 
um 
barossauro. 
Seu 
pescoo 
comprido 
elevava-se 
at 
o 
teto, 
como 
se 
estivesse 
tentando 
permanentemente 
proteger 
seu 
filhote 
do 


#
ataque 
de 
um 
alossauro. 
De 
longe 
se 
podiam 
ouvir 
as 
vozes 
e 
o 
barulho 
de 
passos 
ecoando 
no 
mrmore, 
enquanto 
eu 
olhava 
em 
volta. 
Funcionrios 
uniformizados 
estavam 
tranqilos 
por 
trs 
dos 
balces 
de 
entrada, 
cuidando 
para 
que 
s 
entrassem 
as 
pessoas 
que 
pagaram 
ingresso. 
Olhei 
atravs 
dos 
vidros 
das 
portas 
da 
frente 
e 
vi 
a 
neve 
suja 
acumulada 
ao 
longo 
da 
rua 
fria 
e 
cheia 
de 
gente. 


"Ela 
veio 
aqui 
para 
se 
esquentar", 
disse 
a 
Marino. 


"O 
qu?" 
Ele 
estava 
preocupado 
com 
os 
esqueletos 
dos 
dinossauros. 


"Talvez 
ela 
tenha 
vindo 
aqui 
para 
evitar 
o 
frio", 
repeti. 
"Voc 
pode 
passar 
o 
dia 
inteiro 
aqui 
olhando 
estes 
fsseis. 
Desde 
que 
no 
entre 
para 
ver 
as 
exposies, 
no 
precisa 
pagar 
nada." 


"Voc 
acha, 
ento, 
que 
foi 
aqui 
que 
Gault 
se 
encontrou 
com 
ela 
pela 
primeira 
vez?" 
Ele 
parecia 
no 
estar 
acreditando 
muito. 


"No 
sei 
se 
foi 
a 
primeira 
vez", 
respondi. 


As 
chamins 
de 
tijolos 
estavam 
quietas, 
e 
para 
alm 
dos 
trilhos 
de 
proteo 
da 
Queens 
Express 
way 
havia 
desolados 
edifcios 
de 
concreto 
e 
ao. 


Nosso 
txi 
passava 
por 
edifcios 
deprimentes 
e 
lojas 
que 
vendiam 
peixe 
seco 
e 
defumado, 
mrmores 
e 
ladrilhos. 
Espirais 
de 
arame 
farpado 
encimavam 
cercas 
de 
fios 
de 
ao 
tranados, 
e 
havia 
lixo 
 
beira 
do 
caminho 
e 
agarrado 
s 
rvores, 
quando 
entramos 
em 
Brooklyn 
Heights, 
dirigindo-nos 
ao 
Departamento 
de 
Trnsito, 
na 
rua 
Jay. 


Um 
agente 
trajando 
cala 
do 
uniforme 
azul-marinho 
e 
suter 
de 
comando 
acompanhou-nos 
ao 
segundo 
andar, 
onde 
fomos 
apresentados 
ao 
escritrio 
trs 
estrelas 
de 
Francs 
Penn. 
Ela 
teve 
a 
delicadeza 
de 
nos 
receber 
com 
caf 
e 
biscoitinhos 
de 
Natal, 
na 
mesa 
onde 
deveramos 
discutir 
o 
crime 
mais 
hediondo 
da 
histria 
do 
Central 
Park. 


"Boa 
tarde", 
disse 
ela, 
apertando 
nossas 
mos 
com 
firmeza. 
"Por 
favor, 
sentem-se, 
e 
vamos 
tirar 
umas 
calorias 
dos 
biscoitinhos. 
A 
gente 
sempre 
faz 
isso. 
Capito, 
quer 
o 
seu 
com 
creme 
e 
acar?" 


"Sim." 


#
Ela 
riu 
um 
pouquinho. 
"Acho 
que 
voc 
quer 
dizer 
que 
aceita 
os 
dois. 
Doutora 
Scarpetta, 
tenho 
a 
impresso 
de 
que 
toma 
seu 
caf 
preto." 


"Tomo 
sim", 
disse, 
olhando-a 
com 
uma 
curiosidade 
cada 
vez 
maior. 


"E 
a 
senhora 
provavelmente 
no 
come 
biscoitos." 


"No." 
Tirei 
o 
casaco 
de 
frio 
e 
sentei 
numa 
cadeira. 


A 
comandante 
Penn 
trajava 
um 
conjunto 
azul-escuro 
com 
botes 
de 
peltre 
e 
uma 
blusa 
branca 
de 
colarinho 
alto. 
Ela 
no 
precisava 
de 
uniforme 
para 
inspirar 
respeito, 
embora 
no 
fosse 
nem 
severa, 
nem 
fria. 
Eu 
no 
diria 
que 
ela 
tinha 
um 
comportamento 
militar; 
sua 
postura 
era 
antes 
digna, 
e 
tive 
a 
impresso 
de 
ter 
notado 
ansiedade 
em 
seus 
olhos 
castanhos. 


"Pelo 
que 
consta, 
ou 
o 
senhor 
Gault 
encontrou 
a 
vtima 
no 
museu 
ou 
antes", 
comeou 
ela. 


" 
curioso 
voc 
dizer 
isso", 
comentei. 
"Acabamos 
de 
passar 
no 
museu." 


"Segundo 
um 
dos 
guardas 
de 
segurana, 
uma 
mulher 
cujos 
traos 
coincidem 
com 
os 
da 
vtima 
foi 
vista 
passeando 
pela 
rea 
da 
rotunda. 
A 
certa 
altura 
foi 
vista 
conversando 
com 
um 
homem, 
que 
comprou 
dois 
ingressos 
para 
a 
exposio. 


Na 
verdade, 
eles 
foram 
observados 
por 
vrios 
empregados 
do 
museu, 
por 
causa 
de 
sua 
aparncia 
estranha." 


"Que 
explicao 
voc 
daria 
para 
a 
presena 
da 
mulher 
no 
museu?", 
perguntei. 


"A 
impresso 
das 
pessoas 
que 
a 
viram 
foi 
de 
que 
ela 
no 
tinha 
onde 
morar 
e 
entrou 
no 
museu 
para 
se 
aquecer." 


"Eles 
no 
expulsam 
esse 
tipo 
de 
gente?", 
disse 
Marino. 


"Quando 
podem." 
Ela 
fez 
uma 
pausa. 
"Se 
eles 
causam 
algum 
tipo 
de 
problema, 
com 
certeza." 


"Imagino 
que 
ela 
no 
estava 
criando 
problemas", 
conclu. 


A 
comandante 
Penn 
pegou 
o 
caf. 
"Ela 
parecia 
ser 
tranqila 
e 
discreta. 
Parecia 
interessada 
nos 
esqueletos 
dos 
dinossauros, 
e 
no 


#
parava 
de 
dar 
voltas 
em 
torno 
deles." 


"Ela 
conversou 
com 
algum?" 


"Ela 
perguntou 
onde 
era 
o 
toalete 
das 
mulheres." 


"Isso 
pode 
significar 
que 
ela 
nunca 
tinha 
estado 
l 
antes", 
afirmei. 
"Ela 
falava 
com 
algum 
sotaque?" 


"Se 
falava, 
ningum 
lembra." 


"Ento 
ela 
no 
deve 
ser 
estrangeira", 
supus. 


"Algum 
fez 
algum 
comentrio 
sobre 
suas 
roupas?", 
perguntou 
Marino. 


"Um 
casaco 
masculino 
 
talvez 
marrom, 
ou 
preto. 
Um 
bon 
do 
Atlanta 
Braves, 
do 
beisebol, 
azul-marinho 
ou 
preto. 
Provavelmente 
estava 
usando 
jeans 
e 
botas. 
Isso 
 
tudo 
o 
que 
as 
pessoas 
conseguem 
lembrar." 


Ficamos 
calados, 
perdidos 
em 
nossos 
pensamentos. 


Limpei 
a 
garganta. 
"E 
ento?", 
perguntei. 


"Ento 
ela 
foi 
vista 
falando 
com 
um 
homem, 
e 
a 
descrio 
de 
seus 
trajes 
 
interessante. 
As 
pessoas 
se 
lembram 
que 
ele 
usava 
um 
sobretudo 
muito 
extravagante. 
Era 
preto 
e 
tinha 
o 
corte 
de 
uma 
capa 
de 
soldado, 
do 
tipo 
que 
a 
gente 
associa 
s 
da 
Gestapo 
na 
Segunda 
Guerra. 
O 
pessoal 
do 
museu 
tambm 
acha 
que 
ele 
estava 
de 
botas." 


Lembrei-me 
das 
marcas 
de 
sapatos 
estranhas 
na 
cena 
do 
crime, 
e 
do 
casaco 
de 
couro 
preto 
mencionado 
por 
Eugnio 
no 
Scaletta. 


"Os 
dois 
foram 
vistos 
em 
muitos 
outros 
pontos 
do 
museu, 
como 
na 
exposio 
sobre 
tubares", 
continuou 
Penn. 
"O 
homem 
comprou 
uma 
boa 
quantidade 
de 
livros 
na 
loja 
de 
presentes." 


"Sabe 
que 
tipo 
de 
livro?", 
perguntou 
Ma 
ri 
no. 


"Sobre 
tubares, 
incluindo 
fotografias 
com 
detalhes 
escabrosos 
de 
pessoas 
que 
foram 
atacadas 
por 
tubares." 


"Ele 
pagou 
os 
livros 
com 
dinheiro?", 
perguntei. 


"Receio 
que 
sim." 


"Depois 
disso, 
eles 
saram 
do 
museu 
e 
ele 
recebeu 
a 
intimao 
na 
estao 
do 
metr." 


Ela 
assentai. 
"Imagino 
que 
esta 
curiosa 
em 
saber 
como 
ele 
se 


#
identificou." 


"Sim. 
Como?" 


"O 
nome 
na 
carteira 
de 
motorista 
era 
Frank 
Benelli, 
italiano 
de 
Verona, 
trinta 
e 
trs 
anos." 


"Verona?", 
perguntei. 
"Interessante. 
Meus 
avs 
eram 
de 
l." 


Marino 
e 
a 
comandante 
me 
lanaram 
um 
rpido 
olhar. 


"Aquele 
verme 
falava 
com 
sotaque 
italiano?", 
perguntou 
Marino. 


"O 
agente 
se 
lembra 
de 
que 
seu 
ingls 
era 
capenga, 
com 
forte 
sotaque 
italiano. 
Voc 
quer 
dizer 
que 
Gault 
no 
tem 
sotaque?", 
perguntou 
Penn. 


"Gault 
nasceu 
em 
Albany, 
na 
Gergia", 
respondi. 
"Portanto, 
ele 
no 
tem 
nenhum 
sotaque 
italiano, 
o 
que 
no 
quer 
dizer 
que 
ele 
no 
possa 
simular 
um." 


Contei-lhes 
o 
que 
Wesley 
e 
eu 
havamos 
descoberto 
na 
noite 
anterior, 
no 
Scaletta. 


"Sua 
sobrinha 
confirmou 
que 
o 
carto 
de 
crdito 
foi 
roubado?", 
quis 
saber 
ela. 


"Ainda 
no 
consegui 
entrar 
em 
contato 
com 
Lucy." 


Ela 
pegou 
um 
pedacinho 
de 
biscoito, 
f-lo 
deslizar 
entre 
os 
lbios, 
e 
disse: 
"O 
agente 
que 
lavrou 
a 
intimao 
cresceu 
numa 
famlia 
italiana 
aqui 
em 
Nova 
York, 
doutora 
Scarpetta. 
Ele 
achou 
que 
o 
sotaque 
era 
autntico. 
Gault 
deve 
ser 
muito 
bom 
nisso." 


"Disso 
tenho 
certeza." 


"Ele 
estudou 
italiano 
no 
secundrio 
ou 
na 
universidade?" 


"No 
sei", 
respondi. 
"Mas 
ele 
no 
terminou 
a 
universidade." 


"Onde 
ele 
estudou?" 


"Numa 
universidade 
particular 
na 
Carolina 
do 
Norte 
chamada 
Davidson." 


" 
cara 
e 
muito 
difcil 
de 
conseguir 
uma 
vaga", 
disse 
ela. 


"Sim. 
Mas 
 
famlia 
dele 
tem 
dinheiro 
e 
Gault 
 
muito 
inteligente. 
Pelo 
que 
sei, 
ele 
ficou 
l 
um 
ano." 


"Foi 
expulso?" 
Eu 
poderia 
jurar 
que 
ela 
estava 
fascinada 
com 
ele. 


"Imagino 
que 
sim." 


#
"Porqu?" 


"Acho 
que 
ele 
violou 
o 
cdigo 
de 
honra." 


"Difcil 
acreditar 
numa 
coisas 
dessas", 
disse 
Marino, 
sarcasticamente. 


"E 
depois, 
outra 
universidade?", 
perguntou 
Penn. 


"Acho 
que 
no." 


"Algum 
j 
foi 
a 
Davidson 
colher 
informaes 
sobre 
ele?" 
Ela 
parecia 
descrente, 
como 
se 
as 
pessoas 
que 
vinham 
trabalhando 
no 
caso 
no 
tivessem 
feito 
tudo 
o 
que 
deviam. 


"No 
sei 
se 
algum 
foi 
at 
l, 
mas 
para 
ser 
franca, 
creio 
que 
no." 


"Ele 
deve 
ter 
uns 
trinta 
e 
cinco 
anos. 
No 
estamos 
falando 
de 
coisas 
to 
remotas 
assim. 
L 
as 
pessoas 
ainda 
devem 
se 
lembrar 
dele." 


Marino 
afastou 
o 
copinho 
plstico 
de 
caf 
e 
olhou 
para 
a 
comandante 
Penn. 
"Voc 
verificou 
se 
esse 
tal 
de 
Benlli 
existe 
mesmo?" 


"Estamos 
fazendo 
isso. 
At 
agora 
no 
tivemos 
nenhuma 
confirmao", 
respondeu 
ela. 
"Essas 
coisas 
s 
vezes 
demoram, 
principalmente 
nessa 
poca 
do 
ano." 


"O 
FBI 
tem 
um 
adido 
na 
embaixada 
americana 
em 
Roma", 
lembrei. 
"Isso 
pode 
fazer 
as 
coisas 
andarem 
um 
pouco 
mais 
rpido." 


Conversamos 
mais 
um 
pouco 
e 
ento 
a 
comandante 
Penn 
nos 
acompanhou 
at 
a 
porta. 


"Doutora 
Scarpetta", 
disse 
ela, 
"ser 
que 
a 
gente 
poderia 
ter 
uma 
palavrinha 
antes 
de 
a 
senhora 
ir 
embora?" 


Marino 
olhou 
para 
ns 
e 
Calou 
como 
se 
a 
pergunta 
fosse 
dirigida 
indiretamente 
a 
ele: 
"Claro. 
Podem 
conversar, 
vou 
esperar 
aqui 
fora". 


A 
comandante 
fechou 
a 
porta. 


"Queria 
saber 
se 
a 
gente 
pode 
se 
encontrar 
mais 
tarde", 
disse-me 
ela. 


Hesitei 
um 
pouco. 
"Acho 
que 
 
possvel 
sim. 
Como 
voc 
est 
pensando 
fazer?" 


"Quem 
sabe 
a 
senhora 
pode 
jantar 
comigo 
esta 
noite, 
l 
pelas 
sete. 
A 
gente 
poderia 
conversar 
um 
pouco 
mais 
e 
relaxar." 
Ela 
sorriu. 


#
Na 
verdade 
eu 
esperava 
poder 
jantar 
com 
Wesley. 
Respondi-lhe: 
" 
muita 
gentileza 
sua. 
Eu 
vou 
sim". 


Ela 
tirou 
um 
carto 
do 
bolso 
e 
me 
deu. 
"Meu 
endereo", 
disse 
ela. 
"A 
gente 
se 
v, 
ento." 


Marino 
no 
perguntou 
o 
que 
a 
comandante 
Penn 
queria 
comigo, 
mas 
era 
evidente 
que 
estava 
curioso, 
e 
eu 
me 
senti 
um 
pouco 
incomodada 
com 
sua 
excluso. 


"Est 
tudo 
bem?", 
perguntou 
ele, 
enquanto 
nos 
dirigamos 
ao 
elevador. 


"No", 
respondi. 
"Se 
estivesse, 
a 
gente 
no 
estaria 
aqui 
em 
Nova 
York 
agora." 


"Diabo", 
disse 
ele, 
chateado, 
"deixei 
de 
gozar 
os 
feriados 
quando 
virei 
policial. 
Feriados 
no 
so 
para 
gente 
como 
ns." 


"Bem, 
deveriam 
ser", 
respondi, 
fazendo 
sinal 
a 
um 
txi 
que 
j 
estava 
ocupado. 


"Que 
merda! 
Quantas 
vezes 
voc 
foi 
convocada 
na 
vspera 
de 
Natal, 
no 
dia 
de 
Natal, 
de 
Ao 
de 
Graas 
ou 
no 
dia 
do 
Trabalho?" 


Passou 
outro 
txi. 


" 
nesses 
feriados 
que 
vermes 
como 
Gault 
no 
tm 
para 
onde 
ir, 
por 
isso 
se 
divertem 
do 
jeito 
que 
ele 
fez 
anteontem. 


E 
metade 
das 
pessoas 
se 
sente 
deprimida, 
deixado 
marido, 
a 
mulher, 
estoura 
os 
miolos, 
ou 
fica 
bbada 
e 
morre 
em 
acidentes 
de 
carro." 


"Merda", 
resmunguei, 
vasculhando 
com 
os 
olhos 
a 
rua 
movimentada. 
"Se 
voc 
quiser 
me 
ajudar 
a 
achar 
um 
txi, 
eu 
agradeo. 
A 
menos 
que 
queira 
atravessar 
a 
ponte 
Brooklyn 
a 
p." 


Ele 
desceu 
ao 
leito 
da 
rua 
e 
agitou 
os 
braos. 
Imediatamente 
veio 
um 
txi 
e 
parou 
perto 
de 
ns. 
Entramos. 
O 
chofer 
era 
iraniano 
e 
Marino 
no 
foi 
nada 
simptico 
com 
ele. 
Quando 
voltei 
ao 
meu 
quarto, 
tomei 
um 
belo 
banho 
quente 
e 
tentei 
novamente 
falar 
com 
Lucy. 
Infelizmente 
foi 
Dorothy 
quem 
atendeu. 


"Como 
est 
mame?", 
perguntei, 
de 
cara. 


"Lucy 
e 
eu 
passamos 
a 
manh 
com 
ela 
no 
hospital. 
Ela 
est 


#
muito 
abatida 
e 
com 
um 
aspecto 
horrvel. 
Lembro-me 
de 
que 
a 
vida 
inteira 
falei 
para 
ela 
no 
fumar 
tanto 
e 
agora 
veja 
no 
que 
deu. 
Uma 
mquina 
respira 
por 
ela. 
Fizeram 
um 
buraco 
em 
seu 
pescoo. 
E 
ontem 
peguei 
Lucy 
fumando 
um 
cigarro 
no 
quintal." 


"Quando 
ela 
comeou 
a 
fumar?", 
perguntei, 
consternada. 


"No 
tenho 
a 
menor 
idia. 
Voc 
se 
encontra 
com 
ela 
muito 
mais 
do 
que 
eu." 


"Ela 
est 
a?" 


"Espere 
um 
pouco." 


O 
fone 
fez 
um 
barulho 
quando 
Dorothy 
o 
largou 
em 
algum 
lugar. 


"Feliz 
Natal, 
tia 
Kay." 
Era 
a 
voz 
de 
Lucy 
ao 
telefone, 
e 
ela 
no 
parecia 
nada 
feliz. 


"Pra 
mim 
tambm 
no 
foi 
nada 
feliz", 
respondi. 
"Como 
foi 
sua 
visita 
 
av?" 


"Ela 
comeou 
a 
chorar 
e 
eu 
no 
consegui 
entender 
o 
que 
tentava 
nos 
dizer. 
E 
mame 
estava 
com 
pressa 
de 
sair 
porque 
tinha 
uma 
partida 
de 
tnis." 


"Tnis?", 
perguntei. 


"Desde 
quando?" 
; 


"Agora 
voltou 
a 
mania 
de 
querer 
manter-se 
em 
forma." 


"Ela 
me 
disse 
que 
voc 
est 
fumando." 


"No 
fumo 
muito." 
Lucy 
descartou 
meu 
comentrio 
como 
se 
fosse 
uma 
coisinha 
 
toa. 


"Lucy, 
precisamos 
ter 
uma 
conversa 
sobre 
isso. 
Voc 
no 
precisa 
arranjar 
mais 
um 
vcio." 


"No 
estou 
ficando 
viciada." 


"Eu 
pensei 
a 
mesma 
coisa 
quando 
comecei 
a 
fumar 
na 
sua 
idade. 
E 
deixar 
de 
fumai' 
foi 
a 
coisa 
mais 
difcil 
que 
fiz 
na 
vida. 
Foi 
um 
verdadeiro 
inferno." 


"Eu 
sei 
muito 
bem 
o 
que 
significa 
abandonar, 
seja 
l 
o 
que 
for. 
No 
quero 
chegara 
uma 
situao 
em 
que 
eu 
perca 
totalmente 
o 
controle." 


#
"timo." 
. 
"Amanh 
estarei 
de 
volta 
a 
Washington." 
"Pensei 
que 
voc 
ia 
ficar 
pelo 
menos 
uma 
semana 
em 
Miami." 
"Tenho 
que 
voltar 
para 
Quantico. 
Alguma 
coisa 
est 
errada 
com 


o 
CAIN. 
O 
DFE 
enviou 
uma 
mensagem 
para 
o 
meu 
pager 
hoje 
 
tarde." 
O 
Departamento 
de 
Pesquisas 
em 
Engenharia 
era 
um 
rgo 
do 
FBI 
que 
pesquisava 
e 
projetava 
uma 
tecnologia 
mais 
avanada, 
abrangendo 
desde 
sistemas 
de 
segurana 
a 
robs. 
Foi 
l 
que 
Lucy 
trabalhou 
no 
desenvolvimento 
do 
CAIN, 
uma 
rede 
computadorizada 
de 
combate 
ao 
crime. 


O 
CAIN 
interligava 
departamentos 
de 
polcia 
e 
outras 
agncias 
de 
investigao 
a 
um 
banco 
de 
dados 
pelo 
Programa 
de 
Combate 
ao 
Crime 
Violento, 
ou 
PCCV, 
do 
FBI. 
A 
idia 
era 
prevenir 
a 
polcia 
de 
que 
poderia 
estar 
lidando 
com 
um 
criminoso 
que 
j 
cometera 
um 
estupro 
ou 
um 
homicdio 
em 
um 
outro 
lugar. 
Quando 
fosse 
esse 
o 
caso, 
a 
unidade 
de 
Wesley 
poderia 
ser 
chamada, 
como 
aconteceu. 


"H 
algum 
problema?", 
perguntei, 
meio 
incomodada, 
porque 
houvera 
um 
problema 
srio 
fazia 
pouco 
tempo. 


"De 
acordo 
com 
o 
relatrio 
tcnico, 
no. 
No 
h 
nenhum 
registro 
de 
que 
algum 
no-autorizado 
tenha 
entrado 
no 
sistema. 
Mas 
parece 
que 
o 
CAIN 
est 
enviando 
mensagens 
sem 
ter 
recebido 
instrues 
para 
faz-lo. 
Tm 
acontecido 
umas 
coisas 
estranhas 
nos 
ltimos 
tempos, 
mas 
ainda 
no 
consegui 
descobrir 
nada. 
 
como 
se 
o 
sistema 
estivesse 
pensando 
de 
forma 
autnoma." 


"Eu 
achei 
que 
era 
isso 
que 
caracterizava 
a 
inteligncia 
artificial", 
comentei. 


"No 
totalmente", 
disse 
minha 
sobrinha, 
que 
tinha 
QI 
de 
gnio. 
"Essas 
mensagens 
no 
so 
normais." 


"Como 
assim? 
Voc 
tem 
algum 
exemplo?" 


"Tenho. 
Ontem, 
a 
Polcia 
de 
Trnsito 
britnica 
registrou 
um 
caso 


em 
seu 
terminal 
PCCV. 
Tratava-se 
de 
um 
estupro 
acontecido 
no 
centro 
de 
Londres, 
numa 
das 
galerias 
do 
metr. 
O 
CAIN 
processou 
a 
informao, 
comparou-a 
com 
as 
de 
seu 
banco 
de 
dados, 
e 
chamou 
de 
volta 
o 
terminal 
onde 
o 
caso 
fora 
registrado. 
O 
encarregado 
da 


#
investigao 
em 
Londres 
recebeu 
uma 
mensagem 
pedindo 
mais 
informaes 
sobre 
o 
estuprador. 
O 
CAIN 
queria 
saber, 
especificamente, 
a 
cor 
dos 
plos 
pubianos 
do 
estuprador 
e 
se 
a 
vtima 
tivera 
orgasmo." 


"Voc 
est 
brincando." 


"O 
CAIN 
nunca 
foi 
programado 
para 
perguntar 
nada 
semelhante. 
Evidentemente, 
isso 
no 
faz 
parte 
do 
protocolo 
do 
pccv. 
O 
agente 
ingls 
ficou 
chocado 
e 
relatou 
o 
ocorrido 
ao 
seu 
chefe 
imediato, 
que 
ligou 
ao 
diretor 
em 
Quantico, 
que 
por 
sua 
vez 
ligou 
para 
Wesley." 


"Benton 
ligou 
para 
voc?" 


"Bem, 
na 
verdade 
ele 
pediu 
que 
uma 
pessoa 
do 
DPE 
me 
telefonasse. 
Alis, 
ele 
estar 
voltando 
para 
Quantico 
amanh." 


"Entendo." 
Falei 
com 
voz 
firme, 
e 
no 
deixei 
transparecei' 
o 
fato 
de 
que 
me 
incomodava 
muito 
saber 
que 
Wesley 
iria 
embora 
no 
dia 
seguinte, 
ou 
fosse 
l 
quando, 
sem 
antes 
me 
falar. 
"Voc 
tem 
certeza 
de 
que 
o 
agente 
de 
Londres 
estava 
dizendo 
a 
verdade 
 
de 
que 
ele 
no 
estava 
fazendo 
uma 
espcie 
de 
brincadeira?" 


"Ele 
nos 
enviou 
um 
print 
por 
fax 
e, 
segundo 
o 
DPE, 
a 
mensagem 
 
autntica. 
S 
um 
programador 
muito 
familiarizado 
com 
o 
CAIN 
poderia 
entrar 
no 
sistema 
e 
forjar 
uma 
mensagem 
como 
essa. 
Alm 
disso, 
pelo 
que 
me 
disseram, 
no 
h 
nenhum 
sinal 
no 
arquivo 
de 
registro 
de 
que 
algum 
tenha 
alterado 
alguma 
coisa." 


Lucy 
continuou 
explicando 
que 
o 
CAIN 
era 
operado 
numa 
plataforma 
UNIX, 
com 
redes 
locais 
conectadas 
a 
redes 
maiores. 
Ela 
falou 
de 
gateways, 
de 
ports 
e 
de 
senhas 
que 
mudavam 
automaticamente 
a 
cada 
seis 
dias. 
Apenas 
os 
trs 
superusurios, 
um 
dos 
quais 
era 
ela, 
poderia 
fazer 
alguma 
alterao 
no 
crebro 
do 
sistema. 
A 
nica 
coisa 
que 
os 
usurios 
de 
lugares 
distantes, 
como 
o 
agente 
em 
Londres, 
poderiam 
fazer 
era 
pr 
seus 
dados 
num 
terminal 
passivo 
ou 
num 
PC 
conectado 
ao 
servidor 
de 
vinte 
gigabytes 
sediado 
em 
Quantico. 


"O 
CAIN 
 
provavelmente 
o 
sistema 
mais 
seguro 
que 
conheo", 
acrescentou 
Lucy. 
"Nossa 
prioridade 
 
manter 
sua 
segurana." 


Mas 
ele 
no 
era 
totalmente 
seguro. 
J 
acontecera 
de 
algum 
ter 
conseguido 
entrar 
no 
DPE, 
e 
tnhamos 
motivo 
para 
acreditar 
que 
Gault 


#
estava 
envolvido 
no 
caso. 
Eu 
nem 
precisava 
lembrar 
Lucy 
disso. 
Na 
poca, 
ela 
fazia 
um 
estgio 
l, 
e 
agora 
estava 
encarregada 
de 
reparar 
os 
danos. 


"Oua, 
tia 
Kay", 
disse 
ela, 
adivinhando 
meus 
pensamentos, 
"eu 
j 
virei 
o 
CAIN 
pelo 
avesso. 
Repassei 
cada 
programa 
e 
reescrevi 
boa 
parte 
de 
muitos 
deles, 
para 
me 
certificar 
de 
que 
no 
h 
nenhuma 
ameaa." 


"Nenhuma 
ameaa 
vinda 
de 
onde?", 
perguntei. 
"Do 
CAIN 
ou 
de 
Gault?" 


"Ningum 
vai 
entrar 
no 
sistema", 
afirmou 
Lucy, 
categoricamente. 
"Ningum. 
Ningum 
consegue." 


Contei-lhe, 
ento, 
do 
meu 
carto 
de 
crdito, 
e 
seu 
silncio 
me 
fez 
gelar. 


"Oh, 
no", 
disse 
ela. 
"Nunca 
me 
passou 
pela 
cabea." 


"Voc 
se 
lembra 
de 
que 
a 
ltima 
vez 
que 
lhe 
emprestei 
foi 
quando 
voc 
comeou 
seu 
estgio 
no 
DPE?", 
perguntei. 


"Eu 
disse 
que 
voc 
podia 
us-lo 
para 
comprar 
passagens 
de 
avio 
e 
de 
trem." 


"Mas 
eu 
nunca 
precisei 
dele 
porque 
voc 
me 
deixou 
usar 
seu 
carro. 
A 
aconteceu 
o 
acidente 
e 
fiquei 
sem 
poder 
sair 
por 
uns 
tempos." 


"Onde 
voc 
guarda 
o 
carto? 
Na 
sua 
carteira?" 


"No." 
Ela 
confirmou 
o 
que 
eu 
temia. 
"Guardo 
no 
DPE, 
na 
gaveta 
do 
meu 
bir, 
num 
envelope 
com 
uma 
carta 
sua. 


Imaginei 
que 
ali 
estaria 
seguro." 


"E 
era 
l 
que 
ele 
estava 
quando 
houve 
o 
arrombamento?" 
"Sim. 
Ele 
sumiu, 
tia 
Kay. 
Quanto 
mais 
penso 
nisso, 
mais 
minha 
certeza 
aumenta. 
Seno, 
eu 
o 
teria 
visto 
depois 
disso", 
gaguejou 
ela. 
"Eu 
acabaria 
por 
dar 
com 
ele 
quando 
estivesse 
mexendo 
na 
gaveta. 
Vou 
verificar 
quando 
voltar, 
mas 
no 
sei 
se 
vai 
estar 
l." 


"Foi 
o 
que 
imaginei", 
disse-lhe. 


"Sinto 
muitssimo. 
Algum 
andou 
fazendo 
grandes 
despesas 
com 


o 
carto?" 
"Acho 
que 
no." 
Eu 
no 
lhe 
contei 
que 
sim. 
"A 
essa 
altura 
voc 
j 
deve 
t-lo 
cancelado, 
no 
?" 
#
"Isso 
j 
est 
sendo 
providenciado." 
Mudei 
de 
assunto. 


"Diga 
a 
sua 
me 
que 
vou 
visitar 
sua 
av 
o 
mais 
rpido 
que 
eu 
puder." 


"O 
mais 
rpido 
que 
voc 
puder 
nunca 
 
rpido." 
"Eu 
sei. 
Sou 
uma 
filha 
terrvel 
e 
uma 
tia 
imprestvel." 
"Nem 
sempre 
voc 
 
uma 
tia 
imprestvel." 


"Muito 
obrigada", 
respondi. 


3 


3 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de 
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes 
Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. 
Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer 
receb-lo em nosso grupo. 

#
7 


A 
residncia 
da 
comandante 
Frances 
Penn 
ficava 
no 
lado 
oeste 
de 
Manhattan, 
de 
onde 
eu 
podia 
ver 
as 
luzes 
de 
Nova 
Jersey 
do 
outro 
lado 
do 
rio 
Hudson. 
Ela 
morava 
no 
dcimo 
quinto 
andar 
de 
um 
edifcio 
sujo, 
numa 
parte 
suja 
da 
cidade. 
Isso 
foi 
logo 
esquecido 
quando 
ela 
abriu 
a 
porta 
branca 
de 
entrada. 


Seu 
apartamento 
era 
cheio 
de 
luz, 
de 
arte 
e 
da 
fragrncia 
de 
madeiras 
finas. 
As 
paredes 
eram 
brancas 
e 
decoradas 
com 
desenhos 
a 
tinta 
e 
bico-de-pena, 
e 
os 
quadros, 
abstratos 
em 
aquarela 
e 
pastel. 
Dei 
uma 
olhada 
rpida 
na 
estante 
e 
percebi 
que 
ela 
gostava 
de 
Ayn 
Rand 
e 
de 
Annie 
Leibovitz, 
e 
lia 
muitas 
biografias 
e 
histria, 
inclusive 
os 
magnificentes 
volumes 
de 
Shelby 
Foote 
sobre 
aquela 
guerra 
trgica 
e 
terrvel. 


"D-me 
seu 
casaco", 
disse 
ela. 


Eu 
tirei 
o 
casaco, 
as 
luvas 
e 
um 
cachecol 
de 
cashmere 
de 
que 
gostava 
muito, 
porque 
fora 
presente 
de 
Lucy. 


"Sabe, 
eu 
nem 
me 
lembrei 
de 
perguntar 
se 
h 
algum 
tipo 
de 
prato 
que 
voc 
no 
pode 
comer", 
comentou 
da 
pequena 
despensa 
perto 
da 
porta 
de 
entrada. 
"Voc 
come 
mariscos? 
Porque 
se 
no 
puder, 
tenho 
frango 
tambm." 


"Mariscos 
seria 
timo." 


"OK." 
Ela 
me 
levou 
 
sala 
de 
estar, 
que 
oferecia 
uma 
vista 
maravilhosa 
da 
ponte 
George 
Washington, 
estendendo-se 
sobre 
o 
rio 
como 
um 
colar 
de 
jias 
brilhantes 
suspenso 
no 
ar. 
"Voc 
toma 
usque, 
no 
?" 


"Eu 
preferiria 
uma 
coisa 
mais 
leve", 
disse, 
sentando 
num 
macio 
sof 
de 
couro 
cor 
de 
mel. 


"Vinho?" 


Respondi 
que 
seria 
timo, 
e 
ela 
desapareceu 
na 
cozinha 
o 
tempo 
suficiente 
para 
servir 
dois 
copos 
de 
um 
revigorante 
Chardonnay. 
A 
comandante 
Penn 
usava 
jeans 
preto 
e 
um 
suter 
cinza 
de 
l, 
com 
as 
mangas 
arregaadas. 
Notei, 
pela 
primeira 
vez, 
que 
seus 
braos 
eram 


#
cheios 
de 
horrveis 
cicatrizes. 


"So 
do 
tempo 
em 
que 
eu 
era 
mais 
jovem 
e 
mais 
imprudente." 
Ela 
me 
viu 
olhando 
as 
cicatrizes. 
"Estava 
na 
garupa 
de 
uma 
motocicleta 
e 
terminei 
deixando 
um 
bocado 
da 
minha 
pele 
na 
estrada." 


"Donorcycles",4* 
comentei. 


"Era 
do 
meu 
namorado. 
Eu 
tinha 
dezessete 
anos, 
e 
ele, 
, 
vinte." 


"O 
que 
aconteceu 
com 
ele?" 


"Caiu 
no 
meio 
do 
trfego 
e 
foi 
morto", 
disse 
ela 
com 
a 
naturalidade 
de 
algum 
que 
j 
fazia 
muito 
tempo 
vinha 
falando 
daquela 
perda. 
"Foi 
quando 
comecei 
a 
me 
interessar 
pelo 
trabalho 
da 
polcia." 
Ela 
bebericou 
o 
vinho. 
"No 
me 
pergunte 
qual 
a 
relao 
entre 
uma 
coisa 
e 
outra, 
que 
eu 
no 
sei 
responder 
muito 
bem." 


"s 
vezes 
quando 
a 
gente 
sofre 
uma 
tragdia, 
comea 
a 
querer 
estud-la." 


"Essa 
 
a 
sua 
explicao?" 
Ela 
me 
olhou 
de 
perto 
com 
olhos 
que 
no 
deixavam 
passar 
nada 
e 
revelavam 
menos 
ainda. 


"Meu 
pai 
morreu 
quando 
eu 
tinha 
vinte 
anos", 
respondi, 
com 
naturalidade. 


"Onde 
aconteceu 
isso?" 


"Miami. 
Ele 
tinha 
uma 
pequena 
mercearia, 
de 
que 
minha 
me 
terminou 
cuidando, 
porque 
ele 
ficou 
muitos 
anos 
doente 
antes 
de 
morrer." 


"Se 
sua 
me 
cuidava 
da 
loja, 
por 
assim 
dizer, 
quem 
tomava 
conta 
da 
casa, 
enquanto 
seu 
pai 
estava 
de 
cama?" 


"Eu. 
Ou 
pelo 
menos 
tentava." 


"Logo 
vi. 
Eu 
seria 
capaz 
de 
afirmar 
isso 
antes 
de 
voc 
ter 
dito 
uma 
palavra. 
E 
imagino 
tambm 
que 
voc 
 
a 
mais 
velha, 
no 
tem 
irmos 
homens, 
e 
sempre 
foi 
uma 
perfeccionista 
que 
no 
admite 
falhas." 


4 Trocadilho 
com 
as 
palavras 
clonor 
(doador) 
e 
motorcycle. 
Donorcycle 
seria 
o 
motoqueiro 
que 
num 
acidente 
sofre 
algum 
tipo 
de 
mutilao; 
portanto, 
um 
"doador". 


(N. 
T.) 
#
Fiquei 
ouvindo. 


"Portanto, 
as 
relaes 
pessoais 
so 
o 
seu 
castigo, 
porque 
voc 
no 
pode 
ter 
uma 
vida 
satisfatria 
simplesmente 
trabalhando 
duro 
para 
isso. 
No 
pode 
viver 
uma 
relao 
amorosa 
feliz, 
ou 
ser 
promovida 
a 
um 
casamento 
feliz. 
E 
se 
algum 
com 
quem 
voc 
se 
preocupa 
tem 
algum 
problema, 
acha 
que 
podia 
t-lo 
evitado 
e 
que 
tem 
a 
obrigao 
de 
tentar 
resolv-lo." 


"Por 
que 
voc 
est 
me 
dissecando?", 
perguntei-lhe 
francamente, 
mas 
sem 
me 
pr 
na 
defensiva. 
Eu 
estava 
era 
fascinada. 


"Sua 
histria 
 
a 
minha 
histria. 
H 
muitas 
mulheres 
como 
ns. 
Apesar 
disso, 
parece 
que 
a 
gente 
nunca 
se 
encontra, 
j 
notou 
isso?" 
"Eu 
observo 
isso 
o 
tempo 
todo", 
respondi. 


"Bem", 
ela 
deixou 
o 
vinho 
de 
lado, 
"para 
falar 
a 
verdade, 
no 
convidei 
voc 
para 
interrog-la. 
Mas 
eu 
no 
estaria 
sendo 
franca 
se 
no 
lhe 
dissesse 
que 
estava 
esperando 
uma 
oportunidade 
para 
que 
nos 
conhecssemos 
melhor." 


"Obrigada, 
Francs", 
respondi. 
"Fico 
contente 
por 
voc 
se 
sentir 
dessa 
forma." 


"Espere 
um 
pouco." 


Ela 
se 
levantou 
e 
voltou 
 
cozinha. 
Ouvi 
a 
porta 
da 
geladeira 
fechar, 
gua 
da 
torneira, 
panelas 
e 
frigideiras 
tilintando. 
Logo 
ela 
estava 
de 
volta 
com 
a 
garrafa 
de 
Chardonnay 
dentro 
de 
um 
balde 
de 
gelo, 
que 
colocou 
na 
mesinha 
de 
vidro. 


"O 
po 
est 
no 
forno 
e 
o 
aspargo 
na 
estufadeira, 
s 
falta 
fritar 
o 
camaro", 
anunciou 
ela, 
sentando-se 
novamente. 


"Francs", 
perguntei, 
"desde 
quando 
o 
seu 
departamento 
est 
conectado 
ao 
CAIN?" 


"H 
alguns 
meses", 
respondeu 
ela. 
"Fomos 
um 
dos 
primeiros 
departamentos 
do 
pas 
a 
conectar-se 
ao 
sistema." 


" 
E 
o 
DPNY?" 


"S 
agora 
eles 
esto 
se 
ligando. 
A 
Polcia 
de 
Trnsito 
tem 
um 
sistema 
de 
computao 
mais 
sofisticado 
e 
uma 
grande 
equipe 
de 
programadores 
e 
de 
analistas. 
Por 
isso 
fomos 
os 
primeiros." 


#
"Graas 
a 
voc." 


Ela 
sorriu. 


Continuei: 
"Sei 
que 
o 
Departamento 
de 
Polcia 
de 
Richmond 
est 
conectado. 
E 
tambm 
Chicago, 
Dallas, 
Charlotte, 
a 
Polcia 
Estadual 
da 
Virgnia, 
a 
Polcia 
de 
Trnsito 
britnica. 
E 
um 
grande 
nmero 
de 
outros 
departamentos, 
tanto 
aqui 
como 
no 
exterior, 
esto 
em 
via 
de 
se 
conectar." 


"O 
que 
voc 
tem 
em 
mente?", 
perguntou-me. 


"Diga-me 
o 
que 
aconteceu 
quando 
o 
corpo 
dessa 
mulher 
no-
identificada, 
que 
acreditamos 
tenha 
sido 
assassinada 
por 
Gault, 
foi 
encontrado 
na 
vspera 
do 
Natal. 
Qual 
foi 
a 
atuao 
do 
CAIN?" 


"O 
corpo 
foi 
encontrado 
no 
Central 
Park 
umas 
nove 
da 
noite, 
e 
naturalmente 
logo 
me 
informaram. 
Como 
j 
lhe 
disse, 
o 
modus 
operandi 
me 
pareceu 
familiar, 
por 
isso 
digitei 
mais 
informaes 
no 
CAIN 
para 
ver 
que 
resposta 
iria 
receber. 
Isso 
deve 
ter 
sido 
perto 
das 
onze 
horas." 


"E 
qual 
foi 
a 
resposta?" 


"Mais 
que 
depressa 
o 
CAIN 
chamou 
nosso 
terminal 
pccv 
com 
um 
pedido 
de 
mais 
informaes." 


"Voc 
pode 
se 
lembrar 
exatamente 
que 
tipo 
de 
informao?" 


Ela 
pensou 
um 
pouco. 


"Bem, 
deixe-me 
ver. 
Ele 
estava 
interessado 
em 
mutilao, 
queria 
saber 
de 
que 
parte 
do 
corpo 
haviam 
extrado 
a 
pele 
e 
que 
tipo 
de 
instrumento 
cortante 
tinha 
sido 
usado. 
Se 
teria 
havido 
violncia 
sexual 
e, 
nesse 
caso, 
que 
tipo 
de 
penetrao, 
oral, 
vaginal 
ou 
outra. 
Algumas 
dessas 
perguntas 
no 
tnhamos 
condies 
de 
responder, 
porque 
a 
autpsia 
ainda 
no 
tinha 
sido 
feita. 
De 
qualquer 
modo, 
ligamos 
para 
o 
necrotrio 
e 
conseguimos 
mais 
informaes." 


"E 
quanto 
s 
outras 
questes?", 
perguntei. 
"O 
CAIN 
fez 
alguma 
pergunta 
um 
pouco 
estranha, 
ou 
inadequada?" 


"No 
que 
eu 
tivesse 
notado." 
Ela 
olhou 
para 
mim 
com 
curiosidade. 


"O 
CAIN 
alguma 
vez 
j 
mandou 
ao 
terminal 
da 
Polcia 
de 
Trnsito 
uma 
mensagem 
esquisita, 
ou 
confusa?" 


#
Ela 
pensou 
mais 
um 
pouco. 
"Ns 
registramos 
no 
mximo 
uns 
vinte 
casos 
desde 
que 
nos 
conectamos, 
em 
novembro. 
Estupros, 
agresses, 
homicdios 
que 
achei 
relevantes 
para 
o 
pecv, 
ou 
porque 
as 
circunstncias 
eram 
inslitas, 
ou 
porque 
as 
vtimas 
no 
puderam 
ser 
identificadas." 


"E 
as 
nicas 
mensagens 
do 
CAIN 
de 
que 
me 
lembro", 
continuou 
ela, 
"eram 
pedidos 
de 
rotina, 
por 
maiores 
informaes. 
No 
houve 
nada 
em 
carter 
de 
urgncia 
at 
o 
caso 
do 
Central 
Park. 
Ento 
o 
CAIN 
mandou 
uma 
mensagem 
urgente 
em 
negrito 
piscante, 
porque 
o 
sistema 
tinha 
se 
deparado 
com 
algo 
mais 
concreto." 


"Se 
voc 
receber 
mensagens 
fora 
do 
normal, 
Francs, 
por 
favor, 
entre 
em 
contato 
com 
Benton 
Wesley 
imediatamente." 


"Voc 
no 
se 
incomodaria 
em 
me 
dizer 
o 
que 
voc 
est 
querendo 
saber?" 


"Violaram 
o 
sistema 
de 
segurana 
do 
DFE 
em 
outubro. 
Algum 
entrou 
l 
s 
trs 
da 
manh, 
e 
tudo 
leva 
a 
crer 
que 
Gault 
possa 
estar 
por 
trs 
disso." 


"Gault?" 
A 
comandante 
pareceu 
desconcertada. 
"Como 
pode 
ter 
acontecido 
uma 
coisa 
dessas?" 


"Uma 
analista 
de 
sistema 
do 
DPE, 
como 
se 
soube 
depois, 
mantinha 
contato 
com 
uma 
loja 
de 
produtos 
de 
vigilncia 
e 
escuta, 
no 
nordeste 
da 
Virgnia, 
que 
era 
freqentada 
por 
Gault. 
Sabemos 
que 
essa 
analista 
estava 
envolvida 
nessa 
invaso, 
e 
a 
gente 
receia 
que 
Gault 
a 
tenha 
induzido 
a 
isso." 


"Porqu?" 


"O 
que 
poderia 
haver 
de 
melhor 
para 
ele 
do 
que 
entrar 
no 
CAIN, 
E 
TER 
 
disposio 
um 
banco 
de 
dados 
contendo 
os 
detalhes 
dos 
crimes 
mais 
terrveis 
cometidos 
no 
mundo 
todo?" 


"No 
existe 
uma 
forma 
de 
impedir 
sua 
entrada?", 
perguntou 
ela. 
"Reforar 
a 
segurana 
de 
forma 
que 
nem 
ele 
nem 
ningum 
mais 
possa 
entrar 
no 
sistema?" 


"Ns 
achvamos 
que 
isso 
j 
tinha 
sido 
providenciado", 
respondi. 
"Na 
verdade, 
minha 
sobrinha, 
que 
 
a 
primeira 
programadora 
do 


#
sistema, 
estava 
certa 
de 
que 
o 
sistema 
era 
absolutamente 
seguro." 


"Ah, 
sim. 
Acho 
que 
ouvi 
falar 
de 
sua 
sobrinha. 
Na 
verdade, 
foi 
ela 
quem 
praticamente 
criou 
o 
CAIN." 


"Ela 
sempre 
teve 
muito 
jeito 
para 
lidar 
com 
computao, 
e 
passou 
muito 
mais 
tempo 
mexendo 
com 
isso 
do 
que 
a 
maioria 
das 
pessoas. 


"No 
lhe 
tiro 
a 
razo. 
Como 
 
o 
nome 
dela?" 


"Lucy 


"Quantos 
anos 
ela 
tem?" 


"Vinte 
e 
um." 


Ela 
se 
levantou 
do 
sof. 
"Bem, 
talvez 
seja 
apenas 
uma 
pequena 
falha 
tcnica 
que 
esteja 
produzindo 
essas 
mensagens 
estranhas 
de 
que 
voc 
falou. 
Um 
pequeno 
defeito. 
E 
Lucy 
vai 
descobrir." 


"Sempre 
se 
pode 
ter 
esperana." 


"Traga 
seu 
vinho 
e 
fique 
comigo 
na 
cozinha", 
disse 
ela. 


Mas 
no 
chegamos 
a 
fazer 
isso, 
porque 
o 
telefone 
tocou, 
ela 
atendeu, 
e 
senti 
a 
expresso 
de 
contentamento 
pela 
agradvel 
noitada 
sumir 
de 
seu 
rosto. 


"Onde?", 
perguntou, 
devagar, 
e 
eu 
conhecia 
muito 
bem 
aquele 
tom 
de 
voz. 
Eu 
reconhecia 
o 
olhar 
congelado. 


Eu 
j 
estava 
abrindo 
a 
porta 
do 
armrio 
do 
vestbulo 
para 
pegar 
meu 
casaco 
quando 
ela 
disse: 
"Estou 
indo 
para 
a". 


A 
neve 
comeara 
a 
se 
tornar 
arrastada 
como 
se 
fosse 
cinza, 
quando 
chegamos 
 
estao 
de 
metr 
da 
Segunda 
Avenida, 
na 
parte 
suja 
do 
baixo 
Manhattan, 
conhecida 
como 
Bowery. 


O 
vento 
uivava, 
luzes 
azuis 
e 
vermelhas 
piscavam 
como 
se 
a 
noite 
tivesse 
sofrido 
um 
atentado, 
e 
as 
escadas 
que 
levavam 
quele 
antro 
estavam 
cercadas 
por 
cordes 
de 
isolamento. 
Os 
sem-teto 
tinham 
sido 
evacuados, 
passageiros 
desviados 
de 
seu 
caminho 
normal, 
e 
a 
cada 
momento 
chegavam 
mais 
carros 
e 
furges 
em 
bandos. 
Um 
agente 
da 
Polcia 
de 
Trnsito, 
da 
Unidade 
dos 
Sem-teto, 
fora 
morto. 


Seu 
nome 
era 
Jimmy 
Davila. 
Tinha 
vinte 
e 
sete 
anos 
e 
era 
policial 
havia 
um 
ano. 


#
" 
melhor 
voc 
vestir 
isso." 
Um 
agente 
de 
rosto 
plido 
e 
expresso 
raivosa 
me 
passou 
uma 
mscara 
cirrgica, 
luvas 
e 
uma 
roupa 
que 
refletia 
a 
luz. 


A 
polcia 
estava 
tirando 
lanternas 
eltricas 
e 
mais 
roupas 
da 
traseira 
de 
um 
furgo, 
e 
muitos 
agentes 
com 
os 
olhos 
fuzilantes 
e 
armas 
para 
controle 
de 
motins 
passaram 
por 
mim 
antes 
de 
descer 
as 
escadas. 
A 
tenso 
era 
palpvel. 
Pulsava 
no 
ar 
como 
a 
pesada 
palpitao 
de 
um 
corao, 
e 
as 
mensagens 
dos 
muitos 
que 
vieram 
em 
socorro 
do 
colega 
misturavam-se 
ao 
arrastar 
dos 
passos 
e 
s 
mensagens 
distorcidas 
dos 
rdios. 
Em 
algum 
lugar 
distante, 
uma 
sirene 
gemia. 


A 
comandante 
Penn 
me 
deu 
uma 
potente 
lanterna 
quando 
comeamos 
a 
descer, 
escoltadas 
por 
quatro 
agentes 
inchados 
em 
seus 
trajes 
de 
Kevlar, 
casacos 
e 
roupas 
refletoras. 
Um 
trem 
passou 
como 
uma 
torrente 
de 
ao 
lquido, 
e 
fomos 
avanando 
bem 
devagar, 
numa 
passarela 
que 
nos 
levava 
a 
negras 
catacumbas 
atulhadas 
de 
frascos 
de 
crack 
vazios, 
seringas, 
lixo 
e 
sujeira. 
As 
luzes 
varriam 
os 
acampamentos 
lmpen, 
armados 
sobre 
colches 
de 
palha 
e 
salincias 
a 
poucos 
centmetros 
dos 
trilhos, 
e 
o 
ar 
estava 
impregnado 
do 
mau 
cheiro 
de 
dejetos 
humanos. 


Sob 
as 
ruas 
de 
Manhattan 
havia 
duzentos 
quilmetros 
quadrados 
de 
galerias 
onde, 
no 
final 
dos 
anos 
80, 
moravam 
nada 
menos 
que 
cinco 
mil 
sem-teto. 
Agora, 
o 
nmero 
tinha 
diminudo 
bastante, 
mas 
ainda 
havia 
marcas 
de 
sua 
presena, 
em 
cobertores 
ftidos 
misturados 
com 
sapatos, 
roupas 
e 
cacarecos. 


Imundos 
animais 
empalhados 
e 
insetos 
peludos 
artificiais 
estavam 
pendurados 
nas 
paredes 
como 
fetiches. 
Os 
invasores, 
muitos 
dos 
quais 
o 
pessoal 
da 
Unidade 
dos 
Sem-teto 
conhecia 
pelo 
nome, 
sumiram 
como 
sombras 
de 
seu 
mundo 
subterrneo, 
com 
exceo 
de 
Freddie, 
que 
foi 
acordado 
de 
um 
sono 
induzido 
por 
drogas. 
Ele 
se 
sentou 
ainda 
sob 
um 
cobertor, 
olhando 
em 
volta, 
ofuscado 
pelas 
luzes. 


"Ei, 
Freddie, 
levante-se." 
Uma 
lanterna 
iluminou 
seu 
rosto. 


Ele 
protegeu 
os 
olhos 
com 
a 
mo 
envolta 
em 
ataduras, 
piscando, 
enquanto 
pequenos 
sis 
vasculhavam 
a 
escurido 
do 
seu 
tnel. 


#
"Vamos, 
levante-se. 
O 
que 
houve 
com 
sua 
mo?" 


"Foi 
o 
frio", 
resmungou 
ele, 
tentando 
equilibrar-se 
sobre 
as 
pernas. 


"Voc 
precisa 
se 
cuidar. 
Sabe 
que 
no 
pode 
continuar 
aqui. 
Temos 
que 
tir-lo. 
Quer 
ficar 
num 
abrigo?" 


"No, 
cara." 


"Freddie", 
continuou 
o 
policial, 
falando 
alto, 
"voc 
sabe 
o 
que 
aconteceu 
aqui 
embaixo? 
Voc 
ficou 
sabendo 
cio 
que 
aconteceu 
com 
o 
agente 
Davila?" 


"No 
sei 
de 
nada." 
Freddie 
balanou 
e 
conseguiu 
equilibrar-se, 
piscando 
com 
a 
luz 
das 
lanternas. 


"Sei 
que 
conhece 
Davila. 
Voc 
o 
chama 
de 
Jimbo 


", 
Jimbo. 
Ele 
est 
legal?" 


"No, 
ele 
no 
est 
legal, 
Freddie. 
Ele 
levou 
um 
tiro 
aqui 
embaixo, 
esta 
noite. 
Algum 
atirou 
nele 
e 
agora 
ele 
est 
morto." 


Os 
olhos 
amarelos 
de 
Freddie 
se 
arregalaram. 
"Ah 
no, 
cara." 
Ele 
olhou 
em 
volta 
como 
se 
o 
assassino 
estivesse 
ali 
perto, 
como 
se 
algum 
quisesse 
recrimin-lo 
por 
isso. 


"Freddie, 
voc 
viu 
algum 
desconhecido 
aqui 
esta 
noite? 
Viu 
algum 
que 
pudesse 
ter 
feito 
esse 
tipo 
de 
coisa?" 


"No, 
no 
vi 
nada." 
Freddie 
quase 
perdeu 
o 
equilbrio 
e 
se 
apoiou 
numa 
coluna 
de 
concreto. 
"Nem 
ningum, 
nem 
nada, 
eu 
juro." 


Um 
outro 
trem 
surgiu 
da 
escurido 
c 
passou 
em 
direo 
ao 
sul. 
Freddie 
foi 
levado 
embora 
e 
ns 
seguimos 
em 
frente, 
andando 
ao 
lado 
dos 
trilhos 
e 
de 
roedores 
mexendo-se 
sob 
o 
lixo. 
Graas 
a 
Deus 
estvamos 
usando 
botas. 
Andamos 
por 
pelo 
menos 
mais 
trinta 
minutos, 
meu 
insto 
suando 
sob 
a 
mscara 
 
medida 
que 
eu 
ficava 
cada 
vez 
mais 
desorientada. 
No 
saberia 
dizer 
se 
as 
luzes 
que 
brilhavam 
mais 
adiante 
na 
linha 
frrea 
eram 
lanternas 
de 
policiais 
ou 
trens 
que 
se 
aproximavam. 


"Est 
bem, 
temos 
que 
subir 
no 
trilho 
condutor", 
disse 
a 
comandante 
Penn, 
vindo 
para 
junto 
de 
mim. 


"Ainda 
falta 
muito?", 
perguntei. 


#
" 
ali 
onde 
esto 
aquelas 
luzes. 
Agora 
vamos 
comear 
uma 
subida. 
Avance 
devagar, 
de 
lado, 
um 
p 
de 
cada 
vez, 
e 
no 
toque 
em 
nada." 


"A 
menos 
que 
voc 
queira 
tomar 
o 
maior 
choque 
de 
sua 
vida", 
disse 
um 
agente. 


"Sim, 
seiscentos 
volts 
que 
no 
do 
moleza", 
lembrou 
outro, 
no 
mesmo 
tom 
rspido. 


Ns 
fomos 
acompanhando 
os 
trilhos 
tnel 
adentro, 
e 
o 
teto 
ia 
ficando 
cada 
vez 
mais 
baixo. 
Alguns 
homens 
tiveram 
que 
abaixar 
a 
cabea 
ao 
passarmos 
por 
um 
arco. 
Do 
outro 
lado, 
peritos 
limpavam 
a 
rea 
do 
crime 
enquanto 
uma 
mdica-legista, 
com 
touca 
cirrgica 
e 
luvas, 
examinava 
o 
corpo. 
A 
iluminao 
tinha 
sido 
providenciada, 
e 
seringas, 
frascos 
e 
sangue 
refletiam 
duramente 
seu 
brilho. 


O 
agente 
Davila 
estava 
deitado 
de 
costas, 
o 
casaco 
de 
frio 
com 
o 
zper 
aberto, 
deixando 
 
mostra 
a 
dura 
forma 
de 
um 
colete 
 
prova 
de 
balas 
sob 
um 
suter 
azul-marinho, 
usado 
pelos 
comandos. 
Atiraram 
entre 
os 
olhos, 
e 
deixaram 
um 
revlver 
calibre 
38 
sobre 
seu 
peito. 


"Est 
tudo 
como 
foi 
encontrado?", 
perguntei, 
chegando 
mais 
perto. 


"Exatamente 
como 
o 
encontrei", 
disse 
um 
detetive 
do 
DPNY. 


"O 
casaco 
estava 
aberto 
e 
o 
revlver 
naquela 
mesma 
posio?" 


"Sim." 
O 
rosto 
do 
detetive 
estava 
afogueado, 
e 
ele 
no 
me 
olhava 
nos 
olhos. 


A 
legista 
me 
olhou. 
Eu 
no 
conseguia 
ver 
seu 
rosto 
por 
trs 
do 
capuz 
de 
plstico. 
"No 
podemos 
afastar 
a 
hiptese 
de 
suicdio", 
disse 
ela. 


Aproximei-me 
ainda 
mais 
e 
apontei 
a 
luz 
de 
minha 
lanterna 
para 
a 
cabea 
do 
morto. 
Os 
olhos 
estavam 
abertos, 
a 
cabea 
voltada 
um 
pouco 
para 
a 
direita. 
O 
sangue 
empoado 
sob 
o 
corpo 
era 
vermelho 
brilhante 
e 
j 
comeava 
a 
secar. 
Ele 
era 
baixo, 
pescoo 
musculoso 
e 
rosto 
magro 
de 
quem 
se 
mantinha 
em 
forma. 
Iluminei 
suas 
mos 
nuas 
e 
me 
agachei 
para 
olhar 
mais 
de 
perto. 


"No 
estou 
vendo 
nenhum 
vestgio 
de 
disparo", 
comentei. 


#
"Nem 
sempre 
ficam 
vestgios", 
disse 
a 
legista. 


"O 
ferimento 
em 
sua 
testa 
no 
parece 
ter 
sido 
de 
tiro 
 
queima-
roupa, 
e 
me 
parece 
um 
pouco 
oblquo." 


"Pode-se 
esperar 
que 
seja 
mesmo 
oblquo, 
supondo-se 
que 
ele 
tenha 
atirado 
em 
si 
mesmo", 
retrucou 
a 
legista. 


"O 
tiro 
foi 
dado 
de 
cima 
para 
baixo. 
Isso 
no 
seria 
de 
se 
esperar", 
afirmei. 
"E 
como 
sua 
arma 
veio 
parar 
exatamente 
sobre 
o 
peito?" 


"Um 
dos 
sem-teto 
que 
vivem 
aqui 
pode 
ter 
colocado." 


Eu 
estava 
comeando 
a 
me 
aborrecer. 
"Por 
qu?" 


"Talvez 
algum 
tenha 
pegado 
a 
arma 
e 
depois 
pensou 
melhor 
sobre 
as 
conseqncias 
de 
ficar 
com 
ela. 
Ento 
a 
colocou 
onde 
est." 


"Acho 
que 
a 
gente 
deveria 
examinar 
suas 
mos." 


"Uma 
coisa 
de 
cada 
vez." 


"Ele 
no 
estava 
usando 
luvas?", 
perguntei, 
piscando 
sob 
as 
fortes 
luzes. 
"Aqui 
embaixo 
 
muito 
frio." 


"Ns 
ainda 
nem 
acabamos 
de 
examinar 
seus 
bolsos, 
minha 
senhora", 
disse 
a 
mdica-legista, 
que 
era 
um 
tipo 
jovem 
e 
rgido, 
que 
eu 
associava 
a 
autpsias 
anal-retentivas 
que 
me 
tomavam 
metade 
do 
dia. 


"Como 
 
seu 
nome?", 
perguntei. 


"Sou 
a 
doutora 
Jonas. 
E 
vou 
ter 
que 
pedir 
 
senhora 
que 
se 
afaste 
um 
pouco. 
Estamos 
tentando 
preservar 
a 
cena 
do 
crime 
e 
 
melhor 
que 
voc 
no 
toque 
nem 
mexa 
em 
nada." 
Ela 
empunhou 
um 
termmetro. 


"Doutora 
Jonas", 
foi 
a 
comandante 
Penn 
quem 
falou, 
"esta 
 
a 
doutora 
Scarpetta, 
a 
mdica-legista 
titular 
de 
Virgnia 
e 
consultora 
do 
FBI 
na 
rea 
de 
patologia 
forense. 
Ela 
sabe 
muito 
bem 
como 
preservar 
cenas 
de 
crime." 


A 
dra. 
Jonas 
olhou 
para 
mim 
c 
notei 
uma 
expresso 
de 
surpresa 
por 
trs 
da 
mscara. 
Percebi 
que 
eslava 
embaraada 
pelo 
tempo 
que 
levou 
para 
ler 
o 
termmetro 
qumico. 


Debrucei-me 
sobre 
o 
corpo, 
alentando 
para 
o 
lado 
esquerdo 
da 
cabea. 


"Sua 
orelha 
esquerda 
est 
ferida." 


#
"Provavelmente 
aconteceu 
quando 
ele 
caiu", 
disse 
a 
dra. 
Jonas. 


Dei 
uma 
olhada 
em 
volta, 
listvamos 
sobre 
uma 
plataforma 
lisa 
de 
concreto. 
No 
havia 
trilhos 
sobre 
os 
quais 
ele 
pudesse 
ter 
cado. 
Dirigi 
minha 
lanterna 
s 
colunas 
de 
concreto, 
tentando 
descobrir 
marcas 
de 
sangue 
em 
qualquer 
estrutura 
onde 
Davila 
poderia 
ter-se 
machucado. 


Agachada 
perto 
do 
corpo, 
olhei 
mais 
de 
perto 
a 
orelha 
ferida 
e 
a 
rea 
avermelhada 
logo 
abaixo 
dela. 
Comecei 
a 
perceber 
marcas 
do 
relevo 
de 
solas 
de 
sapato, 
cujo 
padro 
formava 
um 
desenho 
ondulado, 
com 
pequenos 
orifcios. 
Sob 
a 
orelha, 
havia 
a 
marca 
curva 
de 
um 
salto. 
Levantei-me, 
o 
suor 
escorrendo 
pelo 
rosto. 
Quando 
levantei 
os 
olhos 
para 
observar 
uma 
luz 
que 
se 
aproximava, 
vinda 
do 
fundo 
do 
corredor, 
percebi 
que 
todos 
estavam 
me 
olhando. 


"Ele 
levou 
um 
pontap 
do 
lado 
da 
cabea", 
disse. 


"Voc 
no 
pode 
afirmar 
que 
ele 
no 
bateu 
a 
cabea 
em 
algum 
lugar." 


Olhei 
para 
ela. 
"Posso 
sim", 
afirmei. 


"Como 
a 
gente 
pode 
ter 
certeza 
de 
que 
ele 
no 
foi 
pisoteado?" 


"A 
natureza 
dos 
ferimentos 
 
incompatvel 
com 
isso", 
respondi. 
"Normalmente, 
as 
pessoas 
pisam 
mais 
de 
uma 
vez 
em 
outras 
partes 
do 
corpo. 
Alm 
disso, 
se 
ele 
tivesse 
sido 
pisoteado, 
seria 
de 
se 
esperar 
que 
houvesse 
algum 
ferimento 
do 
outro 
lado 
do 
rosto, 
que 
estaria 
apoiado 
no 
concreto." 


Um 
trem 
passou 
em 
meio 
a 
uma 
rufada 
de 
ar 
quente 
e 
ao 
guincho 
das 
rodas. 
Luzes 
flutuavam 
na 
escurido 
longnqua, 
e 
as 
silhuetas 
que 
as 
acompanhavam 
eram 
meras 
sombras 
com 
vozes 
dbeis. 


"Ele 
foi 
posto 
fora 
de 
combate 
por 
um 
pontap, 
depois 
assassinado 
com 
sua 
prpria 
arma", 
afirmei. 


"Precisamos 
lev-lo 
ao 
necrotrio", 
disse 
a 
legista. 


A 
comandante 
Penn 
tinha 
os 
olhos 
arregalados, 
a 
expresso 
transtornada 
e 
irada. 


"Foi 
ele, 
no 
foi?", 
perguntou-me 
quando 
recomeamos 
a 
andar. 


#
"Ele 
j 
atacou 
outras 
pessoas 
a 
pontaps", 
disse. 


"Mas 
por 
qu? 
Ele 
tem 
uma 
Glock. 
Por 
que 
ele 
no 
usou 
sua 
prpria 
arma?" 


"A 
pior 
coisa 
que 
pode 
acontecer 
a 
um 
policial 
 
ser 
morto 
com 
sua 
prpria 
arma", 
respondi. 


"Voc 
acha 
ento 
que 
Gault 
fez 
isso 
de 
propsito, 
pensando 
em 
como 
a 
polcia... 
em 
como 
ns 
iramos 
nos 
sentir?" 


"Ele 
deve 
ter 
pensado 
que 
seria 
divertido." 


Fizemos 
o 
caminho 
de 
volta 
andando 
sobre 
os 
trilhos 
e 
sobre 
o 
lixo 
cheio 
de 
ratos. 
Percebi 
que 
a 
comandante 
Penn 
estava 
chorando. 
Alguns 
minutos 
se 
passaram. 


Ela 
disse: 
"Davila 
era 
um 
bom 
agente. 
Sempre 
to 
solcito, 
nunca 
se 
queixava 
de 
nada... 
e 
o 
seu 
sorriso. 
Ele 
iluminava 
uma 
sala". 
Sua 
voz 
agora 
estava 
crispada 
de 
tanta 
fria. 
"Ele 
no 
passava 
de 
um 
garoto." 


Seus 
agentes 
estavam 
em 
volta 
de 
ns 
mas 
no 
to 
perto, 
e 
quando 
olhei 
o 
tnel 
e 
os 
trilhos, 
pensei 
nos 
quilmetros 
subterrneos 
de 
desvios 
e 
de 
curvas 
do 
metr. 
Os 
sem-teto 
no 
tinham 
lanternas 
e 
eu 
no 
entendia 
como 
conseguiam 
ver 
no 
escuro. 
Passamos 
por 
outro 
acampamento 
miservel 
onde 
um 
homem 
branco, 
que 
me 
pareceu 
vagamente 
familiar, 
fumava 
crack 
num 
pedao 
de 
antena 
de 
carro, 
como 
se 
no 
houvesse 
nem 
lei 
nem 
ordem 
no 
pas. 
Quando 
vi 
seu 
bon 
de 
beisebol, 
no 
liguei 
logo 
as 
coisas. 
A 
olhei 
com 
ateno. 


"Benny, 
Benny, 
Benny. 
Que 
vergonha", 
disse 
um 
dos 
agentes 
com 
impacincia. 
"Vamos. 
Voc 
sabe 
que 
no 
pode 
fazer. 
Quantas 
vezes 
vamos 
ter 
que 
repetir 
isso, 
cara?" 


Benny 
me 
seguira 
at 
a 
sede 
do 
Departamento 
de 
Medicina 
Legal, 
na 
manh 
do 
dia 
anterior. 
Reconheci 
a 
cala 
suja 
e 
barata, 
as 
botas 
de 
caubi 
e 
a 
jaqueta 
jeans. 


"Vai, 
 
s 
me 
prender", 
disse 
ele, 
acendendo 
sua 
pedra 
de 
crack 
novamente. 


"Ah, 
sim, 
voc 
vai 
ser 
preso, 
cara. 
J 
estou 
por 
aqui 
com 
voc." 


Falei 
calmamente 
para 
a 
comandante 
Penn. 
"O 
bon 
dele." 


#
Era 
um 
bon 
azul-escuro 
ou 
preto, 
do 
Atlanta 
Braves. 


"Esperem 
um 
pouco", 
disse 
ela 
aos 
seus 
comandados, 
e 
depois 
perguntou 
a 
Benny: 
"Onde 
voc 
arrumou 
esse 
bon?". 


"Eu 
no 
sei 
de 
nada", 
respondeu 
ele, 
tirando 
o 
bon 
e 
deixando 
 
mostra 
um 
tufo 
de 
cabelo 
grisalho. 
Seu 
nariz 
dava 
a 
impresso 
de 
ter 
sido 
mastigado. 


"Claro 
que 
sabe", 
insistiu 
a 
comandante. 


Ele 
lhe 
lanou 
um 
olhar 
alucinado. 


"Benny, 
onde 
voc 
conseguiu 
esse 
bon?", 
repetiu 
ela. 


Dois 
agentes 
levantaram-no 
e 
o 
algemaram. 
Debaixo 
de 
um 
cobertor 
havia 
livros 
em 
brochura, 
revistas, 
isqueiros 
a 
gs 
e 
saquinhos 
de 
Ziploc. 
Havia 
tambm 
muitas 
pastilhas 
de 
vitaminas, 
pacotes 
de 
goma 
de 
mascar 
sem 
acar, 
uma 
flautinha 
de 
metal 
e 
uma 
caixa 
de 
palhetas 
de 
saxofone. 
Eu 
e 
a 
comandante 
Penn 
nos 
entreolhamos. 


"Recolham 
tudo", 
disse 
ela 
aos 
agentes. 


"Vocs 
no 
podem 
tirar 
o 
meu 
lugar." 
Benny 
lutou 
contra 
seus 
captores. 
"Vocs 
no 
podem 
me 
tomar 
a 
merda 
do 
meu 
lugar." 
Ele 
batia 


o 
p 
no 
cho. 
"Seus 
desgraados 
filhos 
da 
puta..." 
"Voc 
s 
est 
piorando 
as 
coisas, 
Benny." 
Eles 
o 
seguraram 
com 
mais 
fora, 
um 
policial 
de 
cada 
lado. 


"No 
toquem 
em 
nada 
sem 
luvas", 
ordenou 
Penn. 


"No 
se 
preocupe." 


Eles 
colocaram 
todos 
os 
trastes 
de 
Benny 
em 
sacos 
de 
lixo, 
que 


foram 
levados 
junto 
com 
o 
dono. 
Segui-os 
com 
a 
minha 
lanterna, 
e 
a 
vasta 
e 
oca 
escurido 
parecia 
ter 
olhos. 
Muitas 
vezes, 
eu 
me 
voltava 
e 
via 
apenas 
uma 
luz 
que 
imaginava 
ser 
de 
um 
trem, 
at 
que 
de 
repente 
ela 
se 
moveu 
para 
os 
lados. 
Percebi 
ento 
que 
era 
a 
luz 
de 
uma 
lanterna 
que, 
naquele 
momento, 
iluminava 
um 
arco 
por 
onde 
Temple 
Gault 
estava 
passando. 
A 
silhueta 
magra 
num 
casaco 
preto 
comprido, 
o 
rosto, 
uma 
mancha 
branca 
luminosa. 
Puxei 
a 
comandante 
pela 
manga 
e 
gritei. 


#
8 


Mais 
de 
trinta 
policiais 
vasculharam 
o 
Bowery 
e 
suas 
galerias 
de 
metr, 
por 
toda 
aquela 
noite 
sombria. 
Ningum 
conseguia 
entender 
como 
Gault 
entrara 
nos 
tneis, 
a 
menos 
que 
no 
tivesse 
sado 
de 
l 
depois 
de 
matar 
Jim 
Davila. 
No 
tnhamos 
a 
menor 
idia 
de 
como 
ele 
sara 
de 
l 
depois 
do 
crime, 
mas 
ele 
saiu. 


Na 
manh 
seguinte, 
Wesley 
foi 
para 
o 
La 
Guardi, 
enquanto 
eu 
e 
Marino 
voltvamos 
para 
o 
necrotrio. 
No 
encontrei 
nem 
a 
dra. 
Jonas, 
nem 
o 
dr. 
Horowitz, 
mas 
fui 
informada 
de 
que 
a 
comandante 
Penn 
estaria 
l 
com 
um 
de 
seus 
detetives, 
e 
que 
ns 
os 
encontraramos 
na 
sala 
de 
radiografia. 


Adentramos 
a 
sala 
como 
um 
casal 
que 
entra 
no 
cinema 
com 
o 
filme 
j 
comeado, 
e 
nos 
perdemos 
na 
escurido. 
Marino, 
meio 
desequilibrado, 
acabou 
se 
encontrando 
com 
uma 
parede. 
Era 
comum 
ele 
perder 
o 
equilbrio 
em 
situaes 
como 
aquela. 
Era 
comum 
ficar 
meio 
aturdido 
e 
comear 
a 
perder 
o 
equilbrio. 
Aproximei-me 
da 
mesa 
de 
ao, 
onde 
vultos 
negros 
rodeavam 
o 
corpo 
de 
Davila 
e 
um 
filete 
de 
luz 
vasculhava 
sua 
cabea 
perfurada. 


"Gostaria 
de 
ter 
um 
daqueles 
moldes 
para 
comparao", 
disse 
algum. 


"Temos 
algumas 
fotos 
das 
pegadas 
aqui." 
Reconheci 
a 
voz 
da 
comandante 
Penn. 


"timo." 


"O 
laboratrio 
est 
com 
os 
moldes." 


"O 
seu?" 


"No, 
no 
o 
nosso", 
explicou 
Penn. 
"O 
do 
DPNY." 


"Esta 
rea 
de 
abraso 
e 
de 
contuso 
formando 
um 
desenho 
 
do 
salto." 
A 
luz 
parou 
embaixo 
do 
ouvido 
esquerdo. 
"As 
linhas 
onduladas 
so 
muito 
ntidas 
e 
no 
vejo 
nenhum 
resduo 
na 
abraso. 
Temos 
tambm 
esse 
desenho 
aqui. 
No 
consigo 
perceber 
bem. 
Essa 
contuso, 
hum... 
uma 
espcie 
de 
mancha 
com 
uma 
pontinha. 
No 
sei 
o 
que 
 
isso." 


#
"Podemos 
tentar 
ampliar 
a 
imagem." 


"Certo, 
certo." 


"E 
quanto 
 
prpria 
orelha? 
Alguma 
marca 
especial?" 


" 
difcil 
dizer, 
mas 
ou 
rachou, 
ou 
foi 
cortada. 
As 
bordas 
irregulares 
no 
tm 
escoriaes 
e 
esto 
unidas 
por 
pontes 
de 
tecidos. 
E 
pode-se 
dizer, 
em 
vista 
dessa 
lacerao 
curva 
bem 
aqui 
embaixo 
 
o 
dedo 
enluvado 
apontou 
, 
que 
o 
salto 
esmagou 
a 
orelha." 


"Por 
isso 
ela 
rachou." 


"Um 
nico 
golpe, 
aplicado 
com 
toda 
a 
fora." 


"O 
bastante 
para 
mat-lo?" 


"Talvez. 
Veremos. 
Suponho 
que 
ele 
tenha 
fraturas 
no 
temporal 
e 
no 
parietal 
esquerdo 
e 
uma 
grande 
hemorragia 
epidural." 


"Sou 
capaz 
de 
apostar 
que 
sim." 


As 
mos 
enluvadas 
manipulavam 
o 
frceps 
e 
a 
luz. 
Um 
fio 
de 
cabelo 
preto, 
de 
uns 
quinze 
centmetros 
de 
comprimento, 
estava 
grudado 
na 
gola 
ensangentada 
do 
suter 
de 
Davila. 
O 
cabelo 
foi 
recolhido 
e 
colocado 
num 
envelope, 
enquanto 
eu 
tateava 
em 
direo 
 
porta. 
Deixei 
os 
culos 
especiais 
num 
carrinho 
de 
empurrar 
e 
fui 
embora. 
Marino 
vinha 
bem 
atrs 
de 
mim. 


"Se 
o 
cabelo 
 
dele", 
disse 
Marino, 
no 
corredor, 
"ele 
deve 
ter 
tingido 
de 
novo." 


"Era 
de 
se 
esperar 
que 
fizesse 
isso", 
comentei, 
lembrando-me 
da 
silhueta 
que 
vira 
na 
noite 
passada. 
O 
rosto 
de 
Gault 
estava 
muito 
branco, 
mas 
eu 
no 
saberia 
dizer 
nada 
sobre 
seu 
cabelo. 
"Quer 
dizer 
ento 
que 
ele 
no 
est 
mais 
com 
a 
cabea 
vermelha." 


"A 
essa 
altura 
ele 
deve 
estar 
de 
cabelo 
prpura, 
pelo 
que 
sei." 


"Se 
ele 
continuar 
pintando 
os 
cabelos 
desse 
jeito, 
eles 
vo 
terminar 
caindo." 


" 
pouco 
provvel", 
respondi, 
"Mas 
o 
cabelo 
pode 
no 
ser 
seu. 
A 
doutora 
Jonas 
tem 
cabelos 
pretos 
mais 
ou 
menos 
naquele 
comprimento, 
e 
ela 
esteve 
debruada 
sobre 
o 
corpo 
na 
noite 
passada." 


Estvamos 
todos 
de 
avental, 
luvas 
e 
mscaras, 
e 
parecamos 
uma 
equipo 
de 
cirurgies 
pronta 
para 
alguma 
operao 
espetacular, 


#
como 
um 
transplanto 
de 
corao, 
por 
exemplo. 
Alguns 
homens 
levavam 
um 
triste 
carregamento 
de 
caixes 
de 
pinho., 
destinados 
ao 
cemitrio 
de 
indigentes 
e, 
por 
trs 
dos 
vidros, 
as 
autpsias 
da 
manh 
j 
tinham 
comeado. 
At 
aquele 
momento 
s 
havia 
cinco 
casos, 
sendo 
que 
um 
deles 
era 
de 
uma 
criana 
que, 
com 
toda 
a 
certeza, 
sofrer 
morte 
violenta. 
Marino 
desviou 
o 
olhar. 


"Merda", 
resmungou 
ele, 
o 
rosto 
avermelhado. 
"Que 
bela 
maneira 
de 
comear 
o 
dia." 


No 
respondi. 


"Davila 
s 
tinha 
dois 
meses 
de 
casado." 


No 
havia 
nada 
a 
dizer. 


"Conversei 
com 
uns 
caras 
que 
o 
conheciam." 


Os 
objetos 
pessoais 
de 
Benny 
foram 
jogados 
sem 
maiores 
cuidados 
na 
mesa 
quatro, 
o 
ou 
decidi 
lev-los 
para 
mais 
longe 
da 
criana 
morta. 


"Ele 
sempre 
teve 
vontade 
de 
ser 
policial. 
J 
estou 
de 
saco 
cheio 
de 
ouvir 
isso 
o 
tempo 
todo." 


Os 
sacos 
com 
aquela 
tralha 
estavam 
pesados, 
e 
exalavam 
um 
odor 
ftido 
na 
altura 
cm 
que 
estavam 
amarrados. 
Comecei 
a 
carreg-los 
para 
a 
mesa 
oito. 


"Voc 
quer 
me 
explicar 
por 
que 
algum 
poderia 
querer 
uma 
profisso 
como 
essa?" 
Marino 
ia 
ficando 
cada 
vez 
mais 
irritado, 
 
medida 
que 
me 
ajudava 
a 
carregar 
os 
sacos. 


"Queremos 
dar 
nossa 
contribuio", 
disse-lhe. 
"Queremos 
de 
alguma 
forma 
melhorar 
as 
coisas." 


"Certo", 
concordou 
ele, 
sarcasticamente. 
"Com 
toda 
a 
certeza, 
Davila 
melhorou 
as 
coisas." 


"No 
tire 
esse 
mrito 
dele. 
O 
bem 
que 
ele 
fez 
foi 
tudo 
o 
que 
deixou." 


A 
serra 
Stryker 
comeou 
a 
funcionar, 
a 
gua 
tamborilava 
e 
os 
raios 
X 
revelavam 
projteis 
e 
ossos 
naquele 
teatro 
de 
platia 
silenciosa 
e 
atores 
mortos. 
A 
comandante 
Penn 
entrou 
por 
um 
instante, 
os 
olhos 
cansados 
aparecendo 
acima 
da 
mscara. 
Estava 
acompanhada 
de 
um 


#
jovem 
negro 
que 
ela 
nos 
apresentou 
como 
detetive 
Maier. 
Ele 
nos 
mostrou 
as 
fotografias 
das 
pegadas 
na 
neve 
do 
Central 
Park. 


"As 
fotos 
esto 
quase 
em 
escala 
um 
por 
um", 
explicou 
ele. 
" 
verdade 
que 
seria 
bem 
melhor 
se 
pudssemos 
conseguir 
os 
moldes." 


Mas 
o 
DPNY 
os 
tinha, 
e 
eu 
seria 
capaz 
de 
apostar 
que 
a 
Polcia 
de 
Trnsito 
nunca 
veria 
a 
cor 
deles. 
Francs 
Penn 
no 
parecia 
nem 
um 
pouco 
com 
a 
mulher 
que 
eu 
visitara 
na 
noite 
anterior, 
e 
eu 
me 
perguntava 
por 
que 
ela 
me 
convidara 
ao 
seu 
apartamento. 
Que 
confidencias 
me 
faria, 
se 
no 
tivssemos 
sido 
chamadas 
ao 
Bowery? 


Comeamos 
a 
desamarrar 
os 
sacos 
e 
a 
colocar 
os 
objetos 
na 
mesa, 
exceto 
os 
ftidos 
cobertores 
de 
l 
que 
constituam 
a 
casa 
de 
Benny. 
Estes 
ns 
dobramos 
e.empilhamos 
no 
cho. 
Era 
um 
amontoado 
de 
coisas 
estranhas, 
que 
s 
podiam 
ser 
explicadas 
de 
duas 
maneiras. 
Ou 
Benny 
estivera 
vivendo 
com 
algum 
que 
possua 
um 
par 
de 
botas 
masculinas 
tamanho 
trinta 
e 
oito, 
ou 
de 
algum 
modo 
adquirira 
os 
bens 
de 
algum 
que 
possua 
um 
par 
de 
botas 
masculinas 
tamanho 
trinta 
e 
oito. 
Segundo 
nos 
informaram, 
Benny 
calava 
quarenta 
e 
um. 


"O 
que 
Benny 
falou 
hoje 
de 
manh?", 
perguntou 
Marino. 


O 
detetive 
Maier 
respondeu: 
"Ele 
disse 
que 
as 
botas 
simplesmente 
apareceram 
entre 
seus 
cobertores. 
Ele 
foi 
 
rua 
e, 
quando 
voltou, 
l 
estavam 
elas 
dentro 
da 
mochila." 
Ele 
apontou 
para 
uma 
imunda 
mochila 
de 
lona 
verde 
que 
tinha 
muitas 
histrias 
a 
contar. 


"Quando 
foi 
isso?", 
perguntei. 


"Bem, 
Benny 
no 
soube 
precisar. 
Alis, 
ele 
no 
d 
certeza 
de 
nada. 
Mas 
acha 
que 
foi 
h 
uns 
dias." 


"Ele 
viu 
quem 
deixou 
a 
mochila?", 
perguntou 
Marino. 


"Ele 
diz 
que 
no 
sabe." 


Segurei 
uma 
fotografia 
bem 
junto 
 
sola 
de 
uma 
das 
botas 
para 
comparar, 
e 
vi 
que 
o 
tamanho 
e 
a 
costura 
eram 
iguais. 
Benny, 
de 
alguma 
forma, 
adquirira 
os 
pertences 
da 
mulher 
que, 
segundo 
supnhamos, 
Gault 
tinha 
assassinado 
no 
Central 
Park. 
Ns 
quatro 
ficamos 
em 
silncio 
por 
um 
tempo, 
enquanto 
examinvamos 
cada 
um 
dos 
objetos 
que 
supnhamos 
ser 
dela. 
Senti-me 
meio 
tonta 
e 
cansada 


#
quando 
comeamos 
a 
reconstituir 
uma 
vida 
a 
partir 
de 
uma 
flautinha 
de 
metal 
e 
de 
trapos. 


"No 
poderamos 
cham-la 
de 
um 
nome 
qualquer?", 
falou 
Marino. 
"Me 
incomoda 
isso 
de 
ela 
no 
ter 
nome." 


"Como 
voc 
a 
gostaria 
de 
chamar?", 
perguntou 
Penn. 


"Jane." 


O 
detetive 
Maier 
olhou 
para 
Marino. 
"Muito 
original. 
E 
qual 
seu 
sobrenome? 
Doe?" 


"H 
alguma 
probabilidade 
de 
as 
palhetas 
de 
saxofone 
serem 
de 
Benny?", 
perguntei. 


"Acho 
que 
no", 
disse 
Marino. 
"Ele 
diz 
que 
todas 
essas 
coisas 
estavam 
na 
mochila. 
No 
me 
consta 
que 
ele 
tenha 
interesses 
musicais." 


"s 
vezes 
ele 
toca 
uma 
guitarra 
invisvel", 
comentei. 


"Voc 
tambm 
faria 
isso 
se 
fumasse 
crack. 
E 
 
s 
isso 
o 
que 
ele 
faz. 
Ele 
pede 
esmolas 
e 
fuma 
crack." 


"Ele 
fazia 
alguma 
coisa 
antes 
disso?", 
perguntei. 


"Era 
eletricista 
e 
sua 
mulher 
o 
deixou." 


"Isso 
no 
 
motivo 
para 
cair 
na 
sarjeta", 
retrucou 
Marino, 
que 
tambm 
fora 
abandonado 
pela 
mulher. 
"Deve 
haver 
alguma 
outra 
coisa." 


"Drogas. 
Ele 
terminou 
estendido 
na 
rua, 
em 
Bellevue. 
Depois 
ficou 
sbrio 
e 
foi 
embora. 
A 
mesma 
histria." 


"Deve 
haver 
um 
saxofone 
para 
essas 
palhetas, 
ser 
que 
Benny 
o 
ps 
no 
prego?", 
perguntei. 


"No 
d 
pra 
saber", 
respondeu 
Maier. 
"Benny 
diz 
que 
s 
tinha 
isso 
na 
mochila." 


Pensei 
na 
boca 
da 
mulher 
que 
agora 
chamvamos 
de 
Jane, 
no 
desgaste 
nos 
dentes 
da 
frente, 
que 
o 
dentista 
forense 
atribura 
ao 
hbito 
de 
fumar 
cachimbo. 


"Se 
ela 
tocava 
clarinete 
ou 
saxofone 
h 
muito 
tempo", 
disse, 
"isso 
explicaria 
o 
desgaste 
dos 
dentes." 


"E 
o 
que 
me 
diz 
da 
flauta 
de 
metal?", 
perguntou 
Penn, 
olhando 
mais 
de 
perto 
a 
flauta 
de 
metal 
amarelo 
com 
bocal 
vermelho. 
A 
marca 


#
era 
Generation, 
de 
fabricao 
britnica, 
e 
no 
parecia 
ser 
nova. 


"Se 
ela 
a 
tocava 
bastante, 
isso 
contribua 
para 
estragar 
ainda 
mais 
os 
dentes 
da 
frente", 
comentei. 
" 
interessante 
tambm 
que 
ela 
 
uma 
flauta 
contralto, 
e 
as 
palhetas 
so 
para 
sax 
contralto. 
Portanto, 
ela 
deve 
ter 
tocado 
um 
sax 
contralto 
em 
algum 
perodo 
da 
sua 
vida." 


"Talvez 
antes 
de 
ter 
tido 
a 
leso 
no 
crebro", 
disse 
Marino. 


"Talvez." 


Continuamos 
separando 
e 
examinando 
seus 
pertences, 
tentando 
l-los 
como 
quem 
adivinha 
o 
futuro 
nas 
folhas 
de 
ch. 
Ela 
gostava 
de 
chiclete 
sem 
acar 
e 
de 
pasta 
de 
dentes 
Sensodyne, 
o 
que 
era 
perfeitamente 
compreensvel 
em 
vista 
de 
seus 
problemas 
nos 
dentes. 
Tinha 
calas 
jeans 
masculinas 
pretas 
com 
trinta 
e 
dois 
de 
cintura 
e 
trinta 
e 
quatro 
de 
comprimento. 
Elas 
eram 
velhas 
e 
dobradas 
na 
bainha, 
como 
se 
tivessem 
pertencido 
a 
outra 
pessoa 
ou 
tivessem 
sido 
compradas 
num 
brech. 
Com 
certeza, 
elas 
eram 
muito 
grandes 
para 
seu 
tamanho, 
quando 
ela 
morreu. 


"Tem 
certeza 
de 
que 
estas 
coisas 
no 
pertencem 
a 
Benny?", 
perguntei. 


"Ele 
diz 
que 
no", 
respondeu 
Maier. 
"O 
que 
ele 
diz 
ser 
dele 
est 
neste 
saco." 
Ele 
apontou 
para 
um 
saco 
estufado 
no 
cho. 


Quando 
enfiei 
a 
mo 
enluvada 
no 
bolso 
de 
trs 
da 
cala, 
encontrei 
uma 
etiqueta 
vermelha 
e 
branca 
idntica 
 
que 
eu 
e 
Marino 
recebramos 
quando 
visitamos 
o 
Museu 
de 
Histria 
Natural. 
Ela 
era 
redonda, 
do 
tamanho 
de 
um 
dlar 
de 
prata, 
com 
um 
anel 
de 
barbante. 
De 
um 
lado 
estava 
impresso 
COLABORADOR, 
e 
do 
outro 
o 
logotipo 
do 
museu. 


"Isso 
deve 
ser 
examinado 
para 
que 
se 
colham 
as 
impresses 
digitais", 
disse, 
colocando 
a 
etiqueta 
na 
sacola 
em 
que 
recolhamos 
as 
provas, 
"Ela 
deve 
t-la 
tocado. 
E 
Gault 
tambm, 
se 
 
que 
foi 
ele 
quem 
pagou 
as 
entradas." 


"Por 
que 
ela 
teria 
guardado 
uma 
coisa 
dessas?", 
disse 
Marino. 
"Normalmente 
a 
gente 
tira 
isso 
do 
boto 
da 
camisa 
na 
sada 
e 
joga 
no 
lixo." 


#
"Ela 
deve 
ter 
posto 
no 
bolso, 
e 
depois 
esqueceu", 
comentou 
a 
comandante 
Penn. 


"Pode 
ter 
sido 
guardado 
com 
lembrana", 
falou 
Maier. 


"No 
me 
parece 
que 
ela 
fosse 
do 
tipo 
que 
guarda 
suvenires", 
comentei. 
"Na 
verdade, 
ela 
parecia 
ser 
muito 
metdica 
em 
relao 
ao 
que 
guardava 
e 
ao 
que 
jogava 
fora." 


"Voc 
est 
sugerindo 
que 
ela 
pode 
ter 
guardado 
a. 
etiqueta 
para 
que 
algum 
eventualmente 
pudesse 
ach-la?" 


"No 
sei", 
respondi. 


Marino 
acendeu 
um 
cigarro. 
"Fico 
me 
perguntando 
se 
ela 
conhecia 
Gault." 


"Se 
conhecia, 
e 
se 
sabia 
que 
estava 
em 
perigo, 
ento 
por 
que 
ela 
foi 
com 
ele 
ao 
parque, 
 
noite?" 


" 
isso 
que 
no 
faz 
sentido." 
Marino, 
com 
a 
mscara 
puxada 
para 
baixo, 
soltou 
uma 
grande 
baforada 
de 
fumaa. 


"No 
faria 
sentido 
se 
ele 
lhe 
fosse 
completamente 
estranho", 
corrigi. 


"Ento 
talvez 
ela 
o 
conhecesse", 
disse 
Maier. 


"Talvez 
sim", 
concordei. 


Enfiei 
a 
mo 
nos 
outros 
bolsos 
da 
cala 
preta 
e 
achei 
oitenta 
e 
dois 
centavos, 
uma 
palheta 
de 
saxofone 
mascada 
e 
vrios 
lenos 
de 
papel 
Kleenex 
bem 
dobrados. 
Encontramos 
tambm 
na 
mochila 
uma 
camiseta 
azul, 
de 
tamanho 
mdio,virada 
do 
avesso, 
com 
os 
dizeres 
apagados 
demais 
para 
que 
pudessem 
ser 
lidos. 


Ela 
tinha 
ainda 
duas 
calas 
cinzentas 
e 
trs 
pares 
de 
meias 
esportivas 
com 
listras 
coloridas. 
Numa 
bolsinha 
dentro 
da 
mochila 
havia 
a 
fotografia 
emoldurada 
de 
um 
co 
malhado 
 
sombra 
marchetada 
de 
rvores. 
O 
co 
parecia 
estar 
mostrando 
os 
dentes 
para 
a 
pessoa 
que 
o 
fotografava; 
ao 
fundo, 
uma 
figura 
indistinta 
observava. 


" 
preciso 
que 
seja 
examinado 
para 
ver 
se 
tem 
impresses 
digitais", 
afirmei. 
"Se 
voc 
olha 
a 
foto 
segurando-a 
de 
lado, 
d 
pra 
ver 
algumas 
marcas 
no 
vidro." 


"Aposto 
como' 
o 
cachorro 
dela", 
comentou 
Maier. 


#
A 
comandante 
Penn 
disse: 
"D 
para 
saber 
em 
que 
parte 
do 
mundo 
a 
foto 
foi 
tirada?". 


Olhei 
a 
fotografia 
mais 
de 
perto. 
"Parece 
ser 
um 
lugar 
plano. 
O 
sol 
 
forte. 
No 
vejo 
nenhuma 
vegetao 
tropical. 
No 
parece 
ser 
um 
deserto." 


"Ou 
seja, 
pode 
ter 
sido 
tirada 
praticamente 
em 
qualquer 
lugar", 
disse 
Marino. 


"Quase", 
corrigi. 
"E 
no 
posso 
dizer 
nada 
do 
vulto 
ao 
fundo." 


A 
comandante 
Penn 
examinou 
a 
fotografia. 
"Um 
homem, 
talvez?" 


"Pode 
ser 
uma 
mulher", 
respondi. 


"Sim, 
acho 
que 
sim", 
disse 
Maier. 
"Uma 
mulher 
bem 
magrinha." 


"Ento 
talvez 
seja 
Jane", 
disse 
Marino. 
"Ela 
gostava 
de 
bons, 
e 
essa 
pessoa 
parece 
estar 
usando 
um." 


Olhei 
para 
a 
comandante 
Penn. 
"Eu 
gostaria 
que 
me 
dessem 
cpias 
de 
todas 
as 
fotografias, 
inclusive 
desta." 


"Vou 
providenci-las 
para 
voc 
o 
mais 
rpido 
possvel." 


Continuamos 
a 
tentar 
desvendar 
essa 
mulher 
que 
parecia 
estar 
conosco 
na 
sala. 
Eu 
sentia 
sua 
personalidade 
nos 
seus 
pobres 
pertences, 
e 
acreditava 
que 
eles 
nos 
dariam 
algumas 
pistas. 
Parecia 
que 
ela 
usava 
camisetas 
masculinas 
cm 
lugar 
de 
suti, 
e 
encontramos 
trs 
calcinhas 
e 
muitos 
lenos 
coloridos. 


Todos 
os 
seus 
pertences 
eram 
velhos 
e 
sujos, 
mas 
podia-se 
perceber 
uma 
certa 
organizao 
e 
cuidado 
nos 
rasges 
muito 
bem 
costurados 
e 
nas 
agulhas, 
linhas 
e 
botes 
extras 
guardados 
numa 
caixinha 
de 
plstico. 
S 
as 
calas 
pretas 
e 
a 
camiseta 
desbotada 
tinham 
sidos 
viradas 
do 
avesso 
e 
amarfanhadas, 
e 
desconfiamos 
de 
que 
ela 
as 
devia 
estar 
usando 
quando 
Gault 
a 
obrigou 
a 
despir-se 
na 
escurido. 


J 
perto 
do 
meio-dia, 
tnhamos 
examinado 
cada 
um 
dos 
objetos, 
e 
ainda 
estvamos 
longe 
da 
identificao 
da 
vtima, 
que 
agora 
chamvamos 
de 
Jane. 
A 
gente 
supunha 
que 
Gault 
devia 
ter 
sumido 
com 
qualquer 
coisa 
que 
a 
pudesse 
identificar, 
ou 
ento 
que 
Benny 
pegara 
o 
pouco 
dinheiro 
que 
ela 
trazia 
consigo, 
tendo 
se 
descartado 
do 
objeto 
em 
que 
ela 
o 
guardava. 
Eu 
no 
conseguia 
imaginar 
em 
que 


#
momento 
Gault 
deixara 
a 
mochila 
de 
lona 
nos 
cobertores 
de 
Benny, 
se 
 
que 
foi 
isso 
o 
que 
ele 
fez. 


"Quantas 
peas 
vamos 
examinai' 
para 
verificao 
de 
impresses 
digitais?", 
interrogou 
Maier. 


"Alm 
dos 
objetos 
que 
j 
coletamos", 
sugeri, 
"a 
flauta 
tem 
uma 
boa 
superfcie 
para 
impresses. 
Voc 
poderia 
tentar 
examinar 
a 
mochila 
com 
luz 
espectrogrfica. 
Especialmente 
a 
parte 
interna 
da 
borda, 
que 
e 
de 
couro." 


"O 
problema 
continua 
sendo 
ela", 
disse 
Marino. 
"Nada 
disso 
aqui 
vai 
nos 
dizer 
quem 
 
ela." 


"Bem, 
tenho 
uma 
novidade 
para 
voc: 
no 
acho 
que 
identificar 
Jane 
possa 
ajudar 
a 
agarrar 
o 
cara 
que 
a 
matou." 


Ao 
falar 
isso, 
notei 
que 
seu 
interesse 
por 
ela 
estava 
acabando. 
A 
luz 
sumiu 
de 
seus 
olhos, 
e 
eu 
j 
vira 
isso 
acontecer 
antes, 
quando 
se 
tratava 
de 
vtimas 
que 
no 
eram 
ningum. 
Jane 
j 
dispusera 
de 
toda 
a 
ateno 
que 
iria 
receber. 
Ironicamente, 
ela 
teria 
ainda 
menos 
ateno 
se 
seu 
assassino 
no 
fosse 
to 
famoso. 


"Voc 
acha 
que 
Gault 
matou-a 
no 
parque 
e 
depois 
foi 
para 
a 
galeria 
onde 
a 
mochila 
foi 
encontrada?", 
perguntei. 


"Ele 
deve 
ter 
feito 
isso", 
disse 
Maier. 
"Bastava 
sair 
de 
Cherry 
Hill 
e 
pegar 
o 
metr, 
digamos, 
na 
rua 
86 
ou 
na 
77. 
Ele 
iria 
direto 
para 
Bowery." 


"Ou, 
por 
falar 
nisso, 
poderia 
ter 
pegado 
um 
txi", 
disse 
a 
comandante 
Penn. 
"O 
que 
ele 
no 
poderia 
 
ter 
caminhado. 
 
um 
bom 
pedao." 


"E 
se 
a 
mochila 
tivesse 
sido 
deixada 
na 
cena 
do 
crime, 
bem 
 
mostra, 
junto 
do 
chafariz?", 
perguntou 
Marino. 
"Ben-ny 
poderia 
t-la 
encontrado, 
no?" 


"Por 
que 
ele 
estaria 
em 
Cherry 
Hill 
quela 
hora? 
Lembre-se 
de 
como 
estava 
o 
tempo", 
respondeu 
a 
comandante 
Penn. 


Uma 
porta 
se 
abriu 
e 
alguns 
funcionrios 
entraram 
empurrando 
a 
maa 
com 
o 
corpo 
de 
Davila. 


"No 
sei 
por 
que 
isso 
me 
veio 
 
cabea", 
falou 
Maier. 
"Mas 


#
quando 
ela 
visitou 
o 
museu, 
estava 
com 
a 
mochila?", 
perguntou 
ele 
 
comandante 
Penn. 


"Acho 
que 
algum 
afirmou 
que 
ela 
trazia 
uma 
espcie 
de 
bolsa 
pendurada 
num 
dos 
ombros." 


"Pode 
ter 
sido 
a 
mochila." 


"Pode 
sim." 


"Benny 
vende 
drogas?", 
perguntei. 


"Depois 
de 
algum 
tempo, 
se 
voc 
compra, 
termina 
por 
vender 
tambm", 
falou 
Maier. 


"Deve 
haver 
algum 
tipo 
de 
relao 
entre 
Davila 
e 
a 
mulher 
assassinada", 
comentei. 


A 
comandante 
Penn 
me 
olhou 
com 
curiosidade. 


"No 
devemos 
descartar 
essa 
possibilidade", 
continuei. 
" 
primeira 
vista, 
parece 
improvvel. 
Mas 
tanto 
Gault 
quanto 
Davila 
se 
encontravam 
no 
tnel 
na 
mesma 
hora. 
Por 
qu?" 


"Por 
um 
azar 
do 
destino." 
Maier 
desviou 
o 
olhar. 


Marino 
no 
disse 
nada. 
Sua 
ateno 
tinha 
sido 
desviada 
para 
a 
autpsia 
da 
mesa 
cinco, 
onde 
dois 
mdicos-legistas 
fotografavam 
o 
policial 
assassinado 
de 
diferentes 
ngulos. 
Um 
funcionrio 
com 
uma 
toalha 
mida 
limpava 
o 
sangue 
do 
rosto 
com 
gestos 
bruscos, 
dos 
quais 
Davila 
se 
ressentiria 
se 
estivesse 
vivo. 
Marino 
no 
percebeu 
que, 
estava 
sendo 
observado 
e 
por 
um 
instante 
deixou 
entrever 
sua 
vulnerabilidade. 
Notei 
os 
estragos 
provocados 
por 
anos 
de 
intempries, 
e 
o 
peso 
sobre 
seus 
ombros. 


"E 
Benny 
tambm 
estava 
no 
mesmo 
tnel 
, 
continuei. 
"Ele 
tambm 
pegou 
a 
mochila 
da 
cena 
do 
crime 
ou 
de 
algum, 
ou, 
como 
ele 
diz, 
deixaram-na 
entre 
seus 
cobertores." 


"Para 
falar 
com 
franqueza, 
no 
acredito 
que 
ela 
simplesmente 
tenha 
cado 
entre 
seus 
cobertores", 
comentou 
Maier. 


"Porqu?", 
perguntou 
lhe 
Penn. 


"Porque 
razo 
Gault 
a 
carregaria 
de 
Cherry 
Hill?Porque 
no 
deix-la 
e 
ir 
embora?" 


"Talvez 
houvesse 
alguma 
coisa 
dentro 
dela", 
imaginei 
em 
voz 


#
alta. 


"Que 
tipo 
de 
coisa?", 
perguntou 
Marino. 


"Alguma 
coisa 
que 
pudesse 
identific-la. 
Talvez 
ele 
no 
quisesse 
que 
isso 
acontecesse 
e 
queria 
examinar 
seus 
pertences." 


"Pode 
ser", 
disse 
a 
comandante 
Penn. 
"No 
encontramos 
entre 
seus 
pertences 
nada 
que 
possa 
identific-la." 


"Mas 
nos 
casos 
anteriores, 
Gault 
parecia 
no 
se 
preocupar 
se 
suas 
vtimas 
eram 
ou 
no 
identificadas", 
comentei. 
"Porque 
essa 
preocupao 
agora? 
Por 
que 
se 
preocupar 
com 
essa 
sem-teto 
com 
leso 
no 
crebro?" 


A 
comandante 
Penn 
parecia 
no 
estar 
me 
ouvindo, 
e 
ningum 
mais 
me 
respondeu.Os 
legistas 
comeavam 
a 
despir 
Davila, 
que 
parecia 
no 
querer 
ajudar. 
Ele 
mantinha 
os 
braos 
rigidamente 
cruzados 
sobre 


o 
trax, 
como 
se 
estivesse 
defendendo 
a 
bola 
num 
jogo 
de 
futebol. 
Os 
mdicos 
estavam 
tendo 
um 
tremendo 
trabalho 
para 
tirar 
o 
suter 
pelos 
braos 
e 
pela 
cabea, 
quando 
um 
pager 
tocou. 
Apalpamos 
involuntariamente 
a 
cintura, 
depois 
olhamos 
para 
a 
mesa 
de 
Davila 
enquanto 
o 
bip 
continuava 
a 
tocar. 
"No 
 
meu", 
disse 
um 
dos 
mdicos. 


"Desgraa", 
disse 
o 
outro 
legista. 
" 
o 
dele." 


Senti 
um 
arrepio 
na 
espinha 
quando 
ele 
tirou 
um 
pager 
do 
cinturo 
de 
Davila. 
Todos 
se 
calaram. 
No 
conseguamos 
tirar 
os 
olhos 
da 
mesa 
cinco 
e 
da 
comandante 
Penn, 
que 
foi 
at 
l 
porque 
ele 
era 
um 
subordinado 
seu 
e 
algum 
tentara 
se 
comunicar 
com 
ele 
naquele 
momento. 
O 
mdico 
passou-lhe 
o 
pager 
e 
ela 
o 
ergueu 
para 
ler 
a 
mensagem. 
Seu 
rosto 
ficou 
vermelho. 
Pude 
perceber 
que 
ela 
engolia 
em 
seco. 


" 
um 
cdigo", 
disse 
ela. 


Nem 
o 
mdico 
nem 
ela 
pensaram 
em 
no 
tocar 
no 
pager. 
Eles 
no 
sabiam 
que 
isso 
poderia 
ser 
importante. 


"Um 
cdigo?" 
Maier 
parecia 
espantado. 


"Um 
cdigo 
da 
polcia." 
Sua 
voz 
estava 
presa 
de 
tanta 
fria. 


"Dez-trao-sete". 


#
Dez-trao-sete 
significa 
Fim 
da 
linha. 


"Puta 
que 
pariu", 
disse 
Maier. 


Marino 
deu 
um 
passo 
 
frente 
sem 
sentir, 
como 
se 
estivesse 
se 
preparando 
para 
uma 
perseguio 
a 
p. 
Mas 
no 
havia 
ningum 
 
vista 
que 
pudesse 
ser 
perseguido. 


"Gault!", 
exclamou 
ele, 
incrdulo. 
Ele 
levantou 
a 
voz. 
"O 
filho 
da 
puta 
deve 
ter 
conseguido 
o 
nmero 
do 
pager 
depois 
de 
ter 
estourado 
seus 
miolos 
no 
tnel 
do 
metr. 
Sabe 
o 
que 
isso 
significa?" 
Olhou 
para 
ns. 
"Que 
ele 
est 
nos 
observando! 
Significa 
que 
ele 
sabe 
que 
estamos 
aqui 
fazendo 
isso." 


Maier 
olhou 
em 
volta. 


"No 
sabemos 
quem 
enviou 
a 
mensagem", 
disse 
o 
mdico, 
que 
estava 
completamente 
desconcertado. 


Mas 
eu 
sim. 
No 
tinha 
a 
menor 
dvida. 


"Mesmo 
que 
Gault 
tenha 
feito 
isso, 
ele 
no 
precisa 
ver 
o 
que 
est 
acontecendo 
aqui 
esta 
manh 
para 
saber", 
disse 
Maier. 
"Ele 
de 
qualquer 
forma 
saberia 
onde 
o 
corpo 
est." 


Gault 
tinha 
cincia 
de 
que 
eu 
estaria 
aqui, 
pensei. 
Talvez 
no 
soubesse, 
necessariamente, 
da 
presena 
dos 
outros. 


"Agora 
ele 
est 
onde 
acabou 
de 
telefonar." 
Marino 
lanava 
olhares 
selvagens 
 
sua 
volta. 
No 
conseguia 
ficar 
quieto. 


A 
comandante 
Penn 
ordenou 
a 
Maier: 
"Avise 
todas 
as 
unidades. 
Mande 
tambm 
um 
teletipo". 


Maier 
tirou 
as 
luvas 
e 
jogou-as 
raivosamente 
numa 
lata 
de 
lixo, 
enquanto 
corria 
para 
fora 
da 
sala. 


"Coloquem 
o 
pager 
na 
sacola 
das 
provas. 
 
preciso 
verificar 
se 
tem 
impresses 
digitais", 
disse-lhes. 
"Sei 
que 
tocamos 
nele, 
mas 
ainda 
assim 
podemos 
tentar. 
 
por 
isso 
que 
o 
casaco 
dele 
estava 
aberto." 


"Uh?" 
Marino 
parecia 
aturdido. 


"O 
casaco 
de 
Davila 
estava 
com 
o 
zper 
aberto 
e 
no 
havia 
nenhuma 
razo 
para 
isso." 


"Sim, 
havia 
uma 
razo, 
Gault 
queria, 
a 
arma 
de 
Davila." 


"No 
era 
preciso 
abrir 
o 
zper 
de 
seu 
casaco 
para 
pegar 
a 
arma. 


#
H 
uma 
abertura 
no 
lado 
do 
casaco 
onde 
fica 
o 
coldre. 
Acho 
que 
Gault 
abriu 
o 
zper 
do 
casaco 
para 
achar 
o 
pager. 
A 
ele 
pegou 
o 
nmero." 


Os 
legistas 
voltaram 
a 
se 
concentrar 
no 
corpo. 
Tiraram 
botas, 
meias 
e 
um 
coldre 
de 
cintura 
com 
uma 
Walther 
380, 
que 
Davila 
no 
tinha 
direito 
de 
portar 
e 
nunca 
teve 
a 
oportunidade 
de 
usar. 
Tiraram 
tambm 
o 
colete 
de 
Kevlar, 
a 
camiseta 
da 
Polcia 
Martima 
e 
um 
crucifixo 
de 
prata 
numa 
corrente 
comprida. 
No 
ombro 
direito, 
uma 
pequena 
tatuagem 
de 
uma 
rosa 
enlaando 
uma 
cruz. 
Em 
sua 
carteira, 
um 
dlar. 


#
9 


Sa 
de 
Nova 
York 
naquela 
tarde 
num 
avio 
da 
ponte 
area 
da 
USAIR, 
e 
cheguei 
ao 
aeroporto 
de 
Washington 
s 
trs 
horas. 
Lucy 
no 
pde 
me 
encontrar 
no 
aeroporto 
porque 
ela 
no 
dirigia 
desde 
o 
acidente 
que 
sofrer, 
e 
no 
havia 
nenhuma 
razo 
plausvel 
para 
que 
Wesley 
me 
esperasse 
no 
porto 
de 
desembarque. 


Na 
sada 
cio 
aeroporto, 
tive 
pena 
de 
mim 
mesma 
ao 
me 
ver 
lutando 
sozinha 
com 
mala 
e 
pasta. 
Eu 
me 
sentia 
exausta 
e 
minhas 
roupas 
estavam 
sujas. 
Terrivelmente 
acabrunhada, 
tinha 
a 
impresso 
de 
que 
no 
iria 
conseguir 
nem 
um 
txi. 


Finalmente, 
cheguei 
a 
Quantico 
num 
txi 
batido, 
azul-
esverdeado, 
com 
o 
vidro 
tingido 
de 
prpura. 
O 
vidro 
da 
minha 
janela 
no 
abaixava, 
e 
o 
motorista 
vietnamita 
no 
conseguia 
comunicar 
quem 
eu 
era 
ao 
guarda 
da 
Academia 
do 
FBI. 


"Senhora 
doutora", 
repetiu 
o 
motorista, 
e 
era 
evidente 
que 
ele 
estava 
nervoso 
com 
a 
segurana, 
com 
os 
trituradores 
de 
pneus 
e 
com 
as 
muitas 
antenas 
no 
topo 
dos 
edifcios. 
"Ela 
est 
OK." 


"No", 
corrigi-o. 
"Meu 
nome 
 
Kay. 
Kay 
Scarpetta." 


Tentei 
sair 
do 
txi, 
mas 
as 
portas 
estavam 
fechadas, 
e 
no 
havia 
mais 
pinos. 
O 
guarda 
foi 
pegar 
o 
rdio. 


"Por 
favor, 
deixe-me 
sair", 
falei 
para 
o 
motorista, 
que 
fitava 
a 
pistola 
nove-milmetros 
no 
cinturo 
do 
guarda. 
"Voc 
precisa 
me 
deixar 
sair." 


Ele 
voltou 
a 
cabea, 
assustado. 
"Sair 
daqui?" 


"No", 
respondi, 
enquanto 
o 
guarda 
saa 
da 
guarita. 


Os 
olhos 
do 
motorista 
se 
arregalaram. 


"O 
que 
quero 
dizer 
 
que 
eu 
preciso 
sair 
s 
por 
um 
minuto, 
para 
poder 
explicar 
ao 
guarda." 
Eu 
apontava 
e 
falava 
bem 
devagar. 
"Ele 
no 
sabe 
quem 
sou 
porque 
no 
consigo 
abrir 
a 
janela, 
e 
ele 
no 
pode 
ver 
atravs 
do 
vidro." 


O 
motorista 
continuou 
balanando 
a 
cabea. 


"Tenho 
que 
sair 
daqui", 
disse 
com 
firmeza 
e 
de 
forma 
enftica. 


#
"Voc 
tem 
que 
abrir 
as 
portas." 


As 
travas 
se 
abriram. 


Sa 
do 
carro 
e 
os 
raios 
do 
sol 
me 
fizeram 
piscar. 
Mostrei 
minha 
identidade 
ao 
guarda, 
que 
era 
jovem 
e 
tinha 
uma 
postura 
militar. 


"O 
vidro 
 
tingido 
e 
eu 
no 
podia 
ver 
a 
senhora", 
disse 
ele. 
"Da 
prxima 
vez 
abaixe 
os 
vidros." 


O 
motorista 
tinha 
comeado 
a 
tirar 
minha 
bagagem 
e 
a 
coloc-la 
na 
pista. 
Ele 
olhava 
em 
volta 
apavorado, 
ouvindo 
o 
fogo 
da 
artilharia 
e 
dos 
disparos 
das 
linhas 
de 
tiro 
dos 
Fuzileiros 
Navais 
e 
do 
FUI. 


"No, 
no, 
no." 
Fiz 
sinal 
para 
que 
ele 
recolocasse 
a 
bagagem 
no 
porta-malas. 
"Leve-me 
at 
ali, 
por 
favor." 
Apontei 
para 
o 
Jefferson, 
um 
edifcio 
alto 
de 
tijolos 
marrons 
para 
alm 
de 
um 
ptio 
de 
estacionamento. 


Dava 
para 
perceber 
que 
ele 
no 
queria 
me 
levar 
a 
lugar 
nenhum, 
mas 
entrei 
no 
carro 
novamente 
antes 
que 
ele 
pudesse 
ir 
embora. 
A 
tampa 
do 
porta-malas 
bateu, 
e 
o 
guarda 
fez 
sinal 
para 
que 
passssemos. 
O 
ar 
estava 
frio, 
o 
cu 
azul-brilhante. 


No 
saguo 
do 
Jefferson, 
um 
monitor 
de 
vdeo 
me 
deu 
as 
boas-
vindas 
a 
Quantico 
e 
me 
desejou 
um 
feriado 
feliz 
e 
tranqilo. 
Uma 
jovem 
sardenta 
registrou 
o 
meu 
nome 
e 
me 
deu 
um 
carto 
magntico, 
para 
que 
eu 
pudesse 
abrir 
as 
portas 
no 
interior 
da 
Academia. 


"Papai 
Noel 
foi 
bom 
para 
a 
senhora, 
doutora 
Scarpetta?", 
disse 
ela, 
alegremente, 
enquanto 
punha 
as 
chaves 
das 
salas 
em 
ordem. 


"Acho 
que 
me 
comportei 
mal 
este 
ano", 
respondi. 
"S 
recebi 
chicotadas." 


"No 
pode 
ser 
verdade. 
A 
senhora 
 
sempre 
to 
doce", 
falou. 
"Como 
sempre, 
vai 
ficar 
no 
andar 
de 
segurana." 


"Obrigada." 
Eu 
no 
conseguia 
lembrar 
seu 
nome 
e 
tive 
a 
impresso 
que 
ela 
percebeu 
isso. 


"Quantas 
noites 
a 
senhora 
vai 
passar 
conosco?" 


"S 
uma." 
Achei 
que 
seu 
nome 
devia 
ser 
Sara, 
e 
no 
sei 
por 
que 
parecia 
ser 
muito 
importante 
lembr-lo. 


Ela 
me 
passou 
duas 
chaves, 
uma 
de 
plstico, 
outra 
de 
metal. 


#
"Voc 
 
a 
Sara, 
no 
?", 
arrisquei 
o 
palpite. 


"No, 
sou 
Sally." 
Ela 
pareceu 
magoada. 


"Eu 
estava 
pensando 
em 
Sally", 
disse, 
desapontada. 
"Claro. 
Desculpe-me. 
Voc 
 
sempre 
to 
gentil 
comigo, 
e 
eu 
agradeo." 


Ela 
me 
lanou 
um 
olhar 
vago. 
"A 
propsito. 
Sua 
sobrinha 
chegou 
h 
uns 
trinta 
minutos." 


"Para 
onde 
ela 
foi?" 


Ela 
apontou 
para 
as 
portas 
de 
vidro 
que 
levavam 
do 
saguo 
ao 
corao 
cio 
edifcio, 
e 
apertou 
o 
boto 
para 
abri-las, 
antes 
que 
eu 
pudesse 
inserir 
o 
carto. 
Lucy 
poderia 
estar 
indo 
para 
a 
loja, 
para 
o 
correio, 
para 
a 
sala 
de 
reunies 
ou 
para 
o 
DPE. 
Poderia 
tambm 
ir 
ao 
seu 
quarto, 
que 
ficava 
no 
mesmo 
edifcio, 
mas 
em 
outra 
ala. 


Tentei 
imaginar 
onde 
ela 
poderia 
estar 
a 
essa 
hora 
da 
tarde, 
mas 
encontrei-a 
onde 
menos 
esperava. 
Em 
minha 
sute. 


"Lucy!", 
disse 
ao 
abrir 
a 
porta 
e 
v-la 
do 
outro 
lado. 
"Como 
voc 
entrou?" 


"Da 
mesma 
forma 
que 
voc", 
respondeu, 
sem 
grande 
entusiasmo. 
"Tenho 
uma 
chave." 


Levei 
minha 
bagagem 
para 
a 
sala 
de 
estar 
e 
coloquei-a 
no 
cho. 
"Por 
qu?" 
Observei 
sua 
expresso. 


"Meu 
quarto 
 
de 
um 
lado, 
o 
seu 
do 
outro", 
respondeu 
Lucy. 


O 
andar 
de 
segurana 
era 
para 
testemunhas 
sob 
ameaa, 
espies, 
ou 
quaisquer 
outras 
pessoas 
que 
o 
Ministrio 
da 
Justia 
achasse 
que 
mereciam 
proteo 
especial. 
Para 
chegar 
aos 
apartamentos, 
tinha-se 
que 
passar 
por 
duas 
portas. 
Pela 
primeira, 
era 
necessrio 
digitar 
um 
cdigo 
num 
teclado 
que 
era 
reconfigurado 
cada 
vez 
que 
era 
usado. 
Pela 
segunda, 
s 
se 
passava 
com 
um 
carto 
magntico, 
que 
tambm 
estava 
sempre 
mudando. 
Sempre 
desconfiei 
que 
os 
telefones 
eram 
grampeados. 


Puseram-me 
nesses 
aposentos 
havia 
mais 
de 
um 
ano, 
porque 
Gault 
no 
era 
o 
nico 
problema 
na 
minha 
vida. 
Eu 
estava 
espantada 
que 
Lucy 
tambm 
tivesse 
sido 
mandada 
para 
c. 


"Achei 
que 
voc 
estivesse 
no 
seu 
alojamento 
em 
Washington", 


#
comentei. 


Ela 
foi 
at 
a 
sala 
de 
estar 
e 
se 
sentou. 
"Eu 
estava", 
respondeu. 
"E 
agora 
 
tarde 
estou 
aqui." 


Sentei-me 
no 
sof 
 
sua 
frente. 
Haviam 
enfeitado 
a 
sala 
com 
flores 
de 
seda 
e 
as 
cortinas 
da 
janela 
foram 
abertas, 
deixando 
ver 
o 
cu. 
Minha 
sobrinha 
usava 
calas 
esportivas, 
sapatos 
de 
corrida 
e 
um 
suter 
preto 
do 
FBI 
com 
capuz. 
Seu 
cabelo 
castanho-avermelhado 
estava 
curto, 


o 
rosto 
fino 
impecvel, 
exceto 
pela 
cicatriz 
brilhante 
na 
testa. 
Lucy 
era 
snior 
do 
UVA. 
Ela 
era 
bonita 
e 
brilhante, 
e 
nosso 
relacionamento 
sempre 
fora 
cheio 
de 
altos 
e 
baixos. 
"Eles 
a 
trouxeram 
para 
c 
porque 
estou 
aqui?", 
eu 
continuava 
tentando 
entender. 


"No." 


"Voc 
no 
me 
abraou 
quando 
cheguei", 
ocorreu-me 
isso 
quando 
me 
levantei. 
Beijei 
seu 
rosto, 
mas 
ela 
ficou 
dura, 
desvencilhando-se 
de 
meus 
braos. 
"Voc 
andou 
fumando." 
Voltei 
a 
sentar. 


"Quem 
lhe 
contou?" 


"No 
 
preciso 
que 
ningum 
me 
diga. 
Sinto 
o 
cheiro 
no 
seu 
cabelo." 


"Voc 
me 
abraou 
porque 
sabia 
que 
estava 
cheirando 
a 
cigarro." 


"E 
voc 
no 
me 
abraou 
porque 
no 
queria 
que 
eu 
sentisse 
o 
cheiro." 


"Voc 
est 
ralhando 
comigo." 


"De 
forma 
alguma", 
respondi. 


"Est 
sim. 
Voc 
 
pior 
que 
a 
vov", 
disse 
ela. 


"Que 
por 
sinal 
est 
no 
hospital 
porque 
fumava", 
completei, 
sustentando 
o 
fogo 
de 
seus 
olhos 
verdes. 


"Como 
voc 
j 
sabe, 
posso 
fumar 
agora." 


"No 
se 
pode 
fumar 
neste 
quarto. 
Na 
verdade, 
nada 
 
permitido 


nesse 
quarto", 
disse-lhe. 
"Nada?" 
Ela 
no 
piscou. 
"Absolutamente 
nada." 
"Voc 
toma 
caf 
aqui. 
Eu 
sei. 
Eu 
ouvia 
voc 
pondo 
caf 
no 


#
microondas 
quando 
a 
gente 
falava 
pelo 
telefone." 


"Caf 
no 
tem 
problema." 


"Voc 
disse 
que 
nada 
 
permitido 
nesse 
quarto. 
Para 
muita 
gente 
em 
nosso 
planeta, 
caf 
 
um 
vcio. 
Aposto 
como 
voc 
toma 
bebidas 
alcolicas 
aqui 
tambm." 


"Lucy, 
por 
favor, 
no 
fume." 


Ela 
tirou 
do 
bolso 
um 
mao 
de 
Virgnia 
Slim 
mentolado. 
"Eu 
vou 
sair", 
disse 
ela. 


Abri 
as 
janelas 
para 
que 
ela 
pudesse 
fumar, 
sem 
querer 
acreditar 
que 
ela 
contrara 
o 
vcio 
que 
me 
dera 
tanto 
trabalho 
para 
largar. 
Lucy 
tinha 
porte 
atltico 
e 
era 
muito 
bem-apanhada. 
Eu 
lhe 
disse 
que 
no 
conseguia 
entender. 


"Estou 
s 
me 
divertindo 
um 
pouco 
com 
isso. 
No 
fumo 
muito." 


"Quem 
transferiu 
voc 
para 
c? 
Vamos 
voltar 
ao 
assunto", 
perguntei, 
enquanto 
ela 
soltava 
uma 
baforada. 


"Eles 
me 
transferiram." 


"Quem 
so 
eles?" 


"Pelo 
visto, 
a 
ordem 
veio 
de 
cima." 


"Burgess?" 
Eu 
me 
referia 
ao 
diretor-assistente, 
que 
respondia 
pela 
Academia. 


Ela 
fez 
que 
sim 
com 
a 
cabea. 
"Sim." 


Por 
que 
teria 
feito 
isso?", 
perguntei, 
intrigada. 


Ela 
deixou 
cair 
cinza 
na 
palma 
da 
mo. 
"Ningum 
me 
apresentou 
nenhum 
motivo. 
A 
nica 
coisa 
que 
sei 
 
que 
deve 
ter 
alguma 
relao 
com 
o 
DPE 
e 
o 
CAIN." 
Ela 
fez 
uma 
pausa. 
"Sabe 
como 
, 
as 
mensagens 
estranhas 
etc." 


"Lucy, 
o 
que 
 
que 
est 
acontecendo, 
afinal?" 


"No 
sabemos", 
respondeu 
ela, 
controlando 
a 
voz. 
"Mas 
 
certo 
que 
h 
alguma 
coisa 
por 
trs 
disso." 


"Gault?" 


"No 
h 
nenhuma 
prova 
de 
que 
algum 
tenha 
entrado 
no 
sistema 
 
ningum 
que 
no 
devesse 
entrar." 


"Mas 
voc 
acha 
que 
algum 
entrou." 


#
Ela 
inalou 
a 
fumaa 
profundamente, 
como 
s 
os 
fumantes 
veteranos 
fazem, 
"CAIN 
no 
est 
obedecendo 
aos 
nossos 
comandos. 
Ele 
est 
fazendo 
outra 
coisa, 
recebendo 
instrues 
de 
outro 
lugar." 


"Deve 
haver 
uma 
forma 
de 
descobrir 
isso." 


Seus 
olhos 
brilharam. 
"Acredite-me, 
eu 
estou 
tentando." 


"No 
estou 
questionando 
seus 
esforos 
nem 
sua 
competncia." 


"No 
h 
nenhum 
indcio", 
continuou 
ela. 
"Se 
algum 
conseguiu 
entrar 
no 
sistema, 
no 
est 
deixando 
nenhum 
trao 
disso. 
E 
isso 
 
impossvel. 
Voc 
simplesmente 
no 
pode 
entrar 
no 
sistema, 
ordenar 
que 
ele 
envie 
mensagens 
ou 
que 
faa 
qualquer 
outra 
coisa 
sem 
que 
isso 
fique 
registrado 
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dia 
e 
noite, 
imprimindo 
cada 
toque 
no 
teclado, 
por 
quem 
quer 
que 
seja, 
seja 
qual 
for 
o 
motivo." 


"Por 
que 
voc 
est 
ficando 
to 
irritada?", 
perguntei. 


"Porque 
estou 
cansada 
de 
ser 
responsabilizada 
pelos 
problemas 
que 
acontecem 
l. 
A 
invaso 
no 
foi 
culpa 
minha. 
Eu 
no 
tinha 
a 
menor 
idia 
de 
que 
algum 
que 
trabalhava 
junto 
comigo..." 
Ela 
deu 
mais 
um 
trago. 
"Bem, 
eu 
s 
disse 
que 
ia 
tentar 
resolver 
o 
problema 
porque 
me 
pediram. 
Porque 
o 
senador 
me 
pediu 
que 
fizesse 
isso. 
Ou, 
para 
falar 
a 
verdade, 
pediu 
a 
voc..." 


"Lucy, 
no 
sei 
de 
ningum 
que 
esteja 
acusando 
voc 
dos 
problemas 
relacionados 
com 
o 
CAIN", 
falei 
com 
brandura. 


A 
raiva 
brilhou 
com 
mais 
intensidade 
em 
seus 
olhos. 
"Se 
eu 
no 
estivesse 
sendo 
acusada, 
no 
me 
transfeririam 
para 
c. 
Isso 
caracteriza 
priso 
domiciliar." 


"Bobagem. 
Eu 
sempre 
fico 
aqui 
quando 
venho 
para 
Quantico, 
e 
 
claro 
que 
no 
estou 
sob 
priso 
domiciliar." 


"Eles 
a 
colocam 
aqui 
por 
uma 
questo 
de 
segurana 
e 
privacidade", 
respondeu 
ela. 
"Mas 
no 
 
esse 
o 
meu 
caso. 
Novamente 
estou 
sendo 
responsabilizada, 
vigiada. 
Posso 
afirmar 
isso 
pela 
forma 
como 
algumas 
pessoas 
esto 
me 
tratando 
l." 
Ela 
moveu 
a 
cabea 
em 
direo 
ao 
DPE, 
que 
era 
do 
outro 
lado 
da 
rua. 


"O 
que 
aconteceu 
hoje?", 
perguntei. 


#
Ela 
foi 
 
cozinha, 
abriu 
a 
torneira 
para 
apagar 
o 
cigarro 
e 
jogou-

o 
na 
trituradora. 
Sentou-se 
novamente 
e 
no 
falou 
nada. 
Observei-a 
atentamente 
e 
fiquei 
ainda 
mais 
inquieta. 
No 
sabia 
por 
que, 
mas 
toda 
vez 
que 
ela 
agia 
de 
forma 
inexplicvel, 
eu 
voltava 
a 
ficar 
assustada. 
O 
acidente 
de 
carro 
que 
ela 
sofrer 
poderia 
ter 
sido 
falai. 
O 
trauma 
na 
cabea 
poderia 
ter 
destrudo 
seu 
dom 
mais 
precioso, 
e 
eu 
era 
assaltada 
por 
imagens 
de 
hematomas 
do 
crnio 
fraturado 
como 
um 
ovo 
cozido 
passado 
do 
ponto. 
Pensei 
na 
mulher 
que 
chamvamos 
de 
Jane 
com 
a 
cabea 
raspada 
e 
as 
cicatrizes, 
e 
imaginava 
Lucy 
em 
lugares 
onde 
ningum 
sabia 
o 
seu 
nome. 


"Voc 
tem 
se 
sentido 
bem?", 
perguntei. 
... 


fila 
deu 
de 
ombros. 


"li 
as 
dores 
de 
cabea?" 


"Ainda 
sinto." 
A 
desconfiana 
turvou 
seu 
olhar. 
"s 
vezes 
Midrin 
ajuda. 
s 
vezes 
s 
me 
faz 
vomitar. 
A 
nica 
coisa 
que 
realmente 
funciona 
 
Fiorinal. 
Mas 
no 
tenho 
nenhum." 


" 
Voc 
no 
precisa 
desse 
remdio." 


"No 
 
voc 
que 
tem 
dor 
de 
cabea." 


"Tenho 
muitas 
dores 
de 
cabea. 
Voc 
no 
precisa 
de 
barbitricos", 
respondi. 
"Voc 
est 
dormindo 
e 
comendo 
bem 
e 
fazendo 
exerccios?" 


"Que 
 
isso, 
uma 
consulta 
mdica?" 


"A 
rigor 
sim, 
j 
que 
por 
acaso 
sou 
mdica. 
S 
que 
voc 
no 
marcou 
nenhuma 
consulta 
e 
estou 
sendo 
muito 
gentil 
em 
atend-la 
assim 
mesmo." 


Um 
sorriso 
aflorou 
no 
canto 
da 
sua 
boca. 
"Estou 
passando 
muito 
bem", 
disse 
ela, 
na 
defensiva. 


"Aconteceu 
alguma 
coisa 
hoje", 
repeti. 


"Imagino 
que 
voc 
no 
falou 
com 
a 
comandante 
Penn." 


"No, 
desde 
hoje 
de 
manh. 
No 
sabia 
que 
voc 
a 
conhecia," 


"Seu 
departamento 
esta 
em 
comunicao 
on-line 
conosco, 
com 
o 


CAIN. 
Ao 
meio 
dia, 
o 
CAIN 
chamou 
o 
terminal 
PCCV 
da 
Polcia 
de 
Trnsito. 
Imagino 
que 
voc 
j 
tinha 
sado 
para 
o 
aeroporto." 


#
Aquiesci, 
.sentindo 
um 
aperto 
no 
estmago, 
pensando 
no 
pager 
de 
Davila 
chamando 
no 
necrotrio. 
"Qual 
era 
a 
mensagem 
dessa 
vez?", 
perguntei. 


"Se 
voc 
quiser, 
eu 
trago." 


"Sim", 
respondi. 


Lucy 
entrou 
em 
seu 
quarto 
e 
voltou 
com 
uma 
valise. 
Ela 
abriu 
o 
zper 
e 
tirou 
um 
mao 
de 
papis, 
e 
me 
passou 
um 
print 
do 
terminal 
PCCV, 
sediado 
na 
Unidade 
de 
Comunicao, 
que 
estava 
sob 
o 
comando 
de 
Frances 
Penn. 
Nele 
se 
lia: 


...MENSAGEM 
PQ21 
96701 
079 
222, 
INCIO... 


DE: 
CAIN 


PARA: 
TODAS 
AS 
UNIDADES 
E 
COMANDOS 


ASSUNTO: 
POLICIAIS 
MORTOS 


A 
TODOS 
OS 
COMANDOS 
AFETOS 
AO 
ASSUNTO: 


TODOS 
OS 
MEMBROS 
DEVERO, 
POR 
UMA 
QUESTO 
DE 
SEGURANA, 
QUANDO 
ESTIVEREM 
EM 
SERVIO 
OU 
PATRULHANDO 
O 
METR, 
USAR 
CAPACETES. 


... 
MENSAGEM 
PQ21 
96701 
079 
222, 
FINAL... 


Por 
um 
instante 
fiquei 
olhando 
para 
o 
print, 
nervosa 
e 
enraivecida. 
Depois 
perguntei: 
"Existe 
um 
nome 
de 
usurio 
associado 
 
pessoa 
que 
entrou 
no 
sistema 
para 
digitar 
a 
mensagem?". 


"No." 


"E 
no 
existe 
nenhuma 
forma 
de 
descobrir 
isso?" 


"No 
pelos 
mtodos 
convencionais." 


"O 
que 
 
que 
voc 
acha?" 


"Acho 
que 
quando 
o 
DPE 
foi 
invadido, 
a 
pessoa 
entrou 
no 
CAIN 
e 
instalou 
um 
programa." 


"Algo 
como 
um 
vrus?" 


"E 
um 
vrus 
colocado 
num 
programa 
do 
qual 
no 
temos 
a 
menor 
idia. 
Ele 
est 
permitindo 
que 
algum 
entre 
em 
nosso 
sistema 
sem 
deixar 
nenhum 
indcio." 


#
Lembrei 
da 
silhueta 
de 
Gault 
desenhada 
contra 
a 
luz 
no 
tnel, 
na 
noite 
anterior, 
nos 
trilhos 
interminveis, 
mergulhando 
fundo 
na 
escurido. 
Gault 
se 
movimentava 
livremente 
em 
lugares 
em 
que 
a 
maioria 
das 
pessoas 
no 
conseguia 
enxergar. 
Passava 
tranqilamente 
por 
sobre 
o 
ao 
cheio 
de 
graxa, 
seringas 
e 
ninhos 
ftidos 
de 
gente 
e 
de 
ratos. 
Ele 
era 
um 
vrus. 
De 
certa 
forma, 
contaminara 
nossos 
corpos, 
nossos 
edifcios, 
nossa 
tecnologia. 


"Em 
suma, 
o 
CAIN 
est 
contaminado 
com 
um 
vrus", 
conclu. 


"Um 
vrus 
especial, 
que 
no 
est 
destinado 
a 
danificar 
o 
disco 
rgido 
ou 
apagar 
informaes. 
Esse 
vrus 
no 
 
genrico. 
Foi 
preparado 
especialmente 
para 
o 
CAIN, 
porque 
seu 
objetivo 
 
permitir 
que 
algum 
tenha 
acesso 
s 
suas 
informaes 
e 
s 
do 
DPE. 
Esse 
vrus 
 
como 
uma 
chave 
mes-ua. 
Ele 
abre 
todos 
os 
quartos 
da 
casa." 


"E 
est 
implantado 
num 
programa 
que 
j 
estava 
no 
sistema." 


"Pode-se 
dizer 
que 
ele 
tem 
um 
hospedeiro", 
disse 
ela. 
"Sim. 
Algum 
programa 
usado 
rotineiramente. 
O 
vrus 
s 
pode 
causar 
prejuzo 
se 
o 
computador 
segue 
uma 
rotina 
e 
sub 
rotina 
que 
permite 
que 
um 
programa 
primrio 
 
como 
o 
autoexec.bat, 
no 
DOS 
 
seja 
lido. 


"Entendo. 
E 
o 
vrus 
no 
est 
instalado 
em 
nenhum 
dos 
arquivos 
que 
so 
lidos 
quando 
o 
computador 
 
inicializado, 
por 
exemplo." 


Lucy 
balanou 
a 
cabea 
negativamente. 


"Quantos 
programas 
existem 
no 
CAIN?" 


"Oh, 
meu 
Deus", 
disse 
ela. 
"Milhares. 
E 
alguns 
deles 
so 
compridos 
o 
bastante 
para 
darem 
a 
volta 
ao 
redor 
desse 
edifcio. 
O 
vrus 
pode 
estarem 
qualquer 
um 
deles, 
e 
a 
situao 
se 
complica 
ainda 
mais 
porque 
fui 
eu 
que 
elaborei 
todos 
os 
programas. 
No 
estou 
familiarizada 
com 
os 
programas 
que 
outros 
escreveram." 


'Outros' 
queria 
dizer 
Carrie 
Grethen, 
que 
fora 
a 
parceira 
de 
Lucy 
no 
trabalho 
de 
programao 
e 
sua 
amiga 
ntima. 
Carrie 
tambm 
conhecera 
Gault 
e 
fora 
responsvel 
pela 
invaso 
do 
DPE. 
Lucy 
no 
gostava 
de 
falar 
sobre 
ela 
e 
evitava 
pronunciar 
seu 
nome. 


" 
possvel 
que 
o 
vrus 
s 
lenha 
sido 
instalado 
em 
programas 
escritos 
por 
Carrie?", 
perguntei. 


#
A 
expresso 
do 
rosto 
de 
Lucy 
no 
sofreu 
a 
mnima 
alterao. 
"Pode 
ter 
sido 
instalado 
em 
um 
dos 
programas 
no 
escritos 
por 
mim, 
como 
tambm 
num 
programa 
que 
escrevi. 
Eu 
no 
sei. 
Estou 
vendo. 
Deve 
levar 
muito 
tempo." 


O 
telefone 
tocou. 


"Com 
certeza 
 
a 
Jan." 
Ela 
se 
levantou 
e 
foi 
 
cozinha. 


Olhei 
o 
meu 
relgio. 
Eu 
devia 
estar 
na 
unidade 
dentro 
de 
meia 
hora. 
Lucy 
cobriu 
o 
fone 
com 
a 
mo. 
"Voc 
se 
incomoda 
se 
a 
Jan 
der 
um 
pulinho 
aqui? 
Ns 
vamos 
correr." 


"No, 
nem 
um 
pouco", 
respondi. 


"Ela 
est 
perguntando 
se 
voc 
no 
quer 
vir 
junto." 


Sorri 
e 
balancei 
a 
cabea. 
Eu 
no 
agentava 
correr 
com 
Lucy, 
ainda 
que 
ela 
fumasse 
dois 
maos 
por 
dia, 
e 
Janet 
poderia 
ser 
considerada 
uma 
atleta 
profissional. 
As 
duas 
me 
deixavam 
com 
a 
sensao 
de 
estar 
velha 
e 
meio 
deslocada. 


"Que 
acha 
de 
tomarmos 
alguma 
coisa?" 
Lucy 
j 
desligara 
o 
telefone 
e 
falava 
da 
geladeira. 


"O 
que 
 
que 
voc 
sugere?" 
Olhei 
sua 
figura 
esguia 
inclinada 
para 
a 
frente, 
um 
brao 
segurando 
a 
porta 
aberta 
enquanto 
o 
outro 
mexia 
nas 
latas 
das 
prateleiras. 


"Diet 
Pepsi, 
Zima, 
Gatorade 
e 
Perrier." 


"Zima?" 


"Nunca 
tomou?" 


"Eu 
no 
tomo 
cerveja." 


"No 
tem 
gosto 
de 
cerveja. 
Voc 
vai 
gostar." 


"No 
sabia 
que 
tinham 
servio 
de 
quarto 
aqui", 
comentei, 
com 
um 
sorriso. 


"Comprei 
esses 
troos 
na 
loja 
aqui 
da 
Academia." 


"Vou 
tomar 
uma 
Perrier." 


Ela 
trouxe 
nossas 
bebidas. 


"No 
existem 
programas 
antivrus?", 
perguntei. 


"Esses 
programas 
s 
detectam 
vrus 
como 
o 
Sexta-feira 
treze, 
o 
Maltese 
Amoeba, 
o 
Stoned, 
o 
Michelangelo. 
Aquele 
com 
que 
estamos 


#
lidando 
dentro 
do 
CAIN 
foi 
criado 
especialmente 
para 
ele. 
Foi 
um 
trabalho 
interno. 
No 
existe 
um 
programa 
antivrus, 
a 
menos 
que 
eu 
crie 
um." 


"Coisa 
que 
voc 
no 
pode 
fazer 
antes 
de 
encontrar 
o 
vrus." 


Ela 
tomou 
um 
grande 
gole 
de 
Gatorade. 


"Lucy, 
voc 
acha 
que 
o 
CAIN 
deveria 
ser 
desativado?" 


Ela 
se 
levantou. 
"Deixe-me 
ver 
o 
que 
se 
passa 
com 
Jan. 
Ela 
no 
pode 
passar 
pelas 
portas 
externas 
e 
duvido 
que 
a 
gente 
consiga 
ouvi-la 
bater." 


Tambm 
me 
levantei 
e 
carreguei 
minhas 
malas 
para 
o 
meu 
quarto, 
que 
tinha 
uma 
decorao 
modesta 
e 
um 
guarda-roupa 
simples. 
Ao 
contrrio 
de 
outros 
aposentos, 
na 
sute 
de 
segurana 
havia 
banheiros 
privados. 
Pela 
janela 
eu 
tinha 
uma 
vista 
lmpida 
de 
campos 
cobertos 
de 
neve 
estendendo-se 
por 
infindveis 
matas. 
O 
sol 
estava 
to 
brilhante 
que 
parecia 
primavera, 
e 
eu 
queria 
que 
desse 
tempo 
para 
tomar 
um 
banho. 
Queria 
me 
esfregar 
para 
tirar 
Nova 
York 
de 
mim. 


"Tia 
Kay? 
Estamos 
saindo", 
gritou 
Lucy, 
quando 
eu 
escovava 
os 
dentes. 


Enxagei 
a 
boca 
rapidamente 
e 
voltei 
para 
a 
sala 
de 
estar. 
Lucy 
colocara 
um 
par 
de 
Oakleys 
e 
estava 
se 
espreguiando 
perto 
da 
porta. 
Sua 
amiga 
tinha 
um 
p 
apoiado 
numa 
cadeira 
e 
amarrava 
seu 
cadaro. 


"Boa 
tarde, 
doutora 
Scarpella", 
disse 
Janet, 
levantando-se 
rapidamente. 
"Espero 
que 
no 
se 
incomode 
de 
eu 
ter 
passado 
aqui. 
Eu 
no 
queria 
incomod-la." 


Apesar 
dos 
meus 
esforos 
para 
que 
ela 
ficasse 
 
vontade, 
ela 
sempre 
parecia 
um 
cabo 
surpreendido 
pela 
entrada 
de 
Patlon. 
Ela 
era 
uma 
agente 
nova, 
e 
a 
primeira 
vez 
que 
a 
vi 
foi 
quando, 
a 
convite, 
vim 
dar 
uma 
conferncia 
aqui 
um 
ms 
atrs. 
Lembro-me 
de 
estar 
mostrando 
slides 
sobre 
morte 
violenta 
e 
sobre 
a 
preservao 
de 
cenas 
de 
crime, 
enquanto 
ela, 
do 
fundo 
da 
sala, 
mantinha 
os 
olhos 
em 
mim. 
No 
escuro, 
eu 
podia 
sentir 
que 
ela 
me 
observava 
de 
sua 
cadeira, 
e 
me 
intrigava 
o 
fato 
de 
que, 
nos 
intervalos, 
no 
conversava 
com 
ningum, 
descia 
as 
escadas 
e 
sumia. 


#
Mais 
tarde, 
soube 
que 
ela 
e 
Lucy 
eram 
amigas 
e 
talvez 
isso, 
alm 
de 
timidez, 
explicasse 
a 
atitude 
reservada 
de 
Janet 
em 
relao 
a 
mim. 
Bem 
modelada 
por 
horas 
e 
horas 
de 
ginstica, 
tinha 
os 
cabelos 
loiros 
na 
altura 
dos 
ombros 
e 
os 
olhos 
azuis, 
quase 
violeta. 
Se 
tudo 
corresse 
bem, 
ela 
iria 
se 
graduar 
pela 
Academia 
em 
menos 
de 
dois 
meses. 


"Se 
a 
senhora 
quiser 
correr 
com 
a 
gente, 
doutora 
Scarpetta, 
seria 
um 
prazer", 
repetiu 
gentilmente 
o 
convite. 


"Voc 
 
muito 
gentil", 
respondi, 
sorrindo. 
"Fico 
lisonjeada 
por 
voc 
achar 
que 
eu 
poderia 
fazer 
isso." 


"Claro 
que 
poderia." 


"No, 
ela 
no 
poderia." 
Lucy 
terminou 
o 
Gatorade 
e 
ps 
a 
garrafa 
vazia 
no 
balco. 
"Ela 
odeia 
correr. 
Ela 
fica 
tendo 
pensamentos 
negativos 


o 
tempo 
todo 
quando 
est 
correndo." 
Voltei 
ao 
banheiro 
enquanto 
elas 
saam 
pela 
porta, 
lavei 
o 
rosto 
e 
me 
olhei 
no 
espelho. 
Meu 
cabelo 
loiro 
parecia 
estar 
mais 
cinzento 
do 
que 
estava 
de 
manh 
e 
o 
corte 
parecia 
pior. 
Eu 
estava 
sem 
maquiagem 
e 
meu 
rosto 
dava 
a 
impresso 
de 
ter 
sado 
da 
secadora, 
precisando 
ser 
passado 
a 
ferro. 
Lucy 
e 
Janet 
eram 
imaculadas, 
enxutas 
e 
exuberantes, 
como 
se 
a 
natureza 
se 
deleitasse 
em 
esculpir 
e 
polir 
apenas 
os 
jovens. 
Escovei 
meus 
dentes 
novamente 
e 
isso 
me 
fez 
pensar 
em 
Jane. 


*** 


A 
unidade 
de 
Benton 
Wesley 
tinha 
mudado 
de 
nome 
muitas 
vezes 
e 
agora 
fazia 
parte 
da 
ERR. 
Ela 
ficava 
localizada 
dezoito 
metros 
abaixo 
da 
Academia, 
numa 
rea 
sem 
janelas 
que 
j 
fora 
o 
esconderijo 
antibomba 
de 
Hoover. 
Encontrei 
Wesley 
em 
seu 
escritrio, 
falando 
ao 
telefone. 
Ele 
olhou 
para 
mim, 
enquanto 
folheava 
os 
papis 
de 
uma 
grossa 
pasta. 


Espalhadas 
em 
sua 
mesa 
havia 
fotografias 
de 
cenas 
de 
um 
caso 
recente, 
que 
nada 
tinha 
a 
ver 
com 
Gault. 
A 
vtima 
era 
um 
homem 
que 
tinha 
sido 
apunhalado 
e 
perfurado 
cento 
e 
vinte 
e 
duas 
vezes, 
estrangulado 
com 
uma 
faixa, 
e 
cujo 
corpo 
fora 
encontrado 
na 
cama 
de 


#
um 
quarto 
de 
motel 
na 
Flrida, 
o 
rosto 
voltado 
para 
baixo. 


" 
um 
crime 
com 
assinatura. 
Bem, 
o 
escandaloso 
excesso 
de 
golpes 
e 
o 
estilo 
pouco 
comum 
dos 
laos 
e 
ns", 
Wesley 
dizia. 
"Certo. 
Um 
lao 
em 
volta 
de 
cada 
pulso, 
algemas." 


Sentei-me. 
Ele 
estava 
com 
culos 
de 
leitura 
e 
dava 
para 
perceber 
que 
andara 
passando 
os 
dedos 
pelos 
cabelos; 
parecia 
cansado. 
Meus 
olhos 
pousaram 
nas 
belas 
pinturas 
a 
leo 
da 
parede 
e 
livros 
autografados 
por 
trs 
do 
vidro. 
Wesley 
era 
muito 
procurado 
por 
pessoas 
que 
escreviam 
romances 
e 
scripts, 
mas 
no 
se 
vangloriava 
de 
conhecer 
essas 
celebridades. 
Acho 
que 
ele 
os 
considerava 
incmodos 
e 
de 
mau 
gosto. 
No 
creio 
que 
se 
dispusesse 
a 
receber 
ningum, 
se 
dependesse 
s 
dele. 


"Sim, 
foi 
um 
mtodo 
de 
ataque 
muito 
sangrento, 
para 
dizer 
o 
mnimo. 
Os 
outros 
tambm 
foram. 
Estvamos 
falando 
sobre 
o 
tema 
da 
dominao, 
um 
ritual 
conduzido 
pela 
raiva." 


Notei 
que 
em 
sua 
escrivaninha 
havia 
vrios 
manuais 
azul-claros 
que 
eram 
do 
DPE. 
Um 
deles 
era 
um 
manual 
de 
instruo 
para 
o 
CAIN, 
que 
Lucy 
ajudara 
a 
escrever, 
e 
havia 
muitas 
pginas 
marcadas 
com 
clipes 
de 
papel. 
Eu 
me 
perguntava 
quem 
as 
marcara, 
ela 
ou 
Wesley, 
e 
minha 
intuio 
respondeu 
 
pergunta, 
enquanto 
sentia 
um 
aperto 
no 
peito. 
Meu 
corao 
doeu 
como 
sempre 
acontecia 
quando 
Lucy 
estava 
em 
apuros. 


"Isso 
ameaou 
seu 
sentimento 
de 
dominao." 
Seus 
olhos 
encontraram 
os 
meus. 
"Sim, 
a 
reao 
tem 
que 
ser 
de 
raiva. 
Sempre 
com 
gente 
desse 
tipo." 


Sua 
gravata 
era 
preta 
com 
listras 
amarelo-claras, 
e 
sua 
camisa, 
como 
sempre, 
branca 
e 
engomada. 
Ele 
usava 
abotoaduras 
do 
Departamento 
de 
Justia, 
a 
aliana 
de 
casamento 
e 
um 
relgio 
de 
ouro 
com 
pulseira 
de 
couro, 
muito 
mais 
caro 
do 
que 
parecia, 
que 
lhe 
fora 
dado 
por 
Connie, 
em 
seu 
vigsimo 
quinto 
aniversrio 
de 
casamento. 
Ele 
e 
sua 
mulher 
eram 
de 
famlias 
ricas, 
e 
os 
Wesley 
viviam 
bem. 


Ele 
desligou 
o 
telefone 
e 
tirou 
os 
culos. 


"Qual 
 
o 
problema?", 
perguntei, 
e 
eu 
odiava 
a 
forma 
como 
ele 


#
fazia 
meu 
corao 
bater 
mais 
forte. 


Ele 
recolheu 
as 
fotos 
e 
colocou 
as 
num 
envelope 
de 
papel 
manilha. 
"Outra 
vtima 
na 
Flrida." 


"Na 
rea 
de 
Orlando, 
novamente?" 


"Sim. 
Vou 
lhe 
mandar 
os 
relalrios 
de 
l, 
to 
logo 
os 
consiga." 


Fiz 
que 
sim 
e 
mudei 
de 
assunto, 
passando 
a 
falar 
de 
Gault. 
"Suponho 
que 
voc 
j 
saiba 
o 
que 
aconteceu 
em 
Nova 
York", 
comentei. 


"O 
pager." 


Aquiesci 
novamente. 


"Receio 
saber 
do 
que 
se 
trata." 
Ele 
estremeceu. 
"Ele 
est 
zombando 
de 
ns, 
demonstrando 
lodo 
o 
seu 
desprezo. 
Continua 
com 
seus 
truques, 
s 
que 
a 
coisa 
est 
ficando 
cada 
vez 
mais 
pesada." 


"Cada 
vez 
pior. 
Mas 
a 
gente 
no 
devia 
se 
concentrar 
s 
nele." 


Ele 
ouvia, 
os 
olhos 
presos 
nos 
meus, 
as 
mos 
no 
dossi 
do 
homem 
assassinado, 
sobre 
o 
qual 
ele 
acabava 
de 
discutir 
ao 
telefone. 


"Seria 
fcil 
demais 
ficarmos 
obcecados 
por 
Gault 
a 
ponto 
de 
no 
trabalhar 
nos 
outros 
casos. 
Por 
exemplo, 
 
muito 
importante 
identificarmos 
essa 
mulher 
que 
supomos 
ter 
sido 
assassinada 
por 
ele 
no 
Central 
Park." 


"Acho 
que 
todo 
mundo 
concorda 
que 
o 
importante, 
Kay." 


"Todos 
diro 
que 
acham 
importante", 
retruquei 
a 
raiva 
comeando 
a 
ferver 
dentro 
de 
mim. 
"Mas, 
na 
realidade, 
os 
policiais, 
o 
FBI, 
querem 
pegar 
Gault, 
e 
identificar 
essa 
mulher 
sem-teto 
no 
 
prioridade. 
Ela 
 
apenas 
mais 
uma 
pessoa 
pobre 
e 
annima 
que 
presidirios 
vo 
enterrar 
no 
cemitrio 
de 
indigentes." 


"Pelo 
visto, 
ela 
 
prioridade 
para 
voc." 


"Claro." 


"Por 
qu?" 


"Acho 
que 
ela 
tem 
alguma 
coisa 
a 
nos 
dizer." 


"Sobre 
Gault?" 


"Sim." 


"Em 
que 
voc 
se 
baseia 
para 
afirmar 
isso?" 


"Instinto", 
respondi. 
"E 
ela 
 
uma 
prioridade 
porque 
ns 
somos 


#
obrigados, 
moral 
e 
profissionalmente, 
a 
fazer 
tudo 
o 
que 
pudermos 
por 
ela. 
Ela 
tem 
o 
direito 
de 
ser 
enterrada 
com 
seu 
nome." 


"Claro 
que 
tem. 
E 
o 
DPNY, 
a 
Polcia 
de 
Trnsito, 
o 
FBI 
 
todos 
queremos 
que 
ela 
seja 
identificada." 


Mas 
eu 
no 
acreditava 
no 
que 
ele 
dizia. 
"Na 
verdade, 
a 
gente 
no 
se 
importa", 
disse-lhe, 
francamente. 
"Nem 
os 
policiais, 
nem 
os 
mdicos-
legistas, 
nem 
esta 
unidade." 
J 
sabemos 
quem 
a 
matou, 
portanto 
no 
interessa 
mais 
saber 
quem 
ela 
. 
 
a 
pura 
verdade, 
tratando-se 
de 
uma 
jurisdio 
to 
assolada 
pela 
violncia 
como 
a 
de 
Nova 
York. 


Wesley 
fitou 
o 
vazio, 
roando 
os 
dedos 
finos 
numa 
caneta 
Mont 
Blanc. 
"Receio 
que 
haja 
alguma 
dose 
de 
verdade 
no 
que 
voc 
est 
dizendo." 
Ele 
olhou 
para 
mim 
novamente. 
"No 
nos 
importamos 
porque 
no 
podemos. 
No 
 
porque 
no 
queremos. 
Quero 
que 
Gault 
seja 
apanhado 
antes 
que 
mate 
mais 
algum. 
Em 
ltima 
anlise, 
 
o 
que 
eu 
penso." 


"Como 
seria 
de 
se 
esperar. 
E 
no 
sei 
se 
essa 
mulher 
morta 
poderia 
ajudar 
nessa 
tarefa. 
Talvez 
possa." 


Notei 
que 
estava 
deprimido 
e 
senti 
isso 
em 
sua 
voz 
cansada. 
"A 
nica 
ligao 
que 
podemos 
estabelecer 
entre 
ela 
e 
Gault 
 
o 
fato 
de 
que 
foram 
vistos 
juntos 
no 
museu", 
disse 
ele. 
"Examinamos 
todos 
os 
seus 
pertences, 
e 
nada 
do 
que 
encontramos 
poderia 
nos 
levar 
a 
ele. 
Portanto, 
a 
minha 
pergunta 
: 
o 
que 
mais 
podemos 
saber 
sobre 
ela 
que 
possa 
nos 
ajudar 
a 
apanh-lo?" 


"Eu 
no 
sei", 
respondi. 
"Mas 
quando 
tenho 
casos 
de 
pessoas 
no-identificadas 
na 
Virgnia, 
no 
descanso 
enquanto 
no 
fao 
todo 
o 
possvel 
para 
resolv-los. 
Esse 
caso 
 
em 
Nova 
York, 
mas 
tenho 
interesse 
nele 
porque 
trabalho 
com 
sua 
unidade 
e 
voc 
foi 
chamado 
a 
participar 
das 
investigaes." 


Eu 
falava 
com 
toda 
a 
convico, 
como 
se 
o 
caso 
do 
bestial 
assassinato 
de 
Jane 
estivesse 
sendo 
julgado 
naquela 
sala. 
"Se 
eu 
no 
puder 
seguir 
os 
meus 
prprios 
mtodos", 
continuei, 
"ento 
no 
posso 
continuar 
como 
consultora 
do 
FBI." 


Wesley 
ouviu 
tudo 
isso 
paciente 
e 
consternado. 
Eu 
sabia 
que 
ele 


#
sentia 
muito 
da 
minha 
frustrao, 
mas 
havia 
uma 
diferena: 
ele 
no 
fora 
uma 
criana 
pobre, 
e 
quando 
tnhamos 
nossas 
piores 
brigas, 
eu 
usava 
isso 
contra 
ele. 


"Se 
ela 
fosse 
uma 
pessoa 
importante, 
todo 
mundo 
iria 
se 
preocupar." 


Ele 
continuou 
calado. 


"Quando 
se 
 
pobre, 
no 
existe 
justia", 
continuei, 
"a 
menos 
que 
se 
levante 
uma 
discusso 
sobre 
o 
caso." 


Wesley 
olhou 
para 
mim. 


"Benton, 
estou 
querendo 
discutir 
o 
assunto." 


"Diga-me 
o 
que 
voc 
pretende 
fazer", 
pediu. 


"Quero 
fazer 
tudo 
o 
que 
for 
necessrio 
para 
descobrir 
quem 
 
ela. 
Quero 
que 
voc 
me 
apie." 


Ele 
me 
observou 
por 
um 
instante, 
analisando 
o 
caso. 
"Por 
que 
esta 
vtima?", 
perguntou. 


"Acho 
que 
acabei 
de 
explicar 
isso." 


"Tenha 
cuidado", 
disse 
ele. 
"Tenha 
cuidado 
porque 
sua 
motivao 
pode 
ser 
subjetiva." 


"O 
que 
voc 
est 
querendo 
insinuar?" 


"Lucy." 


Fiquei 
exasperada. 


"Lucy 
pode 
sofrer 
um 
traumatismo 
craniano 
to 
grave 
quanto 
o 
dela", 
disse 
ele. 
"Sempre 
foi 
rf, 
de 
certa 
forma, 
e 
no 
faz 
muito 
tempo 
ela 
desapareceu, 
vagando 
pela 
Nova 
Inglaterra, 
e 
voc 
teve 
que 
ir 
procur-la." 


"Voc 
est 
me 
acusando 
de 
projeo." 


"No 
estou 
te 
acusando. 
Estou 
apenas 
considerando 
essa 
possibilidade 
junto 
com 
voc." 


"E 
eu 
estou 
apenas 
tentando 
fazer 
meu 
trabalho", 
disse-lhe. 
"E 
no 
estou 
com 
a 
mnima 
vontade 
de 
ser 
psicanalisada." 


"Compreendo." 
Ele 
fez 
uma 
pausa. 
"Faa 
tudo 
o 
que 
for 
preciso 
fazer. 
Vou 
ajud-la 
em 
tudo 
o 
que 
puder. 
E 
tenho 
certeza 
de 
que 
Pete 
far 
o 
mesmo." 


#
Ento 
passamos 
para 
o 
assunto 
mais 
traioeiro, 
de 
Lucy 
e 
o 
CAIN, 
e 
sobre 
isso 
Wesley 
no 
queria 
falar. 
Ele 
levantou-se 
para 
pegar 
caf 
quando 
o 
telefone 
tocou 
l 
fora 
e 
sua 
secretria 
anotou 
mais 
um 
recado. 
O 
telefone 
no 
parar 
de 
tocar 
desde 
a 
minha 
chegada, 
e 
eu 
sabia 
que 
era 
sempre 
assim. 
Seu 
escritrio 
era 
como 
o 
meu. 
O 
mundo 
estava 
cheio 
de 
pessoas 
desesperadas 
que 
tinham 
nossos 
nmeros 
e 
no 
tinham 
ningum 
mais 
a 
quem 
pudessem 
ligar. 


"S 
me 
fale 
o 
que 
voc 
acha 
que 
ela 
fez", 
disse-lhe 
quando 
ele 
voltou. 


Ele 
ps 
o 
caf 
 
minha 
frente. 
"Voc 
est 
falando 
como 
tia." 


"No. 
Agora 
estou 
falando 
como 
me." 


"Eu 
preferiria 
que 
ns 
dois 
falssemos 
sobre 
isso 
como 
profissionais", 
pediu. 


"timo. 
Voc 
pode 
comear 
por 
me 
informar 
de 
tudo 
o 
que 
est 
acontecendo." 


"A 
espionagem 
que 
comeou 
em 
outubro 
passado 
quando 
o 
DPE 
foi 
invadido 
ainda 
continua", 
disse 
ele. 
"Algum 
entrou 
no 
CAIN." 


"At 
a 
eu 
j 
sei." 


"No 
sabemos 
quem 
est 
fazendo 
isso", 
continuou. 


"Acho 
que 
podemos 
imaginar 
que 
 
Gault, 
no?" 


"Wesley 
pegou 
seu 
caf. 
Seus 
olhos 
encontraram 
os 
meus. 
"No 
sou 
especialista 
em 
computadores. 
Mas 
voc 
precisa 
ver 
uma 
coisa." 


Ele 
abriu 
uma 
pasta 
fina 
e 
tirou 
uma 
folha 
de 
papel. 
Quando 
me 
passou 
o 
papel, 
notei 
que 
era 
um 
print 
da 
tela 
de 
um 
computador. 


"Isto 
 
uma 
pgina 
do 
arquivo 
de 
registro 
do 
CAIN, 
com 
a 
hora 
exata 
das 
mais 
recentes 
mensagens 
enviadas 
ao 
terminal 
pccv 
na 
Unidade 
de 
Comunicao 
do 
Departamento 
de 
Polcia 
de 
Trnsito", 
explicou. 
"Voc 
notou 
alguma 
coisa 
estranha?" 


Pensei 
no 
print 
que 
Lucy 
me 
mostrara, 
na 
perversa 
mensagem 
sobre 
"Policiais 
Mortos". 
Tive 
que 
examinar 
por 
um 
minuto 
os 
log-ins 
e 
log-outs, 
os 
IDS, 
datas 
e 
horrios 
para 
entender 
o 
problema. 
Senti 
medo. 


O 
ID 
de 
usurio 
de 
Lucy 
no 
era 
tradicional, 
pois 
no 
se 
compunha 
da 
inicial 
do 
seu 
primeiro 
nome 
mais 
as 
sete 
primeiras 
letras 


#
de 
seu 
sobrenome. 
Ao 
invs 
disso, 
ela 
adotou 
o 
nome 
LUCYTALK 
, 
e, 
de 
acordo 
com 
esse 
rastreamento, 
ela 
constava 
como 
sendo 
a 
supervisora 
quando 
o 
CAIN 
mandou 
a 
mensagem 
para 
Nova 
York. 


"Voc 
a 
interrogou 
sobre 
isso?", 
perguntei 
a 
Wesley. 


"Ela 
foi 
questionada 
mas 
no 
se 
incomodou 
muito 
porque, 
como 
voc 
pode 
ver 
pelo 
print, 
ela 
entrou 
e 
saiu 
no 
sistema 
o 
dia 
inteiro, 
e 
muitas 
vezes 
tambm 
fora 
do 
horrio 
normal." 


"Mas 
est 
preocupada. 
No 
me 
importa 
o 
que 
ela 
disse 
a 
voc, 
Benton. 
Ela 
percebe 
que 
foi 
transferida 
para 
o 
andar 
de 
segurana 
para 
ser 
observada." 


"Ela 
est 
sendo 
observada." 


"O 
simples 
fato 
de 
que 
h 
um 
registro 
seu 
no 
mesmo 
momento 
em 
que 
a 
mensagem 
foi 
enviada 
a 
Nova 
York 
no 
significa 
que 
ela 
a 
enviou", 
insisti. 


"Sei 
disso. 
No 
h 
mais 
nada 
no 
arquivo 
de 
registro 
indicando 
que 
ela 
enviou 
a 
mensagem. 
Alis, 
no 
h 
nada 
que 
indique 
que 
algum 
a 
enviou. 


"Quem 
chamou 
sua 
ateno 
para 
isso?", 
perguntei, 
pois 
eu 
sabia 
que 
Wesley 
no 
costumava 
analisar 
os 
arquivos 
de 
registro. 


"Burgess." 


"Ento, 
algum 
do 
DFE 
chamou 
a 
ateno 
dele 
antes." 


" 
evidente." 


"Ainda 
tem 
gente 
l 
que 
no 
confia 
em 
Lucy, 
por 
causa 
do 
que 
aconteceu 
no 
outono 
passado." 


Seu 
olhar 
estava 
duro. 
"No 
posso 
fazer 
nada 
quanto 
a 
isso, 
Kay. 
Ela 
vai 
ter 
que 
provar 
a 
sua 
inocncia. 
No 
podemos 
fazer 
isso 
por 
ela." 


"No 
estou 
tentando 
fazer 
nada 
por 
ela", 
respondi, 
exaltada. 
"Tudo 
o 
que 
peo 
 
justia. 
Lucy 
no 
deve 
ser 
responsabilizada 
pelo 
vrus 
do 
CAIN. 
Ela 
no 
o 
colocou 
l. 
Est 
tentando 
resolver 
esse 
problema 
e, 
com 
toda 
a 
franqueza, 
no 
acho 
que 
algum 
possa 
ajudar. 
Todo 
o 
sistema 
deve 
estar 
comprometido." 


Ele 
pegou 
seu 
caf, 
mas 
mudou 
de 
idia 
e 
o 
ps 
de 
volta 
no 
lugar. 


#
"E 
no 
acredito 
que 
ela 
tenha 
sido 
colocada 
no 
andar 
de 
segurana 
porque 
algum 
ache 
que 
ela 
est 
sabotando 
o 
CAIN. 
Se 
vocs 
achassem 
isso, 
a 
mandariam 
embora. 
A 
ltima 
coisa 
que 
fariam 
era 
mant-la 
aqui." 


"No 
necessariamente", 
respondeu 
ele, 
mas 
no 
podia 
me 
enganar. 


"Diga-me 
a 
verdade." 


Ele 
estava 
pensando, 
buscando 
uma 
sada. 


" 
Voc 
transferiu 
Lucy 
para 
o 
andar 
de 
segurana, 
no 
foi?", 
continuei. 
"No 
foi 
Burgess. 
No 
foi 
por 
causa 
desses 
registros 
que 
voc 
acabou 
de 
me 
mostrar. 
Isso 
 
um 
absurdo." 


"Para 
alguns 
no 
 
no", 
disse 
ele. 
"Algum 
de 
l 
levantou 
uma 
bandeira 
vermelha 
e 
me 
pediu 
que 
me 
livrasse 
dela. 
Respondi 
que, 
por 
enquanto, 
no. 
Precisvamos 
antes 
mant-la 
sob 
vigilncia." 


"Est 
querendo 
me 
dizer 
que 
voc 
acha 
que 
Lucy 
 
o 
vrus?" 
Eu 
no 
podia 
acreditar. 


"No." 
Ele 
inclinou-se 
para 
a 
frente 
em 
sua 
cadeira. 
"Acho 
que 
Gault 
 
o 
vrus. 
E 
quero 
que 
nos 
ajude 
a 
agarr-lo." 


Olhei 
para 
ele 
como 
se 
ele 
tivesse 
acabado 
de 
sacar 
uma 
arma 
e 
dado 
um 
tiro 
no 
ar. 
"No", 
disse-lhe, 
com 
veemncia. 


"Kay, 
oua..." 


"De 
forma 
alguma. 
Deixe-a 
fora 
disso. 
Ela 
no 
 
droga 
de 
agente 
do 
FBI." 


"Voc 
est 
se 
descontrolando..." 


Mas 
eu 
no 
ia 
permitir 
que 
ele 
falasse. 
"Pelo 
amor 
de 
Deus, 
ela 
 
uma 
estudante 
universitria. 
Ela 
no 
tem 
nada 
a 
ver..." 
Minha 
voz 
sumiu. 
"Eu 
sei 
como 
ela 
. 
Ela 
vai 
tentar 
entrar 
em 
contato 
com 
ele. 
Voc 
no 
percebe?" 
Olhei 
furiosamente 
para 
ele. 
"Voc 
no 
a 
conhece, 
Benton!" 


"Acho 
que 
sim." 


"No 
vou 
permitir 
que 
voc 
a 
use 
dessa 
forma." 


"Deixe-me 
explicar." 


"Voc 
devia 
desativar 
o 
CAIN", 
disse. 


#
"No 
posso 
fazer 
isso. 
Com 
certeza 
 
a 
nica 
pista 
deixada 
por 
Gault." 
Ele 
fez 
uma 
pausa, 
enquanto 
eu 
continuava 
fuzilando-o 
com 
o 
olhar. 
"H 
vidas 
em 
jogo. 
Gault 
no 
parou 
de 
matar." 


Falei 
num 
impulso: 
" 
justamente 
por 
isso 
que 
quero 
que 
Lucy 
nem 
chegue 
a 
pensar 
nele!". 


Wesley 
ficou 
calado. 
Olhou 
para 
a 
porta 
fechada, 
depois 
de 
novo 
para 
mim. 
"Ele 
j 
sabe 
quem 
 
ela", 
disse. 


"Ele 
no 
sabe 
grande 
coisa 
sobre 
ela." 


"No 
sabemos 
o 
quanto 
ele 
sabe. 
Mas 
ele 
sabe, 
no 
mnimo, 
como 
ela 
." 


Eu 
no 
conseguia 
pensar. 
"Como?" 


"Desde 
que 
seu 
carto 
American 
Express 
foi 
roubado", 
disse 
ele. 
"Lucy 
no 
lhe 
falou?" 


"Falou 
o 
qu?" 


"Sobre 
as 
coisas 
que 
ela 
tinha 
em 
sua 
escrivaninha." 
Quando 
notou 
que 
eu 
no 
sabia 
do 
que 
ele 
estava 
falando, 
calou-se 
de 
repente. 
Percebi 
que 
ele 
linha 
falado 
de 
coisas 
que 
no 
gostaria 
que 
eu 
soubesse. 


"Que 
coisas?", 
perguntei. 


"Bem", 
continuou, 
"ela 
tinha 
uma 
carta 
guardada 
cm 
sua 
escrivaninha 
no 
DPE, 
uma 
carta 
mandada 
por 
voc 
junto 
com 
o 
carto 
de 
crdito." 


"Disso 
eu 
j 
sei." 


"Certo. 
Nessa 
carta 
tambm 
havia 
uma 
fotografia 
sua 
e 
de 
Lucy, 
juntas 
em 
Miami. 
Parece 
que 
vocs 
estavam 
no 
quintal 
de 
sua 
me." 


Fechei 
os 
olhos 
por 
um 
momento 
e 
respirei 
fundo, 
enquanto 
ele 
continuava 
em 
tom 
sombrio. 


"Gault 
sabe 
tambm 
que 
Lucy 
 
o 
seu 
ponto 
de 
maior 
vulnerabilidade. 
Eu 
tambm 
no 
quero 
que 
ele 
volte 
sua 
ateno 
para 
ela. 
Mas 
o 
que 
estou 
tentando 
dizer 
a 
voc 
 
que 
provavelmente 
isso 
j 
aconteceu. 
Ele 
conseguiu 
invadir 
um 
mundo 
onde 
ela 
 
Deus. 
J 
se 
apossou 
do 
CAIN." 


"Ento 
foi 
por 
isso 
que 
voc 
a 
transferiu", 
disse. 


Wesley 
ficou 
me 
olhando 
inquieto, 
procurando 
uma 
forma 
de 


#
ajudar. 
Eu 
percebia 
toda 
a 
sua 
tortura 
por 
trs 
daquela 
fria 
reserva, 
e 
sentia 
sua 
terrvel 
dor. 
Ele 
tambm 
tinha 
filhos. 


"Voc 
a 
transferiu 
para 
o 
andar 
de 
segurana 
junto 
comigo. 
Teme 
que 
Gault 
v 
atrs 
dela." 


Ele 
continuou 
em 
silncio. 


"Quero 
que 
ela 
volte 
para 
o 
UVA, 
para 
Charlottesville. 
Que 
ela 
esteja 
l 
amanh", 
disse, 
com 
uma 
ferocidade 
que 
eu 
no 
percebia. 
O 
que 
eu 
queria 
mesmo, 
no 
final 
das 
contas, 
era 
que 
Lucy 
no 
conhecesse 
meu 
mundo, 
e 
isso 
nunca 
seria 
possvel. 


"Ela 
no 
pode", 
disse 
ele, 
simplesmente. 
"E 
ela 
no 
pode 
ficar 
com 
voc 
em 
Richmond. 
Para 
dizer 
a 
verdade, 
ela 
realmente 
no 
pode 
ficar 
em 
nenhum 
outro 
lugar 
que 
no 
seja 
onde 
est. 
 
l 
que 
ela 
se 
mantm 
segura." 


"Ela 
no 
pode 
passar 
o 
resto 
da 
vida 
aqui." 


"At 
ele 
ser 
preso..." 


"Ele 
nunca 
vai 
ser 
preso, 
Benton!" 


Ele 
me 
lanou 
um 
olhar 
cansado." 
Ento 
vocs 
duas 
vo 
acabar 
entrando 
no 
nosso 
Programa 
de 
Proteo 
a 
Testemunhas." 


"No 
vou 
abrir 
mo 
de 
minha 
identidade. 
Minha 
vida. 
Isso 
pode 
ser 
melhor 
que 
estar 
morta?" 


" 
melhor", 
disse 
ele, 
calmamente, 
e 
eu 
sabia 
que 
ele 
estava 
imaginado 
corpos 
espancados, 
decapitados, 
com 
buracos 
de 
balas. 


Levantei-me. 
"O 
que 
 
que 
eu 
lao 
com 
meu 
carto 
de 
crdito 
roubado?", 
perguntei 
a 
ele, 
meio 
entorpecida. 


"Anule-o", 
respondeu. 
Eu 
tinha 
a 
esperana 
de 
usar 
dinheiro 
de 
esplios 
ou 
recolhido 
em 
batidas 
policiais 
para 
pagar 
as 
dvidas 
de 
seu 
carto, 
mas 
no 
podemos." 
Ele 
fez 
uma 
pausa, 
enquanto 
eu 
balanava 
a 
cabea, 
incrdula. 
"No 
depende 
de 
mim. 
Voc 
sabe 
os 
problemas 
de 
oramento 
que 
temos. 
Voc 
tambm 
os 
tem." 


"Meu 
Deus", 
disse 
lhe. 
"Pensei 
que 
voc 
queria 
tentar 
descobrir 
onde 
ele 
est." 


"Seu 
carto 
de 
crdito 
no 
pode 
indicar 
onde 
ele 
est, 
somente 
onde 
ele 
esteve." 


#
"No 
posso 
acreditar 
numa 
coisa 
dessas." 


"A 
culpa 
 
dos 
polticos." 


"No 
quero 
ouvir 
falar 
de 
problemas 
de 
oramento 
ou 
de 
polticos", 
exclamei. 


"Kay, 
hoje 
em 
dia 
o 
FBI 
mal 
consegue 
dinheiro 
para 
a 
munio 
das 
linhas 
de 
tiro. 
E 
voc 
conhece 
nossos 
problemas 
de 
pessoal. 
Eu 
mesmo 
estou 
trabalhando 
em 
cento 
e 
trinta 
e 
nove 
casos, 
ainda 
agora, 
enquanto 
estamos 
conversando. 
No 
ms 
passado, 
dois 
dos 
meus 
melhores 
homens 
se 
aposentaram." 


"Agora", 
continuou 
ele, 
"tenho 
s 
nove. 
Nove. 
Somos 
um 
total 
de 
dez 
tentando 
cobrir 
todo 
o 
territrio 
dos 
Estados 
Unidos, 
sem 
contar 
os 
casos 
que 
nos 
vm 
do 
exterior. 
Diabo, 
o 
nico 
motivo 
que 
nos 
faz 
ter 
voc 
conosco 
 
que 
no 
lhe 
pagamos 
nada." 


"No 
fao 
isso 
por 
dinheiro." 


"Pode 
cancelar 
seu 
American 
Express", 
disse, 
com 
a 
voz 
cansada. 
"Se 
fosse 
voc, 
eu 
faria 
isso 
imediatamente." 


Fitei-o 
por 
longo 
tempo 
e 
sa. 


#
10 


Lucy 
acabara 
de 
fazer 
sua 
corrida 
e 
tomava 
banho 
quando 
eu 
voltei 
ao 
apartamento. 
 
hora 
do 
jantar, 
que 
era 
servido 
no 
restaurante, 
ela 
trabalhava 
no 
DPE. 


"Vou 
voltar 
para 
Richmond 
hoje 
 
noite", 
contei-lhe 
ao 
telefone. 


"Pensei 
que 
voc 
ia 
passar 
a 
noite 
aqui", 
disse 
ela, 
e 
notei 
um 
certo 
desapontamento 
em 
sua 
voz. 


"Marino 
vem 
me 
pegar." 


"Quando?" 


"Ele 
j 
est 
vindo. 
A 
gente 
poderia 
jantar 
antes 
de 
eu 
ir 
embora." 


"Combinado. 
Eu 
queria 
que 
a 
Jan 
fosse 
com 
a 
gente." 


"timo. 
Mas 
a 
teramos 
que 
convidar 
o 
Marino 
tambm. 
Ele 
j 
deve 
estar 
chegando." 


Lucy 
ficou 
em 
silncio. 


"Por 
que 
eu 
e 
voc 
no 
batemos 
um 
papo 
antes?", 
sugeri. 


"Aqui?" 


"Sim. 
Estou 
livre, 
contanto 
que 
voc 
me 
deixe 
passar 
por 
todos 
esses 
scanners, 
portas 
trancadas, 
mquinas 
de 
raios 
X 
e 
msseis 
com 
sensores 
de 
temperatura." 


"Bem, 
vou 
ter 
que 
ver 
com 
a 
procuradora 
geral. 
Ela 
odeia 
quando 
eu 
ligo 
para 
a 
casa 
dela." 


"J 
estou 
saindo." 


O 
DPE 
era 
composto 
de 
cinco 
blocos 
de 
concreto 
e 
vidro 
rodeados 
de 
rvores, 
e 
no 
se 
podia 
entrar 
no 
estacionamento 
sem 
parar 
numa 
guarita, 
que 
ficava 
a 
menos 
de 
trinta 
metros 
da 
guarita 
de 
entrada 
da 
Academia. 
Ele 
era 
a 
diviso 
mais 
resguardada 
do 
FBI; 
seus 
funcionrios 
tinham 
que 
escanear 
suas 
impresses 
digitais 
em 
fechaduras 
biomtricas 
para 
abrir 
as 
portas 
de 
Plexiglas. 
Lucy 
esperava 
por 
mim 
na 
entrada. 
Eram 
quase 
oito 
horas. 


"Ol." 


"H 
pelo 
menos 
uma 
dzia 
de 
carros 
no 
estacionamento", 
comentei. 
"As 
pessoas 
costumam 
trabalhar 
assim, 
at 
mais 
tarde?" 


#
"Elas 
esto 
sempre 
entrando 
e 
saindo 
a 
qualquer 
hora. 
Na 
maioria 
das 
vezes 
eu 
nem 
as 
vejo." 


Atravessamos 
uma 
vasta 
rea 
de 
carpetes 
e 
paredes 
bege, 
passando 
por 
portas 
fechadas 
que 
davam 
acesso 
a 
salas 
onde 
cientistas 
e 
engenheiros 
trabalhavam 
em 
projetos 
confidenciais. 
Eu 
tinha 
apenas 
uma 
vaga 
noo 
do 
que 
se 
passava 
ali, 
alm 
do 
trabalho 
de 
Lucy 
no 
CAIN. 
Mas 
sabia 
que 
o 
objetivo 
era 
desenvolver 
tecnologia 
para 
facilitar 
quaisquer 
tipos 
de 
tarefas 
a 
ser 
desempenhadas 
por 
um 
agente 
especial, 
seja 
vigilncia, 
tiro, 
descer 
por 
cordas 
de 
um 
helicptero 
ou 
usar 
um 
rob 
numa 
batida 
policial. 
O 
fato 
de 
Gault 
ter 
conseguido 
entrar 
aqui 
era 
como 
se 
ele 
tivesse 
passeado 
livremente 
pelas 
instalaes 
da 
NASA 
OU 
por 
uma 
usina 
nuclear. 
Era 
inconcebvel. 


"Benton 
me 
falou 
sobre 
a 
fotografia 
que 
estava 
em 
sua 
escrivaninha", 
falei 
a 
Lucy, 
enquanto 
entrvamos 
no 
elevador. 


Ela 
apertou 
o 
boto 
do 
segundo 
andar. 
"Gault 
j 
pode 
reconhecer 
voc, 
se 
 
isso 
que 
a 
preocupa. 
Ele 
j 
viu 
voc 
antes, 
pelo 
menos 
duas 
vezes." 


"Eu 
no 
gosto 
nem 
um 
pouco 
de 
saber 
que 
ele 
possa 
reconhecer 
voc", 
respondi, 
de 
forma 
calculada. 


"Voc 
est 
supondo 
que 
ele 
est 
com 
a 
fotografia." 


Ns 
entramos 
numa 
parafernlia 
de 
cubculos 
com 
estaes 
de 
trabalho, 
impressoras 
e 
pilhas 
de 
papel. 
O 
prprio 
CAIN 
estava 
por 
trs 
de 
um 
painel 
de 
vidro, 
numa 
rea 
com 
ar-condicionado 
cheia 
de 
monitores, 
modems 
e 
uma 
infinidade 
de 
cabos 
escondidos 
sob 
um 
assoalho 
elevado. 


"Tenho 
que 
verificar 
uma 
coisa", 
disse 
ela, 
passando 
o 
polegar 
no 
scanner 
para 
abrir 
a 
poria 
do 
CAIN. 


Segui-a 
no 
ar 
gelado, 
carregado 
com 
a 
tenso 
da 
esttica 
de 
um 
trfego 
invisvel 
movendo 
se 
a 
velocidades 
incrveis. 
As 
luzes 
vermelhas 
e 
verdes 
dos 
modems 
piscavam, 
e 
ateia 
de 
um 
vdeo 
de 
dezoito 
polegadas 
anunciava 
CAIN 
em 
grandes 
letras 
brilhantes, 
que 
giravam 
e 
se 
espiralavam 
como 
as 
impresses 
digitais 
da 
pessoa 
que 
acabara 
de 
entrar. 


#
"A 
fotografia 
eslava 
no 
envelope 
com 
o 
carto 
American 
Express 
que, 
ao 
que 
parece, 
esta 
com 
ele", 
disse-lhe. 
"Voc 
pode 
deduzir 
que 
ele 
deve 
estar 
com 
os 
dois." 


"Outra 
pessoa 
podia 
estar 
com 
a 
foto." 
Ela 
fitava 
os 
modems 
intensamente, 
depois 
olhava 
para 
sua 
tela 
e 
tomava 
notas. 
"Isso 
depende 
de 
quem 
de 
falo 
vasculhou 
a 
minha 
escrivaninha." 


Ns 
sempre 
supusemos 
que 
Carrie 
sozinha 
fizera 
isso, 
Agora 
eu 
no 
tinha 
tanta 
certeza. 


"Pode 
ser 
que 
Carne 
no 
estivesse 
agindo 
por 
conta 
prpria." 


Lucy 
no 
disse 
nada. 


"De 
fato, 
no 
acredito 
que 
ela 
resistisse 
 
tentao 
de 
vir 
at 
aqui. 
Acho 
que 
ele 
veio 
com 
ela." 


"Isso 
seria 
arriscadssimo, 
considerando 
que 
ele 
era 
procurado 
por 
assassinato." 


"Lucy, 
para 
comear, 
 
arriscadssimo 
arrombar 
isso 
aqui." 


Ela 
continuava 
a 
fazer 
anotaes 
enquanto 
as 
cores 
giravam 
na 
tela 
e 
as 
luzes 
acendiam 
e 
apagavam. 
O 
CAIN 
era 
um 
polvo 
avanadssimo 
com 
tentculos 
que 
se 
conectavam 
com 
agentes 
da 
justia 
do 
mundo 
inteiro, 
e 
cuja 
cabea 
era 
uma 
caixa 
bege 
cheia 
de 
botes 
e 
aberturas. 
Com 
o 
zumbido 
do 
aparelho 
de 
ar 
condicionado, 
eu 
chegava 
quase 
a 
me 
perguntar 
se 
ele 
sabia 
o 
que 
ns 
estvamos 
dizendo. 


"O 
que 
mais 
pode 
ter 
desaparecido 
de 
seu 
escritrio?", 
perguntei, 
ento. 
"Voc 
deu 
por 
falta 
de 
mais 
alguma 
coisa?" 


Lucy 
observava 
o 
piscar 
das 
luzes 
de 
um 
modem, 
perplexa. 
Olhou 
para 
mim. 
"Deve 
estar 
vindo 
atravs 
de 
um 
desses 
modems." 


"O 
qu?", 
perguntei, 
intrigada. 


Ela 
sentou 
diante 
de 
um 
teclado, 
tocou 
na 
barra 
de 
espao 
e 
o 
descanso 
de 
tela 
se 
apagou. 
Em 
seguida, 
entrou 
no 
sistema 
e 
comeou 
a 
digitar 
comandos 
UNIX 
que 
nada 
significavam 
para 
mim. 
Chamou 
ento 
o 
menu 
do 
administrador 
de 
sistema 
e 
localizou 
o 
arquivo 
de 
registro. 


"Eu 
tenho 
vindo 
aqui 
rotineiramente 
e 
verificado 
o 
trfego 
dos 


#
modems", 
disse 
ela, 
digitando. 
"A 
menos 
que 
a 
pessoa 
esteja 
fisicamente 
neste 
edifcio, 
tendo 
entrado 
no 
sistema 
via 
hardware, 
ele 
tem 
que 
se 
comunicar 
pelo 
modem." 


"No 
existe 
outra 
forma?" 


"Bem", 
ela 
respirou 
fundo, 
"teoricamente 
voc 
poderia 
usar 
um 
receptor 
para 
pegar 
a 
entrada 
cio 
teclado 
via 
radiao 
Van 
Eck. 
Alguns 
agentes 
russos 
andaram 
fazendo 
isso 
no 
faz 
muito 
tempo." 


"Mas 
isso 
no 
possibilitaria 
que 
algum 
entrasse 
realmente 
no 
sistema." 


"Mas 
poderia 
munir 
a 
pessoa 
de 
senhas 
e 
outras 
informaes 
que 
lhe 
permitiriam 
entrar, 
se 
tivesse 
o 
nmero 
para 
discagem." 


"Esses 
nmeros 
foram 
mudados 
depois 
da 
invaso?" 


" 
claro. 
Alterei 
tudo 
o 
que 
se 
pode 
imaginar 
e 
os 
nmeros 
de 
discagem 
foram 
mudados 
novamente 
desde 
ento. 
Alm 
do 
mais, 
temos 
modems 
de 
retorno. 
Voc 
liga 
para 
o 
CAIN 
e 
ele 
te 
liga 
de 
volta, 
para 
se 
certificar 
de 
que 
voc 
 
um 
interlocutor 
autorizado!" 
Lucy 
parecia 
desanimada 
e 
irritada. 


"Se 
voc 
instala 
um 
vrus 
no 
programa", 
perguntei, 
tentando 
ajudar, 
"ele 
no 
poderia 
mudar 
a 
extenso 
cio 
arquivo? 
Isso 
no 
seria 
uma 
forma 
de 
descobrir 
onde 
est 
o 
vrus?" 


"Sim, 
isso 
alteraria 
o 
tamanho 
do 
arquivo", 
respondeu 
ela. 
"Mas 


o 
problema 
 
que 
o 
programa 
UNIX, 
usado 
para 
verificar 
arquivos 
como 
esse, 
 
chamado 
checksum, 
e 
ele 
no 
 
criptograficamente 
seguro. 
Tenho 
certeza 
de 
que 
quem 
fez 
isso 
incluiu 
itens 
checksum 
para 
sumir 
com 
os 
bytes 
do 
programa 
do 
vrus." 
"Quer 
dizer 
que 
o 
vrus 
 
invisvel?" 


Lucy 
fez 
que 
sim, 
preocupada, 
e 
eu 
sabia 
que 
ela 
pensava 
em 
Carrie. 
Ento 
teclou 
um 
comando 
quem 
para 
ver 
que 
departamentos 
estavam 
operando 
no 
sistema, 
se 
 
que 
havia 
algum. 
Nova 
York 
era 
um 
deles. 
E 
tambm 
Charlotte 
e 
Richmond, 
e 
Lucy 
me 
apontou 
os 
respectivos 
modems. 
As 
luzes 
danavam 
nos 
modems, 
enquanto 
as 
informaes 
eram 
transmitidas 
pelas 
linhas 
telefnicas. 


"A 
gente 
precisa 
ir 
jantar", 
falei 
delicadamente 
a 
minha 
sobrinha. 


#
Ela 
teclou 
mais 
alguns 
comandos. 
"Agora 
no 
estou 
com 
fome." 


"Lucy, 
voc 
no 
pode 
permitir 
que 
isso 
consuma 
toda 
a 
sua 
vida." 


"Olha 
quem 
fala!" 


Ela 
estava 
certa. 


"A 
guerra 
j 
foi 
declarada", 
acrescentou 
ela. 
"Isso 
 
uma 
guerra." 


"Neste 
caso 
no 
se 
trata 
de 
Carrie", 
falei, 
referindo-me 
 
mulher 
que, 
eu 
suspeitava, 
tinha 
sido 
mais 
que 
uma 
amiga 
de 
Lucy. 


"No 
importa 
quem 
." 
Ela 
continuou 
a 
digitar. 


Mas 
importava 
sim. 
Carrie 
Grethen 
no 
matava 
as 
pessoas 
nem 
mutilava 
seus 
corpos. 
Temple 
Gault 
sim. 


"Mais 
alguma 
coisa 
desapareceu 
de 
suas 
gavetas 
quando 
houve 


o 
arrombamento?", 
tentei 
novamente. 
Ela 
parou 
o 
que 
estava 
fazendo 
e 
olhou 
para 
mim, 
os 
olhos 
faiscando, 
"Sim, 
se 
voc 
quer 
saber", 
disse-me. 
"Tinha 
um 
envelope 
grande 
de 
papel 
manilha 
que 
eu 
no 
queria 
deixar 
em 
meu 
alojamento 
no 
UVA, 
por 
causa 
dos 
companheiros 
de 
quarto, 
nem 
aqui, 
por 
causa 
das 
pessoas 
que 
entram 
e 
saem. 
Era 
uma 
coisa 
pessoal. 
Eu 
achei 
que 
era 
mais 
seguro 
em 
minha 
escrivaninha." 


"E 
o 
que 
 
que 
tinha 
no 
envelope?" 


"Cartas, 
anotaes, 
vrias 
coisas. 
Algumas 
eram 
suas, 
inclusive 
a 
que 
continha 
a 
fotografia 
e 
o 
carto. 
A 
maior 
parte 
eram 
cartas 
dela." 
Lucy 
corou. 
"Havia 
uns 
poucos 
bilhetes 
da 
vov." 


"Cartas 
de 
Carrie?" 
No 
entendi. 
"Por 
que 
ela 
escrevia 
para 
voc? 
Vocs 
duas 
estavam 
aqui 
em 
Quantico 
e 
no 
se 
conheciam 
antes 
do 
outono 
passado." 


"De 
certa 
forma, 
sim", 
disse 
ela, 
o 
rosto 
ruborizando 
ainda 
mais. 


"Como?", 
perguntei, 
desconcertada. 


"Mantivemos 
correspondncia 
via 
computador, 
atravs 
da 


Prodigy, 
durante 
o 
vero. 
Guardei 
todos 
os 
prints 
das 
mensagens 
que 
trocamos." 
"Voc 
arranjou 
as 
coisas 
intencionalmente, 
de 
forma 
que 
vocs 
trabalhassem 
juntas 
aqui 
no 
DPH?", 
tornei 
a 
perguntar 
cada 
vez 
mais 


#
incrdula. 


"Ela 
j 
estava 
sendo 
contratada 
pelo 
FBI", 
respondeu 
Lucy. 
"Ela 
me 
incentivou 
a 
tentar 
conseguir 
um 
estgio 
aqui." 


Meu 
silncio 
pesava. 


"Oua", 
pediu 
ela. 
"Como 
eu 
podia 
saber?" 


"Suponho 
que 
no 
podia", 
concordei. 
"Mas 
ela 
ps 
voc 
numa 
sinuca. 
Queria 
voc 
aqui. 
Isso 
foi 
planejado 
muito 
antes 
dela 
te 
conhecer 
atravs 
da 
Prodigy. 
Provavelmente 
j 
conhecera 
Gault 
naquela 
loja 
de 
artigos 
de 
vigilncia 
da 
Virgnia, 
quando 
ento 
eles 
decidiram 
que 
ela 
deveria 
conhecer 
voc." 


Ela 
desviou 
o 
olhar, 
furiosa. 


"Meu 
Deus", 
continuei, 
com 
um 
grande 
suspiro. 
"Voc 
foi 
atrada 
para 
uma 
arapuca." 
Desviei 
o 
olhar, 
sentindo-me 
mal. 
"E 
isso 
no 
porque 
voc 
 
muito 
boa 
naquilo 
que 
faz. 
E 
por 
minha 
causa." 


"No 
tente 
assumir 
a 
culpa, 
Odeio 
quando 
faz 
isso." 


"Voc 
 
minha 
sobrinha, 
Gault 
j 
deve 
saber 
disso 
h 
algum 
tempo." 


"Tambm 
sou 
muito 
conhecida 
no 
campo 
da 
computao." 
Ela 
me 
olhou 
de 
forma 
desafiadora. 
"Outras 
pessoas 
dessa 
rea 
devem 
ter 
ouvido 
falar 
de 
mim. 
Nem 
tudo 
tem 
que 
ser 
por 
sua 
causa." 


"Benton 
sabe 
como 
voc 
conheceu 
Carrie?" 


"Eu 
lhe 
contei 
faz 
muito 
tempo." 


"Por 
que 
voc 
no 
me 
contou?" 


"Eu 
no 
queria. 
J 
estava 
me 
sentindo 
mal 
demais. 
 
uma 
coisa 
pessoal." 
Ela 
no 
olhava 
para 
mim. 
"E, 
mais 
que 
tudo, 
porque 
no 
fiz 
nada 
de 
errado." 


"Voc 
quer 
dizer 
que 
esse 
envelope 
desapareceu 
na 
poca 
do 
arrombamento?" 


"Sim." 


"Para 
que 
algum 
poderia 
querer 
esse 
envelope?" 


"Ela 
queria", 
disse 
Lucy, 
amargamente. 
"Nele 
havia 
coisas 
que 
ela 
escrevera 
para 
mim." 


"Ela 
tentou 
entrar 
em 
contato 
com 
voc 
depois 
disso?" 


#
"No", 
proferiu, 
como 
se 
odiasse 
Carrie 
Grethen. 


"Vamos", 
disse-lhe 
num 
tom 
firme 
de 
me. 
"Vamos 
encontrar 
Marino." 


Ele 
estava 
na 
sala 
de 
reunies. 
Eu 
experimentava 
uma 
Zima, 
enquanto 
ele 
pedia 
mais 
uma 
cerveja. 
Lucy 
tinha 
sado 
para 
encontrar 
Janet, 
e 
isso 
deu 
a 
mim 
e 
a 
Marino 
alguns 
minutos 
para 
conversar. 


"No 
sei 
como 
voc 
suporta 
uma 
coisa 
dessas", 
comentou 
ele 
desdenhosamente, 
olhando 
a 
minha 
bebida. 


"Tambm 
no 
sei 
se 
vou 
agentar; 
nunca 
vi 
isso 
antes." 
Tomei 
um 
gole. 
Realmente 
era 
muito 
bom. 


"Talvez 
voc 
devesse 
experimentar 
antes 
de 
julgar", 
acrescentei. 


"No 
tomo 
bebida 
de 
bicha. 
E 
tambm 
no 
tenho 
que 
ficar 
experimentando 
um 
monte 
de 
coisas 
para 
saber 
que 
no 
me 
agradam." 


"Acho 
que 
uma 
das 
maiores 
diferenas 
entre 
ns, 
Marino, 
 
que 
eu 
no 
passo 
o 
tempo 
todo 
preocupada 
se 
as 
pessoas 
pensam 
que 
sou 
gay." 


"Algumas 
pessoas 
pensam 
que 
voc 
." 


Achei 
aquilo 
divertido. 
"Bem, 
fique 
tranqilo. 
Ningum 
acha 
que 
voc 
", 
respondi. 
"A 
nica 
coisa 
que 
muita 
gente 
pensa 
 
que 
voc 
 
um 
fantico, 
dono 
da 
verdade." 


Marino 
bocejou 
sem 
pr 
a 
mo 
na 
boca. 
Ele 
estava 
fumando 
e 
bebia 
Budweiser 
no 
gargalo. 
Tinha 
crculos 
escuros 
sob 
os 
olhos, 
e 
embora 
nunca 
me 
contara 
detalhes 
ntimos 
de 
sua 
relao 
com 
Molly, 
eu 
reconhecia 
os 
sintomas 
de 
algum 
entregue 
aos 
prazeres 
sensuais. 
s 
vezes, 
ele 
dava 
a 
impresso 
de 
ter 
ficado 
acordado 
e 
em 
atividade 
por 
semanas 
a 
fio. 


"Voc 
est 
bem?", 
perguntei. 


Ele 
colocou 
a 
garrafa 
em 
cima 
da 
mesa 
e 
olhou 
em 
volta. 
A 
sala 
de 
reunies 
estava 
movimentada, 
cheia 
de 
novos 
agentes 
e 
policiais 
tomando 
cerveja 
e 
comendo 
pipoca, 
enquanto 
um 
aparelho 
de 
tev 
berrava. 


"Estou 
derrubado", 
respondeu, 
parecendo 
muito 
perturbado. 


"Gostei 
de 
voc 
ter 
vindo 
me 
pegar." 


#
"S 
quero 
que 
voc 
me 
belisque 
se 
eu 
comear 
a 
dormir 
no 
volante", 
disse 
ele. 
"Ou 
ento 
voc 
dirige. 
Afinal 
de 
contas, 
essa 
coisa 
que 
voc 
est 
bebendo 
provavelmente 
no 
tem 
nenhuma 
gota 
de 
lcool." 


"Ela 
tem 
bastante. 
Eu 
no 
vou 
dirigir, 
e 
se 
voc 
est 
to 
cansado, 
talvez 
a 
gente 
devesse 
ficar 
aqui." 


Ele 
se 
levantou 
para 
pegar 
outra 
cerveja. 
Segui-o 
com 
o 
olhar. 
Marino 
ia 
ser 
difcil 
aquela 
noite. 
Eu 
conseguia 
prever 
suas 
tempestades 
mais 
que 
qualquer 
meteorologista. 


"Recebemos 
uma 
mensagem 
do 
laboratrio 
de 
Nova 
York 
que 
vai 
lhe 
interessar", 
disse 
ele, 
sentando-se. 
" 
sobre 
o 
cabelo 
de 
Gault." 


"O 
cabelo 
encontrado 
no 
chafariz?", 
perguntei, 
curiosa. 


". 
E 
no 
estou 
sabendo 
dos 
detalhes 
cientficos 
de 
que 
voc 
tanto 
gosta, 
certo? 
Portanto, 
voc 
mesma 
vai 
ter 
que 
telefonar 
para 
l. 
Mas 
o 
que 
interessa 
 
que 
eles 
encontraram 
drogas 
em 
seu 
cabelo. 
Dizem 
que 
ele 
andou 
bebendo 
e 
tomando 
cocana; 
do 
contrrio, 
no 
teria 
aqueles 
troos 
no 
cabelo." 


"Eles 
encontraram 
cocaetileno", 
conclu. 


"Acho 
que 
 
esse 
o 
nome. 
Seu 
cabelo 
estava 
cheio 
disso, 
das 
razes 
at 
as 
pontas, 
o 
que 
significa 
que 
j 
h 
algum 
tempo 
ele 
vem 
bebendo 
e 
se 
drogando." 


"Na 
verdade, 
no 
se 
pode 
saber 
h 
quanto 
tempo 
ele 
vem 
fazendo 
isso", 
comentei. 


"O 
cara 
com 
quem 
falei 
disse 
que 
o 
comprimento 
do 
cabelo 
indica 
que 
ele 
tem 
cinco 
meses", 
continuou 
Marino. 


"Os 
exames 
de 
cabelo 
para 
detectar 
drogas 
so 
controvertidos", 
expliquei. 
"No 
se 
sabe 
se 
certos 
resultados 
positivos 
so 
conseqncia 
de 
contaminao 
externa. 
Isto 
, 
se 
o 
cabelo 
no 
absorve 
a 
fumaa 
de 
crack 
em 
locais 
fechados, 
assim 
como 
absorve 
a 
do 
cigarro. 
Nem 
sempre 
 
fcil 
distinguir 
o 
que 
foi 
inalado 
do 
que 
foi 
ingerido." 


"Voc 
quer 
dizer 
que 
o 
caso 
dele 
poderia 
ser 
de 
contaminao", 
ponderou 
Marino. 


"Sim, 
poderia. 
Mas 
isso 
tambm 
no 
quer 
dizer 
que 
ele 
no 
esteja 
bebendo 
e 
se 
drogando. 
Alis, 
ele 
deve 
estar 
mesmo. 
Cocaetileno 


#
 
produzido 
no 
fgado." 


Marino 
acendeu 
um 
outro 
cigarro, 
pensativamente. 
"E 
que 
me 
diz 
de 
ele 
passar 
o 
tempo 
todo 
tingindo 
o 
cabelo?" 


"Isso 
tambm 
pode 
afetar 
o 
resultado 
dos 
exames", 
respondi. 
"Certos 
agentes 
oxidantes 
so 
capazes 
de 
destruir 
parte 
da 
droga." 


"Oxidantes?" 


"Como 
gua 
oxigenada, 
por 
exemplo." 


"Ento 
 
possvel 
que 
uma 
parte 
desse 
cocaetileno 
tenha 
sido 
destruda", 
concluiu 
Marino. 
"O 
que 
tambm 
significa 
que 
 
possvel 
o 
nvel 
de 
drogas 
ser 
bem 
mais 
alto 
do 
que 
parece." 


"Pode 
ser." 


"Ele 
deve 
estar 
conseguindo 
drogas 
em 
algum 
lugar." 
Marino 
fitou 
o 
vazio. 


"Em 
Nova 
York, 
com 
certeza 
no 
haveria 
a 
menor 
dificuldade." 


"Diabo, 
isso 
 
a 
coisa 
mais 
fcil 
de 
conseguir." 
A 
expresso 
de 
seu 
rosto 
era 
cada 
vez 
mais 
tensa. 


"Em 
que 
voc 
est 
pensando?", 
perguntei. 


"Vou 
lhe 
dizer 
o 
que 
estou 
pensando", 
comeou 
ele. 
"Essa 
conexo 
da 
droga 
no 
vai 
funcionar 
em 
relao 
a 
Jimmy 
Davila." 


"Por 
qu? 
Voc 
j 
sabe 
do 
resultado 
dos 
exames 
toxicolgicos?", 
perguntei, 
intrigada. 


"Eles 
foram 
negativos." 
Fez 
uma 
pausa. 
"Mas 
Benny 
comeou 
a 
abrir 
o 
bico. 
Ele 
est 
dizendo 
que 
Davila 
estava 
no 
negcio." 


"Acho 
que 
as 
pessoas 
deveriam 
considerar 
bem 
as 
suas 
fontes", 
disse-lhe. 
"Benny 
no 
me 
parece 
ser 
exatamente 
uma 
fonte 
confivel." 


"Concordo 
com 
voc", 
falou 
Marino. 
"Mas 
tem 
gente 
tentando 
mostrar 
Davila 
como 
um 
mau 
policial. 
Corre 
o 
boato 
de 
que 
querem 
culp-lo 
pelo 
assassinato 
de 
Jane." 


"Isso 
 
loucura", 
comentei, 
surpresa. 
"No 
faz 
o 
menor 
sentido." 
"Voc 
se 
lembra 
daquele 
troo 
na 
mo 
de 
Jane 
que 
brilhou 
no 
Luma-Lite?" 
"Sim." 
"Cocana", 
disse 
ele. 


#
"E 
os 
exames 
toxicolgicos 
dela?" 


"Negativos. 
E 
isso 
 
estranho." 
Marino 
parecia 
frustrado. 
"Mas 
outra 
coisa 
que 
Benny 
anda 
dizendo 
 
que 
foi 
Davila 
quem 
lhe 
deu 
a 
mochila." 


"Ora, 
ora", 
disse, 
irritada. 


"Eu 
estou 
s 
falando." 


"O 
cabelo 
encontrado 
no 
chafariz 
no 
era 
de 
Davila." 


"No 
podemos 
saber 
desde 
quando 
ele 
estava 
l. 
E 
no 
sabemos 
se 
 
de 
Gault", 
comentou 
ele. 


"O 
DNA 
vai 
provar 
que 
 
de 
Gault", 
afirmei, 
convicta. 
"E 
Davila 
estava 
com 
uma 
380 
e 
uma 
38. 
Jane 
foi 
morta 
com 
uma 
Glock." 


"Escute", 
Marino 
inclinou-se 
para 
frente, 
descansando 
os 
braos 
na 
mesa, 
"no 
estou 
discutindo 
com 
voc, 
doutora. 
Estou 
s 
dizendo 
que 
as 
coisas 
no 
vo 
l 
muito 
bem. 
Os 
polticos 
de 
Nova 
York 
querem 
esse 
caso 
solucionado, 
e 
uma 
boa 
forma 
de 
fazer 
isso 
 
pr 
a 
culpa 
num 
morto. 
E 
o 
que 
 
que 
voc 
faz, 
ento? 
Transforma 
Davila 
numa 
lixeira 
e 
ningum 
sente 
por 
ele. 
Ningum 
se 
incomoda." 


"E 
quanto 
ao 
que 
aconteceu 
a 
Davila?" 


"A 
tonta 
da 
legisla 
que 
foi 
 
cena 
do 
crime 
ainda 
pensa 
que 
ele 
se 
suicidou." 


Olhei 
para 
Marino 
como 
se 
ele 
tivesse 
perdido 
o 
senso. 
"Ele 
chutou 
a 
si 
mesmo 
na 
cabea?", 
perguntei. 
"Depois 
deu 
um 
tiro 
entre 
os 
prprios 
olhos?" 


"Ele 
estava 
de 
p 
quando 
atirou 
em 
si 
mesmo, 
e 
quando 
caiu, 
bateu 
contra 
o 
concreto 
ou 
outra 
coisa." 


"A 
reao 
vital 
contra 
os 
ferimentos 
mostra 
que 
ele 
recebeu 
o 
golpe 
na 
cabea 
antes", 
disse, 
cada 
vez 
mais 
furiosa. 
"E 
voc 
quer 
fazer 


o 
favor 
de 
me 
explicar 
como 
o 
seu 
revlver 
foi 
parar 
l 
arrumadinho 
sobre 
seu 
peito?" 
"Esse 
caso 
no 
lhe 
compete, 
doutora."Marino 
me 
olhou 
nos 
olhos. 
"Essa 
 
a 
questo. 
Eu 
e 
voc 
somos 
apenas 
convidados." 
"Davila 
no 
se 
matou", 
reafirmei. 
"E 
o 
doutor 
Horowitz 
no 
vai 
permitir 
que 
uma 
coisa 
dessas 
saia 
de 
seu 
departamento." 


#
"Talvez 
no. 
Talvez 
ele 
diga 
que 
Davila 
era 
um 
saco 
de 
lixo 
que 
foi 
liquidado 
por 
outro 
traficante. 
Jane 
acaba 
num 
caixo 
de 
pinho 
no 
cemitrio 
de 
indigentes, 
e 
fim 
da 
histria. 
O 
Central 
Park 
e 
o 
metr 
voltam 
a 
ter 
segurana." 


Pensei 
na 
comandante 
Penn 
e 
me 
senti 
mal. 
Perguntei 
por 
ela. 


"No 
sei 
o 
que 
ela 
tem 
com 
isso", 
disse 
ele. 
"Eu 
estava 
falando 
com 
um 
dos 
caras. 
Mas 
ela 
est 
numa 
sinuca. 
Por 
um 
lado, 
no 
quer 
que 
pensem 
que 
ela 
chefiava 
um 
mau 
policial. 
Por 
outro, 
no 
quer 
que 
a 
populao 
pense 
que 
h 
um 
serial 
killer 
 
solta 
no 
metr." 


"Entendo", 
concordei, 
imaginando 
a 
tremenda 
presso 
que 
ela 
devia 
estar 
sofrendo, 
pois 
cabia 
a 
seu 
departamento 
a 
tarefa 
de 
manter 


o 
metr 
livre 
de 
criminosos. 
A 
cidade 
de 
Nova 
York 
havia 
alocado 
uma 
verba 
de 
dezenas 
de 
milhes 
de 
dlares 
 
Polcia 
de 
Trnsito, 
para 
esse 
fim. 
"E 
ainda 
por 
cima 
foi 
um 
desgraado 
dum 
reprter 
que 
achou 
o 
corpo 
no 
Central 
Park. 
E 
esse 
cara 
 
mais 
incansvel 
que 
uma 
britadeira, 
pelo 
que 
me 
falaram. 
Ele 
quer 
ganhar 
um 
prmio 
Nobel." 


"O 
que 
 
pouco 
provvel", 
comentei, 
irritada. 


"Nunca 
se 
sabe", 
disse 
Marino, 
que 
sempre 
fazia 
previses 
sobre 
quem 
iria 
ganhar 
um 
prmio 
Nobel. 
quela 
altura, 
pelas 
suas 
previses, 
eu 
mesma 
j 
teria 
ganho 
vrios. 


"Eu 
s 
queria 
saber 
se 
Gault 
ainda 
est 
em 
Nova 
York", 
pensei 
em 
voz 
alta. 


Marino 
enxugou 
sua 
segunda 
cerveja 
e 
olhou 
para 
o 
relgio. 
"Onde 
est 
Lucy?", 
perguntou 
ele. 


"Da 
ltima 
vez 
que 
falei 
com 
ela, 
estava 
tentando 
encontrar 
Janet." 


"Como 
ela 
?" 


Eu 
sabia 
o 
que 
ele 
estava 
imaginando. 
"Ela 
 
uma 
jovem 


adorvel", 
disse-lhe. 
"Brilhante, 
e 
muito 
tranqila." 
Ele 
ficou 
calado. 
"Marino, 
puseram 
minha 
sobrinha 
no 
andar 
de 
segurana." 
Ele 
se 
voltou 
para 
o 
balco 
como 
se 
estivesse 
querendo 
outra 


#
cerveja. 
"Quem 
fez 
isso? 
Benton? 


"Sim." 


"Por 
causa 
da 
histria 
do 
computador?" 


"Sim 


"Voc 
quer 
outra 
Zima?" 


"No, 
obrigada. 
E 
voc 
no 
devia 
tomar 
outra 
cerveja, 
porque 
vai 
dirigir. 
Alis, 
voc 
deve 
estar 
dirigindo 
um 
carro 
da 
polcia 
e 
nem 
poderia 
ter 
tomado 
a 
primeira." 


"Hoje 
estou 
com 
minha 
mquina." 


No 
gostei 
nem 
um 
pouco 
de 
ouvir 
aquilo, 
e 
Marino 
percebeu 
muito 
bem. 


"Oua, 
sinto 
muito 
que 
meu 
carro 
no 
tenha 
uma 
porcaria 
dum 
air 
bag. 
Mas 
um 
txi 
ou 
uma 
limusine 
tambm 
no 
teriam." 


"Marino..." 


"Eu 
vou 
te 
comprar 
esse 
tal 
de 
air 
bag 
gigante. 
E 
voc 
pode 
carreg-lo 
por 
toda 
parte, 
como 
se 
fosse 
seu 
balo 
de 
ar 
quente." 


"Roubaram 
uma 
pasta 
de 
Lucy 
quando 
o 
DPE 
foi 
invadido 
no 
outono 
passado." 


"Que 
tipo 
de 
pasta?", 
perguntou 
ele. 


"Um 
envelope 
contendo 
correspondncia 
pessoal." 
Falei-lhe 
da 
Prodigy, 
e 
de 
como 
Lucy 
e 
Carrie 
se 
conheceram. 


"Elas 
se 
conheciam 
antes 
de 
Quantico?", 
perguntou 
ele. 


"Sim. 
E 
imagino 
que 
Lucy 
acredite 
que 
foi 
Carrie 
quem 
mexeu 
nas 
gavetas 
de 
sua 
escrivaninha." 


Marino 
olhou 
em 
volta, 
enquanto 
mexia 
sem 
parar 
a 
garrafa 
de 
cerveja 
vazia 
em 
pequenos 
crculos 
na 
mesa. 


"Ela 
parece 
obcecada 
por 
Carrie 
e 
no 
consegue 
ver 
mais 
nada", 
continuei. 
"Estou 
preocupada." 


"Onde 
anda 
Carrie 
agora?", 
perguntou 
ele. 


"No 
tenho 
a 
menor 
idia." 


Se 
fosse 
impossvel 
provar 
que 
ela 
invadira 
o 
DPF. 
OU 
roubado 
propriedades 
do 
FBI, 
ela 
seria 
demitida, 
mas 
no 
processada. 
Carrie 
no 
fora 
presa, 
nem 
por 
um 
dia. 


#
Marino 
pensou 
um 
pouco. 
"Bem, 
no 
 
com 
essa 
piranha 
que 
Lucy 
deve 
se 
preocupar, 
mas 
com 
ele." 


"Claro 
que 
me 
preocupo 
mais 
com 
ele." 


"Voc 
acha 
que 
ele 
pegou 
o 
envelope 
de 
Lucy?" 


" 
isso 
que 
eu 
temo." 
Senti 
uma 
mo 
no 
meu 
ombro 
e 
me 
virei. 


"Vamos 
ficar 
aqui 
ou 
vamos 
embora?", 
perguntou 
Lucy, 
que 
tinha 
posto 
umas 
calas 
caqui, 
bordadas 
com 
o 
logotipo 
do 
FBI. 
Ela 
usava 
botas 
para 
caminhada 
e 
um 
grosso 
cinturo 
de 
couro. 
S 
estava 
faltando 
um 
chapu 
e 
uma 
pistola. 


Marino 
estava 
mais 
interessado 
em 
Janet, 
que 
conseguia 
ser 
atraente 
mesmo 
vestindo 
uma 
camiseta 
plo, 
"Vamos 
conversar 
sobre 
o 
contedo 
desse 
envelope", 
disse 
me 
ele, 
que 
no 
conseguia 
tirar 
os 
olhos 
do 
peito 
de 
Janet. 


"No 
aqui." 


O 
carro 
de 
Marino 
era 
um 
grande 
Ford 
azul 
que 
ele 
mantinha 
muito 
mais 
limpo 
do 
que 
o 
carro 
da 
polcia 
que 
usava. 
Ele 
tinha 
um 
rdio 
de 
polcia 
e 
um 
porta-armas, 
e, 
com 
exceo 
das 
pontas 
de 
cigarro 
no 
cinzeiro, 
no 
havia 
mais 
lixo 
 
vista. 
Sentei-me 
na 
frente, 
onde 
um 
aromatizador 
pendurado 
no 
retrovisor 
dava 
 
escurido 
um 
forte 
cheiro 
de 
eucalipto. 


"Conte-me 
exatamente 
o 
que 
havia 
no 
envelope", 
disse 
Marino 
a 
Lucy, 
que 
estava 
atrs 
com 
a 
amiga. 


"No 
posso 
dizer 
exatamente", 
falou 
Lucy, 
inclinando-se 
para 
a 
frente 
e 
apoiando 
a 
mo 
no 
encosto 
de 
meu 
banco. 


Marino 
passou 
devagar 
pela 
guarita, 
depois 
trocou 
de 
marcha, 
e 
partimos. 


"Tente 
lembrar", 
pediu 
ele, 
levantando 
a 
voz. 


Janet 
falou 
alguma 
coisa 
baixinho 
com 
Lucy 
e 
por 
um 
momento 
ficaram 
conversando 
nesse 
tom. 
A 
pista 
estreita 
estava 
escura 
e 
as 
linhas 
de 
tiro 
excepcionalmente 
silenciosas. 
Eu 
nunca 
andara 
no 
carro 
de 
Marino, 
e 
ele 
me 
pareceu 
um 
ousado 
smbolo 
do 
seu 
orgulho 
masculino. 


Lucy 
comeou 
a 
falar. 
"Eu 
tinha 
algumas 
cartas 
de 
minha 
av, 


#
da 
tia 
Kay, 
e 
E-mail 
da 
Prodigy." 


"Voc 
quer 
dizer 
de 
Carrie, 
no 
?", 
disse 
Marino. 


Ela 
hesitou. 
"Sim." 


"O 
que 
mais?" 


"Cartes 
de 
aniversrio." 


"De 
quem?", 
perguntou 
Marino. 


"Das 
mesmas 
pessoas 


"E 
da 
sua 
me?" 


"No." 


"E 
de 
seu 
pai?" 


"No 
tenho 
nada 
dele." 


"O 
pai 
dela 
morreu 
quando 
ela 
era 
bem 
pequena", 
lembrei 
a 
Marino. 


"Quando 
voc 
escreveu 
para 
Lucy, 
deu 
endereo 
para 
correspondncia?", 
ele 
me 
perguntou. 


"Sim. 
Meu 
papel 
timbrado 
devia 
trazer 
o 
endereo." 


"Caixa 
postal?" 


"No. 
Minha 
correspondncia 
pessoal 
eu 
recebo 
em 
casa. 
Tudo 
o 
mais 
vai 
para 
o 
escritrio." 


"Aonde 
voc 
est 
querendo 
chegar?", 
perguntou 
Lucy, 
num 
tom 
um 
pouco 
ressentido. 


"Est 
bem", 
disse 
Marino, 
enquanto 
dirigia 
pela 
estrada 
escura, 
numa 
zona 
no-urbanizada, 
"deixe-me 
falar 
tudo 
o 
que 
o 
ladro 
sabe. 
Ele 
sabe 
em 
que 
escola 
voc 
estudou, 
o 
endereo 
de 
sua 
tia 
em 
Richmond 
e 
o 
de 
sua 
av 
na 
Flrida. 
Ah! 
E 
ainda 
como 
voc 
 
e 
onde 
voc 
nasceu." 


"Ele 
sabe 
tambm", 
continuou 
Marino, 
"de 
sua 
amizade 
com 
Carrie 
por 
causa 
do 
tal 
E-mail." 
Olhou 
pelo 
retrovisor. 
"E 
isso 
 
apenas 


o 
mnimo 
do 
que 
esse 
verme 
conhece 
de 
voc. 
No 
li 
as 
cartas 
nem 
os 
bilhetes 
para 
saber 
o 
que 
mais 
ele 
descobriu." 
"De 
qualquer 
forma, 
ela 
sabia 
muito 
mais 
que 
isso", 
disse 
Lucy, 
cheia 
de 
raiva. 
"Ela?"', 
perguntou 
Marino, 
incisivamente. 


#
Lucy 
ficou 
calada. 


Foi 
Janet 
quem 
respondeu, 
delicadamente. 
"Lucy, 
voc 
tem 
que 
resolver 
isso. 
Tem 
que 
abrir 
o 
jogo." 


"O 
que 
mais?", 
perguntou 
Marino 
a 
minha 
sobrinha. 
"Tente 
lembrar 
das 
mnimas 
coisas. 
Que 
mais 
havia 
no 
envelope?" 


"Uns 
poucos 
autgrafos 
e 
umas 
moedas 
antigas. 
Coisas 
de 
quando 
eu 
era 
criana, 
e 
que 
s 
tinham 
valor 
para 
mim 
e 
mais 
ningum. 
Como 
uma 
concha, 
que 
eu 
catei 
na 
praia 
certa 
vez, 
quando 
estava 
com 
a 
tia 
Kay." 


Ela 
pensou 
mais 
um 
pouco. 
"Meu 
passaporte. 
E 
havia 
tambm 
uns 
trabalhos 
que 
fiz 
no 
colgio." 


A 
dor 
da 
sua 
voz 
doeu 
em 
meu 
corao, 
e 
tive 
vontade 
de 
abra-la. 
Mas 
quando 
Lucy 
ficava 
triste, 
repelia 
lodo 
mundo. 
Ficava 
intratvel. 


"Por 
que 
voc 
guardava 
essas 
coisas 
no 
envelope?", 
Marino 
perguntou. 


"Eu 
tinha 
que 
guardar 
em 
algum 
lugar", 
retrucou 
ela, 
rispidamente. 
"Eram 
a 
droga 
das 
minhas 
coisas, 
certo? 
E 
se 
eu 
deixasse 
aquilo 
em 
Miami, 
minha 
me 
com 
certeza 
jogaria 
no 
lixo." 


"Os 
trabalhos 
que 
voc 
fez 
no 
colgio 
eram 
sobre 
o 
qu, 
Lucy?" 


Pairou 
um 
silncio 
no 
carro. 
S 
se 
ouvia 
o 
barulho 
do 
motor, 
que 
aumentava 
e 
diminua 
com 
a 
acelerao 
e 
a 
troca 
de 
marcha. 
Marino 
entrava 
na 
cidadezinha 
de 
Triangle. 
As 
luzes 
dos 
restaurantes 
da 
beira 
da 
estrada 
estavam 
acesas, 
e 
eu 
desconfiava 
que 
a 
maioria 
dos 
carros 
eram 
de 
fuzileiros 
navais. 


Lucy 
falou: 
"Bem, 
a 
coisa 
 
meio 
irnica. 
Um 
dos 
trabalhos 
que 
fiz 
naquela 
poca 
era 
um 
relatrio 
sobre 
a 
segurana 
do 
UNIX. 
Eu 
focalizava 
principalmente 
senhas, 
como 
por 
exemplo 
o 
que 
poderia 
acontecer 
se 
algum 
escolhesse 
senhas 
muito 
simples. 
Eu 
falava 
sobre 
codificao 
de 
seqncia 
de 
dados 
em 
bibliotecas 
C 
que..." 


"Sobre 
o 
que 
eram 
os 
outros 
trabalhos?", 
interrompeu 
Marino. 
"Cirurgia 
do 
crebro?" 


"Como 
voc 
adivinhou?", 
respondeu 
ela, 
com 
a 
mesma 


#
petulncia. 


"Sobre 
o 
que 
eram?", 
perguntei. 


"Wordsworth", 
disse 
ela. 


Comemos 
no 
Globe 
and 
Laurel, 
e 
enquanto 
eu 
olhava 
para 
os 
saiotes 
escoceses, 
os 
distintivos 
da 
polcia 
e 
as 
canecas 
de 
cerveja 
penduradas 
no 
bar, 
pensei 
em 
minha 
vida. 
Mark 
e 
eu 
costumvamos 
comer 
aqui. 
A 
uma 
bomba 
explodiu 
quando 
ele 
atravessava 
uma 
rua, 
em 
Londres. 
Houve 
um 
tempo 
tambm 
em 
que 
eu 
e 
Wesley 
vnhamos 
muito 
aqui. 
A 
fomos 
nos 
conhecendo 
cada 
vez 
mais, 
e 
passamos 
a 
no 
aparecer 
em 
pblico 
juntos. 


Todos 
pediram 
sopa 
de 
cebola 
francesa 
e 
lombo. 
Janet 
estava 
quieta, 
como 
sempre, 
e 
Marino 
no 
parava 
de 
olhar 
para 
ela 
e 
fazer 
comentrios 
indiscretos. 
Lucy 
ficava 
cada 
vez 
mais 
furiosa 
com 
ele, 
e 
eu 
estava 
surpresa 
com 
seu 
comportamento. 
Marino 
no 
estava 
louco. 
Ele 
sabia 
exatamente 
o 
que 
estava 
fazendo. 


"Tia 
Kay", 
disse 
Lucy, 
"quero 
passar 
o 
fim 
de 
semana 
com 
voc." 


"Em 
Richmond?" 


"No 
 
l 
que 
voc 
mora?" 
Ela 
no 
sorriu. 


Eu 
hesitei. 
"Acho 
que 
devia 
ficar 
exatamente 
onde 
est." 


"No 
estou 
na 
cadeia. 
Posso 
fazer 
o 
que 
quiser." 


"Claro 
que 
voc 
no 
est 
na 
cadeia", 
disse-lhe, 
calmamente. 
"Deixe-me 
falar 
com 
Benton, 
est 
bem?" 


Ela 
ficou 
calada. 


"Ento, 
me 
diga 
o 
que 
voc 
pensa 
do 
Sig-nine", 
Marino 
falava 
para 
o 
peito 
de 
Janet. 


Jan 
olhou 
para 
ele 
desafiadoramente 
e 
disse: 
"Eu 
preferiria 
um 
Colt 
Python 
com 
um 
tambor 
de 
seis 
polegadas. 
Voc 
no?" 


O 
jantar 
ia 
cada 
vez 
pior, 
e 
a 
volta 
para 
a 
Academia 
foi 
feita 
sob 
um 
tenso 
silncio, 
interrompido 
apenas 
pela 
tentativa 
insistente 
de 
Marino 
de 
entabular 
uma 
conversa 
com 
Janet. 
Depois 
que 
ela 
e 
Lucy 
desceram 
do 
carro, 
voltei-me 
para 
ele 
e 
soltei 
os 
cachorros. 


"Pelo 
amor 
de 
Deus", 
explodi. 
"O 
que 
 
que 
deu 
em 
voc?" 


"No 
sei 
do 
que 
voc 
est 
falando." 


#
"Voc 
estava 
detestvel. 
Absolutamente 
detestvel, 
e 
sabe 
muito 
bem 
do 
que 
estou 
falando." 


Ele 
avanava 
rapidamente 
pela 
rodovia 
J. 
Edgar 
Hoover, 
entrando 
na 
interestadual, 
enquanto 
procurava 
um 
cigarro. 


"Janet 
provavelmente 
nunca 
mais 
vai 
querer 
chegar 
perto 
de 
voc", 
continuei. 
"E 
no 
censuro 
Lucy 
por 
tambm 
te 
evitar. 
Isso 
 
uma 
vergonha. 
Vocs 
tinham 
ficado 
amigos!" 


"O 
simples 
fato 
de 
eu 
ter-lhe 
dado 
aulas 
de 
tiro 
no 
significa 
que 
somos 
amigos", 
disse 
ele. 
"Tanto 
quanto 
eu 
sei, 
ela 
 
a 
mesma 
menina 
mimada 
que 
sempre 
foi, 
metida 
a 
sabichona. 
Isso 
sem 
falar 
que 
no 
gosto 
do 
seu 
tipo, 
e 
no 
tenho 
a 
menor 
idia 
de 
por 
que 
voc 
deixa 
que 
ela 
faa 
as 
coisas 
que 
faz." 


"Que 
coisas?", 
perguntei, 
cada 
vez 
mais 
irritada 
com 
ele. 


"Ela 
nunca 
saiu 
com 
um 
cara?" 
Lanou-me 
um 
olhar 
rpido. 
"Quero 
dizer, 
nem 
uma 
vez?" 


"A 
vida 
particular 
de 
minha 
sobrinha 
no 
 
de 
sua 
conta", 
retruquei. 
"Ela 
no 
tem 
nada 
a 
ver 
com 
a 
forma 
como 
voc 
se 
comportou 
esta 
noite." 


"Bobagem. 
Se 
Carrie 
no 
tivesse 
namorado 
Lucy, 
o 
DPE 
nunca 
teria 
sido 
invadido, 
e 
no 
teramos 
Gault 
andando 
pelo 
computador." 


"Essa 
 
uma 
afirmao 
ridcula, 
que 
no 
se 
baseia 
em 
nenhum 
fato 
concreto!", 
exclamei. 
"Suponho 
que 
Carrie 
iria 
at 
o 
fim 
na 
sua 
misso, 
com 
ou 
sem 
a 
participao 
da 
Lucy 
nessa 
histria." 


"Vou 
lhe 
dizer 
uma 
coisa", 
ele 
soprou 
fumaa 
pela 
janela 
s 
um 
pouco 
aberta, 
"os 
homossexuais 
esto 
acabando 
com 
o 
planeta." 


"Valha-nos 
Deus", 
lamentei, 
enojada. 
"Voc 
parece 
a 
minha 
irm." 


"Acho 
que 
voc 
precisa 
mandar 
Lucy 
a 
algum 
lugar. 
Conseguir 
alguma 
ajuda 
para 
ela." 


"Marino, 
voc 
tem 
que 
parar 
com 
isso. 
Suas 
opinies 
baseiam-se 
em 
pura 
ignorncia. 
Elas 
so 
odiosas. 
Se 
minha 
sobrinha 
prefere 
as 
mulheres 
aos 
homens, 
explique-me 
por 
que 
voc 
se 
sente 
to 
ameaado 
com 
isso." 


#
"No 
me 
sinto 
nem 
um 
pouco 
ameaado 
com 
isso. 
Mas 
 
uma 
coisa 
antinatural." 
Ele 
jogou 
a 
ponta 
do 
cigarro 
pela 
janela, 
minsculo 
mssil 
apagado 
pela 
noite. 
"Mas 
oua, 
no 
 
que 
eu 
no 
entenda. 
 
fato 
conhecido 
que 
muitas 
mulheres 
procuram 
umas 
s 
outras 
porque 
 
o 
mximo 
que 
conseguem 
fazer." 


"Entendo." 
Balancei 
a 
cabea. 
"Fato 
conhecido..." 
Fiz 
uma 
pausa. 
"Ento 
me 
responda: 
voc 
acha 
que 
Lucy 
e 
Janet 
esto 
juntas 
por 
causa 
disso?" 


" 
por 
isso 
que 
estou 
sugerindo 
que 
consiga 
ajuda 
para 
ela. 
Elas 
podiam 
arranjar 
namorados 
com 
a 
maior 
facilidade. 
Principalmente 
a 
Janet, 
com 
o 
corpo 
que 
tem. 
Se 
eu 
no 
estivesse 
to 
amarrado, 
ia 
convid-la 
para 
sair." 


"Marino", 
falei, 
j 
cansada 
dele, 
"deixe-as 
em 
paz. 
Voc 
est 
simplesmente 
tentando 
justificar 
o 
fato 
de 
no 
ter 
agradado 
e 
de 
ter 
sido 
desprezado. 
Voc, 
na 
verdade, 
est 
fazendo 
papel 
de 
idiota. 
As 
Janets 
do 
mundo 
no 
vo 
sair 
com 
voc." 


"Azar 
dela. 
Se 
experimentasse 
a 
coisa 
certa, 
estaria 
curada. 
O 
que 
as 
mulheres 
fazem 
umas 
com 
as 
outras 
no 
 
o 
que 
considero 
o 
certo. 
Elas 
no 
tm 
idia 
do 
que 
esto 
perdendo." 


A 
idia 
de 
que 
Marino 
se 
considerava 
um 
entendido 
no 
que 
as 
mulheres 
precisam 
na 
cama 
era 
to 
absurda 
que 
esqueci 
de 
me 
enfurecer. 
Eu 
ri. 


"Sinto 
necessidade 
de 
proteger 
Lucy, 
certo?", 
continuou 
ele. 
"Sinto-me 
como 
se 
fosse 
um 
tio 
e, 
sabe, 
o 
problema 
 
que 
ela 
nunca 
conviveu 
com 
homens. 
O 
pai 
morreu. 
Voc 
 
divorciada. 
Ela 
no 
teve 
irmos 
e 
a 
me 
vive 
indo 
para 
a 
cama 
com 
incompetentes." 


"Isso 
 
verdade", 
concordei. 
"Gostaria 
que 
Lucy 
tivesse 
tido 
uma 
influncia 
masculina 
positiva." 


"Garanto 
que 
se 
ela 
tivesse, 
no 
viraria 
sapato." 


"Esta 
no 
 
uma 
expresso 
muito 
delicada", 
disse-lhe. 
"E 
no 
sabemos 
ao 
certo 
por 
que 
as 
pessoas 
se 
tornam 
o 
que 
so." 


"Ento 
voc 
vai 
me 
explicar." 
Ele 
virou-se 
para 
o 
meu 
lado. 
"Explique-me 
o 
que 
deu 
errado." 


#
"Em 
primeiro 
lugar, 
no 
vou 
dizer 
que 
alguma 
coisa 
deu 
errado. 
Pode 
haver 
um 
componente 
gentico 
responsvel 
pela 
orientao 
sexual. 
Talvez 
no. 
Mas 
o 
que 
interessa 
 
que 
isso 
no 
tem 
a 
menor 
importncia." 


"Quer 
dizer 
que 
voc 
no 
se 
preocupa 
com 
isso." 


Pensei 
um 
pouco. 
"Eu 
me 
preocupo 
porque 
 
um 
modo 
de 
vida 
mais 
difcil." 


"Quer 
dizer 
que 
 
s 
isso?", 
disse 
ele, 
ceticamente. 
"Quer 
dizer 
que 
voc 
no 
preferiria 
que 
ela 
estivesse 
com 
um 
homem?" 


Hesitei 
novamente. 
"Acho 
que 
a 
essa 
altura 
eu 
s 
quero 
que 
ela 
fique 
em 
companhia 
de 
gente 
boa." 


Ele 
ficou 
quieto, 
enquanto 
dirigia. 
Depois 
falou: 
" 
Desculpe-me 
por 
hoje 
 
noite. 
Sei 
que 
fui 
grosseiro". 


"Obrigada 
por 
se 
desculpar." 


"Bem, 
a 
verdade 
 
que 
as 
coisas 
no 
tm 
andado 
bem 
para 
mim. 
Molly 
e 
eu 
estvamos 
indo 
muito 
bem, 
at 
que 
Doris 
ligou, 
h 
mais 
ou 
menos 
uma 
semana." 


Aquilo 
no 
me 
surpreendeu 
nem 
um 
pouco. 
As 
ex-esposas 
e 
amantes 
sempre 
do 
um 
jeito 
de 
ressurgir. 


"Parece 
que 
ela 
ficou 
sabendo 
de 
Molly 
porque 
Rocky 
falou 
alguma 
coisa. 
Agora 
ela 
quer 
voltar 
para 
casa. 
Quer 
ficar 
comigo 
novamente." 


Quando 
Doris 
foi 
embora, 
Marino 
ficou 
arrasado. 
Mas 
quela 
altura 
da 
minha 
vida, 
eu, 
de 
forma 
um 
tanto 
cnica, 
achava 
que 
os 
relacionamentos 
no 
podiam 
se 
curar 
como 
ossos 
fraturados. 
Ele 
acendeu 
mais 
um 
cigarro. 
Um 
caminho 
colou 
na 
traseira 
do 
Ford 
e 
depois 
ultrapassou. 
Apareceu 
ento 
um 
outro 
veculo 
atrs 
de 
ns, 
com 


o 
farol 
alto 
refletindo 
no 
retrovisor. 
"Molly 
no 
gostou 
nem 
um 
pouco 
disso", 
continuou 
ele, 
meio 
sem 
jeito. 
"Na 
verdade 
as 
coisas 
no 
vo 
bem 
desde 
que 
passamos 
o 
Natal 
separados. 
Acho 
tambm 
que 
ela 
comeou 
a 
se 
afastar 
de 
mim. 
Conheceu 
um 
sargento. 
Nem 
queira 
saber. 
Eu 
os 
apresentei 
no 
FOP, 
certa 
noite." 


#
"Sinto 
muito." 
Olhei 
para 
seu 
rosto 
e 
parecia 
que 
ele 
ia 
chorar. 
"Voc 
ainda 
ama 
Doris?", 
perguntei, 
gentilmente. 


"Diabo, 
no 
sei. 
No 
sei 
de 
nada. 
As 
mulheres 
so 
seres 
de 
outro 
planeta. 
Voc 
entende? 
 
exatamente 
como 
hoje 
 
noite. 
Tudo 
o 
que 
eu 
fao 
 
errado." 


"Isso 
no 
 
verdade. 
Ns 
somos 
amigos 
h 
muitos 
anos. 
Voc 
faz 
muitas 
coisas 
direito." 


"Voc 
 
a 
nica 
amiga 
mulher 
que 
tenho", 
disse 
ele. 
"Mas 
voc 
 
como 
se 
fosse 
homem." 


"Ora, 
muito 
obrigada." 


"Posso 
falar 
com 
voc 
com 
falo 
com 
um 
homem. 
E 
voc 
sabe 
o 
que 
est 
fazendo. 
No 
chegou 
aonde 
est 
por 
ser 
mulher. 
Porcaria." 
Ele 
ajustou 
o 
retrovisor 
para 
diminuir 
o 
brilho 
nos 
olhos. 
"Voc 
chegou 
aonde 
est, 
apesar 
de 
ser 
mulher." 


Olhou 
novamente 
pelo 
retrovisor. 
Eu 
me 
virei. 
Um 
carro 
estava 
quase 
batendo 
no 
nosso 
pra-choque, 
o 
farol 
alto 
nos 
ofuscando. 
Estvamos 
a 
mais 
de 
cem 
quilmetros 
por 
hora. 


"Estranho", 
comentei. 
Ele 
tem 
bastante 
espao 
para 
ultrapassar." 


O 
trfego 
na 
1-95 
estava 
tranqilo. 
No 
havia 
nenhum 
motivo 
para 
ningum 
ficar 
colado 
atrs 
de 
ningum, 
e 
eu 
pensei 
no 
acidente 
do 
outono 
passado, 
quando 
Lucy 
bateu 
meu 
Mercedes. 
Algum 
colara 
no 
seu 
pra-choque 
traseiro. 
O 
medo 
se 
espalhou 
pelos 
meus 
nervos. 


"D 
para 
ver 
que 
tipo 
de 
carro 
?", 
perguntei. 


"Parece 
um 
Z. 
Talvez 
um 
velho 
280 
Z, 
ou 
algo 
assim." 


Ele 
enfiou 
a 
mo 
no 
casaco 
e 
puxou 
uma 
pistola 
do 
col-dre. 
Colocou 
a 
arma 
no 
colo, 
continuando 
a 
olhar 
pelos 
espelhos. 
Voltei-me 
novamente 
e 
vi 
o 
vulto 
escuro 
de 
uma 
cabea, 
que 
parecia 
ser 
de 
homem. 
O 
motorista 
olhava 
diretamente 
para 
ns. 


"Est 
bem", 
resmungou 
Marino. 
"Isso 
est 
me 
enchendo 
o 
saco." 
Ele 
pisou 
no 
freio 
com 
fora. 


O 
carro 
nos 
ultrapassou 
com 
um 
longo 
e 
raivoso 
toque 
de 
buzina. 
Era 
um 
Porsche 
e 
o 
motorista 
era 
negro. 


#
Disse 
a 
Marino: 
"Voc 
no 
continua 
com 
aquele 
adesivo 
racista, 
com 
a 
bandeira 
dos 
Confederados, 
no 
seu 
pra-choque, 
no 
? 
Aquele 
que 
brilha 
quando 
a 
luz 
dos 
faris 
incide 
sobre 
ele?". 


"Continuo." 
Ele 
recolocou 
a 
arma 
no 
coldre. 


"Talvez 
seja 
bom 
voc 
pensar 
em 
tir-lo 
de 
l." 


O 
Porsche 
no 
era 
mais 
do 
que 
uns 
pontinhos 
luminosos 
adiante. 
Lembrei-me 
do 
chefe, 
ameaando 
mandar 
Marino 
para 
o 
curso 
de 
reeducao 
para 
a 
diversidade 
cultural. 
Marino 
poderia 
freqentar 
o 
curso 
pelo 
resto 
da 
vida; 
mesmo 
assim 
no 
estou 
bem 
certa 
de 
que 
isso 
iria 
cur-lo. 


"Amanh 
 
quinta", 
disse 
ele. 
"Tenho 
que 
ir 
 
Primeira 
Delegacia. 
Vou 
ver 
se 
algum 
ainda 
se 
lembra 
que 
eu 
trabalho 
para 
a 
cidade." 


"E 
o 
xerife 
Papai 
Noel? 
O 
que 
aconteceu 
com 
ele?" 


"Ele 
vai 
ser 
submetido 
a 
um 
interrogatrio 
preliminar 
na 
prxima 
semana." 


"Ele 
deve 
estar 
preso, 
no?', 
perguntei. 


"Negativo. 
Est 
solto. 
Quando 
voc 
vai 
participar 
do 
jri?" 
' 
"Segunda." 


"Talvez 
voc 
possa 
conseguir 
uma 
dispensa." 


"No 
posso 
requerer 
isso. 
Poderiam 
fazer 
um 
grande 
estardalhao 
e, 
mesmo 
que 
no 
o 
fizessem, 
seria 
uma 
coisa 
hipcrita. 
Espera-se 
que 
eu 
me 
preocupe 
com 
a 
justia." 


"Voc 
acha 
que 
eu 
devia 
procurar 
Doris?" 
J 
estvamos 
em 
Richmond, 
e 
vamos 
a 
massa 
dos 
edifcios 
do 
centro 
da 
cidade 
contra 
o 
cu. 


Observei 
seu 
perfil, 
o 
cabelo, 
que 
ia 
rareando, 
o 
rosto 
e 
as 
orelhas 
grandes, 
e 
a 
forma 
como 
suas 
mos 
enormes 
cobriam 
por 
completo 
o 
volante. 
Ele 
no 
conseguia 
lembrar-se 
de 
sua 
vida 
antes 
de 
Doris. 
Seu 
relacionamento 
havia 
muito 
perdera 
a 
leveza 
e 
o 
fogo 
do 
sexo, 
passando 
a 
uma 
esfera 
de 
segura, 
mas 
aborrecida, 
estabilidade. 
Talvez 
eles 
tenham 
se 
separado 
porque 
estavam 
com 
medo 
de 
envelhecer. 


"Acho 
que 
voc 
devia 
se 
encontrar 
com 
ela", 
disse-lhe. 


#
"Quer 
dizer 
ento 
que 
eu 
devo 
ir 
a 
Nova 
Jersey?" 


"No", 
respondi. 
"Foi 
Doris 
quem 
o 
abandonou. 
Ela 
 
que 
deve 
vir 
aqui." 


#
11 


Windsor 
Farms 
estava 
escura 
quando 
entramos 
nela, 
saindo 
da 
rua 
Cary, 
e 
Marino 
no 
queria 
que 
eu 
entrasse 
em 
minha 
casa 
sozinha, 
ele 
parou 
na 
entradinha 
de 
tijolo 
e 
olhou 
para 
a 
porta 
da 
garagem 
fechada, 
iluminada 
pela 
luz 
dos 
faris 
de 
seu 
carro. 


"Voc 
est 
com 
o 
aparelho 
para 
abrir?", 
perguntou 
ele. 


"Est 
no 
meu 
carro." 


"Isso 
adianta, 
e 
muito, 
j 
que 
seu 
carro 
est 
dentro 
da 
garagem 
com 
a 
porta 
fechada." 


"Se 
voc 
me 
deixasse 
na 
frente, 
como 
pedi, 
eu 
poderia 
abrir 
a 
porta 
da 
casa", 
disse-lhe. 


"No, 
voc 
no 
vai 
mais 
ficar 
andando 
por 
essa 
calada 
comprida, 
doutora." 
Ele 
falava 
em 
tom 
autoritrio, 
e 
eu 
sabia 
que, 
quando 
ele 
enfiava 
uma 
idia 
na 
cabea, 
no 
adiantava 
argumentar. 


Passei-lhe 
minhas 
chaves. 
"Ento 
voc 
vai 
e 
abre 
a 
garagem. 
Eu 
espero 
aqui." 


Ele 
abriu 
sua 
porta. 
"Tenho 
uma 
escopeta 
entre 
os 
bancos." 


Abaixou-se 
para 
mostrar 
uma 
Benelli 
preta, 
calibre 
12, 
com 
um 
cartucho 
extenso. 
Ocorreu-me 
que 
Benelli, 
fabricante 
de 
excelentes 
escopetas 
italianas, 
era 
tambm 
o 
nome 
que 
constava 
na 
carteira 
de 
motorista 
falsa 
de 
Gault. 


"A 
trava 
de 
segurana 
fica 
aqui." 
Marino 
me 
mostrou. 
"Basta 
puxar, 
e 
acionar 
o 
gatilho." 


"H 
alguma 
ameaa 
d 
conflito 
do 
qual 
eu 
no 
estou 
sabendo?" 


Ele 
saiu 
do 
carro 
e 
fechou 
as 
portas. 


Abri 
a 
janela, 
girando 
a 
manivela. 
"Seria 
bom 
se 
voc 
soubesse 
o 
cdigo 
do 
meu 
alarme 
contra 
roubo", 
disse-lhe. 


"J 
sei." 
Ele 
comeou 
a 
cruzar 
a 
grama 
queimada 
pelo 
frio. 
"DOB." 


"Como 
voc 
sabe?" 


"Voc 
 
muito 
previsvel", 
ouvi-o 
dizer, 
antes 
de 
desaparecer 
por 
trs 
de 
uma 
sebe. 


#
Alguns 
minutos 
depois, 
a 
porta 
da 
garagem 
comeou 
a 
subir 
e 
uma 
luz 
se 
acendeu, 
iluminando 
as 
ferramentas 
de 
jardinagem 
muito 
bem 
arrumadas 
nas 
prateleiras 
das 
paredes, 
uma 
bicicleta 
que 
eu 
usava 
raramente, 
e 
meu 
carro. 
Sempre 
que 
via 
meu 
Mercedes 
novo, 
no 
podia 
deixar 
de 
lembrar 
do 
outro, 
que 
Lucy 
destrura. 


O 
antigo, 
um 
500 
E, 
era 
leve, 
gracioso 
e 
veloz, 
com 
motor 
projetado 
parcialmente 
pela 
Porsche. 
Agora 
eu 
s 
queria 
algo 
grande. 
Eu 
tinha 
um 
S 
500 
que, 
com 
certeza, 
enfrentaria 
um 
caminho 
de 
concreto 
ou 
um 
trator. 
Marino 
ficou 
junto 
do 
meu 
carro, 
olhando 
para 
mim, 
como 
se 
quisesse 
me 
apressar. 
Toquei 
a 
buzina 
para 
lembr-lo 
de 
que 
eu 
estava 
trancada 
dentro 
do 
seu 
carro. 


"Por 
que 
as 
pessoas 
ficam 
tentando 
me 
prender 
dentro 
de 
seus 
veculos?", 
perguntei-lhe 
quando 
ele 
me 
deixou 
sair. 
"De 
manh 
foi 
um 
txi, 
agora 
voc." 


"Porque 
nada 
fica 
seguro 
com 
voc 
livre. 
Quero 
dar 
uma 
olhada 
na 
sua 
casa 
antes 
de 
ir 
embora", 
disse 
ele. 


"No 
 
preciso." 


"No 
estou 
pedindo. 
Estou 
dizendo 
que 
vou 
dar 
uma 
olhada." 


"Est 
bem. 
Esteja 
 
vontade." 


Entrei 
e 
ele 
me 
seguiu. 
Fui 
direto 
 
sala 
de 
estar 
e 
liguei 


0 
aquecedor 
a 
gs. 
Em 
seguida, 
abri 
a 
porta 
da 
frente 
e 
peguei 
a 
correspondncia 
e 
uma 
pilha 
de 
jornais 
que 
meu 
vizinho 
esquecera 
de 
recolher. 
Qualquer 
um 
que 
olhasse 
minha 
bela 
casinha 
de 
tijolo 
aparente 
teria 
a 
certeza 
de 
que 
eu 
passava 
o 
Natal 
fora. 


Voltando 
 
sala 
de 
estar, 
olhei 
para 
os 
lados, 
para 
ver 
se 
tinha 
alguma 
coisa 
fora 
do 
lugar. 
Eu 
me 
perguntava 
se 
algum 
pensara 
em 
invadir 
a 
casa, 
que 
olhos 
poderiam 
ter 
se 
voltado 
para 
ela, 
que 
pensamentos 
sombrios 
tinham 
envolvido 
aquele 
lugar. 


Minha 
vizinhana 
era 
das 
mais 
abastadas 
de 
Richmond, 
e 
certamente 
j 
houvera 
problemas 
tempos 
atrs, 
principalmente 
com 
ciganos 
que 
costumavam 
entrar 
durante 
o 
dia, 
quando 
as 
pessoas 
estavam 
em 
casa. 
Eu 
nunca 
me 
preocupava 
com 
eles, 
porque 
no 
deixava 
as 
portas 
abertas, 
e 
o 
alarme 
ficava 
ligado 
o 
tempo 
todo. 
O 
que 


#
eu 
temia 
era 
um 
tipo 
de 
criminoso 
totalmente 
diferente, 
que 
no 
estava 
interessado 
no 
que 
eu 
tinha, 
mas 
em 
quem 
eu 
era. 
Havia 
muitas 
armas 
em 
casa, 
guardadas 
bem 
ao 
alcance 
da 
mo. 


Sentei-me 
no 
sof, 
o 
reflexo 
das 
chamas 
danando 
nas 
pinturas 
a 
leo 
das 
paredes. 
Minha 
moblia 
era 
do 
estilo 
europeu 
contemporneo, 
e 
durante 
o 
dia 
a 
casa 
ficava 
bem 
iluminada. 
Quando 
comecei 
a 
organizar 
a 
correspondncia, 
encontrei 
um 
envelope 
cor-de-
rosa, 
semelhante 
a 
outros 
que 
j 
tinha 
visto. 
Era 
pequeno, 
de 
papel 
no 
muito 
bom, 
do 
tipo 
que 
se 
compra 
numa 
drugstore. 
Dessa 
vez, 
o 
carimbo 
do 
correio 
indicava 
Charlottesville, 
23 
de 
dezembro. 
Abri-o 
com 
um 
bisturi. 
O 
bilhete 
estava 
escrito 
 
mo, 
com 
caneta-tinteiro 
e 
tinta 
preta. 


CARA 
DOUTORA 
SCARPETTA, 
DESEJO-LHE 
UM 
NATAL 
MUITO 
ESPECIAL! 
CAIN 


Coloquei-o 
com 
todo 
o 
cuidado 
na 
mesinha 
de 
centro. 


"Marino?", 
chamei. 


Gault 
escrevera 
o 
bilhete 
antes 
de 
matar 
Jane. 
Mas 
o 
correio 
era 
lento. 
S 
agora 
eu 
o 
estava 
recebendo. 


"Marino!", 
levantei-me. 


Ouvi 
o 
barulho 
dos 
seus 
ps 
movendo-se 
rapidamente 
pelas 
escadas. 
Ele 
se 
precipitou 
sala 
adentro, 
de 
arma 
em 
punho. 


"O 
que 
foi?", 
disse, 
com 
a 
respirao 
ofegante, 
olhando 
em 
volta. 
"Voc 
est 
bem?" 


Apontei 
o 
bilhete. 
Seus 
olhos 
desceram 
sobre 
o 
envelope 
rosa 
e 
o 
bilhete. 


"Quem 
mandou?" 


"Olhe." 


Ele 
sentou 
ao 
meu 
lado, 
e 
se 
levantou 
imediatamente. 
"Vou 
ligar 


o 
alarme." 
"Boa 
idia." 
#
Voltou 
e 
sentou-se 
novamente. 
"Traga-me 
umas 
duas 
canetas. 
Obrigado." 


Ele 
usou 
as 
canetas 
para 
manter 
o 
papel 
aberto, 
de 
forma 
que 
pudesse 
ler 
sem 
estragar 
as 
impresses 
digitais 
que 
eu 
no 
tivesse 
destrudo. 
Quando 
terminou, 
examinou 
a 
caligrafia 
e 
o 
carimbo 
do 


envelope. 
" 
a 
primeira 
vez 
que 
voc 
recebe 
um 
bilhete 
desses?" 
perguntou. 
"No." 
Ele 
olhou 
para 
mim, 
acusadoramente. 
"E 
voc 
no 
me 
disse 
nada?" 


"No 
 
o 
primeiro 
bilhete, 
mas 
 
o 
primeiro 
assinado 
CAIN", 
expliquei. 


"Como 
os 
outros 
estavam 
assinados?" 


"Houve 
apenas 
dois 
outros 
nesse 
papel 
cor-de-rosa, 
e 
eles 
no 
estavam 
assinados." 


"Voc 
os 
guardou?" 


"No. 
No 
achei 
que 
eram 
importantes. 
Os 
carimbos 
do 
correio 
indicavam 
Richmond. 
Os 
bilhetes 
eram 
estranhos, 
mas 
no 
alarmantes. 
Eu 
sempre 
recebo 
correspondncias 
estranhas." 


"Enviadas 
para 
a 
sua 
casa?" 


"Geralmente 
para 
o 
escritrio. 
Meu 
endereo 
no 
est 
na 
lista." 


"Merda, 
doutora!" 
Marino 
levantou-se 
e 
comeou 
a 
andar 
de 
um 
lado 
para 
o 
outro. 
"Voc 
no 
se 
preocupa 
nem 
um 
pouco 
em 
receber 
correspondncia 
em 
sua 
casa, 
sendo 
que 
seu 
endereo 
no 
est 
na 
lista?" 


"O 
lugar 
onde 
moro 
no 
 
nenhum 
segredo. 
Voc 
sabe 
o 
quanto 
a 
gente 
pede 
 
mdia 
para 
no 
filmar 
nem 
fotografar, 
e 
que 
de 
nada 
adianta: 
eles 
filmam 
e 
fotografam 
do 
mesmo 
jeito." 


"O 
que 
os 
outros 
bilhetes 
diziam?" 


"Como 
este, 
eles 
eram 
curtos. 
Um 
me 
perguntava 
como 
eu 
estava 
e 
se 
continuava 
trabalhando 
muito. 
Acho 
que 
o 
outro 
dizia 
que 
estava 
com 
saudade 
de 
mim, 
ou 
algo 
assim." 


#
"Sentindo 
saudade 
de 
voc?" 


Vasculhei 
em 
minha 
memria. 
"Algo 
como: 
'Passou-se 
muito 
tempo. 
Precisamos 
realmente 
nos 
ver'." 


"Voc 
tem 
certeza 
de 
que 
 
a 
mesma 
pessoa?" 
Ele 
baixou 
os 
olhos 
e 
lanou 
um 
olhar 
para 
o 
bilhete 
rosa 
sobre 
a 
mesa. 


"Acho 
que 
sim. 
 
obvio 
que 
Gault 
tem 
o 
meu 
endereo, 
como 
voc 
previu." 


"Provavelmente 
ele 
esteve 
no 
seu 
ninho." 
Marino 
olhou 
para 
mim. 
"Voc 
consegue 
imaginar 
isso?" 


No 
respondi. 


"Estou 
lhe 
dizendo 
que 
ele 
viu 
onde 
voc 
vive." 
Ele 
passou 
os 
dedos 
entre 
os 
cabelos. 
"Voc 
est 
entendendo 
o 
que 
estou 
lhe 
dizendo?", 
perguntou. 


"Isso 
precisa 
ir 
para 
o 
laboratrio 
na 
primeira 
hora 
da 
manh", 
disse-lhe. 


Pensei 
nos 
dois 
primeiros 
bilhetes. 
Se 
os 
outros 
dois 
tambm 
eram 
de 
Gault, 
ele 
os 
postou 
em 
Richmond. 
Ele 
esteve 
aqui. 


"Voc 
no 
pode 
ficar 
aqui, 
doutora." 


"Eles 
podem 
analisar 
o 
selo. 
Se 
Gault 
o 
lambeu, 
deixou 
saliva 
nele. 
Podemos 
usar 
a 
tcnica 
de 
polimerase 
e 
conseguir 
DNA." 


"Voc 
no 
pode 
ficar 
aqui", 
repetiu 
ele. 


"Claro 
que 
posso." 


"Estou 
lhe 
dizendo 
que 
no 
pode." 


"Tenho 
que 
ficar, 
Marino", 
falei-lhe, 
me 
rebelando. 
"Aqui 
 
minha 
casa." 


Ele 
balanava 
a 
cabea. 
"No, 
isso 
est 
fora 
de 
cogitao. 
Ou 
ento 
eu 
venho 
para 
c." 


Eu 
gostava 
de 
Marino, 
mas 
no 
conseguia 
suportai' 
a 
idia 
de 
t-
lo 
em 
minha 
casa. 
Eu 
j 
o 
imaginava 
limpando 
os 
ps 
nos 
meus 
tapetes 
orientais 
e 
deixando 
manchas 
circulares 
em 
mveis 
de 
teixo 
e 
de 
mogno. 
Ele 
iria 
assistir 
a 
lutas 
diante 
da 
lareira 
e 
beber 
Budweiser 
na 
lata. 


"Vou 
ligar 
para 
Benton 
agora 
mesmo", 
continuou. 
"Ele 
vai 
dizer 
a 


#
mesma 
coisa 
a 
voc." 
Ele 
andou 
em 
direo 
ao 
telefone. 


"Marino", 
disse. 
"Deixe 
Benton 
fora 
dessa 
histria." 


Ele 
caminhou 
at 
a 
lareira 
e 
se 
sentou 
na 
pedra. 
Ps 
a 
cabea 
nas 
mos 
e, 
quando 
olhou 
para 
mim, 
mostrou 
um 
rosto 
cansado. 
"Voc 
sabe 
como 
vou 
me 
sentir 
se 
acontecer 
alguma 
coisa 
com 
voc?" 


"No 
muito 
bem", 
brinquei, 
meio 
sem 
jeito. 


"Isso 
me 
mataria. 
Mataria 
sim, 
juro." 


"Voc 
est 
ficando 
meio 
xarope." 


"No 
sei 
o 
que 
quer 
dizer 
com 
isso. 
S 
sei 
que 
Gault 
vai 
ter 
que 
acabar 
comigo 
primeiro, 
est 
ouvindo?" 
Ele 
me 
olhou 
intensamente. 


Desviei 
o 
olhar. 
Senti 
o 
sangue 
me 
subir 
s 
faces. 


"Sabe, 
pode 
acontecer 
com 
voc 
o 
mesmo 
que 
com 
os 
outros. 
Eddie, 
Helen, 
Jane, 
Jimmy 
Davila. 
Gault 
est 
obcecado 
por 
voc. 
E 
provavelmente 
ele 
 
o 
pior 
matador 
desta 
merda 
de 
sculo." 
Fez 
uma 
pausa 
e 
ficou 
me 
observando. 
" 
Voc 
est 
me 
ouvindo?" 


Levantei 
os 
olhos 
e 
encontrei 
os 
seus. 
"Sim", 
respondi. 
"Estou 
ouvindo. 
Estou 
ouvindo 
cada 
uma 
das 
palavras." 


"Voc 
deve 
sair 
tambm 
por 
causa 
de 
Lucy. 
Ela 
no 
pode 
ficar 
vindo 
aqui 
toda 
hora 
para 
ver 
voc. 
E 
se 
alguma 
coisa 
acontecer, 
o 
que 
acha 
que 
vai 
acontecer 
com 
ela?" 


Fechei 
os 
olhos. 
Eu 
gostava 
da 
minha 
casa. 
Trabalhara 
muito 
para 
consegui-la. 
Trabalhara 
duro, 
tentando 
ser 
uma 
boa 
mulher 
de 
negcios. 
O 
que 
Wesley 
previra 
estava 
acontecendo. 
A 
segurana 
teria 
que 
ser 
comprada 
s 
custas 
do 
que 
eu 
era 
e 
de 
tudo 
o 
que 
eu 
tinha. 


"Quer 
dizer 
que 
eu 
tenho 
que 
ir 
para 
outro 
lugar 
e 
gastar 
minhas 
economias?", 
perguntei, 
'"lenho 
que 
abandonar 
tudo 
isso?" 
Fiz 
um 
movimento 
com 
a 
mo, 
indicando 
toda 
a 
sala. 
"Tenho 
que 
dar 
um 
poder 
desses 
a 
esse 
monstro?" 


"Voc 
tambm 
no 
pode 
dirigir 
seu 
carro", 
continuou 
ele, 
pensando 
alto. 
"Tem 
que 
dirigir 
algo 
que 
ele 
no 
reconhea. 
Voc 
pode 
pegar 
o 
meu, 
se 
quiser." 


"No, 
que 
diabo!" 


Marino 
pareceu 
magoado. 
"No 
 
pouca 
coisa, 
para 
mim, 
deixar 


#
algum 
usar 
meu 
carro. 
Nunca 
deixei 
ningum 
fazer 
isso." 


"No 
 
isso. 
Eu 
quero 
minha 
vida. 
Quero 
saber 
que 
Lucy 
est 
em 
segurana. 
Quero 
viver 
em 
minha 
casa 
e 
dirigir 
meu 
carro." 


Ele 
se 
levantou 
e 
me 
deu 
um 
leno. 


"No 
estou 
chorando", 
disse-lhe. 


"Est 
quase." 


"No, 
no 
estou." 


"Voc 
quer 
beber?" 


"Scotch." 


"Acho 
que 
vou 
querer 
um 
pouco 
de 
bourbon." 


"Voc 
no 
pode. 
Vai 
dirigir." 


"No, 
no 
vou", 
falou-me, 
aproximando-se 
do 
bar. 
"Vou 
dormir 
no 
seu 
sof." 


Perto 
da 
meia-noite, 
eu 
trouxe 
um 
travesseiro 
e 
um 
lenol 
e 
ajudei-o 
a 
arrumar 
a 
cama. 
Ele 
poderia 
dormir 
num 
quarto 
de 
hspedes, 
mas 
queria 
ficar 
ali 
mesmo, 
com 
o 
aquecedor 
ligado 
baixo. 


Subi 
a 
meu 
quarto 
e 
li 
at 
meus 
olhos 
no 
conseguirem 
mais 
focalizar 
nada. 
Senti-me 
grata 
por 
Marino 
estar 
na 
minha 
casa. 
Eu 
no 
me 
lembrava 
de 
ter 
sentido 
tanto 
medo 
em 
minha 
vida. 
At 
aquele 
momento, 
Gault 
sempre 
conseguira 
o 
que 
queria. 
No 
falhara 
uma 
nica 
vez, 
em 
um 
nico 
ato 
perverso 
que 
se 
propusera 
a 
fazer. 
Se 
ele 
quisesse 
me 
matar, 
no 
sei 
se 
eu 
conseguiria 
escapar. 
Isso 
tambm 
se 
aplicaria 
a 
Lucy. 


O 
que 
mais 
temia 
era 
essa 
ltima 
possibilidade, 
Eu 
vira 
os 
estragos 
que 
ele 
fizera. 
Sabia 
o 
que 
ele 
fazia, 
Eu 
seria 
capaz 
de 
desenhar 
cada 
osso 
e 
inciso 
escabrosa 
na 
pele. 
Olhei 
para 
a 
pistola 
nove-milmetros 
que 
estava 
no 
criado-mudo 
e 
me 
perguntei 
sobre 
o 
que 
eu 
vinha 
fazendo 
da 
minha 
vida. 
Ser 
que 
eu 
conseguiria? 
Ser 
que 
conseguiria 
salvar 
a 
minha 
vida 
ou 
a 
de 
algum? 
Passando 
em 
revista 
o 
meu 
quarto 
e 
o 
aposento 
contguo, 
tinha 
certeza 
de 
que 
Marino 
estava 
certo. 
Eu 
no 
podia 
ficar 
aqui 
sozinha. 


Mergulhei 
no 
sono 
pensando 
nessas 
coisas 
e 
tive 
um 
sonho 
perturbador. 
Um 
vulto 
de 
vestido 
preto 
e 
rosto 
que 
parecia 
um 
balo 


#
branco 
ria 
inexpressivamente 
para 
mim, 
num 
espelho 
antigo. 
Toda 
vez 
que 
eu 
passava 
em 
frente 
ao 
espelho, 
a 
figura 
estava 
me 
observando, 
com 
seu 
sorriso 
frio. 
Parecia 
ao 
mesmo 
tempo 
morta 
e 
viva 
e 
parecia 
no 
ter 
sexo. 
Acordei 
de 
repente 
 
uma 
da 
manh, 
e 
tentei 
ouvir 
algum 
barulho 
na 
escurido. 
Desci 
as 
escadas 
e 
ouvi 
Marino 
roncando. 


Devagar, 
chamei 
seu 
nome. 


O 
ritmo 
de 
seu 
ronco 
continuou 
o 
mesmo. 


"Marino?", 
sussurrei, 
mais 
perto. 


Ele 
se 
sentou 
de 
repente, 
fazendo 
um 
barulho 
danado 
enquanto 
procurava 
a 
arma. 


"Pelo 
amor 
de 
Deus, 
no 
atire 
em 
mim." 


"H?" 
Olhou 
em 
volta, 
o 
rosto 
plido 
 
fraca 
luz 
da 
lareira. 
Ele 
se 
deu 
conta 
de 
onde 
estava 
e 
recolocou 
a 
arma 
na 
mesa. 
"No 
fique 
me 
assustando 
desse 
jeito." 


"No 
estou 
querendo 
assust-lo." 


Sentei-me 
ao 
seu 
lado 
no 
sof. 
Lembrei 
me 
de 
que 
estava 
com 
camisola 
de 
dormir, 
e 
que 
ele 
nunca 
tinha 
me 
visto 
assim 
antes, 
mas 
no 
me 
incomodei. 


"H 
algo 
errado?", 
perguntou 
ele. 


Ri 
com 
tristeza. 
"No 
acho 
que 
exista 
muita 
coisa 
que 
esteja 
certa." 


Seus 
olhos 
comearam 
a 
devanear, 
e 
eu 
podia 
sentir 
o 
conflito 
que 
havia 
nele. 
Sempre 
soube 
que 
Marino 
sentia 
um 
grande 
desejo 
por 
mim, 
ao 
qual 
eu 
no 
podia 
corresponder. 
Naquela 
noite 
a 
situao 
era 
mais 
complicada, 
porque 
eu 
no 
podia 
me 
esconder 
por 
trs 
de 
muralhas 
de 
aventais 
de 
laboratrio, 
subordinados, 
roupas 
de 
trabalho 
e 
ttulos. 
Eu 
estava 
ali, 
de 
camisola 
decotada 
de 
flanela 
macia 
cor-de-
areia. 
Era 
madrugada 
e 
ele 
estava 
dormindo 
em 
minha 
casa. 


"No 
consigo 
dormir", 
continuei. 


"Eu 
estava 
dormindo 
muito 
bem." 
Ele 
se 
deitou, 
apoiou 
a 
cabea 
nas 
mos 
e 
ficou 
me 
olhando. 


"Comeo 
a 
depor 
na 
prxima 
semana." 


Marino 
no 
disse 
nada. 


#
"Esto 
aparecendo 
muitos 
casos 
para 
resolver 
e 
tenho 
que 
tocar 


o 
trabalho 
do 
escritrio. 
No 
posso 
simplesmente 
fazer 
as 
malas 
e 
ir 
embora." 
"O 
tribunal 
do 
jri 
no 
 
problema", 
comentou 
ele. 
"A 
gente 
consegue 
livrar 
voc 
disso." 


"Mas 
eu 
no 
quero." 


"Mesmo 
assim 
vo 
dispensar 
voc. 
Nenhum 
advogado 
vai 
te 
aceitar 
como 
testemunha." 


Fiquei 
calada. 


"Voc 
tambm 
pode 
tirar 
uma 
licena. 
Os 
casos 
vo 
seguir 
seu 
curso 
normal. 
Oua, 
talvez 
voc 
possa 
ir 
esquiar 
por 
umas 
duas 
semanas. 
Em 
algum 
lugar 
no 
oeste." 


Quanto 
mais 
ele 
falava, 
mais 
eu 
me 
perturbava. 


"Vai 
ter 
que 
usar 
um 
outro 
nome", 
continuou 
ele. 
"E 
andar 
com 
segurana. 
No 
pode 
ficar 
sozinha 
num 
campo 
de 
esqui." 


"Bem", 
retruquei, 
"ningum 
vai 
destacar 
um 
agente 
do 
FBI 
ou 
do 
Servio 
Secreto 
para 
me 
acompanhar, 
se 
 
isso 
que 
voc 
est 
pensando. 
Os 
direitos 
s 
so 
garantidos 
pela 
violao 
da 
lei. 
A 
maioria 
das 
pessoas 
consegue 
agentes 
ou 
policiais 
para 
acompanh-las 
apenas 
quando 
j 
foram 
seqestradas." 


"Voc 
pode 
contratar 
algum. 
Alm 
disso, 
ele 
pode 
dirigir, 
mas 
no 
no 
seu 
carro." 


"No 
vou 
contratar 
ningum 
e 
insisto 
em 
dirigir 
meu 
prprio 
carro." 


Ele 
pensou 
por 
um 
minuto, 
olhando 
para 
o 
teto 
abaulado. 
"Desde 
quando 
voc 
est 
com 
esse 
carro?" 


"No 
faz 
nem 
dois 
meses." 


"Voc 
o 
comprou 
de 
McGeorge, 
certo?" 
Ele 
se 
referia 
ao 
distribuidor 
local 
da 
Mercedes. 


"Sim." 


"Vou 
falar 
com 
eles 
para 
ver 
se 
conseguem 
um 
que 
d 
menos 
na 


vista 
do 
que 
esse 
seu 
carro 
preto 
nazista." 
Furiosa, 
levantei-me 
do 
sof 
e 
me 
aproximei 
da 
lareira. 


#
"E 
o 
que 
mais 
devo 
abandonar?", 
perguntei 
asperamente, 
fitando 
as 
chamas 
que 
lambiam 
a 
lenha 
artificial. 


Marino 
no 
respondeu. 


"No 
vou 
deixar 
que 
ele 
me 
transforme 
em 
Jane", 
comecei, 
lanando-me 
numa 
diatribe. 
" 
como 
se 
ele 
estivesse 
me 
preparando 
para, 
no 
final, 
fazer 
comigo 
o 
que 
fez 
com 
ela. 
Ele 
est 
tentando 
tirar 
de 
mim 
tudo 
o 
que 
eu 
tenho." 


"At 
o 
meu 
nome", 
continuei. 
"Terei 
que 
usar 
um 
outro 
nome. 
Terei 
que 
ser 
mais 
discreta. 
Ou 
mais 
medocre. 
No 
posso 
morar 
em 
lugar 
nenhum, 
no 
posso 
dirigir, 
nem 
dizer 
s 
pessoas 
onde 
estou. 
Hotis, 
segurana 
particular 
so 
muito 
caros." 


"A 
vai 
chegar 
a 
hora 
em 
que 
vou 
gastar 
todas 
as 
minhas 
economias", 
acrescentei. 
"Sou 
a 
legista 
titular 
de 
Virgnia 
e 
raramente 
vou 
aparecer 
no 
escritrio. 
O 
diretor 
vai 
me 
mandar 
embora. 
Pouco 
a 
pouco 
vou 
perder 
tudo 
o 
que 
eu 
tinha, 
e 
tudo 
o 
que 
eu 
fui. 
Por 
causa 
dele." 


Marino 
continuou 
sem 
responder. 
Tinha 
adormecido. 
Uma 
lgrima 
saiu 
dos 
meus 
olhos 
enquanto 
eu 
o 
cobria 
at 
a 
altura 
do 
queixo. 
Subi 
para 
o 
meu 
quarto. 


#
12 


Estacionei 
atrs 
do 
meu 
edifcio 
as 
sete 
e 
quinze 
e 
fiquei 
por 
um 
instante 
no 
carro, 
olhando 
o 
asfalto, 
rachado, 
o 
reboco 
desbotado 
e 
o 
cercado 
de 
correntes 
prestes 
a 
cair, 
em 
volta 
do 
estacionamento. 


Por 
trs 
de 
mim, 
os 
cavaletes 
da 
estrada 
de 
ferro 
e 
a 
passagem 
elevada 
I-95, 
depois 
dos 
limites 
de 
um 
centro 
avassalado 
pelo 
crime. 
No 
havia 
arvores 
nem 
plantas, 
apenas 
um 
pouco 
de 
grama. 
Minha 
nomeao 
para 
aquele 
cargo 
no 
inclua 
uma 
bela 
paisagem, 
mas 
naquele 
momento 
aquilo 
no 
me 
importava, 
eu 
sentira 
falta 
do 
meu 
escritrio 
e 
do 
meu 
pessoal, 
e 
tudo 
o 
que 
eu 
via 
era 
reconfortante. 


Dentro 
do 
necrotrio, 
parei 
na 
minha 
sala 
para 
tomar 
conhecimento 
dos 
casos 
do 
dia. 
Havia 
um 
caso 
de 
suicdio 
e 
o 
de 
uma 
mulher 
do 
oitenta 
anos 
que 
morrera 
em 
casa, 
de 
um 
carcinoma 
no 
tratado. 
Uma 
famlia 
inteira 
morrera 
na 
tarde 
do 
dia 
anterior, 
quando 
o 
carro 
se 
chocara 
com 
um 
trem, 
e 
li 
seus 
nomes 
com 
o 
corao 
pesado. 
Tendo 
decidido 
examinar 
tudo 
enquanto 
esperava 
por 
meus 
assistentes, 
abri 
o 
imenso 
refrigerador 
o 
as 
pias 
que 
davam 
para 
a 
sala 
de 
autpsia. 


As 
trs 
mesas 
brilhavam, 
o 
ladrilho 
do 
cho 
estava 
limpssimo. 
Examinei 
compartimentos 
com 
pilhas 
de 
formulrios, 
troles 
com 
instrumentos 
e 
tubos 
de 
ensaio 
bem 
arrumados, 
prateleiras 
de 
ao 
com 
cmaras 
e 
filmes. 
No 
vestirio, 
verifiquei 
lenis 
e 
aventais 
engomados, 
enquanto 
punha 
o 
avental 
de 
plstico; 
depois 
fui 
ao 
vestbulo 
onde 
se 
encontrava 
o 
trole 
com 
mscaras 
cirrgicas, 
pantufas 
e 
resguardo 
para 
rosto. 


Colocando 
as 
luvas, 
continuei 
minha 
inspeo 
e 
entrei 
no 
refrigerador 
para 
tirar 
meu 
primeiro 
caso. 
Os 
corpos 
estavam 
em 
bolsas 
pretas 
em 
cima 
das 
maas, 
e 
o 
ar 
devidamente 
mantido 
a 
uma 
temperatura 
de 
trinta 
e 
dois 
graus 
centgrados 
desodorizado, 
considerando 
que 
estvamos 
de 
casa 
cheia. 
Verifiquei 
o 
carto 
amarrado 
ao 
dedo 
do 
p, 
e 
puxei 
uma 
maa 
para 
fora. 


Ningum 
estaria 
ali 
at 
umas 
nove 
horas, 
e 
eu 
desfrutava 
o 
silncio. 
Nem 
precisava 
fechar 
as 
portas 
do 
necrotrio, 
porque 
era 
cedo 


#
demais 
para 
o 
elevador 
do 
outro 
lado 
do 
vestbulo 
ficar 
cheio, 
com 
o 
pessoal 
da 
polcia 
tcnica. 
No 
consegui 
achar 
nenhum 
documento 
sobre 
o 
suicdio 
e 
procurei 
em 
minha 
sala 
mais 
uma 
vez. 
O 
relatrio 
sobre 
morte 
sbita 
tinha 
sido 
colocado 
na 
caixa 
errada. 
A 
data 
estava 
errada 
por 
dois 
dias, 
e 
a 
maior 
parte 
do 
formulrio 
no 
tinha 
sido 
preenchida. 
As 
nicas 
informaes 
que 
trazia 
eram 
o 
nome 
do 
defunto 
e 
a 
de 
que 
o 
corpo 
tinha 
sido 
entregue 
s 
trs 
da 
manh 
pela 
empresa 
Sauls 
Mortuary, 
o 
que 
no 
fazia 
o 
menor 
sentido. 


Meu 
departamento 
usava 
trs 
servios 
de 
remoo 
para 
recolher 
e 
trazer 
os 
cadveres. 
Essas 
trs 
empresas 
locais 
ficavam 
de 
planto 
vinte 
e 
quatro 
horas 
por 
dia, 
e 
qualquer 
caso 
que 
necessitasse 
de 
autpsia 
estava 
a 
cargo 
de 
uma 
delas. 
Eu 
no 
conseguia 
entender 
por 
que, 
nesse 
caso 
de 
suicdio, 
a 
remoo 
fora 
feita 
por 
uma 
empresa 
com 
a 
qual 
no 
tnhamos 
contrato, 
e 
por 
que 
o 
motorista 
no 
tinha 
assinado. 
Tive 
um 
acesso 
de 
raiva. 
Eu 
tinha 
ficado 
fora 
s 
por 
uns 
dias 
e 
o 
sistema 
j 
estava 
se 
deteriorando. 
Fui 
ao 
telefone 
e 
liguei 
para 
o 
guarda 
que 
estava 
de 
planto, 
cujo 
turno 
s 
se 
encerraria 
dali 
a 
meia 
hora. 


"Aqui 
 
a 
doutora 
Scarpetta", 
falei, 
quando 
ele 
atendeu. 


"Sim, 
madame." 


"Com 
quem 
estou 
falando, 
por 
favor?" 


"Evans." 


"Senhor 
Evans, 
um 
suposto 
caso 
de 
suicdio 
deu 
entrada 
s 
trs 
da 
manh 
de 
hoje." 


"Sim, 
senhora. 
Fui 
eu 
que 
recebi 
o 
corpo." 


"Quem 
fez 
a 
entrega?" 


Ele 
fez 
uma 
pausa. 


"Humm, 
acho 
que 
foi 
a 
Sauls." 


"Ns 
no 
trabalhamos 
com 
a 
Sauls." 


Ficou 
calado. 


"Acho 
que 
 
melhor 
voc 
subir 
at 
aqui", 
disse-lhe. 


Ele 
hesitou. 
"A 
no 
necrotrio?" 


" 
onde 
estou." 


#
Ele 
empacou. 
Eu 
sentia 
uma 
forte 
resistncia. 
Muitas 
pessoas 
que 
trabalhavam 
naquele 
edifcio 
no 
suportavam 
o 
necrotrio. 
No 
queriam 
nem 
chegar 
perto, 
e 
eu 
ainda 
havia 
de 
contratar 
um 
guarda 
que 
fosse 
capaz 
de 
pr 
a 
cabea 
dentro 
do 
refrigerador. 
Muitos 
guardas 
e 
faxineiros 
trabalhavam 
por 
pouco 
tempo 
l. 


Enquanto 
esperava 
pelo 
destemido 
guarda 
chamado 
Evans, 
abri 


o 
zper 
da 
bolsa, 
que 
parecia 
ser 
nova. 
A 
cabea 
da 
vtima 
estava 
coberta 
por 
um 
saco 
de 
lixo 
preto 
amarrado 
ao 
pescoo 
com 
um 
cadaro. 
Vestia 
um 
pijama 
ensangentado 
e 
usava 
uma 
grossa 
pulseira 
de 
ouro 
e 
um 
relgio 
Rolex. 
No 
bolso 
do 
peito 
do 
pijama 
havia 
o 
que 
me 
pareceu 
ser 
um 
envelope 
cor-de-rosa. 
Dei 
um 
passo 
atrs, 
sentindo 
as 
pernas 
fraquejarem. 
Corri 
para 
as 
portas, 
fechei-as 
e 
tranquei 
todos 
os 
ferrolhos, 
enquanto 
vasculhava 
os 
bolsos 
procurando 
meu 
revlver. 
Batons 
e 
escovas 
de 
cabelo 
espalharam-se 
pelo 
cho. 
Pensei 
no 
vestirio, 
em 
lugares 
onde 
algum 
poderia 
se 
esconder, 
enquanto 
discava 
o 
telefone, 
as 
mos 
trmulas. 
Dependendo 
de 
como 
estivesse 
vestido, 
ele 
poderia 
se 
esconder 
at 
mesmo 
dentro 
do 
refrigerador, 
pensei 
desatinadamente, 
ao 
visualizar 
as 
vrias 
bolsas 
pretas 
em 
cima 
das 
maas. 
Corri 
ento 
para 
a 
grande 
porta 
de 
ao 
e 
fechei 
o 
cadeado 
da 
maaneta, 
ao 
mesmo 
tempo 
em 
que 
esperava 
Marino 
responder 
 
minha 
mensagem. 


O 
telefone 
tocou 
dali 
a 
cinco 
minutos, 
no 
exato 
instante 
que 
Evans 
batia 
de 
leve 
nas 
portas 
fechadas. 


"Espere 
um 
pouco", 
gritei 
para 
ele. 
"Espere 
ai." 
Eu 
peguei 
o 
fone. 


"Oi", 
falou 
Marino. 


"Venha 
aqui 
imediatamente", 
disse-lhe, 
esforando-me 
para 


controlar 
a 
voz 
enquanto 
apertava 
a 
arma 
com 
a 
mo. 
"O 
que 
est 
havendo?", 
perguntou 
ele, 
assustado. 
"Corra!", 
pedi-lhe. 
Desliguei 
e 
disquei 
911-Depois 
falei 
com 
Evans 
pela 
porta. 
"A 
polcia 
est 
vindo", 
disse-lhe 
em 
voz 
alta. 
"A 
polcia?" 
Ele 
levantou 
a 
voz. 
"Temos 
um 
terrvel 
problema 
aqui." 
Meu 
corao 
batia 


#
descompassadamente. 
"Suba 
pela 
escada 
e 
espere 
na 
sala 
de 
reunio, 


entendeu?" 


"Sim, 
senhora. 
Estou 
indo 
pra 
l 
agora." 


Subi 
num 
balco 
de 
frmica 
que 
ocupava 
metade 
da 
extenso 
da 
parede, 
colocando-me 
junto 
do 
telefone 
e 
numa 
posio 
que 
me 
permitia 
ver 
todas 
as 
portas. 
Empunhava 
minha 
Smith 
& 
Wesson 
38, 
desejando 
estar 
com 
a 
Browning 
ou 
com 
a 
escopeta 
Benelli 
de 
Marino. 
Eu 
olhava 
o 
saco 
preto 
sobre 
a 
maa 
como 
se 
ele 
fosse 
se 
mexer. 


O 
telefone 
tocou 
e 
eu 
pulei, 
agarrando 
o 
fone. 


"Necrotrio." 
Minha 
voz 
tremia. 


Silncio. 


"Al?" 
Falei 
com 
voz 
mais 
firme. 


Ningum 
respondeu. 


Desliguei 
e 
desci 
do 
balco 
comeando 
a 
me 
encher 
de 
raiva, 
que 
logo 
se 
transformou 
em 
fria. 
Meu 
medo 
se 
dissipou 
como 
o 
sol 
dissipa 
os 
nevoeiros. 
Abri 
as 
portas 
duplas 
que 
davam 
para 
o 
corredor 
e 
entrei 
no 
escritrio 
do 
necrotrio 
novamente. 
Acima 
do 
telefone 
havia 
quatro 
tiras 
de 
fita 
adesiva 
e 
cantos 
de 
papel 
rasgado, 
que 
ficaram 
quando 
algum 
arrancou 
da 
parede 
a 
lista 
dos 
telefones 
do 
pessoal 
que 
trabalhava 
no 
edifcio. 
Aquela 
lista 
trazia 
o 
nmero 
do 
necrotrio 
e 
o 
de 
minha 
linha 
direta 
l 
em 
cima. 


"Puta 
que 
pariu!", 
exclamei, 
ofegante. 
"Puta 
que 
pariu, 
puta 
que 
pariu, 
puta 
que 
pariu!" 


A 
sirene 
da 
entrada 
tocou, 
enquanto 
eu 
me 
perguntava 
o 
que 
mais 
tinha 
sido 
mexido 
ou 
levado. 
Pensei 
no 
meu 
escritrio 
no 
andar 
de 
cima. 
Sa 
e 
apertei 
uni 
boto 
que 
havia 
na 
parede. 
A 
grande 
porta 
se 
abriu 
com 
um 
chiado. 
Marino, 
de 
uniforme, 
estava 
do 
outro 
lado 
com 
dois 
soldados 
e 
um 
detetive. 
Eles 
passaram 
por 
mim 
correndo 
e 
entraram 
na 
sala 
de 
autpsia, 
os 
coldres 
desabotoados. 
Fui 
atrs 
deles 
e 
pus 
meu 
revlver 
no 
balco, 
porque 
achava 
que 
no 
ia 
precisar 
dele 
agora. 


"Que 
diabos 
est 
havendo 
aqui?", 
perguntou 
Marino, 
olhando 


#
estupidamente 
para 
o 
cadver 
e 
para 
sua 
bolsa 
com 
o 
zper 
aberto. 


Os 
outros 
policiais 
examinaram 
tudo, 
no 
encontrando 
nada 
de 
errado. 
Ento 
eles 
olharam 
para 
mim 
e 
para 
o 
revlver 
que 
eu 
deixara 
no 
balco. 


"Doutora 
Scarpetta, 
o 
que 
 
que 
lhe 
parece 
errado?", 
perguntou 


o 
detetive, 
cujo 
nome 
eu 
no 
sabia. 
Expliquei 
sobre 
o 
servio 
de 
remoo, 
enquanto 
eles 
ouviam, 
sem 
a 
menor 
expresso 
em 
seus 
rostos. 
"E 
o 
corpo 
chegou 
com 
o 
que 
parece 
ser 
um 
bilhete 
no 
bolso. 
Que 
investigador 
de 
polcia 
iria 
permitir 
uma 
coisa 
dessas? 
Qual 
o 
departamento 
que 
est 
trabalhando 
nesse 
caso, 
por 
falar 
nisso? 
No 
se 
menciona 
nenhum", 
falava-lhes, 
mostrando 
a 
cabea 
envolta 
num 
saco 
de 
lixo 
amarrado 
com 
um 
cadaro. 


"Que 
diz 
o 
bilhete?", 
perguntou 
o 
detetive, 
que 
usava 
um 
casaco 
preto 
afivelado, 
botas 
de 
caubi, 
e 
um 
Rolex 
de 
ouro 
que 
com 
certeza 
era 
falso. 


"No 
toquei 
nele", 
disse. 
"Achei 
prudente 
esperar 
at 
vocs 
chegarem." 


"Acho 
que 
 
melhor 
a 
gente 
olhar", 
sugeriu 
ele. 


Com 
as 
mos 
enluvadas, 
puxei 
o 
envelope 
de 
seu 
bolso, 
tocando 
no 
papel 
o 
menos 
possvel. 
Surpreendi-me 
, 
ao 
ver 
meu 
nome 
e 
meu 
endereo 
residencial 
escrito 
no 
envelope 
a 
tinta 
preta 
de 
caneta-tinteiro. 
A 
carta 
tambm 
trazia 
um 
selo. 
Levei-a 
para 
o 
balco 
e 
abri-a 
com 
um 
bisturi. 
A 
folha 
de 
papel 
era 
agora 
assustadoramente 
familiar. 
A 
nota 
dizia: 


HO! 
HO! 
HO! 
CAIN 


"Quem 
 
CAIN?", 
perguntou 
um 
policial, 
enquanto 
eu 
desamarrava 
o 
cadaro 
e 
tirava 
o 
saco 
de 
lixo 
da 
cabea 
do 
morto. 


"Merda", 
disse 
o 
detetive, 
dando 
um 
passo 
para 
trs. 


"Meu 
Deus!", 
exclamou 
Marino. 


O 
xerife 
Papai 
Noel 
tinha 
levado 
um 
tiro 
entre 
os 
olhos, 
e 
havia 


#
uma 
cpsula 
de 
nove-milmetros 
metida 
no 
seu 
ouvido 
esquerdo. 
O 
buraco 
feito 
pela 
bala 
era 
sem 
dvida 
nenhuma 
o 
de 
uma 
Glock. 
Sentei 
numa 
cadeira 
e 
olhei 
em 
volta. 
Ningum 
sabia 
ao 
certo 
o 
que 
fazer. 
Isso 
nunca 
acontecera 
antes. 
As 
pessoas 
no 
costumam 
cometer 
homicdios 
e 
enviar 
os 
cadveres 
ao 
necrotrio. 


"O 
guarda 
do 
turno 
da 
noite 
est 
no 
andar 
de 
cima", 
disse 
a 
eles 
tentando 
recuperar 
o 
flego. 


"Ele 
estava 
aqui 
quando 
isto 
foi 
entregue?", 
Marino 
acendeu 
um 
cigarro, 
com 
os 
olhos 
chamejantes. 


"Parece 
que 
sim." 


"Vou 
falar 
com 
ele", 
disse 
Marino, 
que 
comandava 
a 
ao, 
porque 
estvamos 
no 
seu 
distrito. 
Ele 
olhou 
para 
seus 
policiais. 
"Vocs 
a, 
vasculhem 
tudo 
aqui 
e 
l 
embaixo 
no 
estacionamento. 
Vejam 
o 
que 
descobrem. 
Ponham 
um 
aviso 
no 
ar, 
sem 
deixar 
a 
mdia 
saber. 
Gault 
passou 
por 
aqui. 
Talvez 
ele 
ainda 
esteja 
nesta 
rea." 
Olhou 
para 
o 
relgio, 
e 
depois 
para 
mim. 
"Como 
 
o 
nome 
do 
sujeito 
que 
est 
no 
andar 
de 
cima?" 


"Evans." 


"Voc 
o 
conhece?" 


"Vagamente." 


"Vamos", 
falou-me. 


"Algum 
vai 
ficar 
aqui 
guardando 
esta 
sala?" 
Olhei 
para 
o 
detetive 
e 
para 
os 
dois 
homens 
uniformizados. 


"Eu 
fico", 
disse 
um 
deles. 
"Mas 
voc 
no 
vai 
querer 
deixar 
sua 
arma 
a 
em 
cima." 


Recoloquei 
o 
revlver 
na 
bolsa. 
Marino 
bateu 
o 
cigarro 
num 
cinzeiro 
e 
entramos 
no 
elevador 
do 
outro 
lado 
do 
vestbulo. 
Quando 
as 
portas 
se 
fecharam, 
seu 
rosto 
ficou 
vermelho. 
Ele 
perdeu 
sua 
compostura 
de 
capito. 


"No 
estou 
acreditando 
nisso!" 
Olhou-me 
com 
os 
olhos 
cheios 
de 
fria. 
"No 
pode 
acontecer 
uma 
coisa 
dessas, 
simplesmente 
no 
pode!" 


As 
portas 
se 
abriram 
e 
ele 
entrou 
raivosamente 
no 
saguo 
do 
andar 
onde 
eu 
passara 
boa 
parte 
de 
minha 
vida. 


#
"Ele 
deve 
estar 
na 
sala 
de 
reunies", 
disse-lhe. 


Passamos 
pela 
minha 
sala 
e 
mal 
demos 
uma 
olhadela. 
Eu 
no 
tinha 
tempo 
de 
verificar 
se 
Gault 
estivem 
l. 
Ele 
s 
precisava 
pegar 
o 
elevador 
ou 
subir 
as 
escadas 
para 
poder 
entrar 
nela. 
s 
trs 
da 
manh, 
quem 
o 
iria 
interpelar? 


Na 
sala 
de 
reunies, 
Evans 
estava 
sentado, 
todo 
empertigado, 
a 
meio 
caminho 
entre 
as 
cabeceiras 
da 
mesa. 
Por 
toda 
a 
sala, 
as 
muitas 
fotografias 
de 
ex-diretores 
olhavam 
para 
mim, 
enquanto 
eu 
me 
sentava 
defronte 
do 
guarda 
que 
acabara 
de 
deixar 
o 
meu 
local 
de 
trabalho 
se 
transformar 
numa 
cena 
de 
crime. 
Evans 
era 
um 
negro 
de 
idade, 
que 
precisava 
daquele 
emprego. 
Usava 
um 
uniforme 
caqui, 
com 
abas 
marrons 
sobre 
os 
bolsos, 
e 
portava 
uma 
arma 
que 
provavelmente 
nem 
sabia 
usar. 


"Voc 
sabe 
o 
que 
est 
acontecendo 
aqui 
?", 
Marino 
lhe 
perguntou, 
enquanto 
puxava 
uma 
cadeira. 


"No, 
senhor. 
Com 
certeza 
no." 
Em 
seus 
olhos 
havia 
uma 
expresso 
de 
pnico. 


"Algum 
fez 
uma 
entrega 
que 
no 
poderia 
ter 
feito." 
Marino 
tirou 
os 
cigarros 
novamente. 
"Isso 
aconteceu 
no 
seu 
turno." 


Evans 
franziu 
o 
cenho. 
Parecia 
francamente 
no 
tenho 
a 
menor 
idia 
de 
nada. 
"Voc 
quer 
dizer... 
um 
corpo?" 


"Oua." 
Entrei 
na 
conversa. 
"Eu 
sei 
qual 
 
o 
procedimento. 
Todo 
mundo 
sabe. 
Voc 
sabe 
sobre 
esse 
caso 
de 
suicdio. 
Ns 
acabamos 
de 
falar 
sobre 
isso 
no 
telefone..." 


Evans 
interrompeu: 
"Como 
disse, 
eu 
o 
deixei 
entrar". 


"A 
que 
horas?", 
perguntou 
Marino. 


Ele 
olhou 
para 
o 
teto. 
"Acho 
que 
devia 
ser 
umas 
trs 
da 
manh. 
Eu 
estava 
na 
mesa 
perto 
da 
porta, 
onde 
sempre 
fico 
sentado, 
quando 
o 
rabeco 
estacionou." 


"Estacionou 
onde?", 
quis 
saber 
Marino. 


"Atrs 
do 
edifcio." 


"Se 
foi 
atrs 
do 
edifcio, 
como 
voc 
o 
viu? 
O 
lugar 
onde 
voc 
fica 
 
na 
parte 
da 
frente 
do 
edifcio", 
disse 
Marino, 
secamente. 


#
"Eu 
no 
o 
vi", 
continuou 
o 
guarda. 
"Mas 
o 
sujeito 
se 
aproximou 
e 


o 
vi 
pelo 
vidro. 
Sa 
e 
perguntei 
o 
que 
queria 
e 
ele 
disse 
que 
vinha 
fazer 
uma 
entrega." 


"E 
quanto 
aos 
documentos? 
Ele 
no 
apresentou 
nenhum?" 


"Disse 
que 
a 
polcia 
no 
tinha 
terminado 
o 
relatrio 
e 
o 
mandou 
para 
c. 
Explicou 
que 
eles 
iam 
envi-lo 
depois." 


"Entendo", 
afirmei. 


"Ele 
disse 
que 
o 
rabeco 
estava 
estacionado 
atrs", 
continuou 
Evans. 
"Falou 
que 
a 
roda 
da 
sua 
maa 
quebrara 
e 
perguntou 
se 
podia 
usar 
uma 
das 
nossas." 


"Voc 
o 
conhecia?", 
perguntei, 
tentando 
controlar 
a 
minha 
raiva. 


Ele 
balanou 
a 
cabea 
negativamente. 


"Voc 
pode 
descrev-lo?", 
indaguei 
ento. 


Evans 
pensou 
por 
um 
minuto. 
"Para 
falar 
a 
verdade, 
no 
o 
vi 
muito 
de 
perto. 
Mas 
parece 
que 
tinha 
a 
pele 
clara 
e 
o 
cabelo 
branco." 


"O 
cabelo 
dele 
era 
branco?" 


"Sim, 
senhora. 
Tenho 
certeza." 


"Ele 
era 
velho?" 


Evans 
franziu 
o 
cenho 
novamente. 
"No, 
senhora." 


"Como 
estava 
vestido?" 


"Parece 
que 
estava 
de 
terno 
prelo 
e 
gravata. 
Sabe, 
do 
jeito 
que 
esse 
pessoal 
de 
agncia 
funerria 
costuma 
se 
vestir." 


"Gordo, 
magro, 
alto, 
baixo?" 


"Magro. 
Altura 
mediana." 


"O 
que 
aconteceu 
ento?", 
perguntou 
Marino. 


"A 
eu 
disse 
a 
ele 
para 
estacionar 
no 
ptio 
e 
deixei-o 
entrar. 
Passei 
por 
dentro 
do 
edifcio, 
como 
sempre 
fao, 
e 
abri 
a 
porta 
que 
d 
para 
o 
estacionamento. 
O 
sujeito 
entrou 
e 
havia 
uma 
maa 
no 
saguo. 
Ento 
ele 
a 
levou, 
pegou 
o 
corpo 
e 
voltou. 
Assinou 
e 
tudo 
o 
mais." 
Os 
olhos 
de 
Evans 
vagavam. 
"E 
ele 
colocou 
o 
corpo 
no 
refrigerador 
e 
foi 
embora." 
Ele 
no 
olhava 
para 
ns. 


Eu 
respirei 
fundo, 
bem 
devagar, 
e 
Marino 
soprou 
fumaa. 
"Senhor 
Evans", 
disse 
lhe, 
"eu 
quero 
a 
verdade." 


#
Ele 
olhou 
para 
mim. 


"Voc 
tem 
que 
nos 
dizer 
exatamente 
o 
que 
aconteceu 
quando 
o 
deixou 
entrar", 
continuei. 
" 
s 
isso 
que 
quero. 
Pode 
acreditar." 


Evans 
olhou 
para 
mim 
e 
seus 
olhos 
brilharam. 
"Doutora 
Scarpetta, 
eu 
no 
sei 
o 
que 
aconteceu, 
mas 
sei 
que 
foi 
uma 
coisa 
ruim. 
Por 
favor, 
no 
fique 
brava 
comigo. 
No 
gosto 
de 
ir 
l 
 
noite. 
Seria 
um 
mentiroso 
se 
dissesse 
que 
gosto. 
Eu 
tento 
trabalhar 
direito." 


"Basta 
dizer 
a 
verdade." 
Eu 
media 
minhas 
palavras. 
" 
s 
o 
que 
eu 
quero." 


"Eu 
cuido 
de 
minha 
me." 
Ele 
estava 
a 
ponto 
de 
chorar. 
"Ela 
s 
tem 
a 
mim, 
e 
est 
com 
um 
terrvel 
problema 
de 
corao. 
Vou 
l 
todo 
dia 
e 
fao 
compras 
para 
ela, 
desde 
que 
minha 
mulher 
morreu. 
Tenho 
uma 
filha 
que 
cria 
trs 
crianas 
sozinha." 


"Senhor 
Evans, 
o 
senhor 
no 
vai 
perder 
o 
emprego", 
disse-lhe, 
ainda 
que 
ele 
merecesse. 


Ele 
me 
olhou 
rapidamente 
nos 
olhos. 
"Obrigado, 
senhora. 
Acredito 
no 
que 
est 
me 
dizendo. 
Mas 
o 
que 
me 
preocupa 
 
o 
que 
os 
outros 
iro 
dizer." 


"Senhor 
Evans." 
Esperei 
at 
que 
ele 
sustentasse 
meu 
olhar. 
"Sou 
a 
nica 
pessoa 
com 
quem 
o 
senhor 
tem 
que 
se 
preocupar." 


Evans 
enxugou 
uma 
lgrima. 
"Sinto 
muito 
pelo 
que 
aconteceu. 
Se 
causei 
mal 
a 
algum, 
no 
sei 
o 
que 
vou 
fazer." 


"Voc 
no 
causou 
nada", 
disse 
Marino. 
"Aquele 
filho 
da 
puta 
de 
cabelo 
branco 
sim." 


"Fale-nos 
dele", 
pedi 
a 
Evans. 
"O 
que 
ele 
fez 
exatamente 
quando 
voc 
o 
fez 
entrar?" 


"Ele 
empurrou 
o 
corpo 
para 
dentro, 
como 
eu 
falei, 
e 
deixou-o 
no 
saguo 
em 
frente 
ao 
refrigerador. 
Eu 
tive 
que 
abri-lo, 
sabe, 
e 
eu 
lhe 
disse 
que 
podia 
colocar 
o 
corpo 
dentro. 
Ele 
colocou. 
Ento, 
eu 
o 
levei 
para 
o 
escritrio 
do 
necrotrio 
e 
mostrei-lhe 
o 
formulrio 
que 
ele 
precisava 
preencher. 
Disse-lhe 
que 
ele 
devia 
registrar 
a 
quilometragem, 
para 
ser 
reembolsado. 
Mas 
ele 
no 
prestou 
a 
mnima 
ateno 
nisso." 


"Voc 
o 
acompanhou 
de 
volta?", 
perguntei. 


#
Evans 
suspirou. 
"No, 
senhora. 
No 
vou 
mentir 
para 
a 
senhora." 


"E 
o 
que 
voc 
fez?", 
indagou 
Marino. 


"Deixei-o 
l, 
preenchendo 
o 
formulrio. 
Fechei 
o 
refrigerador 
e 
no 
me 
preocupei 
em 
fechar 
o 
estacionamento 
depois 
que 
o 
rapaz 
saiu. 
Ele 
no 
entrou 
no 
ptio 
'porque 
h 
um 
furgo 
l', 
conforme 
ele 
me 
disse." 


Pensei 
um 
pouco. 
"Que 
furgo?", 
perguntei. 


"O 
azul." 


"No 
h 
nenhum 
furgo 
no 
ptio", 
afirmou 
Marino. 


A 
expresso 
do 
rosto 
de 
Evans 
se 
congelou. 
"Tenho 
certeza 
de 
que 
havia 
um 
s 
trs 
da 
manh. 
Eu 
o 
vi 
bem 
ali, 
quando 
abri 
a 
porta 
para 
que 
ele 
pudesse 
entrar 
com 
a 
maa." 


"Espere 
um 
pouco", 
disse-lhe. 
"O 
que 
 
que 
o 
homem 
de 
cabelo 
branco 
estava 
dirigindo?" 


"Um 
furgo." 


Eu 
seria 
capaz 
de 
apostar 
que 
ele 
no 
tinha 
certeza 
daquilo. 
"Voc 
o 
viu?", 
perguntei. 


Ele 
suspirou, 
cheio 
de 
frustrao." 
No, 
no 
vi. 
Ele 
disse 
que 
estava 
com 
um 
e 
eu 
imaginei 
que 
ele 
acabara 
de 
estacionar 
atrs 
do 
edifcio, 
prximo 
da 
entrada 
do 
ptio." 


"Quer 
dizer 
que 
quando 
voc 
apertou 
o 
boto 
para 
abrir 
o 
porto 
do 
ptio, 
no 
esperou 
para 
acompanhar 
a 
entrada 
do 
veculo." 


Ele 
baixou 
os 
olhos 
e 
ficou 
olhando 
o 
tampo 
da 
mesa. 


"Havia 
um 
furgo 
estacionado 
no 
ptio, 
quando 
voc 
saiu 
pela 
primeira 
vez 
para 
apertar 
o 
boto 
da 
parede? 
Antes 
de 
o 
corpo 
ter 
sido 
conduzido 
para 
dentro?", 
perguntei. 


Evans 
pensou 
por 
uni 
minuto, 
a 
expresso 
de 
seu 
rosto 
cada 
vez 
mais 
desesperada. 
"Diabo", 
disse 
ele, 
olhando 
pro 
cho. 
"No 
me 
lembro. 
No 
olhei. 
Eu 
s 
abri 
a 
porta 
no 
corredor 
de 
entrada, 
apertei 
o 
boto 
da 
parede 
e 
voltei 
para 
dentro. 
Eu 
no 
olhei." 
Ele 
fez 
uma 
pausa. 
"Pode 
ser 
que 
no 
tivesse 
nada 
l." 


"Ento 
o 
ptio 
poderia 
estar 
vazio 
naquela 
hora." 


"Sim, 
senhora. 
Acho 
que 
poderia." 


#
"E 
quando 
voc 
abriu 
a 
porta 
minutos 
depois, 
para 
que 
o 
corpo 
pudesse 
ser 
levado 
para 
dentro, 
voc 
no 
viu 
um 
furgo 
no 
ptio?" 


"Foi 
a 
que 
eu 
o 
vi", 
disse 
ele. 
"Eu 
pensei 
que 
ele 
pertencia 
ao 
seu 
departamento. 
Parecia 
um 
de 
seus 
furges. 
Sabe, 
azul-escuro 
com 
janelas 
s 
na 
frente." 


"Vamos 
voltar 
ao 
homem 
levando 
o 
corpo 
para 
dentro 
do 
refrigerador 
e 
voc 
fechando 
a 
porta", 
disse 
Marino. 
"E 
depois?" 


"Achei 
que 
ele 
iria 
sair 
depois 
de 
preencher 
os 
documentos", 
disse 
Evans. 
"Voltei 
para 
o 
outro 
lado 
do 
edifcio." 


"Antes 
de 
ele 
sair 
do 
necrotrio." 


Evans 
baixou 
a 
cabea, 
novamente. 
. 


"Voc 
tem 
alguma 
idia 
de 
quando 
ele 
saiu, 
afinal?", 
perguntou 
ento 
Marino. 


"No, 
senhor", 
respondeu 
o 
guarda, 
mansamente. 
"Acho 
que 
nem 
posso 
jurar 
que 
ele 
chegou 
a 
sair." 


Ficamos 
todos 
em 
silncio, 
como 
se 
Gault 
fosse 
entrar 
u 
naquele 
momento. 
Marino 
empurrou 
sua 
cadeira 
para 
trs 
e 
olhou 
para 
o 
vo 
da 
porta 
vazio. 


Foi 
Evans 
quem 
falou 
em 
seguida. 
"Se 
aquele 
era 
seu 
furgo, 
imagino 
que 
ele 
mesmo 
fechou 
o 
porto 
do 
ptio. 
Eu 
sei 
que 
s 
cinco 
ele 
estava 
fechado, 
porque 
andei 
em 
volta 
do 
edifcio." 


"Bem, 
no 
 
preciso 
ser 
um 
cientista 
do 
programa 
espacial 
para 
fazer 
isso", 
disse 
Marino, 
brutalmente. 
"Basta 
sair, 
entrar 
e 
apertar 
o 
desgraado 
do 
boto. 
A 
voc 
sai 
pela 
porta 
lateral." 


"Com 
certeza 
o 
furgo 
no 
est 
mais 
l", 
comentei. 
"Algum 
o 
levou 
para 
fora." 


"Os 
dois 
furges 
esto 
l 
fora?", 
perguntou 
Marino. 


"Estavam 
quando 
cheguei", 
respondi. 


Marino 
perguntou 
a 
Evans: 
"Se 
voc 
o 
visse 
numa 
fileira, 
seria 
capaz 
de 
identific-lo?" 


Ele 
levantou 
os 
olhos, 
apavorado. 
"O 
que 
 
que 
ele 
fez?" 


"Voc 
seria 
capaz 
de 
identific-lo?" 


"Acho 
que 
sim. 
Sim, 
senhor. 
Eu 
com 
certeza 
poderia 
tentar." 


#
Levantei-me 
e 
rapidamente 
passei 
pelo 
vestbulo. 
Na 
minha 
sala, 
parei 
no 
vo 
da 
porta 
e 
olhei 
em 
volta, 
da 
mesma 
forma 
como 
fizera 
ao 
entrar 
em 
casa. 
Tentei 
identificar 
a 
menor 
modificao 
naquele 
lugar 
 
um 
tapete 
deslocado, 
um 
objeto 
fora 
de 
lugar, 
uma 
lmpada 
acesa, 
quando 
deveria 
estar 
apagada. 


Minha 
mesa 
estava 
cheia 
de 
pilhas 
de 
documentos 
esperando 
que 
eu 
os 
examinasse, 
e 
a 
tela 
do 
computador 
me 
informava 
que 
eu 
tinha 
mensagens 
 
minha 
espera. 
A 
caixa 
de 
entrada 
estava 
cheia, 
a 
de 
sada, 
vazia, 
e 
meu 
microscpio 
embrulhado 
em 
plstico, 
porque 
da 
ltima 
vez 
que 
eu 
examinara 
slides, 
estava 
de 
viagem 
para 
Miami, 
para 
passar 
uma 
semana. 


Aquilo 
tudo 
parecia 
ter 
acontecido 
h 
muito 
tempo, 
e 
me 
perturbava 
o 
fato 
de 
que 
o 
xerife 
Papai 
Noel 
tenha 
sido 
preso 
na 
vspera 
de 
Natal, 
e 
desde 
ento 
o 
mundo 
mudara. 
Gault 
trucidara 
uma 
mulher 
que 
chamvamos 
de 
Jane. 
Assassinara 
um 
jovem 
policial. 
Matara 
o 
xerife 
Papai 
Noel 
e 
invadira 
meu 
necrotrio. 
Em 
quatro 
dias 
ele 
fizera 
tudo 
isso. 
Aproximei-me 
um 
pouco 
mais 
de 
minha 
mesa, 
esquadrinhando 
tudo, 
e 
quando 
cheguei 
perto 
do 
terminal 
de 
computador, 
quase 
podia 
farejar 
a 
sua 
presena, 
ou 
senti-la, 
como 
um 
campo 
eltrico. 


Nem 
precisei 
tocar 
no 
meu 
teclado 
para 
sentir 
o 
que 
ele 
fizera. 
Olhei 
o 
brilho 
silencioso 
que 
indicava 
a 
existncia 
de 
mensagens 
 
minha 
espera. 
Usei 
vrias 
teclas 
para 
chegar 
ao 
menu 
que 
as 
exibiria. 
Mas 
o 
menu 
no 
veio: 
em 
seu 
lugar 
apareceu 
um 
descanso 
de 
tela. 
Era 
um 
fundo 
preto 
com 
CAIN 
em 
letras 
vermelhas 
brilhantes, 
que 
escorriam 
como 
se 
estivessem 
sangrando. 
Voltei 
para 
o 
saguo. 


"Marino", 
chamei. 
"Por 
favor, 
venha 
aqui." 


Ele 
deixou 
Evans 
e 
me 
seguiu 
at 
a 
minha 
sala. 
Apontei 
para 
o 
computador. 
Marino 
olhou 
para 
ele, 
petrificado. 
Havia 
manchas 
de 
umidade 
em 
suas 
axilas, 
e 
eu 
chegava 
a 
sentir 
o 
cheiro 
de 
seu 
suor. 
O 
couro 
preto 
ressecado 
do 
cinturo 
estalava 
quando 
ele 
se 
movia. 
Marino 
ficava 
o 
tempo 
todo 
arrumando 
o 
cinturo 
de 
balas 
no 
p 
da 
barriga, 
como 
se 
aquilo 
que 
mais 
importava 
em 
sua 
vida 
estivesse 
ao 
alcance 
da 


#
mo. 


" 
difcil 
fazer 
uma 
coisa 
dessas?", 
perguntou 
ele, 
enxugando 
o 
rosto 
com 
um 
leno 
cheio 
de 
manchas. 


"No 
se 
voc 
j 
ternura 
programa 
pronto 
para 
carregar." 


"Onde 
diabos 
ele 
conseguiu 
o 
programa?" 


" 
isso 
que 
me 
preocupa", 
afirmei. 


Voltamos 
 
sala 
de 
reunies. 
Evans 
estava 
de 
p, 
olhando 
entorpecido 
as 
fotografias 
da 
parede. 


"Senhor 
Evans", 
disse-lhe, 
"o 
homem 
da 
casa 
funerria 
falou 
com 
o 
senhor?" 


Ele 
olhou 
em 
volta, 
surpreso. 
"No, 
senhora. 
No 
muito." 


"No 
muito?", 
perguntei, 
intrigada. 


"No, 
senhora." 


"Ento 
como 
conseguiu 
faz-lo 
entender 
o 
que 
queria?" 


"Ele 
falou 
o 
que 
tinha 
que 
falar." 
Fez 
uma 
pausa. 
"Era 
um 
tipo 
muito 
calmo. 
Falava 
numa 
voz 
calma." 
Evans 
esfregava 
o 
rosto. 
"Quanto 
mais 
penso 
nisso, 
mais 
acho 
estranho. 
Ele 
estava 
usando 
culos 
de 
cor. 
E 
para 
dizer 
a 
verdade...", 
parou. 
"Bem, 
eu 
tenho 
c 
as 
minhas 
impresses." 


"Que 
impresses?", 
indaguei. 


Evans 
falou, 
depois 
de 
uma 
pausa: 
"Acho 
que 
ele 
deve 
ser 
homossexual". 


"Marino." 
Virei-me. 
"Vamos 
dar 
uma 
volta." 


Acompanhamos 
Evans 
at 
fora 
do 
edifcio 
e 
esperamos 
ele 
dobrar 
a 
esquina, 
porque 
no 
queramos 
que 
visse 
o 
que 
faramos 
em 
seguida. 
Ambos 
os 
furges 
estavam 
estacionados 
no 
lugar 
de 
costume, 
no 
longe 
do 
meu 
Mercedes. 
Sem 
tocar 
na 
porta, 
nem 
nos 
vidros, 
olhei 
pela 
janela 
do 
motorista 
do 
furgo 
mais 
prximo 
cio 
ptio, 
e 
vi 
nitidamente 
que 
o 
plstico 
da 
coluna 
de 
direo 
fora 
arrancado, 
deixando 
os 
fios 
 
mostra. 


"Fizeram 
ligao 
direta", 
disse 
a 
Marino. 


Ele 
pegou 
seu 
rdio 
e 
aproximou-o 
da 
boca. 


"Unidade 
oitocentos." 


#
"Oitocentos", 
respondeu 
o 
controlador. 


"Dez-cinco 
711." 


O 
rdio 
chamou 
o 
detetive 
que 
se 
encontrava 
no 
edifcio, 
cujo 
nmero 
de 
unidade 
era 
711, 
e 
ento 
Marino 
falou: 
"Venha 
at 
aqui 
fora, 
na 
parte 
de 
trs 
do 
edifcio". 


"Dez-quatro." 


Em 
seguida 
Marino 
ligou 
para 
o 
reboque. 
O 
furgo 
devia 
ser 
examinado 
cuidadosamente, 
dentro 
e 
fora, 
para 
verificar 
impresses 
digitais. 
Quinze 
minutos 
mais 
tarde, 
o 
711 
ainda 
no 
tinha 
aparecido. 


"Ele 
 
burro 
como 
uma 
porta", 
queixou-se 
Marino, 
andando 
em 
volta 
do 
furgo 
com 
o 
rdio 
na 
mo. 
"Filho 
da 
puta 
preguioso. 
 
por 
isso 
que 
o 
chamam 
de 
detetive 
711 
5 
Porque 
ele 
 
muito 
rpido. 
Merda." 
Ele 
olhou 
o 
relgio, 
irritado. 
"O 
que 
 
que 
ele 
aprontou? 
Ser 
que 
se 
perdeu 
no 
banheiro?" 


Esperei 
na 
pista, 
sentindo 
um 
frio 
insuportvel, 
porque 
eu 
no 
tirara 
o 
uniforme 
e 
estava 
sem 
casaco. 
Dei 
a 
volta 
pelo 
furgo 
vrias 
vezes, 
morrendo 
de 
vontade 
de 
olhar 
o 
que 
tinha 
atrs 
dele. 
Passaram-
se 
mais 
cinco 
minutos 
e 
Marino 
pediu 
ao 
controlador 
que 
chamasse 
os 
outros 
policiais 
que 
estavam 
dentro 
do 
edifcio. 
Eles 
apareceram 
imediatamente. 


"Onde 
est 
Jakes?", 
rosnou 
Marino, 
no 
instante 
em 
que 
saram 
pela 
porta. 


"Ele 
disse 
que 
ia 
dar 
uma 
espiada 
por 
a", 
respondeu 
um 
dos 
policiais. 


"Chamei-o 
pelo 
rdio 
h 
vinte 
minutos 
e 
lhe 
disse 
para 
vir 
aqui. 
Achei 
que 
ele 
estivesse 
com 
um 
de 
vocs." 


"No, 
senhor. 
Pelo 
menos 
no 
na 
ltima 
meia 
hora." 


Marino 
tentou 
novamente 
comunicar-se 
com 
o 
711 
pelo 
rdio, 
mas 
no 
obteve 
resposta. 
O 
medo 
brilhou 
em 
seus 
olhos. 


"Talvez 
ele 
esteja 
em 
alguma 
parte 
do 
edifcio 
que 
seja 
fora 
de 


5 As 
lojas 
7-eleven 
(711) 
tm 
fama 
de 
prestarem 
um 
atendimento 
lento. 
Da 
a 
brincadeira 
com 
o 
detetive 
lento. 
(N. 
T.) 


#
alcance", 
comentou 
um 
policial, 
olhando 
para 
as 
janelas 
de 
cima. 
Seu 
colega 
estava 
com 
a 
mo 
perto 
da 
arma, 
olhando 
em 
volta. 


Marino 
pediu 
reforos 
pelo 
rdio. 
As 
pessoas 
comeavam 
a 
parar 
os 
carros 
no 
estacionamento 
e 
a 
entrar 
no 
edifcio. 
Muitos 
dos 
que 
trabalhavam 
na 
polcia 
tcnica, 
com 
seus 
sobretudos 
e 
pastas, 
enfrentavam 
o 
dia 
mido 
e 
frio 
e 
no 
prestavam 
ateno 
em 
ns. 
Afinal 
de 
contas, 
carros 
da 
polcia 
e 
policiais 
eram 
o 
que 
de 
mais 
comum 
havia 
por 
ali. 
Marino 
tentou 
comunicar-se 
com 
o 
detetive 
Jakes 
pelo 
rdio. 
Ele 
no 
respondeu. 


"Onde 
vocs 
o 
viram 
pela 
ltima 
vez?", 
perguntou 
ele 
aos 
policiais. 


"Ele 
entrou 
no 
elevador." 


"Onde?" 


"No 
segundo 
andar." 


Marino 
voltou-se 
para 
mim. 
"Ele 
no 
poderia 
subir, 
no 
?" 


"No", 
respondi. 
"O 
elevador 
exige 
uma 
chave 
de 
segurana 
para 
cada 
um 
dos 
andares 
acima 
do 
segundo." 


"Ser 
que 
ele 
desceu 
para 
o 
necrotrio 
novamente?", 
Marino 
estava 
ficando 
cada 
vez 
mais 
agitado. 


"Eu 
desci 
l 
alguns 
minutos 
mais 
tarde 
e 
no 
vi", 
disse 
um 
dos 
policiais. 


"O 
crematrio", 
sugeri. 
"Ele 
pode 
ter 
descido 
ate 
l." 


"Certo. 
Vocs 
revistam 
o 
necrotrio", 
ordenou 
Marino 
aos 
policiais. 
"E 
quero 
que 
vocs 
fiquem 
juntos. 
A 
doutora 
c 
eu 
vamos 
dar 
uma 
olhada 
no 
crematrio." 


No 
estacionamento, 
 
esquerda 
da 
plataforma 
de 
carga 
e 
descarga, 
havia 
um 
velho 
elevador 
que 
levava 
a 
um 
pavimento 
inferior, 
onde, 
havia 
muito 
tempo, 
os 
corpos 
doados 
 
cincia 
eram 
embalsamados 
e 
armazenados, 
sendo 
finalmente 
cremados, 
depois 
que 
os 
estudantes 
de 
medicina 
faziam 
uso 
deles 
para 
seus 
estudos. 
 
possvel 
que 
Jakes 
tenha 
descido 
l 
para 
investigar. 
Chamei 
o 
elevador, 
que 
comeou 
a 
subir 
devagar, 
fazendo 
muito 
barulho 
e 
resmungos. 
Puxei 
a 
alavanca 
e 
abri 
as 
portas 
pesadas, 
com 
a 
pintura 
toda 
rachada. 


#
Entramos. 


"Diabo, 
j 
no 
estou 
gostando 
nada 
disso", 
resmungou 
Marino, 
desabotoando 
o 
coldre 
enquanto 
descamos. 


Ele 
puxou 
sua 
pistola 
quando 
o 
elevador 
parou 
com 
estrondo 
e 
as 
portas 
se 
abriram 
diante 
da 
parte 
do 
edifcio 
de 
que 
eu 
menos 
gostava. 
O 
lugar 
era 
fechado, 
sem 
janelas 
e 
mal 
iluminado, 
embora 
reconhecesse 
sua 
importncia. 
Depois 
que 
transferi 
a 
Diviso 
de 
Anatomia 
para 
a 
EMV, 
comeamos 
a 
usar 
o 
forno 
para 
queimar 
lixo 
que 
oferecia 
risco 
de 
contaminao. 
Puxei 
meu 
revlver. 


"Fique 
atrs 
de 
mim", 
disse 
Marino, 
olhando 
em 
volta 
atentamente. 


A 
grande 
sala 
estava 
em 
silncio, 
salvo 
pelo 
barulho 
do 
forno, 
que 
ficava 
a 
meia 
distncia, 
por 
trs 
da 
porta 
fechada. 
Em 
silncio, 
perscrutamos 
maas 
abandonadas, 
guarnecidas 
com 
sacos 
de 
cadveres 
vazios, 
e 
tambores 
azuis 
vazios, 
mas 
que 
um 
dia 
j 
estiveram 
cheios, 
com 
a 
formalina 
usada 
para 
encher 
as 
cubas 
onde 
se 
armazenavam 
os 
corpos. 
Vi 
os 
olhos 
de 
Marino 
fixos 
nos 
trilhos 
do 
teto, 
nas 
pesadas 
correntes 
e 
ganchos 
que 
outrora 
iavam 
as 
pesadas 
tampas 
das 
cubas 
e 
os 
corpos 
sob 
elas. 


Tinha 
a 
respirao 
ofegante 
e 
suava 
abundantemente 
quando 
se 
aproximou 
da 
sala 
de 
embalsamamento 
e 
entrou. 
Fiquei 
ali 
por 
perto, 
enquanto 
ele 
vasculhava 
aquela 
ala 
abandonada. 
Ele 
olhou 
para 
mim 
e 
enxugou 
o 
suor 
na 
manga. 


"Deve 
estar 
fazendo 
uns 
noventa 
graus 
aqui", 
murmurou 
ele, 
tirando 
o 
rdio 
do 
cinto. 


Sobressaltada, 
virei-me 
para 
ele. 


"O 
que 
?", 
perguntou. 


"O 
forno 
no 
deveria 
estar 
ligado", 
disse-lhe, 
olhando 
para 
a 
porta 
do 
crematrio, 
que 
estava 
fechada. 


Comecei 
a 
andar 
em 
sua 
direo. 
"No 
havia 
nenhum 
lixo 
a 
ser 
cremado, 
e 
 
absolutamente 
contrrio 
s 
normas 
deixar 
o 
forno 
ligado 
sem 
algum 
para 
acompanhar 
a 
queima." 


Diante 
da 
porta, 
podamos 
ouvir 
o 
inferno 
do 
outro 
lado. 
Pus 
a 


#
mo 
na 
maaneta. 
Estava 
muito 
quente. 


Marino 
passou 
 
minha 
frente, 
girou 
a 
maaneta 
e 
abriu 
a 
porta 
com 
um 
pontap. 
Segurava 
a 
pistola 
com 
as 
duas 
mos, 
pronto 
para 
a 
luta, 
como 
se 
o 
forno 
fosse 
uma 
fera 
que 
deveria 
ser 
morta. 


"Jesus!", 
exclamou. 


As 
chamas 
lambiam 
a 
velha 
porta 
de 
ferro, 
e 
o 
cho 
estava 
cheio 
de 
partculas 
e 
pedaos 
de 
ossos 
calcinados. 
Havia 
uma 
maa 
ali 
perto. 
Peguei 
uma 
comprida 
haste 
de 
ferro 
com 
um 
gancho 
na 
ponta, 
e 
a 
enfiei 
na 
argola 
da 
porta 
do 
forno. 


"Afaste-se", 
disse 
a 
Marino. 


Fomos 
atingidos 
por 
uma 
enorme 
onda 
de 
calor, 
e 
o 
barulho 
parecia 
o 
de 
um 
vento 
raivoso. 
O 
inferno 
uivava 
por 
aquela 
boca 
quadrada, 
e 
l 
dentro 
um 
corpo 
ardia 
no 
tabuleiro 
h 
pouco 
tempo. 
As 
roupas 
tinham 
sido 
incineradas, 
com 
exceo 
das 
botas 
de 
couro 
de 
caubi. 
Elas 
soltavam 
fumaa 
nos 
ps 
do 
detetive 
Jakes, 
enquanto 
as 
chamas 
devoravam 
seus 
cabelos 
e 
consumiam 
sua 
pele, 
deixando 
os 
ossos 
 
mostra. 
Fechei 
a 
porta. 


Corri 
e 
achei 
umas 
toalhas 
na 
sala 
de 
embalsamamento, 
enquanto 
Marino 
estava 
nauseado, 
perto 
de 
uma 
pilha 
de 
tambores 
de 
metal. 
Embrulhei 
minhas 
mos, 
prendi 
a 
respirao, 
passei 
pelo 
forno 
e 
desliguei 
a 
chave 
do 
gs. 
A 
chamas 
se 
apagaram 
imediatamente, 
e 
eu 
sa 
correndo 
da 
sala 
Peguei 
o 
rdio 
de 
Marino, 
que 
tentava 
vomitar. 


"Mayday!",6 
gritei 
para 
o 
controlador. 
"Mayday!" 


6 Grito 
internacional 
d 
socorro, 
usado 
nas 
comunicaes 
de 
rdio. 
(N. 
T.) 


#
13 


Passei 
o 
resto 
da 
manh 
trabalhando 
em 
dois 
casos 
de 
homicdio 
inesperado, 
enquanto 
um 
esquadro 
da 
SWAT 
atropelava-se 
em 
meu 
edifcio. 
A 
polcia 
estava 
 
procura 
do 
furgo 
azul 
com 
ligao 
direta, 
que 
sumira 
enquanto 
todos 
procuravam 
o 
detetive 
Jakes. 


As 
radiografias 
revelaram 
que 
ele 
recebera 
um 
golpe 
fortssimo 
antes 
de 
morrer. 
As 
costelas 
e 
o 
esterno 
estavam 
fraturados, 
a 
aorta 
rompida, 
e 
o 
monxido 
de 
carbono 
remanescente 
mostrou 
que 
ele 
no, 
estava 
mais 
respirando 
quando 
ligaram 
o 
forno. 


Parecia 
que 
Gault 
tinha 
lhe 
aplicado 
um 
de 
seus 
golpes 
de 
carat, 
mas 
no 
sabamos 
onde. 
Nem 
podamos 
imaginar 
como 
algum 
poderia 
ter 
levantado 
o 
corpo 
para 
coloc-lo 
na 
maa. 
Jakes 
pesava 
uns 
oitenta 
e 
cinco 
quilos 
e 
media 
um 
metro 
e 
oitenta, 
e 
Temple 
Gault 
no 
era 
um 
homem 
alto. 


"No 
sei 
como 
ele 
pde 
ter 
feito 
isso", 
disse 
Marino. 


"Nem 
eu", 
concordei. 


" 
possvel 
que 
ele 
tenha 
obrigado 
Jakes 
a 
subir 
na 
maa 
sob 
a 
mira 
de 
uma 
arma." 
' 


"Se 
ele 
estivesse 
deitado, 
Gault 
no 
poderia 
t-lo 
golpeado 
daquela 
forma." 


"Talvez 
ele 
lhe 
tenha 
dado 
um 
golpe 
de 
baixo 
para 
cima." 


"Foi 
uma 
pancada 
muito 
forte." 


Marino 
fez 
uma 
pausa. 
"Bem, 
o 
mais 
provvel 
 
que 
ele 
no 
estivesse 
sozinho." 


"Receio 
que 
no." 


Era 
quase 
meio-dia 
quando 
nos 
dirigamos 
a 
casa 
de 
Lamont 
Brown, 
tambm 
conhecido 
como 
xerife 
Papai 
Noel, 
nas 
tranqilas 
cercanias 
de 
Hampton 
Hills. 
Ela 
ficava 
do 
outro 
lado 
da 
rua 
Cary, 
do 
Country 
Club 
de 
Virgnia, 
que 
com 
certeza 
no 
admitiria 
o 
sr. 
Brown 
como 
scio. 


"Imagino 
que 
os 
xerifes 
recebam 
um 
salrio 
muito 
mais 
alto 
que 


o 
meu", 
comentou 
Marino 
ironicamente, 
enquanto 
estacionava 
o 
carro 
#
da 
polcia. 


"Esta 
 
a 
primeira 
vez 
que 
voc 
v 
a 
casa 
dele?", 
perguntei. 


"J 
passei 
por 
aqui 
quando 
estive 
em 
patrulha 
um 
pouco 
mais 
adiante. 
Mas 
nunca 
entrei 
na 
casa." 


Hampton 
Hills 
era 
uma 
mistura 
de 
manses 
e 
casas 
mais 
simples, 
escondidas 
por 
entre 
o 
bosque. 
A 
casa 
de 
tijolo 
aparente 
do 
xerife 
Brown 
tinha 
dois 
andares, 
teto 
de 
ardsia, 
garagem 
e 
piscina. 
Seu 
Cadillac 
e 
seu 
Porsche 
911 
ainda 
estavam 
estacionados 
na 
entrada, 
assim 
como 
vrios 
carros 
da 
polcia. 
Olhei 
para 
o 
Porsche. 
Era 
verde-
escuro, 
velho, 
mas 
bem 
conservado. 


"Voc 
acha 
que 
 
possvel 
uma 
coisa 
dessas?", 
perguntei 
a 
Marino. 


" 
estranho", 
disse 
ele. 


"Lembra-se 
do 
adesivo?" 


"No. 
Droga!" 


"Pode 
ter 
sido 
ele", 
continuei, 
pensando 
no 
negro 
que 
colara 
seu 
carro 
atrs 
de 
ns 
na 
noite 
passada. 


"Que 
diabo, 
no 
sei." 
Marino 
saiu 
do 
carro. 


"Ser 
que 
ele 
reconheceu 
seu 
carro?" 


"Com 
certeza 
ele 
poderia 
reconhec-lo, 
se 
quisesse." 


"Se 
isso 
aconteceu, 
pode 
ser 
que 
ele 
estivesse 
querendo 
aporrinh-lo", 
disse-lhe 
enquanto 
andava 
por 
um 
caminho 
de 
tijolo. 
"Pode 
ter 
sido 
apenas 
isso." 


"No 
tenho 
idia." 


"Ou 
simplesmente 
pode 
ter 
sido 
o 
adesivo 
racista 
do 
seu 
pra-
choque. 
Mera 
coincidncia. 
O 
que 
mais 
sabe 
sobre 
ele?" 


"Divorciado, 
filhos 
j 
adultos." 


Um 
policial 
de 
Richmond, 
elegante 
e 
alinhado 
em 
sua 
roupa 
azul-escura, 
abriu 
a 
porta 
da 
frente 
e 
entramos 
num 
vestbulo 
com 
lambris 
de 
madeira 
de 
lei. 


"Neil 
Vander 
est 
aqui?", 
perguntei. 


"Ainda 
no. 
A 
UI 
est 
no 
andar 
de 
cima", 
respondeu 
o 
policial, 
referindo-se 
 
Unidade 
de 
Identificao 
do 
Departamento 
de 
Polcia, 
que 


#
se 
encarregava 
de 
coletar 
provas. 


"Preciso 
da 
luz 
espectrogrfica", 
expliquei. 


"Sim, 
senhora." 


"Precisamos 
de 
mais 
reforos 
que 
esse 
que 
mandaram. 
Quando 
a 
imprensa 
souber, 
vo 
se 
abrir 
as 
portas 
do 
inferno. 
Preciso 
de 
mais 
carros 
na 
frente 
e 
que 
se 
amplie 
a 
rea 
de 
isolamento. 
A 
faixa 
deve 
se 
deslocar 
at 
o 
comeo 
do 
acesso 
para 
carros. 
No 
quero 
ningum 
andando 
a 
p 
ou 
de 
carro 
pela 
entrada. 
E 
a 
faixa 
deve 
dar 
a 
volta 
no 
quintal. 
Toda 
a 
merda 
da 
propriedade 
deve 
ser 
considerada 
como 
cena 
do 
crime." 
Marino 
falou 
asperamente, 
pois 
trabalhava 
no 
departamento 
de 
homicdios 
por 
tempo 
demais 
para 
ter 
pacincia 
com 
o 
mtodo 
de 
trabalho 
dos 
outros. 


"Sim, 
senhor, 
capito." 
Ele 
agarrou 
o 
rdio. 


A 
polcia 
estivera 
trabalhando 
ali 
por 
vrias 
horas. 
No 
levou 
muito 
tempo 
para 
constatar 
que 
Lamont 
Brown 
fora 
morto 
na 
cama, 
na 
sute 
principal 
do 
andar 
de 
cima. 
Segui 
Marino 
por 
uma 
escada 
estreita, 
coberta 
com 
um 
carpete 
chins 
produzido 
em 
srie. 
Vozes 
nos 
guiavam 
por 
um 
corredor. 
Dois 
detetives 
estavam 
num 
quarto 
com 
lambris 
de 
pinho 
de 
riga, 
as 
cortinas 
da 
janela 
e 
as 
roupas 
de 
cama 
lembravam 
as 
de 
um 
bordel. 
O 
xerife 
gostava 
muito 
de 
castanho 
e 
dourado, 
passamanarias, 
veludos, 
e 
espelhos 
no 
teto. 


Marino 
no 
fez 
nenhum 
comentrio, 
apenas 
olhava 
em 
volta. 
A 
opinio 
que 
tinha 
daquele 
homem 
se 
formara 
antes 
daquele 
momento. 
Aproximei-me 
da 
cama 
king-sized. 


"Mexeram 
em 
alguma 
coisa 
aqui?", 
perguntei 
a 
um 
dos 
detetives, 
enquanto 
Marino 
e 
eu 
calvamos 
as 
luvas. 


"No, 
de 
forma 
alguma. 
Fotografamos 
tudo 
e 
olhamos 
sob 
os 
lenis. 
Mas 
o 
que 
vocs 
esto 
vendo 
est 
do 
mesmo 
jeito 
que 
encontramos." 


"As 
portas 
estavam 
fechadas 
quando 
vocs 
vieram?", 
indagou 
Marino. 


"Sim. 
Tivemos 
que 
quebrar 
os 
vidros 
de 
uma 
das 
portas 
de 
trs." 


"Quer 
dizer 
que 
no 
havia 
nenhum 
sinal 
de 
arromba-mento 
ou 


#
coisa 
assim." 


"Nada. 
Achamos 
restos 
de 
cocana 
num 
espelho 
da 
sala 
de 
estar. 
Mas 
aquilo 
poderia 
estar 
l 
h 
algum 
tempo." 


"Que 
mais 
vocs 
acharam?" 


"Um 
leno 
branco 
com 
um 
pouco 
de 
sangue", 
disse 
o 
detetive, 
que 
trajava 
um 
tweed 
e 
mascava 
chiclete. 
"Ele 
estava 
bem 
ali 
no 
cho, 
a 
mais 
ou 
menos 
um 
metro 
da 
cama. 
E 
parece 
que 
o 
cadaro 
usado 
para 
amarrar 
o 
saco 
de 
lixo 
no 
pescoo 
de 
Brown 
veio 
de 
um 
tnis 
que 
est 
ali 
no 
banheiro." 
Ele 
fez 
uma 
pausa. 
"Ouvi 
falar 
do 
que 
aconteceu 
a 
Jakes." 


"Uma 
coisa 
muito 
ruim." 
Marino 
estava 
aturdido. 


"Ele 
no 
estava 
vivo 
quando..." 


"No. 
Seu 
peito 
tinha 
sido 
esmagado." 


O 
detetive 
parou 
de 
mascar. 


"Voc 
recolheu 
alguma 
arma?", 
perguntei, 
enquanto 
examinava 
a 
cama. 


"No. 
Com 
certeza 
no 
se 
trata 
de 
um 
caso 
de 
suicdio." 


"", 
disse 
o 
outro 
detetive. 
" 
meio 
difcil 
se 
suicidar 
e 
depois 
carregar 
a 
si 
mesmo 
para 
o 
necrotrio." 


O 
travesseiro 
estava 
manchado 
de 
sangue 
marrom-avermelhado, 
que 
coagulara 
e 
se 
separara 
do 
srum 
nas 
bordas. 
O 
sangue 
gotejara 
pelo 
lado 
do 
colcho, 
mas 
no 
vi 
nada 
no 
cho. 
Lembrei 
do 
ferimento 
da 
bala 
na 
testa 
de 
Brown. 
Media 
uns 
seis 
milmetros, 
e 
tinha 
as 
bordas 
queimadas, 
laceradas 
e 
esfoladas. 
Encontrei 
fumaa 
e 
fuligem 
no 
ferimento, 
alm 
de 
plvora 
virgem 
e 
plvora 
queimada 
no 
tecido 
inferior, 
no 
osso 
e 
na 
dura-mter. 
O 
ferimento 
era 
de 
tiro 
 
queima-roupa, 
e 
o 
corpo 
no 
mostrava 
outros 
ferimentos 
indicassem 
um 
gesto 
de 
defesa 
ou 
luta. 


"Acho 
que 
ele 
estava 
deitado 
de 
costas 
na 
cama 
quando 
foi 
morto", 
disse 
a 
Marino. 
"Na 
verdade, 
 
como 
se 
Brown 
estivesse 
dormindo." 


Ele 
se 
aproximou 
mais 
da 
cama. 
"Bem, 
 
muito 
difcil 
pr 
uma 
arma 
entre 
os 
olhos 
de 
algum 
acordado 
sem 
que 
ele 
reaja." 


#
"No 
h 
nenhum 
indcio 
de 
que 
tenha 
reagido. 
O 
ferimento 
est 
perfeitamente 
centralizado. 
A 
pistola 
deve 
ter 
sido 
encostada 
com 
toda 
a 
tranqilidade 
na 
sua 
pele, 
e 
parece 
que 
ele 
no 
se 
mexeu." 


"Talvez 
ele 
estivesse 
desmaiado", 
disse 
Marino. 


"Seu 
sangue 
acusou 
dezesseis 
graus 
de 
teor 
alcolico. 
Ele 
pode 
ter 
desmaiado, 
mas 
no 
necessariamente. 
Temos 
que 
vasculhar 
o 
quarto 
com 
o 
Luma-Lite, 
para 
ver 
se 
encontramos 
sangue 
que 
no 
conseguimos 
localizar", 
afirmei. 


"Mas 
a 
impresso 
que 
se 
tem 
 
de 
que 
ele 
foi 
retirado 
diretamente 
da 
cama 
para 
o 
saco." 
Mostrei 
a 
Marino 
o 
sangue 
escorrido 
na 
lateral 
do 
colcho. 
"Se 
ele 
tivesse 
sido 
carregado 
para 
mais 
longe, 
haveria 
sangue 
em 
outras 
partes 
da 
casa." 


"Certo." 


Andamos 
pelo 
quarto, 
observando. 
Marino 
comeou 
a 
abrir 
gavetas 
que 
j 
tinham 
sido 
examinadas. 
O 
xerife 
Brown 
tinha 
uma 
queda 
por 
pornografia. 
Ele 
gostava 
especialmente 
de 
ver 
mulheres 
em 
situaes 
degradantes, 
em 
que 
houvesse 
sujeio 
e 
violncia. 
Examinando 
o 
saguo 
de 
entrada, 
encontramos 
duas 
prateleiras 
cheias 
de 
escopetas, 
rifles 
e 
muitas 
armas 
brancas. 


Um 
armrio 
baixo 
tinha 
sido 
deixado 
aberto, 
e 
no 
sabamos 
quantas 
armas 
ou 
caixas 
de 
munio 
foram 
retiradas. 
Restavam 
algumas 
nove-milmetros, 
dez-milmetros, 
e 
vrias 
Magnums 
44 
e 
357. 
O 
xerife 
Brown 
possua 
grande 
variedade 
de 
coldres, 
cartuchos 
extras, 
algemas 
e 
coletes 
de 
Kevlar. 


"Ele 
estava 
no 
auge", 
comentou 
Marino. 
"Com 
certeza 
tinha 
ligaes 
importantes 
no 
distrito 
de 
Colmbia, 
Nova 
York, 
e 
talvez 
Miami." 


"Talvez 
houvesse 
drogas 
nesses 
armrios", 
acrescentei. 
"Talvez 
Gault 
estivesse 
procurando 
outra 
coisa 
que 
no 
armas." 


"Estou 
pensando 
em 
eles, 
disse 
Marino, 
ao 
mesmo 
tempo 
em 
que 
ouvamos 
passos 
nas 
escadas. 
"A 
menos 
que 
voc 
ache 
que 
Gault 
carregou 
sozinho 
o 
corpo. 
Quanto 
o 
xerife 
Brown 
pesava?" 


"Quase 
cem 
quilos", 
respondi, 
enquanto 
Neils 
Vander 
se 


#
aproximava, 
segurando 
o 
Luma-Lite 
pelo 
cabo. 
Um 
auxiliar 
o 
acompanhava 
com 
cmaras 
e 
outros 
equipamentos. 


Vander 
usava 
um 
avental 
de 
laboratrio 
excessivamente 
grande 
e 
luvas 
brancas 
de 
algodo, 
que 
resultavam 
numa 
combinao 
ridcula 
com 
as 
calas 
de 
l 
e 
as 
botas 
de 
neve. 
Ele 
tinha 
um 
jeito 
esquisito 
de 
me 
olhar, 
como 
se 
no 
nos 
conhecssemos. 
Ele 
era 
o 
prprio 
cientista 
louco, 
careca 
como 
uma 
bola 
de 
bilhar, 
sempre 
com 
pressa 
e 
sempre 
certo. 
Eu 
gostava 
muitssimo 
dele. 


"Onde 
vocs 
querem 
que 
eu 
instale 
essa 
coisa?", 
perguntou 
ele, 
sem 
se 
dirigir 
a 
ningum 
em 
particular. 


"No 
quarto", 
respondi. 
"Depois 
no 
escritrio." 


Voltamos 
para 
o 
quarto 
do 
xerife 
para 
ver 
Vander 
fazer 
funcionar 
sua 
varinha 
de 
condo. 
Luzes 
apagadas, 
culos 
especiais, 
e 
o 
sangue 
latejando 
surdamente; 
nada 
mais 
aconteceu 
de 
importante 
at 
muitos 
minutos 
depois. 
O 
Luma-Lite 
estava 
ajustado 
para 
emitir 
o 
maior 
feixe 
de 
luz 
possvel, 
e 
parecia 
uma 
lanterna 
eltrica 
brilhando 
em 
guas 
profundas, 
enquanto 
fazia 
o 
seu 
trabalho 
pelo 
quarto. 
Uma 
mancha 
na 
parede, 
logo 
acima 
de 
uma 
cmoda, 
brilhou 
como 
uma 
pequena 
lua 
irregular. 
Vander 
se 
aproximou 
e 
olhou. 


"Algum 
a 
acenda 
as 
luzes, 
por 
favor", 
disse 
ele. 


As 
luzes 
se 
acenderam 
e 
tiramos 
nossos 
culos. 
Vander 
estava 
na 
ponta 
dos 
ps 
olhando 
para 
um 
buraco 
deixado 
por 
um 
n 
na 
madeira. 


"Que 
diabo 
 
isso?", 
perguntou 
Marino. 


"Isso 
 
muito 
interessante", 
disse 
Vander, 
que 
raramente 
se 
deixava 
perturbar 
por 
alguma 
coisa. 
"H 
alguma 
coisa 
do 
outro 
lado." 


"O 
outro 
lado 
de 
qu?" 
Marino 
foi 
para 
perto 
dele 
e 
olhou, 
franzindo 
o 
cenho. 
"No 
estou 
vendo 
nada." 


"Oh, 
sim. 
H 
alguma 
coisa", 
reafirmou 
Vander. 
"E 
algum 
tocou 
essa 
rea 
do 
lambril 
com 
algum 
tipo 
de 
resduo 
nas 
mos." 


"Drogas?", 
perguntei. 


"Com 
certeza 
podia 
ser 
alguma 
droga." 


Todos 
olhamos 
para 
o 
lambril, 
que 
parecia 
perfeitamente 
normal 


#
quando 
o 
Luma-Lite 
no 
apontava 
para 
ele. 
Mas 
quando 
puxei 
uma 
cadeira 
para 
mais 
perto, 
consegui 
ver 
aquilo 
de 
que 
Vander 
falava. 
O 
minsculo 
orifcio 
no 
centro 
do 
n 
da 
madeira 
era 
um 
crculo 
perfeito. 
Ele 
tinha 
sido 
perfurado. 
Do 
outro 
lado 
havia 
o 
escritrio 
do 
xerife, 
que 
ns 
acabramos 
de 
revistar. 


"Que 
coisa 
estranha", 
disse 
Marino, 
enquanto 
saamos 
do 
quarto. 


Vander, 
esquecido 
daquele 
pormenor, 
retomou 
o 
que 
estava 
fazendo. 
Marino 
e 
eu 
entramos 
no 
escritrio 
e 
fomos 
direto 
para 
a 
parede 
onde 
estaria 
o 
buraco. 
Ele 
estava 
coberto 
por 
um 
conjunto 
de 
aparelhos 
que 
j 
havamos 
revistado. 
Marino 
tornou 
a 
abrir 
as 
portas 
e 
afastou 
a 
televiso. 
Tirou 
os 
livros 
das 
prateleiras 
de 
cima 
e 
no 
viu 
nada. 


"Hum", 
fez 
ele, 
estudando 
o 
mvel. 
"Interessante 
que 
ele 
fica 
a 
uns 
quinze 
centmetros 
da 
parede." 


"Sim", 
concordei. 
"Vamos 
tir-lo 
do 
lugar." 


Ns 
o 
puxamos 
um 
pouco 
mais, 
e 
exatamente 
na 
direo 
do 
orifcio 
havia 
uma 
minscula 
cmara 
de 
vdeo 
em 
uma 
grande-angular. 
Ela 
estava 
instalada 
num 
pequeno 
ressalto, 
e 
dela 
descia 
um 
fio 
at 
a 
base 
do 
mvel, 
onde 
poderia 
ser 
acionada 
por 
um 
controle 
remoto 
que 
parecia 
pertencer 
ao 
aparelho 
de 
tev. 
Fizemos 
umas 
experincias 
e 
descobrimos 
que 
a 
cmara 
era 
completamente 
invisvel 
do 
quarto 
de 
Brown, 
a 
menos 
que 
se 
pusessem 
os 
olhos 
no 
orifcio 
e 
a 
cmara 
estivesse 
ligada, 
com 
uma 
luzinha 
vermelha 
brilhando. 


"Talvez 
ele 
estivesse 
cheirando 
umas 
carreirinhas 
de 
cocana 
e 
tenha 
decidido 
fazer 
sexo 
com 
algum", 
sups 
Marino. 
"E 
a 
certa 
altura, 
ele 
se 
levantou 
e 
foi 
olhar 
para 
o 
buraco 
para 
ver 
se 
a 
cmara 
estava 
funcionando." 


"Pode 
ser 
", 
disse-lhe. 
"Quando 
vamos 
ver 
a 
fita'" 


"No 
quero 
fazer 
isso 
aqui." 


"Entendo 
seus 
motivos. 
De 
qualquer 
maneira, 
a 
cmara 
 
to 
pequena 
que 
a 
gente 
no 
veria 
muita 
coisa." 


"Vou 
levar 
isso 
para 
a 
Diviso 
de 
Inteligncia 
quando 
acabarmos 


#
aqui." 


Restava-nos 
muito 
pouco 
a 
fazer 
na 
cena 
do 
crime. 
Como 
suspeitava, 
Vander 
encontrou 
resduos 
muito 
significativos 
no 
armrio 
das 
armas, 
mas 
no 
havia 
sangue 
em 
nenhuma 
outra 
parte 
da 
casa. 
Os 
vizinhos 
de 
ambos 
os 
lados 
ficavam 
afastados, 
as 
casas 
escondidas 
por 
entre 
as 
rvores, 
e 
no 
ouviram 
nem 
viram 
nenhum 
movimento 
na 
noite 
anterior 
nem 
na 
manh 
daquele 
dia. 


"Se 
voc 
me 
deixar 
junto 
do 
meu 
carro...", 
disse 
a 
Marino 
quando 
estvamos 
indo 
embora. 


Ele 
me 
olhou, 
desconfiado. 
"Para 
onde 
voc 
vai?" 


"Petersburg." 


"Que 
diabo 
vai 
fazer 
l?" 


"Tenho 
que 
falar 
com 
um 
amigo 
sobre 
botas." 


Havia 
vrios 
caminhes 
e 
construes 
num 
trecho 
da 
1-95 
Sul 
que 
sempre 
achei 
desolado. 
Mesmo 
a 
fbrica 
da 
Philip 
Morris, 
com 
seus 
enormes 
maos 
de 
cigarro 
da 
altura 
de 
edifcios, 
era 
estressante, 
porque 
a 
fragrncia 
de 
fumo 
fresco 
me 
incomodava. 
Eu 
sentia 
uma 
terrvel 
vontade 
de 
fumar, 
principalmente 
dirigindo 
sozinha 
num 
dia 
como 
aquele. 
Minha 
mente 
estava 
a 
mil, 
os 
olhos 
pregados 
no 
espelho, 
 
procura 
do 
furgo 
azul-escuro. 


O 
vento 
fustigava 
rvores 
e 
pntanos, 
e 
flocos 
de 
neve 
flutuavam. 
Aproximando-me 
do 
Forte 
Lee, 
comecei 
a 
avistar 
quartis 
e 
armazns 
onde 
balastres 
foram 
construdos 
sobre 
corpos 
mortos, 
no 
momento 
mais 
cruel 
da 
histria 
da 
nao. 
Essa 
guerra 
parecia 
bem 
prxima, 
quando 
pensei 
nos 
charcos 
e 
bosques 
da 
Virgnia 
e 
nos 
mortos 
desaparecidos. 
No 
se 
passava 
um 
ano 
sem 
que 
eu 
examinasse 
velhos 
distintivos 
e 
ossos, 
e 
balas 
mini 
que 
me 
chegavam 
ao 
laboratrio. 
Tocara 
tambm 
os 
tecidos 
e 
as 
faces 
da 
violncia 
de 
outros 
tempos, 
e 
percebia 
que 
era 
diferente 
da 
violncia 
com 
a 
qual 
estava 
lidando. 
O 
mal, 
achava 
eu, 
chegara 
a 
extremos 
insuspeitados. 
Logo 
depois 
do 
Kenner 
Army 
Hospital, 
em 
Forte 
Lee, 
localizava-se 
o 
museu 
do 
Quartel-
Mestre 
Americano. 
Passei 
lentamente 
por 
escritrios 
e 
salas 
de 
aula 


#
instalados 
em 
fileiras 
de 
trailers, 
e 
por 
bandos 
de 
rapazes 
e 
moas 
em 
trajes 
esportivos. 
O 
edifcio 
que 
eu 
procurava 
era 
de 
tijolo, 
com 
colunas 
e 
teto 
azul, 
e 
tinha 
como 
braso 
uma 
guia, 
espadas 
cruzadas 
e 
chave, 
logo 
 
esquerda 
da 
porta. 
Estacionei 
e 
entrei, 
procurando 
John 
Gruber. 


O 
museu 
era 
o 
sto 
da 
Corporao 
do 
Quartel-Mestre, 
que 
desde 
a 
Revoluo 
Americana 
servira 
como 
hospedeiro 
do 
exrcito. 
As 
tropas 
eram 
vestidas, 
alimentadas 
e 
abrigadas 
pela 
CQM, 
que 
tambm 
fornecia 
esporas 
e 
selas 
aos 
soldados 
de 
Bfalo, 
e 
alto-falantes 
para 
o 
jipe 
do 
general 
Patton. 
O 
museu 
me 
era 
familiar, 
porque 
o 
Corpo 
tambm 
era 
responsvel 
por 
recolher 
e 
identificar 
os 
mortos 
do 
exrcito. 
Forte 
Lee 
tinha 
a 
nica 
diviso 
de 
registro 
de 
tmulos 
do 
pas, 
e 
seus 
funcionrios 
passavam 
regularmente 
pelo 
meu 
escritrio. 


Passei 
por 
mostrurios 
de 
uniformes 
de 
campanha, 
jogos 
de 
marmitas 
e 
uma 
cena 
da 
Segunda 
Guerra, 
com 
sacos 
de 
areia 
e 
granadas. 
Parei 
numa 
mostra 
de 
uniformes 
da 
Guerra 
Civil 
que 
eu 
sabia 
serem 
autnticos, 
e 
me 
perguntei 
se 
os 
rasges 
do 
tecido 
eram 
devidos 
 
metralha 
ou 
 
ao 
do 
tempo. 
Ficava 
imaginando 
os 
homens 
que 
os 
usaram. 


"Doutora 
Scarpetta?" 


Voltei-me. 


"Doutor 
Gruber", 
disse, 
calorosamente. 
"Eu 
estava 
justamente 
procurando 
o 
senhor. 
Fale-me 
sobre 
a 
flauta." 
Apontei 
um 
mostrurio 
cheio 
de 
instrumentos 
musicais. 


" 
uma 
flauta 
de 
ponta 
da 
Guerra 
Civil", 
explicou-me. 
"A 
msica 
era 
muito 
importante. 
Eles 
a 
usavam 
para 
indicar 
as 
horas 
do 
dia." 


O 
dr. 
Gruber 
era 
o 
curador 
do 
museu. 
Idoso, 
tinha 
o 
cabelo 
grisalho 
spero 
e 
um 
rosto 
talhado 
em 
granito. 
Gostava 
de 
calas 
largas 
e 
gravatas-borboleta. 
Ele 
mirava 
em 
contato 
comigo 
sempre 
que 
havia 
uma 
exposio 
relacionada 
aos 
mortos 
da 
guerra, 
e 
eu 
o 
procurava 
sempre 
que 
objetos 
militares 
incomuns 
acompanhavam 
algum 
cadver. 
Ele 
era 
capaz 
de 
identificar 
praticamente 
qualquer 
fivela, 
boto 
ou 
baioneta 
com 
um 
s 
olhar. 


"Ser 
que 
voc 
tem 
alguma 
coisa 
para 
me 
mostrar?", 
perguntou, 


#
indicando 
minha 
pasta. 


"As 
fotografias 
de 
que 
lhe 
falei 
pelo 
telefone." 


"Vamos 
ao 
meu 
escritrio. 
A 
menos 
que 
voc 
queira 
dar 
uma 
olhadinha 
por 
aqui." 
Ele 
sorriu 
como 
um 
av 
tmido 
falando 
sobre 
seus 
netos. 
"Temos 
uma 
exposio 
sobre 
Tempestade 
no 
Deserto. 
E 
o 
uniforme 
de 
campanha 
do 
general 
Eisenhower. 
Acho 
que 
ele 
no 
estava 
aqui 
da 
ltima 
vez 
que 
voc 
veio." 


"Doutor 
Gruber, 
 
melhor 
ver 
tudo 
isso 
de 
outra 
vez." 
Eu 
no 
queria 
alimentar 
nenhuma 
iluso. 
A 
expresso 
de 
meu 
rosto 
mostrou-
lhe 
como 
me 
sentia. 


Ele 
bateu 
no 
meu 
ombro 
e 
me 
fez 
passar 
por 
uma 
porta 
traseira 
que 
dava 
passagem 
para 
a 
rea 
de 
carga 
e 
descarga 
fora 
do 
museu, 
onde 
um 
velho 
trailer 
pintado 
de 
verde-oliva 
estava 
estacionado. 


"Pertenceu 
a 
Eisenhower", 
disse 
o 
dr. 
Gruber, 
enquanto 
continuvamos 
a 
andar. 
"s 
vezes 
ele 
passava 
uns 
tempos 
nele, 
e 
at 
que 
servia 
bem, 
a 
menos 
que 
Churchill 
estivesse 
de 
visita. 
Por 
causa 
dos 
charutos. 
Voc 
pode 
fazer 
uma 
idia." 


Cruzamos 
uma 
rua 
estreita, 
e 
a 
neve 
comeou 
a 
cair 
mais 
forte. 
Meus 
olhos 
comearam 
a 
lacrimejar, 
quando 
lembrei 
da 
flauta 
de 
ponta 
no 
mostrurio 
e 
pensei 
na 
Jane. 
Eu 
me 
perguntava 
se 
Gault 
alguma 
vez 
tinha 
vindo 
aqui. 
Ele 
parecia 
gostar 
de 
museus, 
principalmente 
aqueles 
que 
exibiam 
objetos 
relacionados 
 
violncia. 
Seguimos 
pela 
calada 
at 
um 
pequeno 
edifcio 
bege 
que 
eu 
j 
conhecia. 
Durante 
a 
Segunda 
Guerra, 
funcionara 
como 
posto 
de 
gasolina 
para 
o 
exrcito. 
Agora 
continha 
os 
arquivos 
do 
Quartel-Mestre. 


O 
dr. 
Gruber 
abriu 
a 
porta 
e 
entramos 
numa 
sala 
cheia 
de 
mesas, 
com 
a 
papelada 
necessria 
para 
catalogar 
aquisies 
e 
manequins 
trajando 
uniformes 
antigos. 
Na 
parte 
de 
trs 
havia 
uma 
grande 
rea 
de 
armazenagem, 
onde 
o 
aquecimento 
era 
mantido 
numa 
graduao 
mais 
baixa 
e 
os 
corredores 
estavam 
atulhados 
de 
grandes 
armrios 
de 
metal 
contendo 
roupas, 
pra-quedas, 
marmitas, 
culos 
comuns 
e 
de 
proteo. 
Aquilo 
que 
procurava 
estava 
nos 
armrios 
ao 
longo 
da 
parede. 


#
"Posso 
ver 
o 
que 
voc 
tem 
a?", 
perguntou 
o 
dr. 
Gruber, 
acendendo 
mais 
algumas 
luzes. 
"Desculpe 
pela 
temperatura. 
 
que 
temos 
que 
mant-la 
num 
nvel 
baixo." 


Abri 
minha 
pasta 
e 
tirei 
um 
envelope 
contendo 
vrias 
fotografias 
8 
x 
10, 
em 
preto 
e 
branco, 
das 
pegadas 
encontradas 
no 
Central 
Park. 
Eu 
me 
interessava 
principalmente 
por 
aquelas 
que 
supunha 
serem 
de 
Gault. 
Mostrei-as 
ao 
dr. 
Gruber, 
e 
ele 
aproximou-as 
de 
uma 
lmpada. 


"Imagino 
que 
sejam 
muito 
difceis 
de 
ver, 
pois 
foram 
deixadas 
na 
neve", 
comentei. 
"Seria 
bom 
se 
houvesse 
um 
pouco 
mais 
de 
sombra 
para 
dar 
contraste." 


"No, 
esto 
muito 
boas. 
Com 
certeza 
trata-se 
de 
um 
calado 
militar, 
e 
 
seu 
logotipo 
que 
me 
chama 
a 
ateno." 


Ele 
me 
mostrou 
uma 
rea 
circular 
no 
salto 
com 
uma 
espcie 
de 
rabicho 
num 
dos 
lados. 


"Alm 
disso, 
voc 
tem 
essa 
parte 
com 
losangos 
em 
relevo 
e 
dois 
orifcios, 
est 
vendo?", 
apontou-me. 
"Poderiam 
ser 
sapatos 
com 
buracos 
de 
aderncia, 
para 
subir 
em 
rvores." 
Ele 
me 
devolveu 
as 
fotografias. 
"Isso 
me 
parece 
muito 
familiar." 


Foi 
ao 
armrio 
e 
abriu 
as 
portas 
duplas. 
As 
prateleiras 
estavam 
cheias 
de 
fileiras 
de 
botas 
do 
exrcito. 
Pegou 
as 
botas 
uma 
a 
uma 
e 
virou-as 
para 
olhar 
o 
solado. 
Em 
seguida, 
foi 
ao 
segundo 
armrio, 
abriu 
as 
portas 
e 
recomeou. 
L 
do 
fundo 
ele 
tirou 
uma 
bota 
de 
lona 
verde, 
reforada 
com 
couro 
marrom 
e 
duas 
tiras, 
tambm 
de 
couro 
marrom, 
encimadas 
por 
uma 
fivela. 
Ele 
a 
virou. 


"Posso 
ver 
as 
fotografias 
novamente, 
por 
favor?" 


Segurei 
as 
fotos 
do 
lado 
da 
bota. 
O 
solado 
era 
de 
borracha 
preta 
com 
padres 
variados. 
Havia 
buracos 
de 
prego, 
costuras, 
relevos 
ondulados 
e 
pedrinhas. 
Uma 
grande 
rea 
oval 
na 
altura 
do 
peito 
do 
p 
tinha 
losangos 
em 
relevo 
com 
os 
buracos 
de 
aderncia 
que 
apareciam 
bem 
nitidamente 
nas 
fotografias. 
No 
calcanhar, 
havia 
um 
tranado 
com 
uma 
faixa 
que 
parecia 
corresponder 
ao 
rabicho 
vagamente 
percebido 
nas 
pegadas 
da 
neve 
e 
no 
lado 
da 
cabea 
de 
Davila, 
onde, 
segundo 
supunha, 
Gault 
o 
atingira. 


#
"O 
que 
voc 
pode 
me 
dizer 
dessas 
bota?", 
perguntei. 


Ele 
a 
virava 
de 
um 
lado 
para 
outro, 
olhando. 
" 
da 
Segunda 
Guerra, 
e 
foi 
testada 
aqui, 
em 
Forte 
Lee. 
Desenvolveram-se 
muitos 
padres 
de 
solado, 
que 
foram 
testados 
aqui." 


"A 
Segunda 
Guerra 
foi 
h 
muito 
tempo", 
disse-lhe. 
"Como 
algum 
poderia 
possuir 
uma 
bota 
dessas 
hoje 
em 
dia? 
 
possvel 
isso?" 


"Sim, 
com 
certeza. 
Essas 
coisas 
duram 
bastante. 
Voc 
pode 
encontrar 
um 
par 
dessas 
botas 
num 
armazm 
de 
sobras 
do 
exrcito. 
Ou 
entre 
os 
pertences 
de 
alguma 
famlia." 


Recolocou 
ento 
a 
bota 
no 
armrio 
atulhado, 
onde 
eu 
imaginava 
que 
fosse 
ficar 
esquecida 
por 
mais 
um 
bom 
tempo. 
Quando 
samos 
do 
edifcio, 
depois 
de 
o 
dr. 
Gruber 
ter 
fechado 
as 
portas 
atrs 
de 
ns, 
fiquei 
de 
p, 
numa 
calada 
macia 
por 
causa 
da 
neve. 
Olhei 
para 
o 
cu 
cinzento 
e 
para 
o 
trfego 
lento 
das 
ruas. 
As 
pessoas 
tinham 
acendido 
os 
faris 
de 
seus 
carros, 
e 
o 
dia 
estava 
calmo. 
Eu 
j 
sabia 
que 
tipo 
de 
botas 
Gault 
estava 
usando, 
mas 
no 
tinha 
certeza 
se 
isso 
ajudava 
em 
alguma 
coisa. 


"Quer 
um 
caf, 
minha 
querida?", 
perguntou 
o 
dr. 
Gruber, 
escorregando 
um 
pouco. 
Segurei 
seu 
brao. 
"Oh, 
Deus, 
o 
tempo 
vai 
piorar 
novamente", 
comentou. 
"Esto 
prevendo 
por 
volta 
de 
doze 
centmetros 
de 
neve. 


"Tenho 
que 
voltar 
ao 
necrotrio", 
disse-lhe, 
tomando-o 
pelo 
brao. 
"No 
sei 
como 
lhe 
agradecer." 


Ele 
deu 
tapinhas 
na 
minha 
mo. 


"Vou 
descrever 
um 
homem 
para 
o 
senhor 
e 
quero 
que 
me 
diga 
se 
j 
o 
viu 
aqui 
alguma 
vez." 


O 
dr. 
Gruber 
ficou 
ouvindo 
enquanto 
eu 
descrevia 
Gault 
e 
suas 
vrias 
cores 
de 
cabelo 
tingido. 
Falei 
do 
rosto 
anguloso 
e 
dos 
olhos 
azul-
claros 
de 
um 
co 
malamute. 
Mencionei 
tambm 
o 
modo 
extravagante 
de 
se 
trajar 
e 
o 
gosto 
cada 
vez 
mais 
evidente 
por 
uniformes 
militares 
e 
estilos 
semelhantes 
a 
eles, 
tais 
como 
botas 
e 
o 
comprido 
casaco 
de 
couro 
preto, 
com 
o 
qual 
foi 
visto 
em 
Nova 
York. 


"Sim, 
recebemos 
a 
visita 
de 
tipos 
como 
esse, 
sabe", 
disse 
ele, 


#
chegando 
a 
porta 
de 
trs 
do 
museu. 
"Mas 
no 
estou 
me 
lembrando 
de 
nada." 


A 
neve 
congelava 
o 
teto 
da 
casa 
volante 
de 
Eisenhower. 
Meus 
cabelos 
e 
minhas 
mos 
estavam 
ficando 
midos 
e 
meus 
ps, 
frios. 
"Seria 
muito 
difcil 
pesquisar 
um 
nome 
para 
mim?", 
perguntei. 
"Eu 
gostaria 
de 
saber 
se 
Peyton 
Gault 
esteve 
na 
Corporao 
do 
Quartel-
Mestre." 


Ele 
hesitou. 
"Pelo 
que 
vejo, 
voc 
deve 
estar 
supondo 
que 
este 
homem 
esteve 
no 
exrcito." 


"No 
estou 
supondo 
nada", 
falei. 
"Mas 
acho 
que 
ele 
era 
velho 
o 
bastante 
para 
ter 
servido 
na 
Segunda 
Guerra. 
A 
nica 
coisa 
que 
posso 
dizer 
ao 
senhor, 
alm 
disso, 
 
que 
em 
certa 
poca 
ele 
viveu 
em 
Albany, 
Gergia, 
numa 
fazenda 
de 
nogueiras." 


"Voc 
s 
pode 
ter 
acesso 
s 
fichas 
se 
for 
parente 
ou 
se 
tiver 
autorizao 
especial 
do 
procurador 
da 
Repblica. 
Teria 
que 
ir 
a 
St. 
Louis, 
e 
lamento 
dizer 
que 
as 
fichas 
de 
A 
a 
J 
foram 
destrudas 
por 
um 
incndio 
no 
comeo 
dos 
anos 
80." 


"Que 
timo", 
disse, 
desanimada. 


Hesitou 
novamente. 
"Temos 
nossa 
prpria 
lista 
computadorizada 
de 
veteranos 
aqui 
no 
museu." 


Senti 
uma 
ponta 
de 
esperana. 


"O 
veterano 
que 
quiser 
puxar 
sua 
ficha 
pode 
lazer 
isso 
pagando 
uma 
taxa 
de 
vinte 
dlares", 
completou. 


"E 
se 
voc 
quiser 
ter 
acesso 
 
ficha 
de 
outra 
pessoa?" 


"No 
posso 
fazer 
isso." 


"Doutor 
Gruber." 
Puxei 
meus 
cabelos 
midos 
para 
trs. 
"Por 
favor, 
trata-se 
de 
um 
homem, 
Temple 
Brooks 
Gault, 
que 
matou 
de 
forma 
perversa 
pelo 
menos 
nove 
pessoas. 
Ele 
vai 
matar 
muito 
mais, 
se 
no 
conseguirmos 
agarr-lo." 


Ele 
ficou 
olhando 
a 
neve 
cair. 
"Por 
que 
cargas-d'gua 
estamos 
conversando 
sobre 
isso 
aqui 
fora, 
minha 
querida?", 
disse 
ele. 
"Ns 
dois 
vamos 
pegar 
uma 
pneumonia. 
Imagino 
que 
Peyton 
Gault 
seja 
o 
pai 
dessa 
pessoa 
medonha." 


#
Beijei-o 
nas 
faces. 
"O 
senhor 
tem 
o 
nmero 
do 
meu 
pager", 
disse-lhe, 
afastando-me 
para 
pegar 
meu 
carro. 


Enquanto 
eu 
dirigia 
em 
meio 
a 
uma 
tempestade 
de 
neve, 
o 
rdio 
no 
parava 
de 
falar 
sobre 
os 
assassinatos 
do 
necrotrio. 
Ao 
chegar 
em 
meu 
escritrio, 
encontrei 
os 
furges 
das 
redes 
de 
tev 
e 
as 
equipes 
de 
reportagem 
ao 
redor 
do 
edifcio, 
e 
tentei 
imaginar 
o 
que 
eu 
podia 
fazer. 
Precisava 
entrar. 


"Ao 
diabo 
com 
eles", 
resmunguei, 
enquanto 
entrava 
no 
estacionamento. 


Quando 
sa 
do 
meu 
Mercedes 
preto, 
imediatamente 
um 
bando 
de 
reprteres 
lanou-se 
ao 
meu 
encalo. 
Flashes 
pipocavam 
enquanto 
eu 
caminhava 
decidida, 
sem 
olhar 
para 
os 
lados. 
Microfones 
apareciam 
de 
todos 
os 
lados 
e 
as 
pessoas 
gritavam 
meu 
nome. 
Mais 
que 
depressa, 
eu 
abri 
a 
porta 
de 
trs 
e 
fechei-a 
em 
seguida. 
Estava 
sozinha 
na 
ala 
vazia, 
e 
imaginei 
que 
todo 
mundo 
tinha 
ido 
embora 
por 
causa 
do 
tempo. 


Como 
eu 
suspeitava, 
a 
sala 
de 
autpsias 
estava 
trancada. 
Subi 
de 
elevador 
e, 
ao 
sair, 
notei 
as 
salas 
de 
meus 
auxiliares 
vazias. 
As 
recepcionistas 
e 
outros 
funcionrios 
tambm 
j 
tinham 
ido 
embora. 
Eu 
estava 
completamente 
s 
no 
segundo 
andar, 
e 
comecei 
a 
ficar 
assustada. 
Quando 
entrei 
na 
minha 
sala 
e 
vi 
o 
nome 
CAIN 
em 
letras 
vermelhas 
gotejantes, 
senti-me 
ainda 
pior. 


"No 
tem 
problema", 
disse 
para 
mim 
mesma. 
"No 
h 
ningum 
aqui 
agora. 
No 
h 
razo 
para 
sentir 
medo." 


Sentei 
na 
minha 
escrivaninha 
e 
deixei 
meu 
38 
ao 
alcance 
da 
mo. 


"O 
que 
aconteceu 
antes 
 
coisa 
do 
passado", 
continuei. 
"Voc 
tem 
que 
se 
conter. 
Est 
perdendo 
o 
controle." 
Respirei 
fundo 
mais 
uma 
vez. 


Eu 
no 
conseguia 
acreditar 
que 
estava 
falando 
sozinha, 
e 
isso 
me 
deixava 
muito 
incomodada. 
Comecei 
a 
ditar 
no 
gravador 
os 
casos 
daquela 
manh. 
O 
corao, 
o 
fgado 
e 
os 
pulmes 
dos 
dois 
policiais 
mortos 
estavam 
normais. 


"Dentro 
dos 
parmetros 
normais", 
continuei. 
"Dentro 
dos 


#
parmetros 
normais." 
Falei 
e 
repeti 
vrias 
vezes. 


O 
que 
tinha 
sido 
feito 
com 
eles 
 
que 
no 
era 
normal, 
porque 
Gault 
no 
era 
normal. 
Ele 
no 
tinha 
parmetros. 


s 
seis 
e 
quinze, 
liguei 
para 
o 
escritrio 
da 
American 
Express 
e 
tive 
a 
sorte 
de 
ainda 
achar 
Brent 
l. 


"Voc 
devia 
ter 
ido 
para 
casa 
mais 
cedo", 
disse-lhe. 
"As 
estradas 
esto 
ficando 
intransitveis." 


"Eu 
tenho 
um 
Range 
Rover." 


"As 
pessoas 
em 
Richmond 
no 
sabem 
dirigir 
na 
neve", 
comentei. 


"Doutora 
Scarpetta, 
em 
que 
posso 
ajud-la?", 
perguntou 
Brent, 
que 
era 
jovem 
e 
muito 
competente, 
e 
j 
me 
ajudara 
a 
resolver 
muitos 
problemas 
tempos 
atrs. 


"Quero 
que 
faa 
o 
acompanhamento 
das 
despesas 
do 
meu 
carto", 
respondi. 
"Voc 
pode 
fazer 
isso?" 


Ele 
hesitou. 


"Quero 
ser 
notificada 
de 
cada 
despesa. 
E 
isso 
logo 
que 
ela 
seja 
registrada, 
sem 
que 
eu 
precise 
ficar 
esperando 
a 
notificao." 


"H 
algum 
problema?" 


"Sim. 
Mas 
no 
posso 
discutir 
com 
voc. 
A 
nica 
coisa 
de 
que 
preciso 
 
o 
que 
lhe 
pedi." 


"Espere 
um 
pouco." 


Ouvi 
o 
barulho 
de 
teclas. 


"Est 
bem. 
Estou 
com 
o 
nmero 
do 
seu 
carto. 
A 
senhora 
sabe 
que 
ele 
 
vlido 
at 
fevereiro, 
no?" 


"Espero 
at 
l 
no 
precisar 
fazer 
isso." 


"H 
pouqussimas 
despesas 
a 
partir 
de 
outubro", 
disse 
ele. 
"Na 
verdade, 
quase 
nenhuma." 


"Estou 
interessada 
nas 
despesas 
mais 
recentes." 


"So 
cinco, 
do 
dia 
12 
ao 
dia 
21. 
Uma 
casa 
em 
Nova 
York 
chamada 
Scaletta. 
Quer 
saber 
os 
valores?" 


"Qual 
 
a 
mdia?" 


"Bom, 
a 
mdia 
, 
deixe-me 
ver, 
acho 
que 
uns 
oitenta 
paus 
por 
despesa. 
O 
que 
 
isso, 
um 
restaurante?" 


#
"Continue." 


"A 
mais 
recente..." 
Ele 
fez 
uma 
pausa. 
"A 
mais 
recente 
 
em 
Richmond." 


"Quando?", 
meu 
pulso 
disparou. 


"Duas 
na 
sexta-feira, 
dia 
22." 


Dois 
dias 
antes 
de 
Marino 
e 
eu 
distribuirmos 
cobertores 
aos 
pobres 
e 
de 
o 
xerife 
Papai 
Noel 
matar 
Anthony 
Jones 
a 
tiros. 
Fiquei 
chocada 
em 
pensar 
que 
Gault 
tambm 
estava 
na 
cidade. 


"Por 
favor, 
fale-me 
dessas 
despesas 
de 
Richmond", 
pedi 
a 
Brent. 


"Duzentos 
e 
quarenta 
e 
trs 
dlares 
numa 
galeria, 
na 
Shockhoe 
Slp." 


"Uma 
galeria?", 
perguntei, 
intrigada. 
"Voc 
quer 
dizer, 
uma 
galeria 
de 
arte?" 


A 
Shockhoe 
Slip 
era 
bem 
na 
esquina 
do 
meu 
escritrio. 
Eu 
no 
podia 
acreditar 
que 
Gault 
fosse 
to 
atrevido 
a 
ponto 
de 
usar 
o 
carto 
l. 
Muitos 
comerciantes 
me 
conheciam. 


"Sim, 
uma 
galeria 
de 
arte." 
Ele 
me 
deu 
o 
nome 
e 
o 
endereo. 


"Voc 
pode 
me 
informar 
o 
que 
foi 
comprado?" 


Houve 
uma 
pausa. 
"Doutora 
Scarpetta, 
a 
senhora 
tem 
certeza 
de 
que 
no 
est 
havendo 
nenhum 
problema 
em 
que 
a 
gente 
possa 
ajudar?" 


"Voc 
est 
me 
ajudando. 
Voc 
est 
me 
ajudando 
e 
muito." 


"Vamos 
ver. 
No, 
aqui 
no 
diz 
o 
que 
foi 
comprado. 
Sinto 
muito." 
Brent 
parecia 
estar 
mais 
desapontado 
que 
eu. 


"Alguma 
outra 
despesa?" 


"Na 
USAir. 
Uma 
passagem 
de 
avio 
por 
quinhentos 
e 
catorze 
dlares: 
ida 
e 
volta, 
La 
GuardiRichmond." 


"Voc 
pode 
me 
dizer 
as 
datas?" 


"S 
da 
compra. 
Voc 
pode 
conseguir 
as 
datas 
da 
ida 
e 
da 
volta 
na 
companhia 
area. 
Aqui 
est 
o 
nmero." 


Pedi-lhe 
que 
me 
comunicasse 
imediatamente, 
sempre 
que 
aparecesse 
o 
registro 
de 
novas 
despesas. 
Levantei 
os 
olhos 
para 
o 
relgio 
da 
parede 
e 
folheei 
rapidamente 
o 
catlogo 
telefnico. 
Quando 
disquei 
o 
nmero 
da 
galeria, 
o 
telefone 
tocou 
por 
muito 
tempo, 
e 


#
terminei 
desistindo. 


Tentei 
ento 
a 
USAir, 
e 
dei-lhes 
o 
nmero 
da 
passagem 
que 
Brent 
me 
dissera. 
Gault, 
usando 
meu 
American 
Express, 
sara 
de 
La 
Guardi 
s 
sete 
da 
manh 
de 
sexta-feira, 
22 
de 
dezembro, 
e 
voltara 
s 
seis 
e 
cinqenta 
do 
mesmo 
dia. 
Fiquei 
estupefata. 
Ele 
passou 
um 
dia 
inteiro 
em 
Richmond. 
O 
que 
teria 
feito 
durante 
esse 
tempo, 
alm 
da 
visita 
 
galeria? 


"Que 
loucura", 
resmunguei, 
pensando 
nas 
leis 
de 
Nova 
York. 


Perguntando 
a 
mim 
mesma 
se 
Gault 
viera 
aqui 
para 
comprar 
uma 
arma, 
tornei 
a 
ligar 
para 
a 
companhia 
area. 


"Desculpe-me. 
Estou 
falando 
com 
Rita?" 


"Sim." 


"Falei 
com 
voc 
agora 
mesmo. 
Aqui 
 
a 
doutora 
Scarpetta." 


"Sim, 
senhora. 
Em 
que 
posso 
ajudar?" 


" 
sobre 
a 
passagem 
de 
que 
falvamos. 
Voc 
pode 
me 
-, 
dizer 
se 
alguma 
bagagem 
foi 
despachada?" 


"Aguarde 
um 
pouco, 
por 
favor." 
Ouvi 
o 
barulho 
das 
teclas. 
"Sim, 
senhora. 
Na 
volta 
para 
La 
Guardi 
foi 
despachada 
uma 
mala." 


"Mas 
no 
no 
vo 
que 
saiu 
de 
La 
Guardi." 


"No. 
No 
foi 
despachada 
nenhuma 
mala 
no 
trecho 
La 
GuardiRichmond." 


Gault 
cumprira 
pena 
durante 
certo 
tempo 
muna 
penitenciria 
localizada 
em 
Richmond. 
No 
dava 
para 
saber 
quem 
ele 
conhecia 
aqui, 
mas 
eu 
tinha 
certeza 
de 
que 
se 
ele 
quisesse 
comprar 
uma 
Glock 
nove-
milmetros 
em 
Richmond, 
conseguiria. 
Criminosos 
de 
Nova 
York 
costumam 
vir 
aqui 
comprar 
armas. 
Gault 
deve 
ter 
colocado 
a 
Glock 
na 
mala 
que 
havia 
despachado 
e 
dois 
dias 
depois 
matou 
Jane 
a 
tiros. 


Isso 
indicava 
que 
tinha 
havido 
premeditao, 
coisa 
que 
ainda 
no 
havia 
sido 
considerada. 
Todos 
ns 
supnhamos 
que 
Jane 
era 
algum 
que 
Gault 
encontrara 
casualmente 
e 
decidira 
matar, 
como 
fizera 
com 
muitas 
de 
suas 
vtimas. 


Preparei 
uma 
caneca 
de 
ch 
quente 
e 
tentei 
me 
acalmar. 
Como 
em 
Seattle, 
pela 
diferena 
de 
fuso, 
ainda 
era 
de 
tarde, 
peguei 
meu 


#
Catlogo 
dos 
Legistas 
da 
Academia 
Nacional 
em 
uma 
prateleira 
e 
folheei 
at 
encontrar 
o 
nome 
e 
o 
nmero 
do 
chefe 
de 
l. 


"Doutor 
Menendez? 
Aqui 
 
Kay 
Scarpetta, 
de 
Richmond", 
falei 
quando 
ele 
atendeu 
ao 
telefone. 


"Oh", 
disse 
ele, 
surpreso. 
"Como 
est? 
Feliz 
Natal." 


"Obrigada. 
Sinto 
incomod-lo 
mas 
preciso 
de 
sua 
ajuda." 


Ele 
hesitou. 
"Est 
tudo 
bem? 
Voc 
me 
parece 
meio 
tensa." 


"Estou 
com 
um 
problema 
muito 
srio. 
Um 
serial 
killer 
 
solta." 
Respirei 
fundo. 
"Uma 
das 
vtimas 
 
uma 
mulher 
no 
identificada 
que 
apresentava 
diversas 
restauraes 
de 
ouro." 


"Isso 
 
curioso", 
disse 
ele, 
pensativamente. 
"Voc 
sabe 
que 
aqui 
ainda 
h 
alguns 
dentistas 
que 
fazem 
esse 
tipo 
de 
restaurao, 
no?" 


" 
por 
isso 
que 
estou 
ligando. 
Preciso 
falar 
com 
algum 
deles. 
Talvez 
o 
diretor 
da 
associao." 


"Voc 
quer 
que 
eu 
faa 
alguns 
contatos?" 
"O 
que 
eu 
queria 
descobrir 
era 
se, 
por 
um 
acaso 
da 
sorte, 
a 
associao 
est 
integrada 
a 
alguma 
rede 
de 
computadores. 
Parece 
que 
 
uma 
associao 
pequena 
e 
um 
tanto 
inslita. 
Quem 
sabe 
eles 
se 
comunicam 
via 
E-mail 
ou 
por 
meio 
de 
um 
quadro 
de 
avisos. 
Talvez 
algo 
como 
Prodigy. 


Quem 
sabe? 
Mas 
eu 
tenho 
que 
descobrir 
uma 
forma 
de 
conseguir 
essas 
informaes 
logo." 


"Vou 
colocar 
gente 
da 
minha 
equipe 
para 
cuidar 
disso 
agora 
mesmo", 
disse 
ele. 
"Qual 
a 
melhor 
maneira 
de 
entrar 
em 
contato 
com 
voc?" 


Dei-lhe 
os 
nmeros 
de 
meus 
telefones 
e 
desliguei. 
Pensei 
em 
Gault 
e 
no 
furgo 
azul-escuro 
desaparecido. 
Eu 
me 
perguntava 
onde 
ele 
conseguira 
a 
bolsa 
preta 
para 
colocar 
o 
cadver 
do 
xerife 
Brown, 
a 
eu 
me 
lembrei. 
Ns 
sempre 
mantnhamos 
uma 
nova 
em 
cada 
furgo, 
de 
reserva. 
Isso 
queria 
dizer 
que 
primeiro 
ele 
viera 
aqui 
e 
roubara 
o 
furgo. 
Depois 
fora 
para 
a 
casa 
de 
Brown. 
Vasculhei 
novamente 
a 
lista 
telefnica 
para 
ver 
se 
encontrava 
a 
residncia 
do 
xerife. 
No 
achei. 


Peguei 
o 
telefone 
e 
liguei 
para 
o 
auxlio 
 
lista. 
Pedi 
o 
nmero 
de 
Lamont 
Brown. 
A 
telefonista 
me 
deu 
e 
eu 
o 
disquei 
para 
ver 
o 
que 
ia 


#
acontecer. 


"No 
posso 
atender 
ao 
telefone 
agora 
porque 
estou 
fora 
de 
casa, 
entregando 
brinquedos 
no 
meu 
tren..." 
A 
voz 
do 
xerife 
morto 
soava 
forte 
e 
saudvel 
em 
sua 
secretria 
eletrnica, 
"HO! 
HO! 
HO! 
Feliiiiz 
Natal!" 


Nervosa, 
fui 
ao 
banheiro 
de 
arma 
em 
punho. 
Eu 
andava 
desorientada 
no 
meu 
escritrio 
porque 
Gault 
arruinara 
o 
lugar 
onde 
sempre 
me 
senti 
segura. 
Parei 
no 
saguo 
e 
olhei 
para 
todos 
os 
lados. 
O 
assoalho 
cinzento 
estava 
com 
uma 
camada 
de 
cera 
cada 
vez 
mais 
grossa, 
e 
as 
paredes 
eram 
brancas 
como 
casca 
de 
ovo. 
Fiquei 
 
escuta. 
Ele 
j 
havia 
entrado 
aqui. 
Poderia 
entrar 
novamente. 


Fui 
assaltada 
pelo 
medo, 
e 
quando 
lavei 
as 
mos 
na 
pia 
do 
banheiro, 
elas 
estavam 
trmulas. 
Eu 
suava 
e 
tinha 
a 
respirao 
pesada. 
Andei 
rapidamente 
at 
a 
ponta 
do 
corredor 
e 
olhei 
por 
uma 
janela. 
Vi 
meu 
carro 
coberto 
de 
neve 
e 
apenas 
um 
furgo. 
O 
outro 
continuava 
desaparecido. 
Voltei 
ao 
meu 
escritrio 
e 
continuei 
a 
ditar 
no 
gravador. 


Um 
telefone 
tocou 
em 
algum 
lugar 
e 
eu 
me 
sobressaltei. 
O 
rangido 
da 
minha 
cadeira 
me 
fez 
pular. 
Quando 
ouvi 
o 
elevador 
que 
ficava 
do 
outro 
lado 
do 
saguo 
abrir, 
peguei 
o 
revlver 
e 
fiquei 
bem 
quieta, 
olhos 
fixos 
no 
corredor, 
o 
corao 
disparado. 
Passos 
firmes 
e 
rpidos 
soaram 
cada 
vez 
mais 
alto, 
 
medida 
que 
se 
aproximavam. 
Levantei 
a 
arma, 
segurando 
a 
coronha 
com 
ambas 
as 
mos. 


Lucy 
entrou. 


"Jesus!", 
exclamei, 
o 
dedo 
no 
gatilho. 
"Lucy, 
meu 
Deus." 
Pus 
a 
arma 
sobre 
a 
escrivaninha. 
"O 
que 
voc 
est 
fazendo 
aqui? 
Por 
que 
no 
me 
ligou 
antes? 
Como 
conseguiu 
entrar?" 


Ela 
lanou 
a 
mim 
e 
ao 
38 
um 
olhar 
surpreso. 
"Jan 
me 
trouxe 
aqui, 
e 
eu 
tenho 
a 
chave. 
Voc 
mesma 
me 
deu 
uma, 
h 
muito 
tempo. 
Eu 
liguei, 
mas 
voc 
no 
estava." 


"Quando 
voc 
ligou?", 
perguntei, 
meio 
tonta. 


"H 
umas 
duas 
horas. 
Voc 
quase 
atirou 
em 
mim." 


"No." 
Tentei 
encher 
meus 
pulmes 
de 
ar. 
"No 
 
verdade." 


"Seu 
dedo 
no 
estava 
do 
lado 
da 
trava, 
como 
deveria. 
Estava 
no 
gatilho. 
Tive 
sorte 
de 
voc 
no 
estar 
com 
sua 
Browning 
agora, 
ou 
com 


#
uma 
arma 
que 
disparasse 
a 
um 
nico 
gesto." 


"Por 
favor, 
pare 
com 
isso", 
pedi, 
devagar. 
Doa-me 
o 
peito. 


"A 
neve 
j 
est 
a 
mais 
de 
cinco 
centmetros, 
tia 
Kay." 


Lucy 
estava 
de 
p 
junto 
 
porta, 
como 
se 
estivesse 
em 
dvida 
a 
respeito 
de 
alguma 
coisa. 
Vestia, 
como 
de 
hbito, 
calas 
do 
tipo 
que 
se 
usam 
em 
linhas 
de 
tiro, 
botas 
e 
um 
casaco 
de 
esqui. 


Uma 
mo 
de 
ferro 
apertava 
meu 
corao, 
eu 
respirava 
com 
dificuldade. 
Fiquei 
inerte, 
olhando 
para 
a 
minha 
sobrinha, 
enquanto 
meu 
rosto 
ia 
ficando 
cada 
vez 
mais 
frio. 


"Jan 
est 
no 
estacionamento", 
disse 
ela. 


"A 
imprensa 
est 
a 
fora." 


"No 
vi 
nenhum 
reprter. 
Mas, 
de 
qualquer 
forma, 
estamos 
estacionadas 
do 
outro 
lado 
da 
rua." 


"Houve 
muitos 
assaltos 
l", 
disse-lhe. 
"E 
uma 
pessoa 
foi 
morta 
a 
tiros. 
H 
uns 
quatro 
meses." 


Lucy 
olhava 
para 
o 
meu 
rosto. 
Observou 
minhas 
mos 
quando 
enfiei 
o 
revlver 
na 
bolsa. 


"Voc 
est 
trmula", 
disse-me 
assustada. 
"Tia 
Kay, 
voc 
est 
branca 
como 
papel." 
Ela 
se 
aproximou 
mais 
um 
pouco 
de 
minha 
escrivaninha. 
"Vou 
te 
levar 
para 
casa." 


Senti 
uma 
pontada 
no 
peito 
e 
pressionei 
a 
mo 
contra 
ele. 


"No 
posso". 
Eu 
mal 
conseguia 
falar. 


A 
dor 
era 
to 
forte 
que 
eu 
no 
conseguia 
nem 
respirar. 


Lucy 
tentou 
me 
ajudar, 
mas 
eu 
estava 
fraca 
demais. 
Minhas 
mos 
iam 
ficando 
entorpecidas, 
tinha 
cimbra 
nos 
dedos. 
Pendi 
para 
a 
frente 
da 
cadeira 
e 
fechei 
os 
olhos, 
ao 
mesmo 
tempo 
em 
que 
me 
descia 
um 
suor 
frio 
e 
abundante. 
Eu 
respirava 
depressa, 
em 
pequenos 
haustos. 


Ela 
entrou 
em 
pnico. 


Tive 
a 
vaga 
impresso 
de 
ouvi-la 
gritando 
ao 
telefone. 
Tentei 
lhe 
dizer 
que 
estava 
tudo 
bem, 
que 
eu 
precisava 
apenas 
de 
um 
saco 
de 
papel, 
mas 
as 
palavras 
no 
saam. 
Eu 
sabia 
o 
que 
estava 
acontecendo, 
mas 
no 
conseguia 
lhe 
dizer. 
Logo 
ela 
me 
enxugava 
o 
rosto 
com 
um 


#
pano 
mido 
e 
frio. 
Massageava 
meus 
ombros, 
confortando-me, 
enquanto 
eu, 
de 
olhos 
enevoados, 
fitava 
as 
minhas 
mos 
no 
colo, 
retorcidas 
como 
garras. 
Eu 
sabia 
o 
que 
ia 
acontecer, 
mas 
estava 
cansada 
demais 
para 
resistir. 


"Chame 
a 
doutora 
Zenner", 
consegui 
dizer, 
afinal, 
quando 
a 
dor 


lancetou 
meu 
peito 
novamente. 
"Diga-lhe 
que 
v 
nos 
encontrar 
l." 
"L 
onde?" 
Apavorada, 
Lucy 
deu 
uns 
tapinhas 
no 
meu 
rosto. 
"EMV." 
"Voc 
vai 
ficar 
bem", 
disse 
ela. 
No 
falei 
nada. 
"No 
se 
preocupe." 
Eu 
no 
conseguia 
esticar 
as 
mos, 
e 
estava 
trmula 
de 
tanto 
frio 


que 
sentia. 
"Eu 
gosto 
de 
voc, 
tia 
Kay", 
disse-me 
Lucy, 
aos 
prantos. 


#
14 


A 
Escola 
de 
Medicina 
da 
Virgnia 
salvara 
a 
vida 
da 
minha 
sobrinha, 
porque 
era 
o 
hospital 
daquela 
regio 
mais 
apto 
a 
atender 
pacientes 
em 
estado 
grave, 
acompanhando-os 
nos 
momentos 
cruciais. 
Ela 
foi 
trazida 
de 
helicptero 
depois 
de 
bater 
meu 
carro, 
e 
eu 
estava 
certa 
de 
que 
a 
contuso 
em 
seu 
crebro 
teria 
sido 
permanente 
se 
a 
Unidade 
de 
Trauma 
no 
fosse 
to 
capaz. 
Eu 
estivera 
na 
sala 
de 
emergncia 
da 
EMV 
muitas 
vezes, 
mas 
nunca 
como 
paciente, 
at 
aquela 
noite. 


s 
nove 
e 
meia, 
eu 
repousava 
serenamente 
num 
quarto 
particular 
do 
quarto 
andar 
cio 
hospital. 
Marino 
e 
Janet 
estavam 
l 
fora, 
na 
porta, 
Lucy 
 
beira 
da 
cama, 
segurando 
minha 
mo. 


"Aconteceu 
alguma 
coisa 
com 
o 
CAIN?", 
perguntei. 


"No 
se 
preocupe 
com 
isso 
agora", 
ordenou 
ela. 
"Voc 
precisa 
repousar 
e 
ficar 
calma." 


"Eles 
j 
me 
deram 
algo 
para 
relaxar. 
Estou 
me 
acalmando." 


"Voc 
est 
muito 
doente", 
disse 
ela. 


"No 
estou." 


"Voc 
quase 
teve 
um 
ataque 
do 
corao." 


"Tive 
espasmos 
musculares 
e 
hiperventilao", 
corrigi. 
"Sei 
exatamente 
o 
que 
tive. 
Olhei 
meu 
eletrocardiograma. 
Nada 
que 
um 
saco 
de 
papel 
na 
cabea 
e 
um 
banho 
quente 
no 
resolvessem." 


"Bem, 
eles 
no 
vo 
te 
deixar 
sair 
at 
terem 
certeza 
de 
que 
no 
ter 
mais 
espasmos. 
Voc 
no 
pode 
sair 
por 
a 
com 
dores 
no 
peito." 


"Meu 
corao 
est 
timo. 
Eles 
me 
deixaro 
sair 
quando 
eu 
disser 
que 
sim." 


"Voc 
 
muito 
cabea-dura." 


"Muitos 
mdicos 
so." 


Lucy 
ficou 
olhando 
para 
a 
parede, 
fixamente. 
Ela 
no 
tinha 
sido 
nem 
um 
pouco 
afetuosa 
desde 
que 
entrou 
no 
meu 
quarto. 
Eu 
no 
sabia 
por 
que 
ela 
estava 
irritada. 


"Em 
que 
voc 
est 
pensando?", 
perguntei. 


#
"Eles 
esto 
montando 
um 
posto 
de 
comando", 
disse 
ela. 
"Estavam 
comentando 
isso 
no 
saguo." 


"Um 
posto 
de 
comando?" 


"Um 
quartel-general 
da 
polcia", 
explicou. 
"Marino 
ia 
ao 
telefone 
pblico 
e 
voltava 
o 
tempo 
todo, 
falando 
com 
Wesley." 


"Onde 
est 
ele?" 


"Wesley 
ou 
Marino?" 


"Benton." 


"Est 
vindo 
para 
c." 


"Ele 
sabe 
que 
estou 
aqui?", 
perguntei. 


Lucy 
olhou 
para 
mim. 
Ela 
no 
era 
tola. 
"Ele 
est 
vindo", 
repetiu, 
quando 
uma 
mulher 
de 
cabelo 
grisalho 
curto 
e 
olhos 
penetrantes 
entrou 
na 
sala. 


"Ora, 
ora, 
Kay", 
disse 
a 
dra. 
Anna 
Zenner, 
inclinando-se 
para 
me 
abraar. 
"Quer 
dizer 
que 
agora 
tenho 
que 
fazer 
visitas 
domiciliares." 


"No 
se 
pode 
dizer 
que 
isso 
seja 
uma 
visita 
domiciliar", 
afirmei. 
"Isto 
 
um 
hospital. 
Voc 
se 
lembra 
de 
Lucy?" 


"Claro." 
A 
dra. 
Zenner 
sorriu 
para 
minha 
sobrinha. 


"Vou 
ficar 
do 
lado 
de 
fora", 
disse 
Lucy. 


"Voc 
esqueceu 
que 
eu 
s 
venho 
 
cidade 
quando 
sou 
obrigada", 
continuou 
a 
dra. 
Zenner. 
"Principalmente 
quando 
est 
nevando." 


"Obrigada, 
Anna. 
Sei 
que 
voc 
no 
faz 
visitas 
em 
casa, 
em 
hospitais 
ou 
qualquer 
outro 
tipo 
de 
visita", 
disse-lhe 
sinceramente, 
enquanto 
a 
porta 
se 
fechava. 
"Estou 
muito 
feliz 
de 
voc 
ter 
vindo." 


A 
dra. 
Zenner 
sentou-se 
em 
minha 
cama. 
Senti 
imediatamente 
a 
sua 
fora, 
pois 
ela 
dominava 
um 
ambiente 
inteiro 
sem 
se 
dar 
conta 
disso. 
Excepcionalmente 
bem-disposta 
para 
algum 
que 
j 
est 
na 
casa 
dos 
setenta, 
ela 
era 
uma 
das 
pessoas 
mais 
finas 
que 
conheci. 


"O 
que 
 
que 
voc 
fez 
a 
si 
mesma?", 
perguntou-me, 
com 
um 
sotaque 
alemo 
que 
no 
diminua 
com 
o 
passar 
do 
tempo. 


"Acho 
que 
estou 
comeando 
a 
me 
ressentir", 
expliquei. 
"Esses 
casos." 


Ela 
balanou 
a 
cabea. 
" 
s 
do 
que 
ouo 
falar. 
Toda 
vez 
que 


#
pego 
um 
jornal 
ou 
ligo 
a 
tev." 


"Eu 
quase 
atirei 
em 
Lucy 
ontem 
 
noite." 
Olhei 
em 
seus 
olhos. 


"Conte-me 
o 
que 
aconteceu." 


Contei. 


"Mas 
voc 
chegou 
a 
atirar?" 


"No", 
respondi. 


"Ento 
voc 
no 
chegou 
to 
perto." 


"Isso 
seria 
o 
fim 
da 
minha 
vida." 
Fechei 
os 
olhos, 
enquanto 
eles 
se 
enchiam 
de 
lgrimas. 


"Kay, 
tambm 
seria 
o 
fim 
de 
sua 
vida 
se 
outra 
pessoa 
tivesse 
entrado 
naquele 
saguo. 
Algum 
de 
quem 
voc 
tem 
todos 
os 
motivos 
para 
ter 
medo, 
est 
entendendo 
o 
que 
quero 
dizer? 
Voc 
reagiu 
da 
melhor 
maneira 
que 
pde." 


Aspirei 
profundamente, 
um 
pouco 
trmula. 


"E 
o 
resultado 
no 
foi 
to 
mau. 
Lucy 
est 
tima. 
Saudvel 
e 
bonita." 


Chorei 
como 
no 
fazia 
h 
muito 
tempo, 
cobrindo 
o 
rosto 
com 
as 
mos. 
A 
dra. 
Zenner 
massageou 
as 
minhas 
costas, 
me 
ofereceu 
lenos 
de 
papel 
tirados 
de 
uma 
caixinha, 
mas 
deixou 
que 
eu 
extravasasse 
minhas 
emoes. 
Com 
toda 
a 
tranqilidade, 
deixou-me 
chorar. 


"Estou 
to 
envergonhada 
de 
mim 
mesma", 
disse, 
finalmente, 
entre 
soluos. 


"Voc 
no 
deve 
ficar 
envergonhada. 
s 
vezes 
a 
gente 
precisa 
extravasar. 
Voc 
faz 
isso 
raramente 
e 
eu 
sei 
o 
que 
voc 
sente." 


"Minha 
me 
est 
muito 
doente 
e 
no 
fui 
visit-la 
em 
Miami. 
Nem 
uma 
vez." 
Eu 
estava 
inconsolvel. 
"Sou 
uma 
estranha 
em 
meu 
prprio 
escritrio. 
No 
posso 
mais 
ficar 
em 
minha 
casa 
 
nem 
em 
nenhum 
outro 
lugar, 
alis 
 
sem 
proteo 
policial." 


"Notei 
que 
h 
muitos 
policiais 
do 
lado 
de 
fora 
do 
quarto", 
comentou. 


Abri 
os 
olhos 
e 
olhei 
para 
ela. 
"Ele 
est 
totalmente 
fora 
de 
controle", 
disse-lhe. 


Ela 
mantinha 
os 
olhos 
pregados 
nos 
meus. 


#
"E 
isso 
 
bom. 
Ele 
est 
mais 
ousado, 
o 
que 
significa 
que 
est 
se 
arriscando 
mais. 
Foi 
isso 
o 
que 
Bundy 
fez 
no 
final", 
acrescentei. 


A 
dra. 
Zenner 
ofereceu 
aquilo 
que 
ela 
sabia 
fazer 
de 
melhor. 
Ela 
me 
ouviu. 


"Quanto 
mais 
ele 
se 
descontrola, 
maior 
 
a 
chance 
de 
que 
cometa 
um 
erro 
e 
a 
gente 
o 
pegue", 
continuei. 


"Eu 
diria 
tambm 
que 
agora 
ele 
est 
ainda 
mais 
perigoso", 
comentou. 
"No 
conhece 
limites. 
Ele 
chegou 
a 
matar 
Papai 
Noel." 


"Ele 
matou 
um 
xerife 
que 
se 
fantasia 
de 
Papai 
Noel 
no 
Natal. 
E 
esse 
xerife 
estava 
envolvido 
com 
drogas. 
Talvez 
fosse 
essa 
a 
ligao 
entre 
eles." 


"Fale-me 
de 
voc." 


Desviei 
os 
olhos 
e 
mais 
uma 
vez 
aspirei 
profundamente. 
Estava 
bem 
mais 
calma. 
Anna 
era 
uma 
das 
poucas 
pessoas 
neste 
mundo 
que 
me 
faziam 
sentir 
que 
eu 
no 
estava 
"de 
servio". 
Era 
psiquiatra. 
Eu 
a 
conhecia 
desde 
que 
me 
mudara 
para 
Richmond 
e 
ela 
me 
ajudara 
quando 
me 
separei 
de 
Mark, 
e 
depois 
quando 
ele 
morreu. 
Tinha 
o 
corao 
e 
as 
mos 
de 
um 
msico. 


"Assim 
como 
ele, 
tambm 
estou 
me 
descontrolando", 
confessei, 
perturbada. 


"Preciso 
saber 
mais." 


" 
por 
isso 
que 
estou 
aqui." 
Olhei 
para 
ela. 
"Com 
esta 
camisola, 
nesta 
cama. 
 
por 
isso 
que 
quase 
atirei 
na 
minha 
sobrinha. 
 
por 
isso 
que 
as 
pessoas 
a 
na 
porta 
do 
quarto 
esto 
to 
preocupadas 
comigo. 
Elas 
patrulham 
as 
ruas 
e 
vigiam 
minha 
casa, 
preocupadas. 
Por 
toda 
parte, 
tem 
gente 
preocupada 
comigo." 


"s 
vezes 
a 
gente 
tem 
que 
chamar 
a 
polcia." 


"Eu 
no 
quero 
polcia 
nenhuma", 
disse-lhe, 
impaciente. 
"Quero 
que 
me 
deixem 
em 
paz." 


"Ah! 
Eu 
pessoalmente 
acho 
que 
voc 
precisa 
de 
um 
exrcito 
inteiro. 
Ningum 
pode 
enfrentar 
esse 
homem 
sozinho." 


"Voc 
 
psiquiatra. 
Por 
que 
no 
o 
analisa?" 


"Eu 
no 
trato 
de 
distrbios 
de 
carter", 
disse 
ela. 
" 
claro 
que 


#
ele 
 
um 
sociopata." 


Ela 
foi 
at 
a 
janela, 
abriu 
as 
cortinas 
e 
olhou 
para 
fora. 
"Ainda 
est 
nevando. 
Voc 
acredita 
numa 
coisa 
dessas? 
Vou 
ter 
que 
passar 
a 
noite 
aqui 
com 
voc. 
Tive 
pacientes, 
ao 
longo 
de 
todos 
esses 
anos, 
que 
pareciam 
ser 
de 
outro 
planeta, 
e 
eu 
tentava 
me 
desvencilhar 
deles 
o 
mais 
rpido 
possvel." 


Ela 
fez 
uma 
pausa. 
"Esse 
 
o 
problema 
que 
temos 
com 
esse 
tipo 
de 
criminoso 
que 
se 
transforma 
em 
mito. 
Eles 
vo 
ao 
dentista, 
ao 
psiquiatra, 
ao 
cabeleireiro. 
No 
podemos 
evitar 
de 
receb-los, 
assim 
como 
recebemos 
qualquer 
um. 
Na 
Alemanha, 
certa 
vez, 
tratei 
de 
um 
homem 
durante 
um 
ano 
at 
descobrir 
que 
ele 
afogara 
trs 
mulheres 
numa 
banheira." 


"Era 
isso 
que 
ele 
gostava 
de 
fazer", 
continuou 
ela. 
"Ele 
lhes 
servia 
vinho 
e 
dava 
banho 
nelas. 
Ento 
pegava-as 
pelos 
tornozelos 
e 
dava 
um 
puxo. 
Nessas 
banheiras 
grandes, 
se 
algum 
levanta 
seus 
ps 
no 
ar, 
voc 
no 
consegue 
sair." 
Fez 
uma 
pausa. 
"No 
sou 
psiquiatra 
forense." 


"Eu 
sei." 


"Mas 
poderia 
ter 
sido", 
continuou. 
"Considerei 
essa 
possibilidade 
muitas 
vezes. 
Voc 
sabia 
disso?" 


"No, 
no 
sabia." 


"Ento 
vou 
lhe 
dizer 
por 
que 
evitei 
essa 
especialidade. 
No 
consigo 
passar 
tanto 
tempo 
em 
companhia 
de 
monstros. 
 
ruim 
demais 
para 
vocs, 
que 
cuidam 
de 
suas 
vtimas. 
Acho 
que 
ficar 
na 
mesma 
sala 
com 
os 
Gaults 
do 
mundo 
envenenaria 
a 
minha 
alma... 
Sabe, 
tenho 
uma 
terrvel 
confisso 
a 
fazer." 


Ela 
voltou-se 
e 
olhou 
para 
mim. 


"No 
tenho 
a 
mnima 
idia 
de 
por 
que 
eles 
fazem 
isso", 
concluiu, 
com 
os 
olhos 
faiscando. 
"Acho 
que 
deviam 
ser 
enforcados." 


"No 
discordo 
de 
voc", 
disse. 


"Mas 
isso 
no 
quer 
dizer 
que 
no 
tenha 
certos 
sentimentos 
em 
relao 
a 
eles. 
 
uma 
coisa 
feminina, 
na 
verdade." 


"Em 
relao 
a 
Gault?" 


#
"Sim. 
Voc 
conhece 
meu 
gato, 
Chester?", 
perguntou 
ela. 


"Ah, 
sim. 
 
o 
gato 
mais 
gordo 
que 
j 
vi." 


Ela 
no 
riu. 
"Ele 
sai, 
pega 
um 
rato 
e 
brinca 
com 
ele 
at 
ele 
morrer. 
 
uma 
coisa 
realmente 
muito 
sdica. 
Finalmente 
o 
mata 
e 
o 
que 
faz 
depois? 
Ele 
o 
traz 
para 
dentro 
de 
casa. 
Carrega-o 
para 
a 
cama 
e 


o 
deixa 
no 
meu 
travesseiro. 
 
um 
presente 
para 
mim." 
"O 
que 
voc 
est 
sugerindo, 
Anna?", 
perguntei, 
assustada. 
"Acho 
que 
esse 
homem 
tem 
uma 
estranha 
relao 
com 
voc. 
 
como 
se 
voc 
fosse 
sua 
me, 
e 
ele 
lhe 
traz 
o 
que 
mata." 


"Isso 
 
uma 
coisa 
inconcebvel." 


"Imagino 
que 
ele 
fica 
excitado 
em 
chamar 
sua 
ateno. 
Quer 
te 
impressionar. 
Quando 
ele 
mata 
algum, 
trata-se 
de 
um 
presente 
para 
voc. 
E 
ele 
sabe 
que 
voc 
vai 
estudar 
o 
caso 
com 
toda 
a 
ateno, 
tentando 
identificar 
cada 
um 
dos 
seus 
golpes, 
quase 
como 
uma 
me 
admira 
os 
desenhos 
que 
seu 
filhinho 
traz 
da 
escola. 
Voc 
percebe? 
O 
mal 
que 
ele 
faz 
 
a 
sua 
arte." 


Pensei 
nas 
despesas 
feitas 
na 
Shockhoe 
Slip. 
Perguntei-me 
sobre 
que 
tipo 
de 
arte 
Gault 
comprara. 


"Ele 
sabe 
que 
voc 
vai 
analisar 
e 
pensar 
nele 
o 
tempo 
todo, 
Kay." 


"Anna, 
voc 
est 
sugerindo 
que 
essas 
mortes 
podem 
ser 
responsabilidade 
minha?" 


"Bobagem. 
Se 
voc 
comear 
a 
achar 
isso, 
vai 
ter 
que 
freqentar 
meu 
consultrio. 
Regularmente." 


"Que 
risco 
estou 
correndo?" 


"Aqui 
 
preciso 
cautela." 
Ela 
parou 
para 
pensar. 
"Sei 
o 
que 
outros 
diro. 
Por 
isso 
tem 
tanto 
policial 
por 
a." 


"E 
o 
que 
voc 
est 
dizendo?" 


"Eu 
pessoalmente 
no 
creio 
que 
voc 
esteja 
sob 
grande 
ameaa 
fsica. 
No 
neste 
momento. 
Mas 
acho 
que 
todos 
 
sua 
volta 
esto 


correndo 
risco. 
Sabe, 
ele 
quer 
fazer 
sua 
a 
realidade 
dele." 
"Explique 
melhor, 
por 
favor." 
"Ele 
no 
tem 
ningum. 
Quer 
que 
voc 
tambm 
no 
tenha." 
"Ele 
no 
tem 
ningum 
por 
causa 
das 
coisas 
que 
faz", 
afirmei, 


#
cheia 
de 
raiva. 


"Tudo 
o 
que 
se 
pode 
dizer 
 
que 
cada 
vez 
que 
mata, 
ele 
fica 
mais 
isolado. 
O 
mesmo 
est 
acontecendo 
com 
voc, 
por 
esses 
dias. 
Aqui 
existe 
um 
padro. 
Voc 
percebe?" 


Em 
seguida, 
ela 
veio 
para 
mais 
perto 
de 
mim 
e 
ps 
a 
mo 
na 
minha 
testa. 


"No 
estou 
muito 
convencida 
disso." 


"Voc 
no 
est 
com 
febre." 


"O 
xerife 
Brown 
me 
odiava." 


"Est 
vendo? 
Outro 
presente 
para 
voc. 
Gault 
achou 
que 
ia 
ficar 
contente. 
Ele 
matou 
o 
rato 
para 
voc 
e 
o 
levou 
para 
o 
seu 
necrotrio." 


Essa 
idia 
fez 
com 
que 
me 
sentisse 
mal. 


Ela 
puxou 
um 
estetoscpio 
do 
bolso 
da 
jaqueta 
e 
ps 
no 
pescoo. 
Ajeitando 
minha 
camisola, 
auscultou 
meu 
corao 
e 
pulmes, 
o 
rosto 
srio. 


"Respire 
fundo, 
por 
favor." 
Ela 
ia 
deslocando 
o 
estetoscpio 
pelas 
minhas 
costas. 
"Mais 
uma 
vez." 


Mediu 
minha 
presso 
e 
ps 
a 
mo 
sob 
meu 
queixo. 
Era 
uma 
mdica 
s 
antigas. 
Anna 
Zenner 
tratava 
da 
pessoa 
inteira, 
no 
apenas 
da 
mente. 


"Sua 
presso 
est 
baixa", 
disse. 


"E 
o 
que 
mais?" 


"O 
que 
 
que 
eles 
esto 
lhe 
dando?" 


"Ativan." 


O 
manguito 
fez 
um 
barulho 
caracterstico 
quando 
ela 
o 
tirou 
do 
meu 
brao. 
"Ativan 
 
bom. 
No 
tem 
nenhum 
efeito 
colateral 
no 
aparelho 
respiratrio, 
nem 
no 
sistema 
cardio-vascular. 
 
bom 
para 
voc. 
Posso 
lhe 
passar 
um 
receita." 


"No." 


"Acho 
que 
nas 
atuais 
circunstncias 
seria 
bom 
voc 
tomar 
um 
ansioltico." 


"Anna, 
no 
 
de 
drogas 
que 
estou 
precisando 
agora." 


Ela 
afagou 
minha 
mo. 
"Voc 
no 
est 
se 
descontrolando." 


#
Levantou-se 
e 
ps 
o 
casaco. 


"Vou 
lhe 
pedir 
um 
favor. 
Como 
est 
a 
sua 
casa 
em 
Hilton 
Head?" 


Ela 
sorriu. 
" 
o 
maior 
ansioltico 
que 
conheo. 
Quantas 
vezes 
j 
lhe 
falei 
isso?" 


"Talvez 
agora 
eu 
lhe 
d 
ouvidos", 
disse-lhe. 
"Vou 
ter 
que 
fazer 
uma 
viagem 
para 
aquelas 
bandas 
e 
gostaria 
de 
guardar 
muito 
bem 
a 
minha 
privacidade." 


A 
dra. 
Zenner 
pegou 
um 
molho 
de 
chaves 
de 
sua 
bolsa, 
e 
tirou 
uma 
do 
chaveiro. 
Em 
seguida, 
rabiscou 
alguma 
coisa 
no 
formulrio 
mdico 
e 
o 
deixou 
no 
meu 
criado-mudo, 
junto 
com 
a 
chave. 


"No 
 
preciso 
fazer 
nada", 
disse 
ela, 
apenas. 
"Mas 
deixo-lhe 
a 
chave 
e 
as 
instrues. 
Se 
voc 
quiser 
chegar 
l 
altas 
horas 
da 
noite, 
nem 
precisa 
me 
avisar." 


" 
muita 
gentileza 
sua. 
Mas 
acho 
que 
no 
vou 
precisar 
ficar 
muito 
tempo." 


"Mas 
deveria. 
 
perto 
do 
mar, 
em 
Palmetto 
Dunes, 
uma 
casinha 
modesta 
perto 
de 
Hyatt. 
To 
cedo 
no 
vou 
aparecer 
por 
l, 
e 
acho 
que 
naquele 
lugar 
no 
vo 
te 
incomodar. 
Voc 
pode 
se 
fazer 
passar 
pela 
doutora 
Zenner." 
Ela 
deu 
um 
risinho. 
"L 
ningum 
me 
conhece 
mesmo." 


"Anna", 
falei, 
pensativa. 
"Quer 
dizer 
que 
agora 
sou 
alem." 


"Oh, 
voc 
sempre 
foi 
alem", 
disse, 
abrindo 
a 
porta. 
"No 
importa 
se 
lhe 
disseram 
outra 
coisa." 


Ela 
saiu 
e 
eu 
me 
ergui, 
disposta 
e 
alerta. 
Levantei 
da 
cama 
e 
fui 
ao 
banheiro, 
quando 
ouvi 
minha 
porta 
se 
abrir. 


Sa, 
esperando 
ver 
Lucy. 
Em 
vez 
dela; 
Paul 
Tucker 
encontrava-se 
dentro 
do 
meu 
quarto. 
Fiquei 
surpresa 
demais 
para 
me 
perturbar 
com 
o 
fato 
de 
ele 
me 
ver 
descala 
e 
usando 
apenas 
uma 
camisola 
que 
no 
cobria 
coisa 
nenhuma. 


Ele 
desviou 
os 
olhos, 
enquanto 
eu 
voltava 
para 
a 
cama 
e 
puxava 
os 
cobertores. 


"Peo 
desculpas. 
O 
capito 
Marino 
disse 
que 
eu 
poderia 
entrar 
sem 
problema", 
disse 
o 
chefe 
de 
polcia 
de 
Richmond, 
que 
no 
parecia 
lamentar 
nem 
um 
pouco, 
apesar 
do 
que 
afirmava. 


#
"Marino 
devia 
primeiro 
ter 
me 
avisado", 
disse-lhe, 
olhando-o 
nos 
olhos. 


"Bem, 
todos 
ns 
sabemos 
dos 
modos 
do 
capito 
Marino. 
A 
senhora 
no 
se 
incomoda?", 
perguntou 
ele, 
indicando 
uma 
cadeira. 


"Por 
favor. 
Sou 
uma 
audincia 
cativa, 
no 
 
mesmo?" 


"A 
senhora 
 
uma 
audincia 
cativa 
porque, 
neste 
momento, 
metade 
do 
meu 
departamento 
est 
cuidando 
de 
sua 
proteo." 
Seu 
rosto 
era 
duro. 


Olhei-o 
atentamente. 


"Sei 
muito 
bem 
o 
que 
aconteceu 
hoje 
de 
manh 
no 
seu 
necrotrio." 
Seus 
olhos 
brilhavam 
de 
raiva. 
"A 
senhora 
corre 
srio 
risco 
de 
vida, 
doutora 
Scarpetta. 
Estou 
aqui 
para 
lhe 
implorar 
que 
leve 
isso 
a 
srio." 


"Como 
voc 
pode 
pensar 
que 
no 
estou 
levando 
a 
srio?", 
indaguei-lhe, 
indignada. 


"Para 
comear, 
no 
deveria 
ter 
voltado 
ao 
seu 
escritrio 
esta 
tarde. 
Dois 
agentes 
da 
lei 
tinham 
acabado 
de 
ser 
mortos, 
um 
deles 
quando 
a 
senhora 
se 
encontrava 
no 
edifcio." 


"No 
tenho 
escolha 
seno 
voltar 
ao 
meu 
escritrio, 
coronel 
Tucker. 
Quem 
voc 
acha 
que 
fez 
as 
autpsias 
desses 
dois 
policiais?" 


Ele 
ficou 
calado. 
Depois 
perguntou: 
"Acha 
que 
Gault 
saiu 
da 
cidade?". 


"No 


"Porqu?" 


"No 
sei, 
mas 
no 
creio 
que 
ele 
tenha 
sado." 


"Como 
est 
se 
sentindo?" 


Eu 
poderia 
jurar 
que 
ele 
estava 
tentando 
pescar 
alguma 
coisa, 
mas 
no 
sabia 
o 
qu. 


"Estou 
me 
sentindo 
bem. 
Pra 
falar 
a 
verdade, 
quando 
voc 
sair, 
vou 
me 
vestir 
e 
ir 
embora", 
respondi. 


Ele 
ia 
falar, 
mas 
se 
conteve. 


Olhei-o 
por 
um 
momento. 
Ele 
trajava 
um 
suter 
azul-escuro 
da 
Academia 
Nacional 
do 
FBI 
e 
um 
tnis 
esportivo 
de 
couro, 
de 
cano 
alto. 


#
Eu 
me 
perguntava 
se 
ele 
tinha 
sido 
chamado 
para 
me 
ver 
quando 
estava 
em 
plena 
sesso 
de 
ginstica. 
Ocorreu-me 
de 
repente 
que 
ramos 
vizinhos. 
Ele 
e 
sua 
mulher 
viviam 
em 
Windsor 
Farms, 
uns 
poucos 
blocos 
distante 
de 
minha 
casa. 


"Marino 
me 
disse 
para 
sair 
da 
minha 
casa", 
disse-lhe, 
num 
tom 
quase 
acusatrio. 
"Voc 
tem 
conhecimento 
disso?" 


"Sim, 
tenho." 


"Que 
participao 
voc 
teve 
nessa 
proposta?" 


"Por 
que 
imagina 
que 
tenho 
alguma 
coisa 
a 
ver 
com 
o 
que 
Marino 
lhe 
sugere?", 
perguntou 
ele, 
calmamente. 


"Voc 
e 
eu 
somos 
vizinhos. 
Provavelmente 
voc 
passa 
na 
frente 
de 
minha 
casa 
todo 
dia." 


"No. 
Mas 
sei 
onde 
mora, 
Kay." 


"Por 
favor, 
no 
me 
chame 
de 
Kay." 


"Se 
eu 
fosse 
branco, 
me 
deixaria 
cham-la 
de 
Kay?", 
indagou-
me, 
com 
toda 
a 
naturalidade. 


"No, 
no 
deixaria." 


Ele 
no 
pareceu 
se 
ofender. 
Sabia 
que 
eu 
no 
confiava 
nele. 
Que 
tinha 
um 
certo 
medo 
dele, 
e 
com 
certeza 
da 
maioria 
das 
pessoas 
naquele 
momento. 
Eu 
estava 
ficando 
paranica. 


"Doutora 
Scarpetta", 
ele 
se 
levantou. 
"Mantive 
sua 
casa 
sob 
vigilncia 
durante 
semanas." 
Fez 
uma 
pausa, 
e 
ficou 
me 
olhando. 


"Porqu 


"Por 
causa 
do 
xerife 
Brown 


"De 
que 
voc 
est 
falando?" 
Minha 
boca 
comeava 
a 
ficar 
seca. 


"Ele 
estava 
seriamente 
envolvido 
numa 
rede 
de 
traficantes 
que 
se 
estende 
de 
Nova 
York 
a 
Miami. 
Alguns 
dos 
seus 
pacientes 
tambm 
estavam 
envolvidos. 
Pelo 
menos 
oito, 
pelo 
que 
sabemos 
at 
agora." 


"Assassinatos 
relacionados 
com 
drogas?" 


Ele 
aquiesceu, 
olhando 
para 
a 
janela. 
"Brown 
odiava 
a 
senhora." 


"Isso 
para 
mim 
era 
claro. 
O 
motivo 
 
que 
no 
era." 


"Digamos 
apenas 
que 
a 
senhora 
fazia 
o 
seu 
trabalho 
bem 
demais. 
Muitos 
dos 
seus 
parceiros 
ficaram 
presos 
por 
muito 
tempo 
por 


#
sua 
causa." 
Fez 
uma 
pausa. 
"Temos 
motivos 
para 
supor 
que 
planejara 


dar 
um 
jeito 
na 
senhora." 


Eu 
olhei 
para 
ele 
atnita. 
"O 
qu? 
Por 
qu?" 


"Alcagetes." 


"Mais 
de 
um?" 


Tucker 
falou: 
"Brown 
j 
tinha 
oferecido 
dinheiro 
a 
algum 
a 
que 
precisamos 
acompanhar 
com 
muita 
ateno." 


Ele 
me 
passou 
meu 
copo 
de 
gua. 


"Isso 
foi 
no 
comeo 
do 
ms. 
Talvez 
umas 
trs 
semanas 
atrs." 
Seu 
olhar 
vagava 
pelo 
quarto. 


"Quem 
ele 
contratou?", 
perguntei. 


"Anthony 
Tones." 
Tucker 
olhou 
para 
mim. 


Minha 
estupefao 
aumentou 
ainda 
mais 
com 
o 
que 
ele 
me 
disse 
em 
seguida. 


"A 
pessoa 
que 
deveria 
ser 
assassinada 
na 
vspera 
de 
Natal 
no 
era 
Anthony 
Jones, 
mas 
a 
senhora." 


Eu 
nem 
conseguia 
falar. 


"Toda 
aquela 
histria 
de 
ir 
ao 
apartamento 
errado 
em 
Whitcomb 
Court 
era 
para 
liquid-la. 
Mas 
quando 
o 
xerife 
passou 
pela 
cozinha 
e 
entrou 
no 
quintal, 
ele 
e 
Jones 
se 
desentenderam. 
O 
resto 
a 
senhora 
j 
sabe." 


Ele 
se 
levantou. 
"Agora 
Brown 
tambm 
est 
morto 
e, 
pra 
falar 
a 
verdade, 
acho 
que 
isso 
foi 
bom." 


"Coronel 
Tucker", 
disse. 


Ele 
estava 
de 
p, 
do 
lado 
de 
minha 
cama. 


"Voc 
sabia 
disso 
antes 
de 
ter 
acontecido?" 


"A 
senhora 
est 
me 
perguntando 
se 
sou 
vidente?" 
A 
expresso 
do 
seu 
rosto 
era 
feroz. 


"Acho 
que 
voc 
sabe 
o 
que 
estou 
querendo 
dizer." 


"Estvamos 
de 
olho 
na 
senhora. 
Mas 
s 
depois 
descobrimos 
que 
eles 
pretendiam 
mat-la 
na 
vspera 
de 
Natal. 
Naturalmente, 
se 
soubssemos, 
a 
senhora 
no 
iria 
sair 
por 
a 
distribuindo 
cobertores." 


Olhou 
para 
o 
cho, 
pensando, 
antes 
de 
voltar 
a 
falar. 
"Tem 


#
certeza 
de 
que 
j 
pode 
sair 
daqui?" 


"Sim." 


"Onde 
est 
pensando 
em 
passar 
a 
noite?" 


"Em 
casa." 


Ele 
balanou 
a 
cabea. 
"Fora 
de 
cogitao. 
No 
aconselho 
nem 
um 
hotel 
aqui 
na 
cidade." 


"Marino 
concordou 
em 
ficar 
comigo." 


"Puxa, 
agora 
a 
senhora 
est 
muito 
segura", 
disse-me, 
fazendo 
uma 
careta, 
enquanto 
abria 
a 
porta. 
"Vista-se, 
doutora 
Scarpetta. 
Temos 
que 
participar 
de 
uma 
reunio." 


Quando 
sa 
do 
quarto, 
no 
muito 
depois, 
fui 
recebida 
com 
olhares 
e 
umas 
poucas 
palavras. 
Lucy 
e 
Janet 
estavam 
com 
Marino, 
e 
Paul 
Tucker 
encontrava-se 
s, 
com 
uma 
jaqueta 
barata. 


"Doutora 
Scarpetta, 
a 
senhora 
vai 
comigo." 
Ele 
acenou 
para 
Marino. 
"Voc 
vem 
atrs, 
com 
as 
jovens." 


Andamos 
at 
o 
elevador 
por 
um 
corredor 
branco 
e 
lustroso, 
e 
descemos. 
Havia 
policiais 
uniformizados 
por 
toda 
parte, 
e 
quando 
as 
portas 
se 
abriram 
na 
sala 
de 
emergncia, 
apareceram 
trs 
deles 
para 
nos 
acompanhar 
at 
os 
nossos 
carros. 
Marino 
e 
o 
chefe 
tinham 
estacionado 
em 
vagas 
para 
a 
polcia, 
e 
quando 
vi 
o 
carro 
de 
Tucker, 
senti 
mais 
um 
aperto 
no 
corao. 
Ele 
dirigia 
um 
Porsche 
911-No 
era 
novo, 
mas 
estava 
muito 
bem 
conservado. 


Marino 
tambm 
notou 
o 
carro, 
mas 
ficou 
calado, 
enquanto 
abria 
seu 
Crown 
Victoria. 


"Voc 
esteve 
na 
rodovia 
95 
Sul, 
na 
noite 
passada?", 
perguntei 
a 
Tucker, 
ao 
entrar 
no 
carro. 


Ele 
cruzou 
o 
cinto 
de 
segurana 
sobre 
o 
peito 
e 
deu 
partida 
no 
carro. 
"Por 
que 
me 
pergunta 
isso?" 
No 
pareceu 
estar 
na 
defensiva, 
apenas 
curioso. 


"Eu 
estava 
indo 
para 
casa, 
voltando 
de 
Quantico, 
e 
um 
carro 
parecido 
com 
o 
seu 
ficou 
nos 
seguindo 
de 
perto." 


"Quem 
 
ns?' 


"Eu 
e 
Marino." 


#
"Entendo." 
Saindo 
do 
estacionamento, 
ele 
dobrou 
 
direita, 
em 
direo 
ao 
quartel. 
"Quer 
dizer 
que 
estava 
com 
o 
Grand 
Dragon."7 


"Ento 
era 
voc", 
disse-lhe, 
observando 
o 
limpador 
de 
pra-brisa 
remover 
a 
neve. 


As 
ruas 
estavam 
escorregadias 
e 
eu 
senti 
o 
carro 
deslizar, 
quando 
Tucker 
diminuiu, 
a 
velocidade 
num 
semforo. 


"Vi 
um 
adesivo 
com 
a 
bandeira 
dos 
Confederados 
num 
pra-
choque 
na 
noite 
passada, 
e 
resolvi 
demonstrar 
claramente 
que 
no 
gostei 
nada 
daquilo." 


"O 
carro 
com 
o 
adesivo 
pertence 
a 
Marino." 


"No 
quero 
saber 
de 
quem 
era 
o 
carro." 


Olhei 
para 
ele. 


"Bem 
feito 
para 
o 
capito", 
disse 
Tucker, 
sorrindo. 


"Voc 
sempre 
age 
com 
essa 
agressividade 
toda?", 
perguntei. 
"Porque 
 
uma 
boa 
maneira 
de 
levar 
um 
tiro." 


"Quem 
quiser 
fazer 
isso, 
pode 
tentar." 


"No 
aconselho 
ficar 
na 
cola 
de 
brutamontes." 


"Quer 
dizer 
que 
reconhece 
que 
ele 
 
um 
brutamontes." 


"Falei 
de 
forma 
geral", 
respondi. 


"A 
senhora 
 
uma 
mulher 
inteligente 
e 
refinada, 
doutora 
Scarpetta. 
No 
consigo 
entender 
o 
que 
voc 
v 
nele." 


"H 
muito 
o 
que 
ver 
nele, 
se 
nos 
dermos 
ao 
trabalho 
de 
observar." 


"Ele 
 
racista, 
homofbico 
e 
machista. 
 
um 
dos 
seres 
humanos 
mais 
ignorantes 
que 
conheo, 
e 
gostaria 
de 
no 
ter 
nada 
a 
ver 
com 
ele." 


"Marino 
no 
confia 
em 
nada, 
nem 
em 
ningum", 
disse-lhe. 
"Ele 
 
cnico, 
e 
no 
sem 
razo." 


Tucker 
ficou 
calado. 


"Voc 
no 
o 
conhece", 
acrescentei. 


"E 
nem 
quero 
conhecer. 
O 
que 
eu 
queria 
mesmo 
 
que 
ele 
desaparecesse." 


7 Membro 
graduado 
da 
organizao 
racista 
americana 
Ku 
Klux 
Klan. 
(N. 
T.) 


#
"Por 
favor, 
no 
cometa 
um 
erro 
to 
grande", 
falei 
com 
veemncia. 
"Seria 
um 
grande 
erro." 


"Ele 
 
um 
pesadelo 
poltico", 
continuou 
o 
chefe. 
"Nunca 
deveriam 
lhe 
ter 
confiado 
o 
comando 
do 
Primeiro 
Distrito." 


"Ento 
transfira-o 
de 
volta 
para 
a 
Diviso 
de 
Detetives, 
para 
o 
Posto 
A. 
O 
lugar 
dele 
 
l." 


Tucker 
continuou 
dirigindo 
calmamente. 
Demonstrava 
que 
no 
queria 
mais 
falar 
sobre 
Marino. 


"Por 
que 
vocs 
no 
me 
disseram 
que 
eles 
queriam 
me 
matar?", 
perguntei, 
e 
as 
palavras 
soaram 
estranhas, 
pois 
eu 
no 
conseguia 
aceitar 
seu 
significado. 
"Eu 
queria 
saber 
por 
que 
voc 
no 
me 
informou 
de 
que 
eu 
estava 
sendo 
vigiada." 


"Achei 
que 
seria 
melhor 
assim." 


"Voc 
devia 
ter 
me 
avisado." 


Ele 
olhou 
pelo 
retrovisor 
para 
se 
certificar 
de 
que 
Marino 
ainda 
estava 
atrs 
de 
ns, 
quando 
entrou 
por 
trs 
do 
quartel 
do 
Departamento 
de 
Polcia 
de 
Richmond. 


"Achei 
que 
se 
lhe 
dissesse 
o 
que 
os 
alcagetes 
nos 
contaram, 
a 
senhora 
correria 
um 
risco 
muito 
maior. 
Eu 
temia 
que 
ficasse..." 
Fez 
uma 
pausa. 
"Bem... 
agressiva, 
ansiosa. 
No 
queria 
que 
sua 
atitude 
sofresse 
uma 
mudana 
importante, 
que 
a 
senhora 
passasse 
 
ofensiva, 
com 
risco 
de 
agravar 
a 
situao." 


"Acho 
que 
voc 
no 
tinha 
o 
direito 
de 
me 
escamotear 
essas 
informaes", 
disse-lhe, 
exaltada. 


"Doutora 
Scarpetta", 
respondeu 
ele, 
olhando 
para 
a 
frente, 
"francamente, 
no 
me 
preocupo 
com 
o 
que 
a 
senhora 
pensa 
ou 
deixa 
de 
pensar. 
S 
me 
preocupo 
em 
salvar 
sua 
vida." 


Na 
entrada 
do 
estacionamento 
do 
quartel, 
dois 
policiais 
com 
rifles 
de 
repetio 
faziam 
vigia, 
os 
uniformes 
escuros 
contrastando 
com 
a 
neve. 
Tucker 
parou 
e 
abriu 
o 
vidro 
da 
janela 
do 
carro. 


"Como 
vo 
as 
coisas?", 
perguntou 
ele. 


O 
sargento 
estava 
duro, 
a 
arma 
apontada 
para 
as 
estrelas. 
"Tudo 
tranqilo, 
senhor." 


#
"Bem, 
tenham 
cuidado." 


"Sim, 
senhor. 
Vamos 
ter 
sim." 


Tucker 
fechou 
a 
janela 
e 
entrou. 
Estacionou 
num 
espao 
 
esquerda 
de 
uma 
porta 
dupla 
de 
vidro, 
que 
dava 
para 
o 
saguo 
e 
para 
a 
ala 
de 
deteno 
do 
grande 
complexo 
de 
concreto 
sob 
seu 
comando. 
Notei 
algumas 
radiopatrulhas 
e 
outros 
carros 
no 
estacionamento. 
Imaginava 
que 
havia 
muitos 
acidentes 
com 
que 
se 
ocupar 
naquela 
noite 
traioeira, 
e 
todo 
o 
resto 
do 
pessoal 
estava 
por 
conta 
de 
Gault. 
Para 
os 
agentes 
da 
lei, 
ele 
atingira 
um 
novo 
patamar. 
Agora 
era 
um 
matador 
de 
policiais. 


"Voc 
e 
o 
xerife 
Brown 
tm 
carros 
semelhantes", 
comentei, 
tirando 
o 
cinto 
de 
segurana." 


"E 
a 
semelhana 
pra 
por 
a", 
respondeu 
Tucker, 
saindo 
do 
carro. 


Seu 
escritrio 
ficava 
num 
corredor 
sombrio, 
a 
algumas 
portas 
do 
Esquadro 
A, 
onde 
se 
situavam 
os 
detetives. 
As 
instalaes 
do 
chefe 
eram 
surpreendentemente 
simples, 
mveis 
fortes 
mas 
estritamente 
funcionais. 
No 
havia 
belas 
luminrias, 
nem 
tapetes, 
e 
as 
paredes 
no 
ostentavam, 
ao 
contrrio 
do 
que 
era 
de 
se 
esperar, 
fotografias 
do 
chefe 
ao 
lado 
de 
polticos 
ou 
de 
celebridades. 
No 
vi 
nem 
certificados 
nem 
diplomas 
que 
indicassem 
a 
escola 
em 
que 
estudou 
ou 
as 
honrarias 
que 
recebeu. 


Tucker 
olhou 
para 
o 
relgio 
e 
nos 
fez 
entrar 
numa 
sala 
de 
reunies 
contgua. 
Sem 
janelas, 
com 
carpete 
azul-escuro, 
havia 
apenas 
uma 
mesa 
redonda 
e 
oito 
cadeiras, 
uma 
televiso 
e 
um 
videocassete. 


"E 
quanto 
a 
Lucy 
e 
Janet?", 
perguntei, 
temendo 
que 
o 
chefe 
deixasse 
esse 
assunto 
fora 
da 
discusso. 


"J 
estou 
informado 
sobre 
elas", 
disse 
ele, 
instalando-se 
confortavelmente 
numa 
cadeira 
giratria, 
como 
se 
fosse 
assistir 
a 
uma 
partida 
de 
futebol. 
"Elas 
so 
agentes." 


"Eu 
no 
sou 
agente", 
corrigiu 
Lucy, 
respeitosamente. 


Ele 
olhou 
para 
ela. 
"Voc 
escreveu 
o 
CAIN." 


"No 
todo 
o 
programa." 


#
"Bem, 
o 
CAIN 
tem 
a 
ver 
com 
a 
histria 
toda, 
por 
isso 
voc 
deve 
ficar." 


"Seu 
departamento 
est 
on-line." 
Ela 
sustentou 
o 
olhar 
dele. 
"Alis, 
ele 
foi 
o 
primeiro 
a 
ficar 
on-line." 


Ns 
nos 
voltamos 
quando 
a 
porta 
se 
abriu 
e 
Benton 
Wesley 
entrou. 
Ele 
usava 
uma 
cala 
de 
veludo 
e 
um 
suter. 
Seus 
olhos 
estavam 
vermelhos 
como 
os 
de 
uma 
pessoa 
cansada 
demais 
para 
conseguir 
dormir. 


"Benton, 
voc 
deve 
conhecer 
todos 
aqui", 
disse 
Tucker, 
como 
se 
conhecesse 
Wesley 
muito 
bem. 


"Certo." 
Ele 
estava 
todo 
compenetrado 
quando 
sentou 
numa 
cadeira. 
"Eu 
me 
atrasei 
porque 
vocs 
esto 
trabalhando 
muito 
bem." 


Tucker 
pareceu 
surpreso. 


"Pararam-me 
em 
dois 
postos 
de 
controle." 


"Ah." 
O 
chefe 
pareceu 
satisfeito. 
"Todo 
mundo 
est 
em 
campo. 
Esse 
tempo 
est 
nos 
ajudando 
muito." 


Ele 
no 
estava 
brincando. 


Marino 
explicou 
a 
Lucy 
e 
Janet. 
"A 
neve 
prende 
muita 
gente 
em 
casa. 
Quanto 
menos 
gente 
na 
rua, 
melhor 
para 
ns." 


"A 
menos 
que 
Gault 
tambm 
no 
esteja 
na 
rua", 
acrescentou 
Lucy. 


"Ele 
tem 
que 
estar 
em 
algum 
lugar", 
disse 
Marino. 
"Aquele 
bicho 
asqueroso 
no 
tem 
nenhuma 
casa 
de 
recreio 
por 
aqui." 


"Disso 
ns 
no 
sabemos", 
interveio 
Wesley. 
"Talvez 
ele 
conhea 
algum 
pelas 
redondezas." 


"Para 
onde 
voc 
acha 
que 
ele 
pode 
ter 
ido, 
depois 
de 
sair 
do 
necrotrio 
hoje 
de 
manh?", 
perguntou 
Tucker 
a 
Wesley. 


"No 
acho 
que 
ele 
tenha 
sado 
daquela 
rea." 


"Por 
qu?", 
interrogou 
Tucker. 


Wesley 
olhou 
para 
mim. 
"Acho 
que 
ele 
quer 
estar 
onde 
estamos." 


"E 
a 
famlia 
dele?", 
continuou 
Tucker. 


"Eles 
moram 
perto 
de 
Beaufort, 
Carolina 
do 
Sul, 
onde 
compraram 
uma 
fazenda 
de 
nogueiras 
numa 
ilha. 
No 
acho 
que 
Gault 


#
v 
para 
l." 


"No 
estamos 
em 
condies 
de 
achar 
nada", 
disse 
o 
chefe. 


"Ele 
cortou 
relaes 
com 
a 
famlia." 


"No 
totalmente. 
Ele 
est 
recebendo 
dinheiro 
de 
algum 
lugar." 


"Sim", 
disse 
Wesley. 
"Eles 
devem 
dar 
dinheiro 
para 
ele, 
contanto 
que 
fique 
longe. 
Esto 
num 
dilema. 
Se 
no 
o 
ajudam, 
ele 
pode 
voltar 
para 
casa. 
Se 
ajudam, 
ele 
continua 
longe, 
cometendo 
assassinatos." 


"Parece 
que 
so 
gente 
honesta", 
comentou 
Tucker, 
sarcasticamente. 


"Eles 
no 
vo 
colaborar 
conosco. 
Ns 
j 
tentamos. 
O 
que 
mais 
vocs 
esto 
fazendo 
aqui 
em 
Richmond?" 


Tucker 
respondeu: 
"Tudo 
o 
que 
est 
ao 
nosso 
alcance. 
Esse 
filho 
da 
puta 
est 
matando 
policiais". 


"No 
acho 
que 
o 
seu 
alvo 
principal 
sejam 
os 
policiais", 
afirmou 
Wesley, 
num 
tom 
neutro. 
"No 
acho 
que 
ele 
se 
preocupe 
com 
policiais." 


"Bem", 
disse 
Tucker, 
exaltado, 
"ele 
deu 
o 
primeiro 
tiro, 
e 
ns 
vamos 
dar 
o 
prximo." 


Wesley 
limitou-se 
a 
olhar 
para 
ele. 


"Temos 
radiopatrulhas 
para 
duas 
pessoas", 
continuou 
o 
chefe. 
"Mantemos 
guardas 
no 
estacionamento, 
principalmente 
para 
acompanhar 
o 
movimento 
de 
entrada 
e 
sada. 
Todos 
os 
carros 
tm 
uma 
foto 
de 
Gault, 
que 
tambm 
andamos 
distribuindo 
nas 
casas 
de 
comrcio, 
as 
que 
encontramos 
abertas." 


"E 
quanto 
 
vigilncia?" 


"Est 
sendo 
feita 
nos 
locais 
onde 
ele 
poderia 
estar." 
Olhou 
para 
mim. 
"Inclusive 
a 
sua 
casa 
e 
a 
minha. 
E 
o 
Departamento 
de 
Medicina 
Legal." 
Voltou-se 
para 
Wesley. 
"Se 
existem 
outros 
lugares 
possveis 
de 
encontr-lo, 
gostaria 
que 
me 
dissesse." 


Wesley 
respondeu: 
"No 
deve 
haver 
muitos. 
Ele 
tem 
o 
desagradvel 
hbito 
de 
matar 
seus 
amigos". 
Ele 
desviou 
os 
olhos. 
"Que 
acha 
de 
usar 
helicpteros 
da 
polcia 
estadual 
e 
avies?" 


"Quando 
a 
neve 
parar", 
explicou 
Tucker, 
"com 
toda 
a 
certeza." 


"No 
entendo 
como 
ele 
pode 
ficar 
passeando 
por 
a, 
com 
tanta 


#
facilidade", 
disse 
Janet, 
que 
dava 
a 
impresso 
de 
que 
passaria 
o 
resto 
da 
vida 
fazendo 
comentrios 
como 
esse. 
"Ele 
no 
deve 
ter 
uma 
aparncia 
normal. 
Por 
que 
as 
pessoas 
no 
o 
notam?" 


"Ele 
 
muitssimo 
esperto", 
tentei 
explicar. 


Tucker 
voltou-se 
para 
Marino. 
"Voc 
est 
com 
a 
fita?" 


"Sim, 
senhor, 
mas 
no 
sei 
bem 
se..." 
Ele 
parou. 


"No 
sabe 
bem 
se 
o 
qu, 
capito?" 
Tucker 
levantou 
um 
pouco 
o 
queixo. 


"No 
sei 
bem 
se 
elas 
poderiam 
ver 
a 
fita." 
Olhou 
para 
Janet 
e 
Lucy. 


"Por 
favor, 
continue, 
capito", 
disse 
o 
chefe, 
laconicamente. 


Marino 
ps 
a 
fita 
no 
videocassete 
e 
apagou 
as 
luzes. 


"Ela 
dura 
mais 
ou 
menos 
meia 
hora", 
ouvimos 
Marino 
dizer, 
enquanto 
passavam 
nmeros 
e 
linhas 
na 
tela 
da 
tev. 
"Algum 
se 
incomoda 
se 
eu 
fumar?" 


"Eu 
me 
incomodo", 
disse 
Tucker. 
"Essa 
fita, 
claro, 
 
a 
que 
estava 
na 
filmadora 
que 
encontramos 
na 
casa 
do 
xerife 
Brown. 
Ainda 
no 
a 
vi." 


Comeou 
o 
filme. 


"Bem, 
a 
 
o 
quarto 
de 
Lamont 
Brown, 
no 
andar 
superior 
da 
casa", 
Marino 
comeou 
a 
narrar. 


A 
cama 
que 
eu 
vira 
de 
manh 
estava 
muito 
bem 
arrumada, 
e 
podia-se 
ouvir 
algum 
se 
movimentando 
ao 
fundo. 


"Acho 
que 
aqui 
ele 
estava 
vendo 
se 
a 
cmara 
funcionava", 
continuou 
Marino. 
"Deve 
ter 
sido 
nessa 
hora 
que 
o 
resduo 
branco 
ficou 
na 
parede. 
Olhem. 
Est 
comeando." 


Ele 
apertou 
o 
pause 
e 
olhamos 
para 
a 
imagem 
tremida 
do 
quarto 
vazio. 


"J 
se 
sabe 
se 
o 
exame 
de 
Brown 
revelou 
a 
presena 
de 
cocana?", 
perguntou 
o 
chefe, 
no 
escuro. 


"Ainda 
 
cedo 
para 
saber 
se 
havia 
cocana 
ou 
seu 
metablito, 
benzoileconina", 
afirmei. 
"Tudo 
o 
que 
sabemos 
at 
agora 
 
o 
nvel 
de 
lcool 
no 
sangue." 


Marino 
recomeou: 
"Parece 
que 
ele 
ligou 
a 
cmara, 
desligou 
e 


#
ligou 
de 
novo. 
D 
para 
perceber 
isso 
porque 
a 
velocidade 
 
diferente. 
Na 


noite 
passada 
era 
uma. 
Agora 
 
outra, 
mais 
rpida." 


" 
evidente 
que 
ele 
esperava 
algum", 
comentou 
Tucker. 


"Pode 
ser 
tambm 
que 
eles 
j 
estivessem 
l. 
Talvez 
fazendo 
umas 
carreirinhas 
de 
cocana 
no 
andar 
de 
baixo. 
Vamos 
l." 
Marino 
acionou 
o 
play. 
"Agora 
 
que 
comea 
a 
parte 
boa." 


A 
sala 
de 
reunies 
de 
Tucker, 
mergulhada 
na 
escurido, 
estava 
perfeitamente 
silenciosa, 
com 
exceo 
do 
rangido 
da 
cama 
e 
dos 
gemidos, 
que 
pareciam 
ser 
mais 
de 
dor 
do 
que 
de 
paixo. 
O 
xerife 
Brown 
nu, 
deitado 
de 
costas. 
Era 
possvel 
ver 
Temple 
Gault 
de 
costas, 
usando 
apenas 
luvas 
cirrgicas. 
Notamos 
roupas 
escuras 
sobre 
a 
cama, 
ali 
perto. 
Marino 
ficou 
em 
silncio. 
Eu 
via 
as 
silhuetas 
de 
Lucy 
e 
de 
Janet. 
Seus 
rostos 
estavam 
sem 
expresso, 
e 
Tucker 
parecia 
liem 
calmo. 
Wesley, 
do 
meu 
lado, 
analisava 
friamente. 


Gault 
estava 
com 
aspecto 
doente, 
plido. 
Percebamos 
cada 
vrtebra 
e 
costela. 
Ele 
devia 
ter 
perdido 
muito 
peso 
e 
tnus 
muscular. 
Comecei 
a 
pensar 
na 
cocana 
detectada 
em 
seu 
cabelo, 
que 
agora 
estava 
branco, 
e, 
quando 
ele 
mudou 
de 
posio, 
pude 
ver 
os 
seus 
seios! 


Meus 
olhos 
cruzaram 
a 
mesa, 
fuzilantes, 
e 
viram 
Lucy 
,se 
contraindo. 
Senti 
que 
Marino 
me 
olhava, 
enquanto 
Carrie 
Grethen 
se 
esforava 
para 
levar 
seu 
cliente 
ao 
clmax. 
Parecia 
que 
as 
drogas 
estavam 
atrapalhando, 
pois, 
no 
importa 
o 
que 
ela 
fizesse, 
no 
havia 
meios 
de 
faz-lo 
sentir 
o 
prazer 
que, 
como 
mais 
tarde 
ficou 
provado, 
foi 


o 
mais 
caro 
que 
ele 
pagou 
em 
toda 
a 
sua 
vida. 
Lucy 
olhava 
corajosamente 
para 
a 
cena, 
chocada, 
enquanto 
sua 
antiga 
amante 
praticava 
uma 
infinidade 
de 
atos 
lascivos 
com 
aquele 
homem 
barrigudo 
e 
embriagado. 
O 
fim 
parecia 
previsvel. 
Carrie 
iria 
sacar 
uma 
arma 
e 
atirar 
nele. 
Mas 
no 
foi 
assim. 
Dezoito 
minutos 
de 
vdeo, 
ouviram-se 
passos 
no 
quarto 
de 
Brown, 
e 
o 
cmplice 
dela 
entrou. 
Temple 
Gault 
estava 
vestido 
de 
preto 
e 
usava 
luvas. 
Parecia 
no 
ter 
conscincia 
de 
que 
cada 
piscadela 
sua 
e 
cada 
fungada 
era 
gravada 
no 
vdeo. 
Ele 
parou 
no 
p 
da 
cama 
e 
ficou 
observando. 
Os 
olhos 
de 
Brown 
permaneciam 
fechados. 


#
Eu 
no 
tinha 
certeza 
se 
ele 
estava 
consciente. 


"J 
acabou", 
disse 
Gault, 
impaciente. 


Seus 
intensos 
olhos 
azuis 
pareciam 
penetrar 
na 
tela, 
olhando 
diretamente 
para 
a 
nossa 
sala 
de 
reunies. 
Gault 
no 
tingira 
os 
cabelos, 
que 
continuavam 
cor 
de 
cenoura, 
compridos 
e 
penteados 
para 
trs, 
a 
partir 
da 
testa 
e 
por 
trs 
das 
orelhas. 
Ele 
desabotoou 
a 
jaqueta 
e 
tirou 
uma 
pistola 
Glock 
nove-milmetros. 
Caminhou 
calmamente 
at 
a 
cabeceira 
da 
cama. 


Carrie 
apenas 
observava, 
enquanto 
Gault 
encostava 
o 
cano 
da 
pistola 
entre 
os 
olhos 
do 
xerife. 
Ela 
ps 
as 
mos 
nos 
olhos. 
Meu 
estmago 
se 
contraiu 
e 
eu 
fechei 
os 
punhos. 
Vimos 
Gault 
apertar 
o 
gatilho 
e 
a 
arma 
recuar, 
como 
que 
horrorizada 
com 
o 
que 
acabara 
de 
fazer. 
Continuamos 
em 
estado 
de 
choque 
quando 
cessaram 
os 
estertores 
e 
as 
contraes 
do 
xerife. 
Carrie 
saiu 
de 
cima 
do 
corpo 
do 
xerife. 


"Diabo", 
disse 
Gault, 
olhando 
para 
o 
prprio 
peito. 
"Me 
sujei." 


Ele 
tirou 
um 
leno 
do 
bolso 
de 
sua 
jaqueta 
e 
limpou 
o 
pescoo 
e 
a 
lapela. 


"No 
vai 
aparecer. 
Ainda 
bem 
que 
voc 
est 
de 
preto." 


"V 
se 
vestir", 
ordenou, 
como 
se 
a 
nudez 
de 
Carrie 
o 
incomodasse. 
Sua 
voz 
era 
adolescente 
e 
irregular, 
e 
ele 
falava 
sem 
veemncia. 


Gault 
foi 
ao 
p 
da 
cama 
e 
pegou 
a 
roupa 
escura. 


"E 
quanto 
ao 
relgio?" 
Ela 
olhou 
para 
a 
cama. 
" 
um 
Rolex. 
 
legtimo, 
baby, 
e 
de 
ouro. 
A 
pulseira 
tambm 
 
legtima." 


"V 
se 
vestir", 
disse 
Gault, 
asperamente. 


"No 
quero 
me 
sujar", 
comentou 
ela. 


Ela 
jogou 
o 
leno 
ensangentado 
no 
cho, 
no 
lugar 
onde 
o 
policial 
o 
encontraria 
mais 
tarde. 


"Depois 
traga 
as 
sacolas", 
ordenou 
ele. 


Gault 
parecia 
mexer 
nas 
roupas, 
enquanto 
as 
colocava 
na 
penteadeira, 
mas 
o 
ngulo 
da 
cmara 
nos 
impedia 
de 
ver 
com 
clareza. 
Carrie 
voltou 
com 
as 
sacolas. 


#
Eles 
arrumaram 
o 
corpo 
de 
Brown 
como 
se 
tudo 
tivesse 
sido 
cuidadosamente 
planejado. 
Vestiram-no 
com 
o 
pijama, 
no 
sabemos 
bem 
por 
qu. 
Espirrou 
sangue 
na 
blusa 
do 
pijama 
quando 
Gault 
enfiou 


o 
saco 
de 
lixo 
na 
cabea 
do 
xerife, 
amarrando-a 
com 
o 
cadaro 
do 
tnis 
que 
estava 
no 
banheiro. 
Tiraram 
o 
corpo 
da 
cama 
e 
colocaram-no 
na 
bolsa 
preta, 
Gault 
segurando 
Brown 
por 
baixo 
dos 
braos, 
e 
Carrie 
pegando-o 
pelos 
tornozelos. 
Ento 
eles 
o 
colocaram 
na 
bolsa 
e 
fecharam 
o 
zper. 
Vimo-
los 
carregar 
Brown 
para 
fora 
do 
quarto 
e 
ouvimos 
passos 
descendo 
as 
escadas. 
Minutos 
mais 
tarde, 
Carrie 
voltou, 
pegou 
as 
roupas 
e 
saiu. 
O 
quarto 
ficou 
vazio. 


Tucker 
falou, 
tenso: 
"Com 
certeza, 
no 
precisamos 
de 
mais 
provas. 
Aquelas 
luvas 
so 
do 
necrotrio?". 


"Muito 
provavelmente 
do 
furgo 
que 
eles 
roubaram", 
respondi. 
"A 
gente 
tem 
uma 
caixa 
de 
luvas 
em 
cada 
furgo." 


"Ainda 
no 
acabou", 
disse 
Marino. 


Ele 
comeou 
a 
adiantar 
a 
fita, 
passando 
rapidamente 
o 
quarto 
vazio 
at 
que 
apareceu 
algum. 
Marino 
voltou 
a 
fita 
e 
a 
figura 
saiu 
do 
quarto 
rapidamente, 
de 
costas. 


"Vejam 
o 
que 
acontece 
exatamente 
uma 
hora 
e 
onze 
minutos 
mais 
tarde." 
Ele 
acionou 
novamente 
o 
play. 


Carrie 
Grethen 
entrou 
no 
quarto 
vestida 
da 
mesma 
forma 
que 
Gault. 
No 
fosse 
o 
seu 
cabelo 
branco, 
eu 
acharia 
que 
era 
ele. 


"O 
qu? 
Ela 
vestiu 
a 
roupa 
dele?", 
perguntou 
Tucker, 
espantado. 


"No 
 
a 
roupa 
dele", 
corrigi. 
"Ela 
tem 
uma 
igual, 
mas 
no 
 
a 
que 
Gault 
estava 
usando." 


"Como 
voc 
sabe?", 
indagou 
Tucker. 


"H 
um 
leno 
no 
bolso. 
Ela 
pegou 
o 
leno 
de 
Gault 
para 
limpar 
o 
sangue 
da 
roupa 
dele. 
E 
se 
voc 
voltar 
a 
fita, 
vai 
notar 
que 
a 
jaqueta 
dele 
no 
tem 
abas 
nos 
bolsos 
e 
a 
dela 
tem." 


"Sim", 
assentiu 
Marino. 
" 
isso 
mesmo." 


Carrie 
olhou 
por 
todo 
o 
quarto, 
no 
cho, 
na 
cama, 
como 
se 


tivesse 
perdido 
alguma 
coisa. 
Ela 
parecia 
agitada 
e 
nervosa, 
e 
eu 
tinha 


#
certeza 
de 
que 
ela 
estava 
curtindo 
um 
bode 
de 
cocana. 
Procurou 
por 


mais 
um 
minuto, 
depois 
saiu. 


"Gostaria 
de 
saber 
o 
que 
ela 
estava 
procurando", 
disse 
Tucker. 


"Espere." 
Marino 
adiantou 
a 
fita 
e 
Carrie 
voltou. 
Ela 
procurou 
um 
pouco 
mais. 
Irritada, 
puxou 
os 
lenis 
da 
cama 
e 
olhou 
por 
baixo 
do 
travesseiro 
ensangentado. 
Ajoelhou-se 
no 
cho 
e 
procurou 
embaixo 
da 
cama. 
Cuspiu 
um 
monte 
de 
improprios, 
enquanto 
os 
olhos 
vasculhavam 
o 
quarto. 


"Vamos 
logo", 
ouvimos 
a 
voz 
impaciente 
de 
Gault, 
de 
algum 
lugar 
fora 
do 
quarto. 


Carrie 
olhou 
no 
espelho 
da 
penteadeira 
e 
alisou 
o 
cabelo. 
Por 
um 
momento 
fugaz, 
ela 
ficou 
bem 
de 
frente 
para 
a 
cmara 
e 
eu 
fiquei 
surpresa 
de 
ver 
como 
estava 
acabada. 
Eu 
a 
achava 
bonita, 
com 
seu 
corpo 
enxuto, 
formas 
perfeitas 
e 
longos 
cabelos 
castanhos. 
A 
pessoa 
que 
estava 
 
nossa 
frente 
agora 
era 
magra, 
olhos 
vidrados, 
cabelos 
brancos 
e 
speros. 
Ela 
abotoou 
a 
jaqueta 
e 
saiu. 


"O 
que 
voc 
conclui 
disso?", 
perguntou 
Tucker 
a 
Marino. 


"Eu 
no 
sei. 
J 
assisti 
 
fita 
uma 
dzia 
de 
vezes 
e 
no 
sei 
o 
que 
pensar." 


"Ela 
perdeu 
alguma 
coisa", 
disse 
Wesley. 
"Isso 
me 
parece 
bvio." 


"Talvez 
estivesse 
apenas 
dando 
uma 
ltima 
olhada", 
comentou 
Marino. 
"Para 
se 
certificar 
de 
que 
nada 
foi 
esquecido." 


"Como 
a 
cmara 
de 
vdeo", 
deduziu 
Tucker, 
obliquamente. 


"Carrie 
no 
estava 
preocupada 
com 
esquecer 
ou 
deixar 
de 
esquecer", 
disse 
Wesley. 
"Ela 
deixou 
o 
leno 
ensangentado 
de 
Gault 
no 
cho." 


"Mas 
ambos 
estavam 
usando 
luvas", 
falou 
Marino. 
"Eu 
diria 
que 
eles 
tiveram 
muito 
cuidado." 


"Algum 
dinheiro 
foi 
roubado 
da 
casa?", 
perguntou 
Wesley 
a 
Marino. 


"No 
sabemos 
quanto. 
Mas 
limparam 
a 
carteira 
de 
Brown. 
Provavelmente 
levaram 
tambm 
armas, 
drogas, 
dinheiro 
vivo." 


"Espere 
um 
minuto. 
O 
envelope!", 
exclamei. 


#
"Que 
envelope?", 
perguntou 
Tucker. 


"Eles 
no 
o 
colocaram 
no 
bolso 
do 
xerife. 
Ns 
os 
vimos 
vesti-lo 
e 
fechar 
o 
zper 
da 
bolsa, 
mas 
no 
vimos 
nenhum 
envelope. 
Rebobine 
a 
fita. 
Volte 
aquela 
parte, 
para 
ver 
se 
estou 
certa." 


Marino 
rebobinou 
a 
fita 
e 
passou 
o 
momento 
em 
que 
Gault 
e 
Carrie 
levavam 
o 
corpo 
de 
Brown 
para 
fora 
do 
quarto. 
Com 
toda 
a 
certeza, 
fecharam 
o 
zper 
sem 
que 
o 
bilhete 
rosa 
estivesse 
no 
bolso 
do 
pijama. 
Pensei 
nos 
bilhetes 
que 
eu 
recebera 
e 
em 
todos 
os 
problemas 
que 
Lucy 
estava 
tendo 
com 
o 
CAIN. 
O 
envelope 
fora 
endereado 
a 
mim 
e 
selado, 
como 
se 
tivessem 
a 
inteno 
de 
mand-lo 
pelo 
correio. 


"Pode 
ser 
isso 
que 
Carrie 
estava 
procurando", 
supus. 
"Talvez 
fosse 
ela 
quem 
me 
mandava 
as 
cartas. 
Pretendia 
me 
enviar 
aquela 
pelo 
correio, 
o 
que 
explica 
o 
fato 
de 
ela 
estar 
endereada 
e 
selada. 
Ento, 
sem 
que 
Carrie 
visse 
ou 
soubesse, 
Gault 
a 
ps 
no 
bolso 
do 
pijama 
de 
Brown." 


Wesley 
perguntou: 
"Por 
que 
Gault 
faria 
isso?". 


"Talvez 
porque 
ele 
sabia 
do 
efeito 
que 
isso 
teria 
sobre 
mim", 
respondi. 
"Eu 
iria 
v-lo 
no 
necrotrio 
e 
logo 
saberia 
que 
Brown 
tinha 
sido 
assassinado 
e 
que 
Gault 
estava 
envolvido 
no 
crime." 


"Mas 
pelo 
que 
voc 
est 
dizendo, 
conclui-se 
que 
Gault 
no 
 
CAIN 
e 
sim 
Carrie", 
disse 
Marino. 


Foi 
Lucy 
quem 
falou. 
"Nenhum 
dos 
dois 
 
CAIN. 
Eles 
so 
espies." 


Ficamos 
em 
silncio 
por 
um 
instante. 


"Obviamente", 
comentei, 
"Carrie 
continuou 
a 
ajudar 
Gault 
com 
o 
computador 
do 
FBI. 
Eles 
formam 
uma 
equipe. 
Mas 
acho 
que 
ele 
pegou 
o 
bilhete 
que 
ela 
escreveu 
para 
mim 
e 
no 
lhe 
falou 
nada. 
Acho 
que 
era 
isso 
que 
ela 
estava 
procurando." 


"Por 
que 
ela 
o 
iria 
procurar 
no 
quarto 
de 
Brown?", 
perguntou 
Tucker. 
"H 
algum 
motivo 
para 
isso?" 


"Com 
certeza", 
expliquei. 
"Ela 
tirou 
a 
roupa 
l. 
Talvez 
estivesse 
num 
de 
seus 
bolsos. 
Passe 
essa 
parte, 
Marino. 
Quando 
Gault 
tira 
a 
roupa 
preta 
da 
cama." 


Ele 
repetiu 
aquela 
parte 
e, 
embora 
no 
pudssemos 
ver 


#
claramente 
Gault 
tirar 
a 
carta 
do 
bolso 
de 
Carrie, 
dava 
para 
notar 
que 
ele 
mexia 
em 
sua 
roupa. 
Poderia 
muito 
bem 
ter 
tirado 
a 
carta 
naquela 
hora 
e 
depois 
colocado 
no 
bolso 
de 
Brown, 
na 
parte 
de 
trs 
do 
furgo, 
ou 
talvez 
no 
prprio 
necrotrio. 


"Quer 
dizer 
que 
voc 
acha 
mesmo 
que 
 
ela 
quem 
lhe 
envia 
aqueles 
bilhetes?", 
perguntou 
Marino, 
incrdulo. 


"Acho 
que 
 
provvel." 


"Mas 
por 
qu?", 
perguntou 
Tucker, 
sem 
entender. 
"Por 
que 
ela 
iria 
fazer 
isso 
com 
a 
senhora, 
doutora 
Scarpetta? 
A 
senhora 
a 
conhece?" 


"No", 
respondi. 
"S 
fui 
apresentada 
a 
ela, 
mas 
nosso 
ltimo 
encontro 
foi 
quase 
um 
confronto. 
E 
no 
me 
parece 
que 
esses 
bilhetes 
possam 
ter 
sido 
escritos 
por 
Gault. 
Nenhum 
deles." 


"Ela 
quer 
destruir 
voc", 
disse 
Wesley, 
calmamente. 
"Ela 
quer 
destruir 
tanto 
voc 
quanto 
Lucy." 


"Por 
qu?", 
perguntou 
Janet. 


"Porque 
Carrie 
Grethen 
 
uma 
psicopata", 
explicou 
Wesley. 
"Ela 
e 
Gault 
so 
almas 
gmeas. 
 
curioso 
que 
agora 
eles 
se 
vistam 
da 
mesma 
forma. 
Eles 
so 
parecidos." 


"No 
entendo 
o 
que 
ele 
fez 
com 
a 
carta", 
comentou 
Tucker. 
"Por 
que 
no 
pedir 
a 
Carrie, 
em 
vez 
de 
tir-la 
escondido?" 


"Voc 
est 
me 
pedindo 
que 
lhe 
explique 
como 
funciona 
a 
mente 
de 
Gault", 
disse 
Wesley. 


"Estou 
mesmo." 


"No 
sei 
o 
motivo." 


"Mas 
isso 
deve 
significar 
alguma 
coisa." 


"Sim", 
concordou 
Wesley. 


"O 
qu?", 
perguntou 
Tucker. 


"Significa 
que 
ela 
acha 
que 
tem 
uma 
relao 
afetiva 
com 
ele. 
Pensa 
que 
pode 
confiar 
nele, 
mas 
se 
engana. 
Isso 
quer 
dizer 
que 
ele, 
eventualmente, 
pode 
at 
mat-la", 
explicou 
Wesley, 
enquanto 
Marino 
acendia 
as 
luzes. 


Todo 
mundo 
piscou 
os 
olhos. 
Olhei 
para 
Lucy, 
que 
nada 
tinha 
a 
dizer, 
e 
percebi 
sua 
angstia 
por 
um 
pequeno 
detalhe: 
ela 
colocara 
os 


#
culos 
que 
s 
usava 
quando 
estava 
trabalhando 
no 
computador. 


"Obviamente, 
eles 
esto 
trabalhando 
em 
grupo", 
disse 
Marino. 


Janet 
falou 
novamente. 
"Quem 
 
o 
cabea?" 


"Gault", 
respondeu 
Marino. 
" 
por 
isso 
que 
era 
ele 
quem 
estava 
com 
a 
arma, 
enquanto 
ela 
chupava 
o 
cara." 


Tucker 
empurrou 
a 
cadeira 
para 
trs. 
"Eles 
conheciam 
Brown. 
No 
apareceram 
simplesmente 
em 
sua 
casa." 


"Brown 
teria 
reconhecido 
Gault?", 
perguntou 
Lucy. 


"Talvez 
no", 
disse 
Wesley. 


"Tenho 
a 
impresso 
de 
que 
ele 
 
ou 
ela 
 
travou 
contato 
com 
Brown 
para 
conseguir 
drogas." 


"O 
nmero 
de 
seu 
telefone 
no 
era 
divulgado, 
mas 
figurava 
na 
lista", 
comentei. 


"No 
havia 
nenhum 
recado 
importante 
na 
sua 
secretria 
eletrnica", 
acrescentou 
Marino. 


"Bem, 
eu 
gostaria 
de 
saber 
qual 
a 
ligao", 
disse 
Tucker. 
"Como 
os 
dois 
o 
conheceram?" 


"Eu 
diria 
que 
o 
motivo 
foram 
as 
drogas", 
falou 
Wesley. 
"Pode 
ser 
tambm 
que 
Gault 
tenha 
ficado 
interessado 
no 
xerife 
por 
causa 
da 
doutora 
Scarpetta. 
Brown 
matou 
uma 
pessoa 
na 
vspera 
de 
Natal, 
e 
a 
mdia 
deu 
uma 
extensa 
cobertura 
ao 
fato. 
No 
 
nenhum 
segredo 
que 
a 
doutora 
Scarpetta 
estava 
presente 
e 
que 
iria 
depor 
como 
testemunha. 
Na 
verdade, 
ela, 
por 
ironia 
do 
destino, 
faria 
parte 
do 
corpo 
de 
jurados, 
porque 
Brown 
a 
convocara." 


Pensei 
no 
que 
Anna 
Zenner 
me 
dissera, 
sobre 
Gault 
trazer 
presentes 
para 
mim. 


"E 
Gault 
estaria 
informado 
de 
tudo 
isso", 
Tucker 
tentava 
entender. 


"Possivelmente", 
respondeu 
Wesley. 
"Se 
descobrirmos 
onde 
ele 
mora, 
provavelmente 
vamos 
verificar 
que 
ele 
recebe 
o 
jornal 
de 
Richmond 
pelo 
correio." 


Tucker 
pensou 
um 
pouco, 
olhando 
para 
mim. 
"Ento 
quem 
matou 
o 
policial 
em 
Nova 
York? 
Ser 
que 
foi 
essa 
mulher 
de 
cabelo 


#
branco?" 


"No", 
respondi. 
"Ela 
no 
poderia 
t-lo 
matado 
daquela 
forma. 
A 
menos 
que 
seja 
faixa 
preta 
de 
carat." 


"Ser 
que 
eles 
agiram 
juntos 
naquela 
noite 
no 
tnel?", 
perguntou 
Tucker. 


"No 
sei 
se 
ela 
estava 
l", 
disse-lhe. 


"Bem, 
a 
senhora 
estava." 


"Sim. 
E 
vi 
uma 
pessoa." 


"De 
cabelo 
branco?" 


Pensei 
na 
figura 
iluminada 
na 
arcada. 
Lembrei 
do 
comprido 
casaco 
preto 
e 
do 
rosto 
plido. 
Eu 
no 
conseguira 
ver 
o 
cabelo. 


"Suponho 
que 
a 
pessoa 
que 
vi 
naquela 
noite 
era 
Gault", 
disse-
lhe. 
"No 
posso 
jurar. 
Mas 
nada 
indica 
que 
ele 
tinha 
um 
cmplice 
quando 
Jane 
foi 
morta." 


"Jane?", 
perguntou 
Tucker. 


Marino 
explicou: 
" 
assim 
que 
chamamos 
a 
moa 
que 
foi 
morta 
no 
Central 
Park". 


"Isso 
quer 
dizer 
que 
ele 
s 
iniciou 
sua 
parceria 
violenta 
com 
Carrie 
Grethen 
quando 
voltou 
para 
Virgnia, 
depois 
de 
Nova 
York." 
Tucker 
continuou 
tentando 
montar 
o 
quebra-cabea. 


"Na 
verdade, 
no 
sabemos", 
disse 
Wesley. 
"No 
se 
trata 
de 
uma 
cincia 
exata, 
Paul. 
Principalmente 
porque 
estamos 
lidando 
com 
gente 
violenta, 
com 
o 
crebro 
avariado 
pelas 
drogas. 
Quanto 
mais 
se 
descontrolam, 
mais 
estranho 
 
seu 
comportamento." 


O 
chefe 
da 
polcia 
inclinou-se 
para 
a 
frente, 
lanando-lhe 
um 
olhar 
duro. 
"Por 
favor, 
diga-me 
que 
diabos 
voc 
conclui 
de 
tudo 
isso." 


"Eles 
j 
se 
conheciam 
antes. 
Suponho 
que 
se 
conheceram 
numa 
loja 
na 
Virgnia", 
explicou 
Wesley. 
"Foi 
assim 
que 
o 
CAIN 
foi 
sabotado, 
ou 
melhor, 
est 
sendo 
sabotado. 
Agora 
parece 
que 
a 
relao 
deles 
mudou 
para 
um 
nvel 
diferente." 


"Sim", 
concordou 
Marino. 
"Bonnie 
encontrou 
Clyde." 


#
15 


Fomos 
para 
minha 
casa 
passando 
por 
ruas 
quase 
vazias. 
A 
noite 
estava 
perfeitamente 
silenciosa, 
a 
neve 
cobria 
a 
terra 
como 
algodo 
e 
absorvia 
os 
rudos. 
As 
rvores 
nuas 
contrastavam 
com 
o 
branco, 
e 
a 
lua 
mostrava 
uma 
face 
indistinta 
por 
trs 
do 
nevoeiro, 
eu 
queria 
dar 
um 
passeio 
a 
p, 
mas 
Wesley 
no 
quis 
me 
deixar. 


"E 
tarde 
e 
voc 
leve 
um 
dia 
muito 
traumtico", 
disse 
ele. 
Estvamos 
sentados 
no 
seu 
HMW, 
estacionado 
atrs 
do 
carro 
de 
Marino, 
em 
frente 
 
minha 
casa. 
"Voc 
no 
precisa 
ficar 
dando 
voltas 
por 
a." 


"Voc 
poderia 
ir 
comigo." 
Eu 
me 
sentia 
vulnervel 
e 
muito 
cansada, 
e 
no 
queria 
que 
ele 
fosse 
embora. 


"Nem 
eu 
nem 
voc 
precisamos 
ficar 
andando 
por 
a", 
falou, 
enquanto 
Marino, 
Janet 
e 
Lucy 
entravam 
em 
minha 
casa. 
"Voc 
precisa 
entrar 
e 
dormir 
um 
pouco." 


"O 
que 
 
que 
voc 
vai 
fazer?" 


"Eu 
tenho 
um 
quarto." 


"Onde?", 
perguntei, 
como 
se 
tivesse 
direito 
de 
saber. 


"Linden 
Row. 
No 
centro. 
V 
para 
a 
cama, 
Kay. 
Por 
favor." 
Ele 
fez 
uma 
pausa 
e 
ficou 
olhando 
o 
limpador 
de 
pra-brisa. 
"Eu 
gostaria 
de 
poder 
fazer 
mais, 
mas 
no 
posso." 


"Eu 
sei 
que 
voc 
no 
pode 
e 
no 
estou 
te 
pedindo. 
Claro 
que 
no 
pode, 
assim 
como 
eu 
tambm 
no 
poderia, 
se 
voc 
precisasse 
de 
consolo, 
de 
algum. 
 
nessas 
horas 
que 
eu 
odeio 
gostar 
de 
voc. 
Odeio 
tanto! 
At 
demais, 
quando 
preciso 
de 
voc. 
Como 
agora." 
Lutei 
contra 
mim 
mesma. 
"Ora, 
dane-se." 


Ele 
me 
envolveu 
com 
seus 
braos 
e 
secou 
minhas 
lgrimas. 
Tocou 
meu 
cabelo 
e 
tomou 
minha 
mo 
como 
se 
o 
fizesse 
de 
todo 
o 
corao. 
"Eu 
poderia 
te 
levar 
comigo 
ao 
centro, 
se 
 
isso 
que 
quer." 


Wesley 
sabia 
que 
eu 
no 
iria 
querer, 
porque 
seria 
impossvel. 
"No", 
respondi, 
com 
um 
suspiro 
profundo. 
"No, 
Benton." 


Sa 
ento 
de 
seu 
carro. 
Peguei 
um 
punhado 
de 
neve 
e 
a 
esfreguei 
em 
meu 
rosto, 
enquanto 
me 
dirigia 
 
porta 
da 
frente. 
Eu 
no 
queria 
que 


#
ningum 
soubesse 
que 
eu 
estivera 
chorando 
no 
escuro 
com 
Benton 
Wesley. 


Ele 
s 
foi 
embora 
quando 
me 
viu 
entrar 
em 
casa, 
ficando 
em 
companhia 
de 
Marino, 
Janet 
e 
Lucy. 
Tucker 
havia 
ordenado 
que 
a 
casa 
fosse 
vigiada 
dia 
e 
noite, 
e 
mesmo 
assim 
Marino 
estava 
de 
guarda. 
Ele 
no 
queria 
confiar 
nossa 
segurana 
a 
homens 
uniformizados, 
estacionados 
em 
algum 
lugar 
l 
fora, 
numa 
radiopatrulha 
ou 
num 
furgo. 
Ele 
nos 
arregimentou 
como 
se 
fssemos 
Boinas 
Verdes 
ou 
guerrilheiros. 


"Muito 
bem", 
disse 
ele, 
quando 
estvamos 
indo 
para 
a 
cozinha. 
"Sei 
que 
Lucy 
sabe 
atirar. 
Janet, 
tenho 
certeza 
de 
que, 
se 
voc 
se 
graduou 
pela 
Academia, 
atira 
ainda 
melhor." 


"Eu 
sabia 
atirar 
antes 
de 
entrar 
para 
a 
Academia", 
corrigiu 
ela, 
com 
o 
mesmo 
jeito 
quieto 
e 
imperturbvel 
de 
sempre. 


"Doutora?" 


Eu 
olhava 
para 
dentro 
da 
geladeira. 


"Posso 
fazer 
uma 
massa 
com 
um 
pouco 
de 
azeite, 
parmeso 
e 
cebola. 
Se 
algum 
quiser 
sanduche, 
tenho 
queijo 
tambm. 
E 
se 
vocs 
quiserem 
esperar, 
posso 
descongelar 
lepiccagge 
colpesto 
di 
ricotta 
ou 
tortellini 
verdi. 
Acho 
que 
d 
para 
ns 
quatro, 
se 
eu 
esquentar 
os 
dois." 


Ningum 
parecia 
se 
incomodar 
com 
aquilo, 
mas 
eu 
queria 
muito 
fazer 
alguma 
coisa 
normal. 


"Desculpem-me", 
continuei, 
desanimada. 
"No 
tenho 
feito 
compras 
ultimamente." 


"Quero 
saber 
onde 
voc 
guarda 
as 
armas, 
doutora", 
disse 
Marino. 


"Tenho 
roscas 
tambm." 


"Ei. 
Algum 
a 
est 
com 
fome?", 
perguntou 
Marino. 


Ningum 
estava. 
Fechei 
o 
freezer. 
As 
armas 
ficavam 
na 
garagem. 


"Venha", 
disse-lhe. 


Ele 
me 
seguiu 
e 
eu 
abri 
o 
cofre. 


"Voc 
pode 
me 
dizer 
o 
que 
est 
fazendo?", 
perguntei. 


"Estou 
pegando 
armas 
para 
ns", 
explicou 
ele, 
apanhando 
uma 


#
arma 
aps 
a 
outra. 
"Puxa, 
voc 
deve 
ser 
scia 
da 
Green 
Top", 
comentou, 
enquanto 
olhava 
para 
o 
meu 
cofre. 


Green 
Top 
era 
uma 
loja 
de 
armamentos 
que 
no 
vendia 
armas 
para 
delinqentes, 
s 
para 
cidados 
normais 
que 
gostavam 
de 
esportes 
e 
para 
segurana 
das 
casas. 
Lembrei 
Marino 
disso, 
embora 
no 
pudesse 
negar 
que, 
para 
os 
padres 
normais, 
eu 
possua 
armas 
e 
munies 
demais. 


"Eu 
no 
sabia 
que 
voc 
tinha 
tudo 
isso", 
continuou 
Marino, 
com 
metade 
do 
corpo 
dentro 
do 
cofre. 
"Quando 
diabos 
voc 
comprou 
tudo 
isso? 
Eu 
no 
estava 
com 
voc." 


"De 
vez 
em 
quando 
eu 
fao 
compras 
sozinha", 
disse-lhe 
asperamente. 
"Acredite 
ou 
no, 
sou 
perfeitamente 
capaz 
de 
fazer 
compras 
na 
mercearia, 
comprar 
roupas 
e 
armas 
sem 
a 
ajuda 
de 
ningum. 
Estou 
cansada, 
Marino. 
Vamos 
acabar 
logo 
com 
isso." 


"Onde 
esto 
as 
escopetas?" 


"O 
que 
 
que 
voc 
quer?" 


"O 
que 
voc 
tem?" 


"Remingtons. 
Uma 
Marine 
Magnum. 
Uma 
870 
Express 
Security. 
Eu 
s 
tenho 
isso. 
Voc 
quer 
que 
eu 
arrume 
uns 
explosivos 
plsticos?", 
perguntei. 
"Talvez 
consiga 
um 
lana-granadas." 


Ele 
tirou 
uma 
Glock 
nove-milmetros. 
"Quer 
dizer 
que 
voc 
esteve 
numa 
quermesse 
de 
material 
blico 
tambm." 


"Eu 
a 
usei 
no 
estande 
de 
tiro, 
para 
testes", 
disse-lhe. 
"Assim 
como 
a 
maioria 
dessas 
armas. 
Tenho 
vrios 
trabalhos 
para 
serem 
apresentados 
em 
palestras 
e 
encontros. 
Isso 
est 
me 
deixando 
louca. 
Voc 
no 
vai 
querer 
vasculhar 
o 
meu 
guarda-roupa 
em 
seguida, 
no 
?" 


Marino 
enfiou 
a 
Glock 
dentro 
das 
calas. 
"Vamos 
ver. 
Vou 
pegar 
tambm 
sua 
Smith 
& 
Wesson 
nove-milmetros 
inoxidvel 
e 
seu 
Colt. 
Janet 
gosta 
de 
Colts." 


Fechei 
a 
porta 
do 
cofre 
e 
girei 
raivosamente 
a 
tranca. 
Voltamos 
para 
dentro 
de 
casa 
e 
eu 
subi 
as 
escadas, 
porque 
no 
queria 
v-lo 
distribuindo 
armas 
e 
munies. 
No 
suportava 
a 
idia 
de 
ver 
Lucy 
l 
embaixo 
com 
uma 
escopeta, 
e 
me 
perguntava 
se 
alguma 
coisa 
seria 


#
capaz 
de 
deter 
Gault. 
Eu 
estava 
quase 
acreditando 
que 
ele 
era 
um 
morto-vivo, 
que 
nenhuma 
de 
nossas 
armas 
poderia 
det-lo. 


Em 
meu 
quarto, 
apaguei 
as 
luzes 
e 
fiquei 
diante 
da 
janela. 
Meu 
hlito 
se 
condensava 
na 
vidraa 
enquanto 
eu 
olhava 
para 
a 
noite 
iluminada 
pela 
neve. 
Lembrei-me 
de 
algumas 
ocasies 
em 
que 
eu 
estava 
em 
Richmond 
havia 
pouco 
tempo, 
e 
acordava 
para 
um 
mundo 
silencioso 
e 
branco 
como 
aquele. 
Muitas 
vezes, 
a 
cidade 
estava 
paralisada 
e 
eu 
no 
podia 
ir 
trabalhar. 
Lembrei-me 
de 
ter 
andado 
pelas 
vizinhanas, 
chutando 
a 
neve 
no 
ar 
e 
jogando 
bolas 
de 
neve 
nas 
rvores. 
E 
das 
crianas 
puxando 
trens 
pelas 
ruas. 


Enxuguei 
o 
vidro. 
Sentia-me 
triste 
demais 
para 
me 
animar 
a 
falar 
dos 
meus 
sentimentos 
com 
algum. 
Do 
outro 
lado 
da 
rua, 
as 
velas 
cio 
Natal 
brilhavam 
atravs 
das 
janelas 
de 
todas 
as 
casas, 
menos 
da 
minha. 
A 
rua 
estava 
iluminada, 
mas 
vazia. 
No 
passava 
nem 
um 
carro. 
Eu 
sabia 
que 
Marino 
ia 
dormir 
muito 
tarde, 
com 
sua 
equipe 
feminina 
da 
SWAT. 
Eles 
iam 
ficar 
decepcionados. 
Gault 
no 
viria. 
Eu 
estava 
comeando 
a 
aprender 
a 
adivinhar 
seus 
movimentos. 
O 
que 
Anna 
dissera 
sobre 
ele 
provavelmente 
estava 
certo. 


Na 
cama, 
li 
at 
cair 
no 
sono, 
e 
acordei 
s 
cinco. 
Devagar, 
desci 
as 
escadas, 
pensando 
que 
seria 
uma 
sorte 
ser 
morta 
com 
um 
tiro 
dentro 
de 
minha 
prpria 
casa. 
Mas 
a 
porta 
do 
quarto 
de 
hspede 
estava 
fechada, 
e 
Marino 
roncava 
no 
sof. 
Esgueirei-me 
at 
a 
garagem 
e 
tirei 
meu 
Mercedes 
da 
garagem. 
Ele 
andava 
maravilhosamente 
bem 
na 
neve 
macia 
e 
seca. 
Senti-me 
como 
um 
pssaro, 
e 
fugi. 


Ia 
dirigindo 
em 
velocidade 
pela 
rua 
Cary, 
e 
achava 
graa 
quando 
os 
pneus 
deslizavam. 
No 
havia 
ningum 
nas 
mas. 
Pus 
o 
carro 
em 
marcha 
lenta 
e 
fui 
avanando 
feito 
um 
limpa-neve 
pelas 
dunas 
do 
estacionamento 
do 
supermercado 
International 
Safeway. 
A 
parte 
de 
mercearia 
ficava 
sempre 
aberta, 
e 
entrei 
para 
comprar 
suco 
de 
laranja, 
queijo 
cremoso, 
bacon 
e 
ovos. 
Eu 
estava 
de 
chapu 
e 
ningum 
prestou 
ateno 
em 
mim. 


Quando 
voltei 
ao 
carro, 
eu 
me 
sentia 
mais 
feliz 
do 
que 
estivera 
em 
todos 
aqueles 
dias. 
Cantei 
com 
o 
rdio 
durante 
todo 
o 
caminho 
de 


#
volta, 
e 
fazia 
os 
pneus 
deslizarem 
quando 
havia 
condies 
seguras. 
Entrei 
na 
garagem, 
e 
l 
estava 
Marino, 
com 
sua 
escopeta 
Benelli. 


"Que 
diabo 
voc 
pensa 
que 
est 
fazendo?!", 
exclamou 
ele, 
enquanto 
eu 
fechava 
a 
garagem. 


"Fui 
fazer 
compras." 
Aquilo 
foi 
gua 
na 
fervura. 


"Jesus 
Cristo! 
No 
consigo 
acreditar 
que 
voc 
fez 
isso", 
berrou 
ele. 


"Est 
pensando 
que 
isso 
aqui 
 
o 
qu?", 
perguntei, 
nervosa. 
"Pensa 
que 
sou 
Patty 
Hearst? 
Agora 
estou 
seqestrada? 
Voc 
acha 
que 
devo 
ficar 
trancada 
no 
banheiro?" 


"Entre 
em 
casa." 
Marino 
estava 
muito 
abalado. 


Lancei-lhe 
um 
olhar 
frio. 
"Esta 
casa 
 
minha. 
No 
sua. 
Nem 
de 
Tucker, 
nem 
de 
Benton. 
Que 
diabo, 
a 
casa 
 
minha. 
E 
s 
entro 
nela 
quando 
me 
der 
vontade." 


"Est 
bem. 
E 
voc 
pode 
morrer 
nela, 
como 
pode 
morrer 
em 
qualquer 
outro 
lugar." 


Segui-o 
at 
a 
cozinha. 
Tirei 
as 
mercadorias 
da 
sacola 
de 
compras 
e 
coloquei-as 
no 
balco. 
Quebrei 
ovos 
numa 
tigela 
e 
joguei 
as 
cascas 
no 
triturador. 
Preparei 
apressadamente 
uma 
omelete 
com 
cebola 
e 
queijo 
fontina. 
Fiz 
um 
caf 
e 
praguejei, 
porque 
esquecera 
de 
comprar 
Cremora 
magro. 
Cortei 
quadradinhos 
de 
papel-toalha, 
pois 
tambm 
no 
tinha 
guardanapos. 


"Voc 
podia 
pr 
a 
mesa 
na 
sala 
e 
ligar 
a 
lareira", 
disse 
a 
Marino, 
polvilhando 
pimenta 
nos 
ovos 
espumantes. 


"A 
lareira 
est 
acesa 
desde 
a 
noite 
passada." 


"Lucy 
e 
Janet 
esto 
acordadas?" 
Eu 
comeava 
a 
me 
sentir 
melhor. 


"No 
sei." 


Espalhei 
um 
pouco 
de 
azeite 
na 
frigideira. 
"Ento 
v 
bater 
na 
porta 
do 
quarto 
delas." 


"Elas 
esto 
na 
mesma 
cama", 
comentou. 


"Pelo 
amor 
de 
Deus, 
Marino." 
Voltei-me 
e 
olhei 
para 
ele, 
exasperada. 


#
Tomamos 
caf 
s 
sete 
e 
meia 
e 
lemos 
o 
jornal, 
que 
estava 
mido. 


"O 
que 
voc 
vai 
fazer 
hoje?", 
perguntou-me 
Lucy 
como 
se 
estivssemos 
todos 
em 
frias, 
talvez 
num 
maravilhoso 
recanto 
nos 
Alpes. 


Ela 
vestia 
o 
mesmo 
uniforme, 
e 
estava 
sentada 
numa 
otomana 
na 
frente 
da 
lareira. 
A 
Remington 
niquelada 
estava 
perto, 
no 
cho, 
carregada 
com 
sete 
cartuchos. 


"Tenho 
que 
fazer 
algumas 
coisas 
e 
dar 
uns 
telefonemas", 
respondi. 


Marino 
estava 
de 
jeans 
e 
suter. 
Ele 
me 
olhava 
desconfiado, 
enquanto 
sorvia 
o 
caf. 


Meu 
olhar 
cruzou 
o 
seu. 
"Vou 
ao 
centro 
da 
cidade." 


"Benton 
j 
foi 
embora", 
disse 
ele. 


Senti 
minhas 
faces 
se 
afoguearem. 


"Tentei 
falar 
com 
ele 
ao 
telefone, 
mas 
ele 
j 
tinha 
ido 
embora 
do 
hotel." 
Marino 
olhou 
para 
o 
relgio. 
"Isso 
deve 
ter 
sido 
h 
umas 
duas 
horas, 
l 
pelas 
seis." 


"Quando 
eu 
falei 
que 
ia 
ao 
centro", 
disse-lhe, 
calmamente, 
"estava 
me 
referindo 
ao 
meu 
escritrio." 


"O 
que 
a 
senhora 
precisa 
fazer, 
doutora, 
 
ir 
para 
Quantico 
e 
ficar 
em 
seu 
andar 
de 
segurana 
por 
um 
tempo. 
Estou 
falando 
srio. 
Pelo 
menos 
durante 
o 
fim 
de 
semana." 


"Concordo. 
Mas 
antes 
preciso 
cuidar 
de 
alguns 
assuntos 
por 
aqui." 


"Ento 
leve 
Lucy 
e 
Janet 
com 
voc." 


Lucy 
estava 
olhando 
as 
portas 
corredias 
envidraadas, 
e 
Janet 


continuava 
lendo 
o 
jornal. 
"No. 
Elas 
podem 
ficar 
aqui 
enquanto 
ns 
vamos 
para 
Quantico." 
"No 
 
uma 
boa 
idia." 
"Marino, 
a 
menos 
que 
eu 
esteja 
detida 
por 
algum 
motivo 
que 


desconheo, 
vou 
sair 
daqui 
dentro 
de 
no 
mximo 
meia 
hora 
e 
vou 
ao 
meu 
escritrio. 
E 
sozinha." 


#
Janet 
baixou 
o 
jornal 
e 
disse 
a 
Marino: 
"Chega 
uma 
hora 
em 
que 
a 
gente 
tem 
que 
tocar 
a 
vida 
pra 
frente". 


"Trata-se 
de 
uma 
questo 
de 
segurana", 
retrucou 
Marino. 


A 
expresso 
de 
Janet 
no 
se 
alterou. 
"No, 
no 
. 
A 
questo 
 
que 
voc 
est 
agindo 
como 
um 
homem." 


Marino 
ficou 
atnito. 


"Voc 
est 
sendo 
superprotetor", 
acrescentou 
ela, 
ponderadamente. 
"E 
quer 
estar 
 
frente 
de 
tudo 
e 
controlar 
tudo." 


Marino 
pareceu 
no 
se 
irritar, 
pois 
ela 
falava 
macio. 
"Voc 
tem 
uma 
idia 
melhor?", 
perguntou 
ele. 


"A 
doutora 
Scarpetta 
pode 
cuidar 
de 
si 
mesma. 
Mas 
ela 
no 
devia 
ficar 
sozinha 
nesta 
casa 
 
noite." 


. 
"Ele 
no 
vir 
aqui", 
disse-lhe. 


Janet 
levantou-se 
e 
se 
espreguiou. 
"Provavelmente 
no, 
mas 
Carrie 
sim." 


Lucy 
voltou-se 
e 
se 
afastou 
da 
porta 
envidraada. 
L 
fora, 
a 
manh 
ofuscava, 
e 
gotas 
caam 
dos 
beirais. 


"Por 
que 
no 
posso 
ir 
ao 
escritrio 
com 
voc?", 
quis 
saber 
minha 
sobrinha. 


"No 
h 
nada 
para 
voc 
fazer 
l", 
respondi. 
"Voc 
ia 
se 
aborrecer." 


"Posso 
trabalhar 
no 
computador." 


Mais 
tarde, 
acabei 
cedendo, 
e 
levei 
Lucy 
e 
Janet 
comigo 
ao 
escritrio, 
deixando-as 
na 
sala 
de 
Fielding, 
meu 
assistente. 
s 
onze 
da 
manh, 
as 
ruas 
estavam 
enlameadas 
na 
auto-estrada, 
e 
o 
comrcio 
comeava 
a 
abrir, 
atrasado. 
Vestida 
com 
um 
casaco 
comprido 
e 
botas 
impermeveis, 
esperei 
numa 
calada 
para 
cruzar 
a 
rua 
Franklin. 
O 
pessoal 
do 
departamento 
de 
estradas 
espalhava 
sal 
nas 
ruas, 
e 
o 
trnsito 
estava 
bem 
fraco 
naquela 
sexta-feira, 
antevspera 
de 
Ano-Novo. 


A 
galeria 
James 
ocupava 
o 
andar 
superior 
de 
um 
antigo 
depsito 
de 
tabaco, 
prximo 
da 
Laura 
Ashley 
e 
de 
uma 
loja 
de 
discos. 
Entrei 
em 
uma 
porta 
lateral, 
passei 
por 
um 
corredor 
sombrio 
e 
peguei 
um 
elevador 
pequeno 
demais 
para 
trs 
pessoas 
do 
meu 
porte. 
Apertei 
o 
boto 
do 


#
terceiro 
andar, 
e 
logo 
o 
elevador 
se 
abriu 
para 
um 
outro 
corredor 
mal 
iluminado, 
que 
levava 
a 
portas 
de 
vidro 
com 
o 
nome 
da 
galeria 
pintado 
com 
letras 
manuscritas 
pretas. 


James 
abriu 
a 
galeria 
depois 
de 
se 
mudar 
de 
Nova 
York 
para 
Richmond. 
Certa 
vez, 
eu 
comprara 
dele 
uma 
gravura 
e 
o 
entalhe 
de 
um 
pssaro, 
e 
o 
espelho 
trabalhado 
que 
eu 
tinha 
na 
sala 
de 
estar 
tambm 
fora 
adquirido 
l. 
Havia 
parado 
de 
comprar 
na 
James 
havia 
um 
ano, 
quando 
um 
artista 
local 
apareceu 
com 
aventais 
de 
laboratrio 
com 
estampas 
em 
minha 
homenagem. 
Elas 
incluam 
sangue 
e 
ossos, 
cartuns 
e 
cenas 
de 
crime, 
e 
quando 
eu 
pedi 
a 
James 
que 
no 
os 
comprasse, 
ele 
aumentou 
as 
encomendas. 


Avistei-o 
por 
trs 
de 
um 
mostrurio, 
arrumando 
o 
que 
pareciam 
ser 
braceletes. 
Ao 
ouvir 
tocar 
a 
campainha, 
ele 
se 
virou 
para 
mim 
e 
balanou 
a 
cabea, 
indicando 
que 
no 
estava 
aberto. 
Tirei 
o 
chapu 
e 
os 
culos 
escuros, 
e 
bati 
no 
vidro. 
Ele 
olhou 
inexpressivamente 
at 
que 
tirei 
minhas 
credenciais 
e 
lhe 
mostrei 
meu 
distintivo. 


James 
ficou 
surpreso, 
depois 
que 
me 
reconheceu. 
Ele, 
que 
insistia 
em 
ser 
chamado 
de 
James 
porque 
seu 
primeiro 
nome 
era 
Elmer, 
veio 
at 
a 
porta. 
Deu 
mais 
uma 
olhada 
no 
meu 
rosto 
e 
os 
sinos 
chocalharam 
contra 
o 
vidro, 
enquanto 
ele 
girava 
a 
chave. 


"O 
que 
 
que 
voc 
quer?", 
disse 
ele, 
deixando-me 
passar. 


"Precisamos 
conversar", 
respondi, 
abrindo 
meu 
casaco. 


"Estou 
sem 
nenhum 
avental 
de 
laboratrio." 


"Fico 
contente 
com 
isso." 


"Eu 
tambm", 
disse, 
em 
seu 
tom 
banal. 
"Foram 
todos 
vendidos 
no 
Natal. 
Vendi 
mais 
desses 
aventais 
de 
laboratrio 
bobos 
do 
que 
qualquer 
outra 
coisa 
na 
galeria. 
Agora 
estamos 
pensando 
em 
aventais 
do 
mesmo 
tipo 
que 
vocs 
usam 
quando 
esto 
fazendo 
autpsias, 
s 
que 
com 
estampas 
em 
silk-screen." 


"Vocs 
no 
esto 
sendo 
desrespeitosos 
comigo, 
e 
sim 
com 
os 
defuntos. 
Vocs 
nunca 
vo 
ser 
eu, 
mas 
um 
dia 
sero 
defuntos. 
Talvez 
devesse 
pensar 
nisso." 


"O 
seu 
problema 
 
que 
voc 
no 
tem 
senso 
de 
humor." 


#
"No 
vim 
aqui 
para 
saber 
que 
problemas 
voc 
acha 
que 
eu 
tenho", 
disse-lhe, 
calmamente. 


Ele 
era 
um 
homem 
alto 
e 
ladino, 
de 
cabelos 
curtos 
e 
bigodes 
grisalhos, 
que 
se 
especializara 
em 
pinturas 
minimal, 
bronzes 
e 
mobilirio, 
pedrarias 
exticas 
e 
caleidoscpios. 
Tinha 
certa 
inclinao 
pelo 
bizarro, 
e 
costumava 
cobrar 
caro. 
Tratava 
os 
fregueses 
como 
se 
eles 
tivessem 
sorte 
de 
estarem 
gastando 
dinheiro 
em 
sua 
galeria. 
Eu 
me 
perguntava 
se 
James 
tratava 
alguma 
pessoa 
bem. 


"O 
que 
voc 
est 
fazendo 
aqui?", 
perguntou-me 
ele. 
"Eu 
soube 
do 
que 
aconteceu 
a 
perto, 
no 
seu 
trabalho." 


"Sei 
disso. 
No 
consigo 
imaginar 
como 
algum 
poderia 
ignorar 
tal 
fato." 


" 
verdade 
que 
um 
dos 
policiais 
foi 
colocado..." 


Lancei-lhe 
um 
olhar 
duro. 


Ele 
deu 
a 
volta 
e 
ficou 
por 
trs 
do 
balco. 
Pude 
ver 
que 
ele 
estivera 
amarrando 
pequenas 
etiquetas 
de 
preos 
em 
pulseiras 
de 
ouro 
e 
prata, 
trabalhadas 
para 
darem 
a 
impresso 
de 
serpentes, 
argolinhas 
de 
latas 
de 
soda, 
cabelos 
tranados 
e 
at 
algemas. 


"Essas 
so 
especiais, 
no?", 
sorriu 
ele. 


"So 
diferentes." 


"Esta 
 
minha 
favorita." 
Ele 
pegou 
uma 
delas. 
Era 
uma 
correntinha 
composta 
de 
mos 
de 
ouro. 


"H 
alguns 
dias 
algum 
entrou 
nesta 
galeria 
e 
usou 
o 
meu 
carto 
de 
crdito", 
disse-lhe. 


"Sim. 
Seu 
filho." 
Ele 
recolocou 
a 
jia 
na 
bandeja. 


"Meu 
o 
qu?" 


Ele 
olhou 
para 
mim. 
"Seu 
filho. 
Deixe-me 
ver. 
Acho 
que 
o 
nome 
dele 
 
Kirk." 


"No 
tenho 
um 
filho", 
disse-lhe. 
"No 
tenho 
filhos. 
O 
meu 
American 
Express 
foi 
roubado 
h 
meses." 


James 
ralhou 
comigo: 
"Bem, 
por 
que 
diabos 
voc 
no 
o 
cancelou?". 


"S 
descobri 
que 
fora 
roubado 
h 
pouco 
tempo. 
E 
no 
vim 
aqui 


#
para 
falar 
disso. 
Quero 
que 
me 
diga 
exatamente 
o 
que 
aconteceu." 


James 
puxou 
uma 
cadeira 
e 
sentou-se. 
No 
me 
ofereceu 
outra 
cadeira. 
"Ele 
veio 
na 
sexta-feira 
antes 
cio 
Natal", 
disse 
ele. 
"Acho 
que 
l 
pelas 
quatro 
da 
tarde." 


"Era 
um 
homem?" 


Ele 
me 
deu 
um 
olhar 
aborrecido. 
"Eu 
sei 
a 
diferena. 
Sim, 
era 
um 
homem." 


"Por 
favor, 
descreva-o." 


"Um 
metro 
e 
setenta 
e 
cinco, 
magro, 
rosto 
anguloso. 
Seu 
rosto 
era 
um 
pouco 
chupado. 
Mas 
ele 
me 
impressionou." 


"E 
o 
cabelo?" 


"Ele 
usava 
um 
bon 
de 
beisebol, 
por 
isso 
no 
cheguei 
a 
ver 
direito. 
Mas 
tive 
a 
impresso 
de 
que 
era 
vermelho. 
Um 
vermelho 
tipo 
Raggedy 
Andy.8* 
No 
sei 
quem 
fez 
aquilo 
nele, 
mas 
acho 
que 
devia 
ser 
processado 
por 
impercia." 


"E 
os 
olhos?" 


"Ele 
estava 
usando 
culos 
escuros. 
Tipo 
Armani." 
James 
parecia 
se 
divertir. 
"Fiquei 
to 
surpreso 
em 
ver 
que 
voc 
tinha 
um 
filho 
assim. 
Imaginava 
que 
seu 
filho 
usaria 
caqui, 
gravatinhas 
finas 
e 
iria 
estudar 
no 
MIT..." 


"James, 
essa 
conversa 
no 
tem 
nada 
de 
leviano", 
gritei, 
abruptamente. 


Seus 
olhos 
se 
arregalaram 
quando 
o 
sentido 
ficou 
claro 
para 
ele. 
"Oh, 
meu 
Deus. 
O 
homem 
sobre 
o 
qual 
andei 
lendo? 
O 
homem 
que... 
meu 
Deus. 
Ele 
esteve 
na 
minha 
galeria?" 


No 
falei 
nada. 


Ele 
estava 
pasmo. 
"Voc 
sabe 
o 
que 
vai 
acontecer", 
continuou 
ele, 
"quando 
as 
pessoas 
souberem 
que 
ele 
fez 
compras 
aqui?" 


Continuei 
calada. 


"Vai 
ser 
fabuloso 
para 
o 
meu 
negcio! 
Vai 
vir 
gente 
de 
todo 
lugar. 
Minha 
galeria 
vai 
fazer 
parte 
de 
todos 
os 
roteiros 
tursticos." 


8 Boneco 
de 
trapo 
americano, 
de 
cabelo 
vermelho 
e 
rosto 
manchado. 
(N. 
T.) 


#
"Tem 
razo. 
Faa 
propaganda 
disso", 
comentei. 
"E 
desequilibrados 
de 
toda 
parte 
viro 
fazer 
fila 
aqui. 
Eles 
vo 
pr 
a 
mo 
em 
seus 
quadros 
caros, 
bronzes, 
tapetes, 
e 
no 
vo 
comprar 
coisa 
nenhuma." 


Ele 
perdeu 
o 
entusiasmo. 


"Quando 
ele 
entrou", 
continuei, 
"o 
que 
ele 
fez?" 


"Deu 
uma 
olhada 
na 
loja. 
Disse 
que 
estava 
procurando 
um 
presente 
de 
ltima 
hora." 


"Como 
era 
a 
voz 
dele?" 


"Calma. 
Um 
pouco 
aguda. 
Perguntei 
para 
quem 
era 
o 
presente 
e 
ele 
respondeu 
que 
era 
para 
sua 
me. 
Disse 
que 
ela 
era 
mdica. 
Ento, 
quando 
lhe 
mostrei 
o 
broche, 
ele 
terminou 
comprando-o. 
Era 
um 
caduceu. 
Duas 
serpentes 
de 
ouro 
branco 
enroscadas 
num 
basto 
alado, 
de 
ouro 
amarelo. 
As 
serpentes 
tinham 
olhos 
de 
rubi. 
 
feito 
 
mo. 
Simplesmente 
espetacular." 


" 
o 
que 
ele 
comprou 
por 
duzentos 
e 
cinqenta 
dlares?", 
perguntei. 


"Sim." 
Ele 
ficou 
me 
observando, 
os 
dedos 
dobrados 
sob 
o 
queixo. 
"O 
broche 
 
a 
sua 
cara. 
 
realmente 
a 
sua 
cara. 
Voc 
no 
quer 
que 
eu 
encomende 
outro 
ao 
artista?" 


"O 
que 
aconteceu 
depois 
que 
ele 
comprou 
o 
broche?" 


"Perguntei 
se 
ele 
queria 
que 
embrulhasse 
para 
presente, 
e 
ele 
no 
quis. 
Apresentou 
o 
carto 
de 
crdito, 
e 
eu 
disse: 
'Ora, 
ora, 
como 
o 
mundo 
 
pequeno. 
Sua 
me 
trabalha 
bem 
perto 
daqui, 
dobrando 
a 
esquina'. 
Ele 
no 
falou 
nada. 
Ento 
lhe 
perguntei 
se 
ele 
tinha 
vindo 
de 
frias, 
e 
ele 
sorriu." 


"Ele 
no 
disse 
nada?", 
indaguei. 


"Nadinha. 
Era 
como 
tirar 
leite 
de 
pedra. 
No 
digo 
que 
ele 
fosse 
amistoso. 
Mas 
era 
educado." 


"Voc 
se 
lembra 
de 
como 
ele 
estava 
vestido?" 


"Um 
casaco 
de 
couro 
preto 
comprido. 
Usava 
tambm 
um 
cinto, 
por 
isso 
no 
sei 
o 
que 
ele 
trazia 
por 
baixo. 
Pareceu-me 
ser 
muito 
astuto." 


#
"E 
os 
sapatos?" 


"Acho 
que 
eram 
botas." 


"Voc 
notou 
mais 
alguma 
coisa 
nele?" 


Ele 
pensou 
um 
pouco, 
olhando 
para 
a 
porta 
atrs 
de 
mim. 
"Agora 
que 
voc 
falou 
nisso", 
respondeu 
ele, 
"estou 
lembrando 
que 
seus 
dedos 
pareciam 
um 
pouco 
queimados. 
Aquilo 
me 
deixou 
um 
pouco 
assustado." 


"E 
quanto 
 
higiene?", 
perguntei 
ento, 
pois 
quanto 
mais 
a 
pessoa 
se 
vicia 
em 
drogas, 
menos 
cuidado 
tem 
com 
a 
higiene 
pessoal 
e 
com 
as 
prprias 
roupas. 


"Ele 
me 
pareceu 
limpo. 
Mas, 
pra 
falar 
a 
verdade, 
no 
cheguei 
perto 
dele." 


"E 
ele 
no 
comprou 
mais 
nada 
enquanto 
ficou 
aqui?" 


"Infelizmente 
no." 


Elmer 
James 
apoiou 
um 
cotovelo 
no 
mostrurio 
e 
descansou 
o 
queixo 
no 
punho. 
Suspirou. 
"S 
queria 
saber 
como 
ele 
me 
achou." 
Peguei 
o 
caminho 
de 
volta, 
evitando 
as 
poas 
de 
lama 
e 
os 
carros, 
que 
passavam 
por 
elas 
sem 
ligar 
a 
mnima. 
Um 
deles 
respingou 
lama 
em 
mim. 
Voltei 
para 
meu 
escritrio. 
Janet 
assistia 
a 
um 
videoteipe 
didtico 
de 
uma 
autpsia 
e 
Lucy 
trabalhava 
na 
sala 
dos 
computadores. 
Deixei-
as 
em 
paz 
e 
fui 
ao 
necrotrio 
ver 
como 
estava 
a 
minha 
equipe. 


Fielding 
trabalhava, 
na 
primeira 
mesa, 
o 
corpo 
de 
uma 
jovem 
encontrada 
morta 
na 
neve, 
sob 
a 
janela 
de 
seu 
quarto. 
Notei 
que 
seu 
corpo 
estava 
rseo 
e 
senti 
cheiro 
de 
lcool 
no 
sangue. 
Seu 
brao 
direito 
estava 
engessado, 
e 
o 
gesso 
coberto 
de 
mensagens 
e 
assinaturas. 


"Como 
vai 
isso?", 
perguntei. 


"O 
exame 
revelou 
vinte 
e 
trs 
graus 
de 
lcool", 
respondeu 
ele, 
enquanto 
examinava 
uma 
seo 
da 
aorta. 
"Logo, 
no 
foi 
 
lcool 
que 
a 
matou. 
Acho 
que 
ela 
morreu 
de 
frio." 


"Em 
que 
circunstncias?" 
No 
pude 
deixar 
de 
pensar 
em 
Jane. 


"Ao 
que 
parece, 
ela 
estava 
bebendo 
com 
os 
amigos 
e 
quando 
eles 
a 
levaram 
para 
casa, 
l 
pelas 
onze 
da 
noite, 
nevava 
forte. 
Eles 
a 
deixaram 
na 
porta 
de 
casa 
e 
no 
esperaram 
que 
ela 
entrasse. 
A 
polcia 


#
supe 
que 
suas 
chaves 
caram 
na 
neve 
e 
ela 
estava 
bbada 
demais 
para 
encontr-las." 


Ele 
colocou 
a 
seo 
da 
aorta 
num 
frasco 
de 
formalina. 
"A 
ela 
tentou 
entrar 
por 
uma 
janela 
quebrando 
a 
vidraa 
com 
o 
gesso." 


Fielding 
tirou 
o 
crebro 
da 
balana. 
"Mas 
no 
conseguiu. 
A 
janela 
era 
muito 
alta 
e, 
de 
qualquer 
forma, 
ela 
no 
conseguiria 
subir 
usando 
apenas 
um 
brao. 
Finalmente 
ela 
morreu." 


"Belos 
amigos", 
comentei, 
enquanto 
me 
afastava. 


Dra. 
Anderson, 
que 
era 
nova, 
estava 
fotografando 
uma 
mulher 
de 
noventa 
anos 
com 
uma 
fratura 
na 
bacia. 
Peguei 
os 
relatrios 
de 
uma 
escrivaninha 
e 
me 
inteirei 
rapidamente 
do 
caso. 


" 
um 
caso 
de 
autpsia?", 
perguntei. 


"Sim", 
respondeu 
ela. 


"Por 
qu?" 


Ela 
interrompeu 
o 
que 
fazia 
e 
me 
olhou 
atravs 
da 
mscara. 
Pela 
expresso 
de 
seus 
olhos, 
percebi 
que 
estava 
intimidada. 
"A 
fratura 
aconteceu 
h 
duas 
semanas. 
A 
legista 
de 
Albemarle 
achou 
que 
ela 
pode 
ter 
morrido 
em 
decorrncia 
do 
acidente." 


"Quais 
as 
circunstncias 
de 
sua 
morte?" 


"Ela 
apresentava 
hemorragia 
pleural 
e 
insuficincia 
respiratria." 


"No 
vejo 
nenhuma 
relao 
entre 
isso 
e 
a 
fratura 
da 
bacia", 
disse-lhe. 


A 
dra. 
Anderson 
apoiou 
as 
mos 
enluvadas 
na 
borda 
da 
mesa 
de 
ao. 


"Um 
ato 
de 
Deus 
pode 
levar 
algum 
tempo 
para 
se 
consumar", 
continuei. 
"Pode 
liberar 
o 
corpo. 
No 
se 
trata 
de 
um 
caso 
para 
autpsia." 


"Doutora 
Scarpetta", 
disse 
Fielding, 
elevando 
a 
voz 
por 
causa 
do 
chiado 
da 
serra 
Stiyker, 
"a 
senhora 
est 
informada 
de 
que 
o 
encontro 
sobre 
transplante 
vai 
ser 
na 
quinta-feira?" 


"Vou 
ter 
que 
prestar 
depoimentos." 
Voltei-me 
para 
a 
dra. 
Anderson. 
"Voc 
vai 
comparecer 
ao 
tribunal 
na 
quinta?" 


"Bem, 
a 
coisa 
continua. 
Continuo 
a 
receber 
ultimaes, 
mesmo 


#
tendo 
testemunhado." 


"Pea 
a 
Rose 
que 
d 
um 
jeito 
nisso. 
Se 
voc 
estiver 
livre 
e 
no 
tivermos 
a 
casa 
cheia 
na 
quinta, 
pode 
ir 
com 
Fielding 
ao 
encontro." 


Inspecionei 
depsitos 
e 
armrios, 
para 
saber 
se 
tinham 
sumido 
outras 
caixas 
de 
luvas. 
Mas 
ao 
que 
parecia, 
Gault 
havia 
levado 
apenas 
as 
que 
estavam 
no 
furgo. 
Fiquei 
imaginando 
que 
outras 
coisas 
ele 
poderia 
ter 
encontrado 
em 
meu 
escritrio, 
e 
me 
enchi 
de 
pensamentos 
sombrios. 


Fui 
diretamente 
ao 
meu 
escritrio 
sem 
falar 
com 
ningum 
pelo 
caminho, 
e 
abri 
um 
armrio 
que 
ficava 
sob 
o 
microscpio. 
L 
eu 
tinha 
colocado 
um 
belo 
estojo 
de 
facas 
para 
dissecao 
que 
Lucy 
me 
dera 
de 
presente 
de 
Natal. 
Alems, 
de 
ao 
inoxidvel 
e 
com 
cabos 
leves, 
elas 
eram 
caras 
e 
incrivelmente 
afiadas. 
Afastei 
fichrios, 
slides, 
jornais, 
lmpadas 
de 
microscpio 
e 
pilhas 
e 
resmas 
de 
papel 
para 
impresso. 
As 
facas 
tinham 
sumido. 


Rose 
estava 
ao 
telefone 
no 
escritrio 
contguo 
ao 
meu. 
Entrei 
e 
fiquei 
do 
lado 
de 
sua 
escrivaninha. 


"Mas 
vocs 
j 
tm 
o 
depoimento 
dela", 
dizia 
ela. 
"No 
precisam 
intim-la 
novamente 
a 
comparecer 
para 
depor..." 


Ela 
olhou 
para 
mim 
e 
revirou 
os 
olhos. 
Rose 
j 
comeava 
a 
envelhecer, 
mas 
continuava 
muito 
perspicaz 
e 
ativa. 
Com 
sol 
ou 
com 
neve, 
ela 
estava 
sempre 
l, 
a 
diretora 
de 
Les 
misrables. 


"Sim, 
sim. 
Agora 
estamos 
comeando 
a 
nos 
entender." 
Ela 
anotou 
alguma 
coisa 
num 
bloco 
de 
notas. 
"Posso 
lhe 
garantir 
que 
a 
doutora 
Anderson 
ficar 
muito 
grata. 
Claro. 
Bom 
dia." 


Minha 
secretria 
desligou 
e 
olhou 
para 
mim. 
"Dessa 
vez 
a 
senhora 
foi 
longe 
demais." 


"Como 
assim?", 
perguntei. 


" 
melhor 
tomar 
cuidado. 
Um 
dia 
desses 
vou 
trabalhar 
para 
outra 
pessoa." 


Eu 
estava 
cansada 
demais 
para 
brincadeiras. 
"Eu 
no 
a 
condenaria 
por 
isso", 
disse-lhe. 


Ela 
olhou 
para 
mim 
como 
uma 
me 
rigorosa 
que 
surpreendeu 
a 


#
filha 
bebendo, 
bolinando 
ou 
fumando 
escondido. 
"O 
que 
est 


acontecendo, 
doutora 
Scarpetta?", 
perguntou-me. 


"Voc 
viu 
minhas 
facas 
para 
dissecao?" 


Rose 
parecia 
no 
saber 
do 
que 
eu 
estava 
falando. 


"Aquelas 
que 
a 
Lucy 
me 
deu. 
Um 
jogo 
com 
trs, 
numa 
caixa 
de 
plstico. 
Eram 
de 
trs 
tamanhos 
diferentes." 


A 
expresso 
de 
seu 
rosto 
indicava 
que 
ela 
comeava 
a 
se 
lembrar. 
"Oh, 
sim", 
disse 
ela, 
finalmente, 
"agora 
estou 
me 
lembrando. 
Acho 
que 
a 
senhora 
as 
guardou 
no 
seu 
armrio." 


"Elas 
no 
esto 
l." 


"Puxa. 
Espero 
que 
no 
tenha 
sido 
o 
pessoal 
da 
limpeza. 
Quando 
foi 
a 
ltima 
vez 
que 
as 
viu?" 


"Provavelmente 
logo 
depois 
que 
Lucy 
me 
deu, 
na 
verdade 
antes 
do 
Natal, 
porque 
ela 
no 
queria 
lev-las 
de 
volta 
para 
Miami. 
Mostrei 
o 
jogo 
para 
voc, 
lembra? 
Ento 
o 
pus 
no 
armrio 
porque 
no 
queria 
lev-
lo 
l 
pra 
baixo." 


A 
expresso 
de 
Rose 
tornou-se 
sombria. 
"Sei 
o 
que 
deve 
estar 
pensando. 
Ai." 
Ela 
tremeu. 
"Que 
idia 
pavorosa." 


Puxei 
uma 
cadeira 
e 
sentei. 
"S 
de 
pensar 
nele 
fazendo 
uma 
coisa 
daquelas 
com 
as 
minhas 
facas..." 


"A 
senhora 
no 
deve 
pensar 
nisso." 
Ela 
me 
interrompeu. 
"No 
tem 
controle 
sobre 
o 
que 
ele 
faz." 


Fitei 
o 
vazio. 


Estou 
preocupada 
com 
Jennifer", 
disse-me, 
ento, 
minha 
secretria. 


Jennifer 
era 
uma 
das 
funcionrias 
da 
sala 
contgua 
 
sua. 
Sua 
principal 
funo 
era 
tirar 
fotografias, 
atender 
ao 
telefone 
e 
registrar 
casos 
em 
nosso 
banco 
de 
dados. 


"Ela 
est 
traumatizada." 


"Pelo 
que 
aconteceu?" 


Rose 
aquiesceu. 
"Hoje 
ela 
ficou 
um 
tempo 
chorando 
no 
banheiro. 
Nem 
 
preciso 
dizer 
que 
o 
que 
aconteceu 
 
horrvel 
e 
que 
esto 
correndo 
mil 
histrias. 
Mas 
ela 
est 
mais 
assustada 
do 
que 
os 


#
outros. 
Tentei 
conversar 
com 
ela. 
Receio 
que 
v 
pedir 
demisso." 
Ela 
apontou 
a 
setinha 
do 
mouse 
para 
o 
cone 
do 
WordPerfect 
e 
clicou. 
"Vou 
imprimir 
os 
relatrios 
da 
autpsia 
para 
a 
senhora 
ver 
se 
est 
tudo 
certo." 


"Voc 
j 
digitou 
as 
duas?" 


"Cheguei 
aqui 
bem 
cedo. 
Tenho 
um 
carro 
com 
trao 
nas 
quatro 
rodas." 


"Vou 
conversar 
com 
a 
Jennifer", 
disse-lhe. 


Atravessei 
o 
corredor 
e 
olhei 
para 
a 
sala 
de 
computao. 
Lucy 
estava 
hipnotizada 
pelo 
monitor 
de 
vdeo, 
e 
no 
a 
incomodei. 
Na 
frente 
dela, 
Tamara 
atendia 
on-line, 
enquanto 
duas 
outras 
funcionrias 
telefonavam 
e 
uma 
terceira 
esperava 
com 
uma 
expresso 
triste 
no 
rosto. 
Cleta 
fazia 
fotocpias 
e 
Jo 
digitava 
registros 
de 
bito 
num 
dos 
terminais. 


Voltei 
ao 
saguo 
e 
abri 
a 
porta 
do 
banheiro 
feminino. 
Jennifer 
estava 
diante 
de 
uma 
pia, 
borrifando 
o 
rosto 
com 
gua 
fria. 


"Oh!", 
exclamou 
ela, 
quando 
me 
viu 
pelo 
espelho. 
"Ol, 
doutora 
Scarpetta", 
falou-me, 
nervosa 
e 
embaraada. 


Jennifer 
era 
uma 
jovem 
simples, 
condenada 
a 
passar 
a 
vida 
inteira 
preocupando-se 
com 
calorias 
e 
com 
roupas 
para 
disfarar 
a 
gordura. 
Os 
olhos 
estavam 
inchados, 
os 
dentes 
eram 
protuberantes 
e 
os 
cabelos, 
finos 
e 
quebradios. 
Ela 
usava 
uma 
maquiagem 
muito 
carregada 
para 
o 
trabalho 
que 
exercia, 
pois 
ali 
aparncia 
no 
importava 
muito. 


"Por 
favor, 
sente-se", 
disse-lhe, 
delicadamente, 
apontando 
para 
uma 
cadeira 
vermelha 
de 
plstico 
que 
ficava 
junto 
dos 
armrios. 


"Sinto 
muito. 
Sei 
que 
no 
agi 
certo 
hoje." 


Tambm 
peguei 
uma 
cadeira, 
porque 
no 
queria 
falar 
com 
ela 
de 
uma 
posio 
superior. 
"Voc 
est 
muito 
abalada." 


Ela 
mordeu 
o 
lbio 
inferior 
para 
faz-lo 
parar 
de 
tremer, 
enquanto 
os 
olhos 
se 
enchiam 
de 
lgrimas. 


"O 
que 
eu 
posso 
fazer 
para 
te 
ajudar 
?", 
perguntei. 


Ela 
balanou 
a 
cabea 
e 
comeou 
a 
soluar. 


"No 
consigo 
parar", 
contou-me. 
"No 
consigo 
parar 
de 
chorar. 


#
Basta 
algum 
arrastar 
uma 
cadeira 
no 
cho 
para 
eu 
me 
sobressaltar." 
Ela 
enxugou 
as 
lgrimas 
com 
uma 
toalha 
de 
papel, 
as 
mos 
trmulas. 
" 
como 
se 
eu 
estivesse 
enlouquecendo." 


"Quando 
isso 
comeou 
a 
acontecer?" 


Ela 
assoou 
o 
nariz. 
"Ontem, 
depois 
que 
encontraram 
o 
xerife 
e 
o 
policial. 
Ouvi 
falar 
sobre 
o 
aconteceu 
com 
o 
policial 
l 
embaixo. 
Disseram 
que 
at 
as 
botas 
se 
queimaram." 


"Jennifer, 
voc 
se 
lembra 
de 
um 
folheto 
que 
mandei 
distribuir 
sobre 
'sndrome 
de 
stress 
ps-traumtico?" 


"Sim, 
senhora." 


"Todas 
as 
pessoas 
que 
trabalham 
num 
lugar 
como 
este 
devem 
se 
preocupar 
com 
esse 
problema. 
Cada 
um 
de 
ns. 
Eu 
tambm 
tenho 
que 
ter 
cuidado 
com 
isso." 


"A 
senhora 
se 
preocupa?", 
perguntou 
ela, 
de 
boca 
aberta. 


"Claro. 
Tenho 
que 
ter 
cuidado 
com 
isso 
mais 
que 
qualquer 
outra 
pessoa 
aqui." 


"Eu 
achei 
que 
a 
senhora 
j 
estava 
acostumada." 


"Deus 
nos 
livre 
que 
algum 
de 
ns 
se 
acostume 
com 
essas 
coisas." 


"Quero 
dizer", 
ela 
baixou 
a 
voz 
como 
se 
estivesse 
falando 
de 
sexo, 
"a 
senhora 
chega 
a 
ficar 
como 
estou 
agora?" 
E 
logo 
acrescentou: 
"Isto 
, 
tenho 
certeza 
de 
que 
no". 


"Claro 
que 
fico", 
respondi. 
"s 
vezes 
fico 
abaladssima." 


Seus 
olhos 
se 
encheram 
de 
lgrimas 
novamente 
e 
ela 
deu 
um 
longo 
suspiro. 
"Isso 
faz 
com 
que 
eu 
me 
sinta 
bem 
melhor. 
Sabe, 
quando 
era 
pequena, 
meu 
pai 
vivia 
me 
falando 
que 
eu 
era 
estpida 
e 
gorda. 
Nunca 
imaginei 
que 
uma 
pessoa 
como 
a 
senhora 
pudesse 
se 
sentir 
como 
me 
sinto." 


"Ningum 
deveria 
nunca 
ter 
dito 
uma 
coisa 
dessas 
a 
voc", 
respondi, 
indignada. 
"Voc 
 
uma 
pessoa 
amvel, 
Jennifer, 
e 
ns 
temos 
sorte 
de 
t-la 
trabalhando 
conosco." 


"Obrigada", 
disse 
ela, 
com 
a 
voz 
mansa, 
os 
olhos 
fitando 
o 
cho. 


Levantei-me. 
"Acho 
que 
voc 
devia 
ir 
para 
casa 
e 
ter 
um 
belo 
fim 


#
de 
semana 
prolongado. 
Que 
me 
diz 
disso?" 


Ela 
continuou 
a 
olhar 
para 
o 
cho. 
"Acho 
que 
eu 
o 
vi", 
murmurou, 
mordendo 
o 
lbio 
inferior. 


"Quem 
voc 
viu?" 


"Vi 
o 
sujeito." 
Jennifer 
me 
olhou 
nos 
olhos. 
"Quando 
vi 
as 
fotos 
na 
tev, 
nem 
podia 
acreditar. 
Comecei 
a 
imaginar 
o 
que 
aconteceria 
se 
eu 
tivesse 
contado 
a 
algum." 


"Onde 
voc 
acha 
que 
o 
viu" 


"No 
Rumors." 


"O 
bar? 


Ela 
fez 
que 
sim. 


"Quando 
foi 
isso?" 


"Tera-feira." 


Olhei 
bem 
para 
ela. 
"Na 
tera 
passada? 
No 
dia 
seguinte 
ao 
Natal?" 


Naquela 
noite 
Gault 
estava 
em 
Nova 
York. 
Eu 
o 
vira 
no 
tnel 
do 
metr, 
ou 
pelo 
menos 
tive 
a 
impresso 
de 
que 
o 
vira. 


"Sim, 
senhora", 
disse 
Jennifer. 
"Acho 
que 
foi 
l 
pelas 
dez. 
Eu 
danava 
com 
Tommy." 


No 
tinha 
a 
menor 
idia 
de 
quem 
era 
Tommy. 


"Ele 
estava 
afastado 
de 
todo 
mundo. 
No 
dava 
para 
deixar 
de 
notar, 
por 
causa 
do 
cabelo 
branco. 
No 
estou 
acostumada 
a 
ver 
ningum 
da 
sua 
idade 
com 
cabelo 
branco. 
Vestia 
um 
terno 
preto 
superbacana 
e 
uma 
camiseta 
preta 
por 
baixo. 
Disso 
eu 
me 
lembro. 
Imaginei 
que 
ele 
fosse 
de 
fora. 


Talvez 
de 
uma 
cidade 
grande, 
como 
Los 
Angeles, 
ou 
outra 
desse 
tipo." 


"Ele 
chegou 
a 
danar 
com 
algum?" 


"Sim, 
senhora. 
Danou 
com 
uma 
ou 
duas 
moas. 
E 
pagou 
umas 
bebidas 
para 
elas. 
Depois, 
s 
me 
lembro 
de 
que 
ele 
foi 
embora." 


"Ele 
saiu 
sozinho?" 


"Tenho 
a 
impresso 
de 
que 
saiu 
com 
uma 
garota." 


"Voc 
sabe 
quem 
 
ela?", 
perguntei, 
assustada. 
Eu 
esperava 
que 


#
a 
mulher, 
fosse 
quem 
fosse, 
tivesse 
sobrevivido. 


"Eu 
no 
conhecia", 
disse 
Jennifer. 
"S 
me 
lembro 
de 
que 
ele 
danava 
com 
ela. 
Umas 
trs 
vezes. 
Depois 
eles 
saram 
para 
a 
rua 
juntos, 
de 
mos 
dadas." 


"Descreva-a." 


"Ela 
era 
uma 
negra 
muito 
bonita, 
com 
um 
vestidinho 
vermelho 
decotado 
e 
bem 
curto. 
Lembro 
de 
que 
estava 
de 
batom 
vermelho 
e 
umas 
trancinhas 
brilhantes." 
Ela 
fez 
uma 
pausa. 


"E 
voc 
tem 
certeza 
de 
que 
eles 
saram 
do 
bar 
juntos?", 
perguntei. 


"Pelo 
que 
me 
lembro, 
sim. 
No 
vi 
mais 
nenhum 
dos 
dois 
naquela 
noite, 
e 
eu 
e 
Tommy 
ficamos 
at 
as 
duas." 


"Vou 
ligar 
para 
o 
capito 
Marino 
e 
contar 
tudo 
o 
que 
voc 
me 
falou", 
disse-lhe. 


Jennifer 
levantou-se 
da 
cadeira 
e 
se 
sentiu 
importante. 
"Logo 
estarei 
pronta 
para 
retomar 
o 
trabalho." 


Voltei 
 
minha 
sala 
ao 
mesmo 
tempo 
em 
que 
Rose 
aparecia 
na 
porta. 


"O 
doutor 
Gruber 
pediu 
que 
a 
senhora 
ligasse 
para 
ele", 
disse 
ela. 


Disquei 
o 
nmero 
do 
museu 
do 
Quartel-Mestre, 
mas 
ele 
j 
tinha 
sado. 
Ligou-me 
umas 
duas 
horas 
depois. 


"Est 
nevando 
muito 
em 
Petersburg?", 
perguntei 
a 
ele. 


"Oh, 
est 
tudo 
muito 
mido 
e 
catico." 


"Como 
vo 
as 
coisas?" 


"Tenho 
algo 
para 
a 
senhora, 
doutora 
Scarpetta", 
disse 
o 
dr. 
Gruber. 
"Estou 
me 
sentido 
muito 
incomodado 
com 
isso." 


Esperei. 
Como 
ele 
no 
acrescentou 
mais 
nada, 
perguntei: 
"O 
senhor 
est 
se 
sentindo 
incomodado 
com 
o 
qu, 
exatamente?". 


"Fui 
ao 
computador 
e 
procurei 
o 
nome 
que 
a 
senhora 
queria. 
No 
achei." 
Ele 
ficou 
calado 
novamente. 


"Doutor 
Gruber, 
estou 
lidando 
com 
um 
serial 
killer." 


"Ele 
nunca 
esteve 
no 
exrcito." 


#
"O 
senhor 
quer 
dizer 
o 
pai 
dele, 
no 
?", 
disse-lhe, 
desapontada. 


"Nenhum 
dos 
dois", 
respondeu. 
"Nem 
Temple 
nem 
Peyton 
Gault." 


"Oh", 
exclamei. 
"Quer 
dizer 
ento 
que 
as 
botas 
provavelmente 
vieram 
das 
sobras 
do 
exrcito." 


"Pode 
ser, 
mas 
ele 
tem 
um 
tio." 


"Quem 
tem 
um 
tio?" 


"Temple 
Gault. 
 
isso 
que 
estou 
supondo. 
H 
um 
Gault 
no 
computador, 
s 
que 
seu 
nome 
 
Luther. 
Luther 
Gault. 
Ele 
trabalhou 
na 
Corporao 
do 
Quartel-Mestre 
na 
Segunda 
Guerra." 
O 
dr. 
Gruber 
fez 
uma 
pausa. 
"Na 
verdade, 
ele 
ficou 
aqui 
no 
Forte 
Lee 
por 
muito 
tempo." 


Eu 
nunca 
tinha 
ouvido 
falar 
de 
Luther 
Gault. 


"Ele 
ainda 
est 
vivo?", 
perguntei. 


"No, 
morreu 
em 
Seattle 
h 
uns 
cinco 
anos." 


"Por 
que 
o 
senhor 
desconfia 
de 
que 
esse 
homem 
seja 
tio 
de 
Gault?", 
perguntei. 
"Seattle 
 
muito 
longe 
da 
Gergia, 
que 
 
de 
onde 
so 
os 
Gaults." 


"A 
nica 
relao 
que 
vejo 
 
o 
sobrenome 
e 
o 
Forte 
Lee." 


Perguntei-lhe, 
ento: 
"O 
senhor 
acha 
que 
aquelas 
botas 
um 
dia 
pertenceram 
a 
ele?". 


"Bem, 
elas 
so 
da 
Segunda 
Guerra, 
e 
foram 
testadas 
aqui, 
em 
Forte 
Lee, 
que 
 
onde 
Luther 
Gault 
passou 
a 
maior 
parte 
de 
sua 
carreira. 
O 
que 
pode 
ter 
acontecido 
 
que 
soldados, 
e 
mesmo 
oficiais, 
tenham 
sido 
solicitados 
a 
usar 
botas 
e 
outros 
equipamentos 
para 
test-
los, 
antes 
de 
serem 
enviados 
para 
os 
rapazes 
nas 
trincheiras." 


"O 
que 
Luther 
Gault 
fez 
depois 
que 
saiu 
do 
Exrcito?" 


"No 
tenho 
nenhuma 
informao 
sobre 
isso, 
exceto 
que 
morreu 
aos 
setenta 
e 
oito 
anos." 
Ele 
fez 
uma 
pausa. 
"Mas 
talvez 
lhe 
interesse 
saber 
que 
ele 
fez 
carreira. 
Reformou-se 
com 
a 
patente 
de 
general-de-
diviso." 


"O 
senhor 
nunca 
ouviu 
falar 
nele 
antes?" 


"No 
disse 
isso." 
Fez 
uma 
pausa 
novamente. 
"Tenho 
certeza 
de 
que 
o 
Exrcito 
possui 
um 
dossi 
completo 
sobre 
ele. 
Se 
a 
senhora 


#
pudesse 
peg-lo..." 


"O 
senhor 
poderia 
me 
conseguir 
uma 
fotografia?" 


"Tenho 
uma 
no 
computador 
 
uma 
dessas 
de 
lbum." 


"Pode 
me 
passar 
pelo 
fax?" 


Ele 
hesitou 
novamente. 
"Claro." 


Desliguei 
no 
momento 
em 
que 
Rose 
entrava 
na 
sala, 
com 
os 
relatrios 
das 
autpsias 
do 
dia 
anterior. 
Eu 
as 
revisei 
e 
corrigi, 
enquanto 
esperava 
o 
sinal 
do 
fax. 
Logo 
ele 
soou 
e 
a 
figura 
branca 
de 
Luther 
Gault 
surgiu 
em 
meu 
escritrio. 
L 
estava 
ele, 
casaco 
curto, 
semiformal, 
com 
lapela 
de 
cetim, 
e 
calas 
com 
vivos 
e 
botes 
dourados. 
No 
havia 
dvida 
quanto 
 
semelhana. 
Temple 
Gault 
tinha 
os 
mesmos 
olhos. 


Liguei 
para 
Wesley. 


" 
possvel 
que 
Gault 
tenha 
tido 
um 
tio 
em 
Seattle", 
contei-lhe. 
"Era 
general-de-diviso 
no 
Exrcito." 


"Como 
voc 
descobriu 
isso?", 
perguntou 
ele. 


No 
gostei 
da 
sua 
frieza. 
"Isso 
no 
importa. 
O 
que 
importa 
 
que 
temos 
que 
descobrir 
tudo 
o 
que 
pudermos 
sobre 
essa 
histria." 


Wesley 
continuou 
ctico. 
"Qual 
 
a 
ligao?" 


Perdi 
a 
pacincia. 
"Como 
'qual 
 
a 
ligao? 
Quando 
no 
se 
tem 
nada, 
 
preciso 
prestar 
ateno 
a 
tudo." 


"Claro, 
claro", 
disse 
ele. 
"No 
h 
problema. 
Mas 
no 
podemos 
nos 
preocupar 
com 
isso 
agora. 
Nem 
voc." 
Ele 
desligou. 


Fiquei 
ali 
aturdida, 
sentindo 
uma 
dor 
no 
corao. 
Algum 
deve 
ter 
ido 
ao 
seu 
escritrio. 
Wesley 
nunca 
batera 
o 
telefone 
na 
minha 
cara. 
Minha 
parania 
aumentou 
quando 
fui 
procurar 
Lucy. 


"Ol", 
disse 
ela, 
antes 
que 
eu 
tivesse 
tempo 
de 
falar 
alguma 
coisa. 
Lucy 
vira 
o 
meu 
reflexo 
no 
monitor 
do 
vdeo. 


"Temos 
que 
ir 
embora." 


"Por 
qu? 
Est 
nevando 
novamente?" 


"No. 
Est 
fazendo 
sol 


"Estou 
quase 
acabando 
aqui", 
disse 
ela, 
continuando 
a 
digitar. 


"Preciso 
levar 
voc 
e 
Janet 
de 
volta 
a 
Quantico." 


#
"Voc 
precisa 
ligar 
para 
vov", 
lembrou 
Lucy. 
"Ela 
est 
se 
sentindo 
abandonada." 


"E 
eu 
me 
sinto 
culpada 
por 
isso", 
respondi. 


Lucy 
se 
voltou 
e 
olhou 
para 
mim. 
Meu 
pager 
tocou. 


"Onde 
est 
Janet?", 
perguntei. 


"Acho 
que 
ela 
desceu." 


Apertei 
o 
boto 
do 
mostrador 
e 
reconheci 
o 
nmero 
do 
telefone 
da 
casa 
de 
Marino. 
"Bem, 
v 
atrs 
dela, 
que 
logo 
encontro 
vocs 
l 
embaixo." 


Voltei 
ao 
meu 
escritrio 
e 
dessa 
vez 
fechei 
as 
portas. 
Quando 
liguei 
para 
Marino, 
parecia 
que 
ele 
estava 
dopado. 


"Elas 
se 
mandaram." 


"Quem?" 


"Descobrimos 
onde 
elas 
estavam. 
No 
Hacienda 
Motel 
na 
US 
1, 
aquele 
pulgueiro 
que 
fica 
perto 
de 
onde 
voc 
compra 
armas 
e 
munies. 
Foi 
para 
l 
que 
aquela 
cadela 
levou 
a 
namorada." 


"Que 
namorada?" 
Eu 
ainda 
no 
estava 
entendendo 
do 
que 
Marino 
falava. 
Ento 
me 
lembrei 
de 
Jennifer. 
"Ah. 
A 
mulher 
que 
Carrie 
pegou 
no 
Rumors." 


"." 
Ele 
estava 
to 
excitado 
como 
se 
estivesse 
numa 
misso 
de 
socorro. 
"Seu 
nome 
 
Apollonia 
e..." 


"Ela 
est 
viva?", 
interrompi. 


"Ah, 
sim. 
Carrie 
a 
levou 
ao 
motel 
e 
l 
fizeram 
a 
maior 
farra." 
... 
"Quem 
estava 
dirigindo?" 


"Apollonia." 


"Vocs 
encontraram 
o 
meu 
furgo 
no 
estacionamento 
do 
motel?" 
"No. 
Quando 
chegamos 
na 
espelunca, 
ainda 
h 
pouco, 
os 
quartos 
estavam 
arrumados. 
 
como 
se 
elas 
nunca 
tivessem 
estado 
l." 


"Quer 
dizer 
ento 
que 
Carrie 
no 
estava 
em 
Nova 
York 
na 
tera-
feira 
passada", 
disse-lhe. 


"No. 
Ela 
estava 
aqui, 
farreando, 
enquanto 
Gault 
matava 
Jimmy 
Davila. 
Por 
isso 
acho 
que 
ela 
conhecia 
um 
bom 
lugar 
para 
ele." 


"Duvido 
que 
ele 
tenha 
tomado 
o 
avio 
de 
Nova 
York 
para 


#
Richmond", 
comentei. 
"Seria 
arriscado 
demais." 


"Eu, 
pessoalmente, 
acho 
que 
ele 
foi 
para 
Washington 
na 
quarta-
feira..." 


"Marino", 
disse-lhe, 
"eu 
viajei 
para 
Washington 
na 
quarta-feira." 


"Eu 
sei 
disso. 
Talvez 
voc 
e 
ele 
estivessem 
no 
mesmo 
avio." 


"Eu 
no 
o 
vi." 


"Voc 
no 
sabe 
se 
o 
viu. 
Mas 
a 
questo 
 
a 
seguinte: 
se 
vocs 
estiveram 
no 
mesmo 
avio, 
com 
certeza 
ele 
viu 
voc." 


Lembrei-me 
de 
quando 
sa 
do 
terminal 
e 
tomei 
um 
txi 
caindo 
aos 
pedaos, 
com 
as 
janelas 
emperradas 
e 
os 
fechos 
quebrados. 
Eu 
me 
perguntei 
se 
Gault 
estava 
me 
observando. 


"Carrie 
tem 
um 
carro?", 
perguntei. 


"Tem 
um 
Saab 
conversvel 
no 
nome 
dela. 
Mas 
com 
toda 
a 
certeza 
ela 
no 
tem 
usado 
ele 
nestes 
dias." 


"No 
sei 
por 
que 
ela 
pegou 
essa 
tal 
de 
Apollonia", 
comentei. 
"E 
como 
voc 
chegou 
at 
ela?" 


"Fcil. 
Ela 
trabalha 
no 
Rumors. 
No 
sei 
bem 
o 
que 
ela 
vende, 
mas 
com 
certeza 
no 
 
cigarro." 


"Diabo", 
resmunguei. 


"Estou 
achando 
que 
a 
ligao 
 
cocana", 
disse 
Marino. 
"E 
pra 
voc 
talvez 
seja 
interessante 
saber 
que 
Apollonia 
conhecia 
Brown. 
Alis, 
pode-se 
dizer 
que 
eles 
tinham 
um 
caso." 


"Voc 
acha 
que 
ela 
pode 
ter 
alguma 
coisa 
a 
ver 
com 
seu 
assassinato?", 
perguntei. 


" 
possvel. 
Ela 
provavelmente 
levou 
Gault 
e 
Carrie 
at 
ele. 
Estou 
comeando 
a 
achar 
que 
essa 
histria 
do 
xerife 
foi 
coisa 
arranjada 
de 
ltima 
hora. 
Carrie 
deve 
ter 
perguntado 
a 
Apollonia 
onde 
poderia 
descolar 
um 
pouco 
de 
cocana, 
e 
o 
nome 
de 
Brown 
foi 
citado. 
Ento 
Carrie 
falou 
para 
Gault 
e 
ele 
concebeu 
mais 
um 
de 
seus 
pesadelos." 


"Pode 
muito 
bem 
ter 
sido 
assim", 
concordei. 
"Ser 
que 
Apollonia 
sabia 
que 
Carrie 
 
uma 
mulher?" 


"Sim. 
Isso 
no 
importava." 


"Diabo", 
resmunguei 
novamente. 
"Chegamos 
to 
perto." 


#
"Eu 
sei. 
Simplesmente 
no 
consigo 
acreditar 
como 
eles 
conseguiram 
escapar 
de 
uma 
rede 
como 
essa. 
Todo 
mundo 
os 
estava 
vigiando, 
menos 
a 
Guarda 
Nacional. 
Pusemos 
toda 
a 
frota 
de 
helicpteros 
no 
ar. 
Mas 
no 
fundo 
eu 
sabia 
que 
eles 
j 
tinham 
escapado." 


"Acabei 
de 
ligar 
para 
Wesley 
e 
ele 
bateu 
o 
telefone 
na 
minha 
cara", 
disse-lhe. 


"O 
qu? 
Os 
moos 
andaram 
brigando?" 


"Marino, 
isso 
no 
me 
cheira 
bem. 
Tenho 
a 
impresso 
de 
que 
havia 
algum 
no 
escritrio 
dele, 
e 
ele 
no 
queria 
que 
essa 
pessoa 
soubesse 
que 
estava 
falando 
comigo." 


"Talvez 
fosse 
a 
mulher 
dele." 


"Estou 
indo 
para 
l 
com 
Lucy 
e 
Janet." 


"Voc 
vai 
passar 
a 
noite 
aqui?" 


"Depende." 


"Bem, 
eu 
no 
gostaria 
que 
voc 
ficasse 
circulando 
por 
a. 
E 
se 
algum 
quiser 
te 
parar 
por 
alguma 
razo, 
no 
pare. 
Nem 
para 
sinais 
luminosos, 
nem 
para 
sirenes, 
nem 
para 
nada. 
S 
pare 
para 
viaturas 
com 
o 
distintivo 
da 
polcia", 
continuou 
ele 
no 
seu 
sermo. 
"E 
mantenha 
sua 
Remington 
entre 
os 
bancos 
da 
frente." 


"Gault 
no 
vai 
parar 
de 
matar", 
disse-lhe. 


Marino 
ficou 
calado 
do 
outro 
lado 
da 
linha. 


"Ele 
entrou 
no 
meu 
escritrio 
e 
me 
roubou 
um 
jogo 
de 
facas 
para 
dissecao." 


"Tem 
certeza 
de 
que 
no 
foi 
o 
pessoal 
da 
limpeza? 
Essas 
facas 
deviam 
ser 
muito 
boas 
para 
cortar 
fils 
de 
peixe." 


"Eu 
sei 
que 
foi 
Gault." 


#
16 


Regressamos 
a 
Quantico 
logo 
depois 
das 
trs, 
e 
quando 
tentei 
entrar 
em 
contato 
com 
Wesley, 
ele 
no 
estava. 
Deixei 
um 
recado, 
pedindo 
que 
ele 
me 
ligasse 
no 
DPE, 
onde 
eu 
iria 
passar 
as 
prximas 
horas 
com 
Lucy. 


No 
havia 
nem 
engenheiros, 
nem 
pesquisadores 
no 
andar 
de 
Lucy, 
e 
ns 
podamos 
trabalhar 
sozinhas 
e 
com 
calma. 


"Eu 
poderia 
lanar 
uma 
mensagem", 
disse 
Lucy, 
sentando-se 
em 
sua 
escrivaninha. 
Ela 
olhou 
o 
relgio. 
"Por 
que 
no 
mandar 
uma 
mensagem 
para 
ver 
quem 
morde 
a 
isca?" 


"Deixe-me 
tentar 
o 
chefe 
de 
Seattle 
novamente." 


Eu 
tinha 
o 
nmero 
do 
telefone 
anotado 
num 
papel 
e 
liguei. 
Disseram-me 
que 
ele 
j 
tinha 
ido 
embora 
e 
no 
voltava 
mais 
naquele 
dia. 


"Preciso 
muito 
falar 
com 
ele", 
expliquei 
 
pessoa 
que 
atendeu. 
"Talvez 
eu 
possa 
encontr-lo 
em 
casa?" 


"No 
estamos 
autorizados 
a 
dar 
o 
nmero. 
Mas 
se 
a 
senhora 
quiser 
me 
dar 
o 
seu 
nmero, 
quando 
ele 
ligar 
para 
pegar 
os 
recados..." 


"No 
posso 
fazer 
isso", 
disse, 
cada 
vez 
mais 
frustrada. 
"No 
estou 
em 
casa. 
O 
que 
posso 
lhe 
dar 
 
o 
nmero 
do 
meu 
pager. 
Por 
favor, 
pea 
que 
ele 
me 
ligue." 


No 
deu 
certo. 
Uma 
hora 
mais 
tarde, 
meu 
pager 
continuava 
em 
silncio. 


"Provavelmente 
no 
conseguiu 
fazer 
com 
que 
a 
mensagem 
chegasse 
at 
ele", 
disse 
Lucy, 
enquanto 
navegava 
pelo 
CAIN. 


"Alguma 
mensagem 
estranha?", 
perguntei. 


"No. 
J 
estamos 
no 
fim 
da 
tarde 
de 
sexta-feira 
e 
muita 
gente 
j 
deixou 
o 
trabalho. 
Acho 
que 
a 
gente 
poderia 
mandar 
alguma 
mensagem 
para 
a 
Prodigy 
e 
ver 
o 
que 
acontece." 


Sentei-me 
do 
seu 
lado. 


"Qual 
o 
nome 
do 
grupo?" 


"Academia 
Americana 
de 
Restauraes 
de 
Ouro." 


#
"E 
a 
maior 
concentrao 
desses 
dentistas 
 
no 
estado 
de 
Washington?" 


"Sim, 
mas 
no 
custa 
nada 
englobar 
toda 
a 
Costa 
Oeste." 


"Bem, 
isso 
vai 
incluir 
praticamente 
todo 
o 
pas", 
disse 
Lucy, 
enquanto 
digitava 
Prodigy, 
seu 
ID 
de 
servio 
e 
sua 
senha. 
"Acho 
que 
a 
melhor 
maneira 
de 
fazer 
isso 
 
via 
E-mail." 
Ela 
abriu 
uma 
janela 
para 
digitao. 
"Que 
mensagem 
voc 
quer 
que 
eu 
envie?", 
perguntou 
ela 
olhando 
para 
mim. 


"O 
que 
voc 
acha 
de: 
A 
todos 
os 
membros 
da 
Academia 
Americana 
de 
Restauraes 
de 
Ouro. 
Patologista 
forense 
desesperada 
precisa 
urgentemente 
de 
ajuda. 
Em 
seguida, 
d 
nosso 
endereo 
para 
contato." 


"Muito 
bem. 
Vou 
lhes 
passar 
nossa 
caixa 
postal 
daqui 
e 
mandar 
uma 
cpia 
para 
sua 
caixa 
em 
Richmond." 
Ela 
recomeou 
a 
digitar. 
"Logo 
vo 
comear 
a 
responder. 
E 
a 
voc 
vai 
perceber 
que 
arranjou 
um 
monte 
de 
amigos 
dentistas 
por 
correspondncia." 


Ela 
apertou 
uma 
tecla 
como 
se 
estivesse 
encerrando 
uma 
obra 
e 
empurrou 
a 
cadeira 
para 
trs. 
"Pronto. 
J 
foi", 
disse 
ela. 
"Agora 
mesmo, 
enquanto 
conversamos, 
todo 
assinante 
da 
Prodigy 
est 
recebendo 
um 
aviso 
de 
New 
Mail. 
Vamos 
esperar 
que 
algum 
por 
l 
esteja 
brincando 
no 
computador 
e 
possa 
ajudar." 


Ao 
mesmo 
tempo 
em 
que 
Lucy 
dizia 
isso, 
sua 
tela 
ficou 
negra, 
e 
comearam 
a 
aparecer 
letras 
verdes 
brilhantes. 
Uma 
impressora 
comeou 
a 
funcionar. 


"Como 
foi 
rpido." 
Mas 
mal 
eu 
acabara 
de 
falar, 
e 
Lucy 
j 
no 
estava 
mais 
na 
cadeira. 
Ela 
correu 
para 
a 
sala 
onde 
ficava 
o 
CAIN 
e 
escaneou 
suas 
impresses 
digitais 
para 
entrar. 


As 
portas 
de 
vidro 
se 
abriram 
com 
um 
rudo 
seco 
e 
ns 
entramos. 
O 
mesmo 
texto 
estava 
passando 
no 
monitor 
de 
" 
vdeo, 
e 
Lucy 
pegou 
um 
pequeno 
aparelho 
de 
controle 
remoto 
e 
apertou 
um 
boto. 
Ela 
olhou 
para 
o 
seu 
relgio 
Breitling 
e 
ligou 
o 
cronmetro. 


#
"Vamos, 
vamos, 
vamos!", 
disse 
ela. 


Ela 
sentou-se 
diante 
do 
CAIN, 
olhando 
para 
a 
tela, 
enquanto 
a 
mensagem 
ia 
passando. 
Era 
um 
pargrafo 
curto, 
repetido 
muitas 
vezes, 
que 
dizia: 


...MENSAGEM 
PQ43 
76301 
001732 
INCIO... 


PARA: 
TODOS 
OS 
POLICIAIS 


DE: 
CAIN 


SE 
CAIN 
MATOU 
SEU 
IRMO, 
O 
QUE 
VOC 
ACHA 
QUE 


FARIA 
COM 
VOC? 


SE 
O 
SEU 
PAGER 
TOCA 
NO 
NECROTRIO, 
 
JESUS 


QUE 
EST 
CHAMANDO. 


...MENSAGEM 
PQ43 
76301 
001732 
FIM... 


Olhei 
para 
as 
prateleiras 
dos 
modems, 
que 
cobriam 
uma 
parede, 
as 
luzes 
piscando. 
Mesmo 
no 
sendo 
especialista 
em 
computao, 
dava 
para 
perceber 
que 
no 
havia 
nenhuma 
relao 
entre 
o 
que 
se 
via 
na 
tela 
e 
a 
atividade 
dos 
modems. 
Olhei 
mais 
atentamente 
e 
notei 
uma 
conexo 
de 
telefone 
sob 
a 
escrivaninha. 
Ela 
estava 
ligada 
a 
um 
fio 
que 
sumia 
sob 


o 
assoalho 
um 
pouco 
elevado, 
e 
achei 
aquilo 
estranho. 
Por 
que 
um 
aparelho 
ligado 
a 
uma 
conexo 
de 
telefone 
ficaria 
sob 
o 
assoalho? 
Lugar 
de 
telefone 
 
sobre 
mesas 
e 
escrivaninhas. 
Os 
modems 
estavam 
em 
prateleiras. 
Abaixei-me 
e 
levantei 
uma 
prancha 
de 
madeira 
que 
cobria 
um 
tero 
do 
assoalho 
da 
sala. 


"O 
que 
voc 
est 
fazendo?", 
perguntou 
Lucy, 
sem 
conseguir 
tirar 
os 
olhos 
da 
tela. 


O 
modem 
sob 
o 
assoalho 
parecia 
um 
pequeno 
cubo 
mgico 
com 
luzes 
piscando 
rapidamente. 


"Merda!", 
disse 
Lucy. 


Eu 
me 
virei. 
Ela 
olhou 
para 
o 
relgio 
de 
pulso 
e 
anotou 
alguma 
coisa. 
A 
tela 
agora 
estava 
parada. 
As 
luzes 
do 
modem 
pararam 
de 


piscar. 
"Ser 
que 
fiz 
alguma 
coisa?", 
perguntei, 
assustada. 
"Filho 
da 
puta!" 
Ela 
deu 
um 
soco 
na 
escrivaninha 
e 
o 
teclado 


#
pulou. 
"Quase 
te 
peguei. 
S 
mais 
um 
pouquinho 
e 
eu 
te 
agarrava!" 


Levantei-me. 
"Eu 
no 
desconectei 
nada, 
no 
?", 
tornei 
a 
perguntar. 


"No. 
Diabo! 
Ele 
saiu 
do 
sistema. 
Eu 
o 
tinha 
pego", 
disse 
ela, 
ainda 
olhando 
para 
o 
monitor 
como 
se 
as 
letras 
verdes 
ainda 
estivessem 
l. 


"Gault?" 


"O 
impostor 
do 
CAIN." 
Ela 
bufou 
e 
olhou 
para 
as 
entranhas 
abertas 
da 
criao 
a 
que 
ela 
dera 
o 
nome 
do 
primeiro 
de 
todos 
os 
assassinos. 
"Voc 
descobriu", 
disse 
ela, 
devagar. 
"Que 
bom." 


"Era 
assim 
que 
ele 
conseguia 
entrar?", 
indaguei. 


"Sim. 
 
to 
bvio 
que 
ningum 
notou." 


"Voc 
sim." 


"Mas 
no 
logo 
de 
cara." 


"Carrie 
colocou 
isso 
antes 
de 
ir 
embora 
definitivamente?" 


Lucy 
fez 
que 
sim. 
"Como 
todo 
mundo, 
eu 
estava 
procurando 
alguma 
coisa 
mais 
encoberta, 
mais 
sofisticada 
do 
ponto 
de 
vista 
tecnolgico. 
Mas 
foi 
uma 
coisa 
brilhante 
em 
sua 
simplicidade. 
Ela 
escondeu 
o 
seu 
prprio 
modem, 
e 
o 
seu 
nmero 
de 
discagem 
 
o 
mesmo 
de 
uma 
linha 
de 
diagnose 
quase 
nunca 
usada." 


"Desde 
quando 
voc 
sabe 
disso?" 


"Logo 
que 
comearam 
as 
mensagens 
estranhas, 
tive 
certeza." 


"Quer 
dizer 
ento 
que 
voc 
s 
tinha 
que 
jogar 
com 
ele", 
disse-lhe, 
abalada. 
"Voc 
consegue 
imaginar 
como 
esse 
jogo 
 
perigoso?", 
perguntei. 


Ela 
comeou 
a 
digitar. 
"Ele 
o 
tentou 
quatro 
vezes. 
Meu 
Deus, 
como 
chegamos 
perto." 


"Por 
algum 
tempo 
voc 
pensou 
que 
era 
Carrie 
que 
estava 
fazendo 
isso", 
lembrei. 


"Foi 
ela 
quem 
plantou 
isso 
aqui, 
mas 
no 
acredito 
que 
continue 
entrando 
no 
sistema." 


"Por 
que 
no?" 


"Porque 
tenho 
acompanhado 
esse 
intruso 
dia 
e 
noite. 
 
um 


#
leigo." 
E 
pela 
primeira 
vez, 
em 
meses, 
ela 
falou 
o 
nome 
de 
sua 
ex-amiga. 
"Ku 
sei 
como 
funciona 
a 
mente 
de 
Carrie. 
Gault 
 
narcisista 
demais 
para 
deixar 
outra 
pessoa 
ser 
CAIN 
a 
no 
ser 
ele." 


"Recebi 
um 
bilhete, 
provavelmente 
escrito 
por 
Carrie, 
que 
estava 
assinado 
CAIN", 
disse-lhe. 


"Tenho 
certeza 
de 
que 
Gault 
no 
sabia 
que 
ela 
o 
pusera 
no 
correio. 
Sou 
capaz 
de 
apostar 
tambm 
que, 
se 
ele 
soubesse, 
teria 
tirado 
esse 
gostinho 
dela." 


Pensei 
no 
bilhete 
cor-de-rosa 
que, 
pelo 
que 
supnhamos, 
Gault 
tinha 
surrupiado 
de 
Carrie 
na 
casa 
do 
xerife 
Brown. 
Quando 
ele 
o 
colocou 
no 
bolso 
da 
blusa 
do 
pijama 
ensangentado, 
o 
ato 
deve 
ter 
servido 
para 
reafirmar 
sua 
autoridade. 
Gault 
usava 
Carrie. 
De 
certo 
modo, 
ela 
sempre 
esperava 
no 
carro, 
exceto 
quando 
ele 
precisava 
de 
sua 
ajuda 
para 
carregar 
um 
corpo, 
ou 
para 
realizar 
um 
ato 
degradante. 


"O 
que 
aconteceu 
aqui, 
agora?", 
perguntei. 


Lucy 
no 
olhou 
para 
mim 
quando 
respondeu: 
"Descobri 
o 
vrus 
e 
instalei 
o 
meu. 
Agora 
toda 
vez 
que 
ele 
tenta 
enviar 
uma 
mensagem 
para 
qualquer 
terminal 
conectado 
ao 
CAIN, 
ela 
aparece 
repetida 
na 
sua 
tela 
 
como 
se 
fosse 
ricocheteada 
e 
batesse 
em 
seu 
rosto, 
em 
vez 
de 
ir 
em 
frente. 
E 
ele 
fica 
diante 
de 
uma 
mensagem 
que 
diz 
Por 
favor, 
tente 
novamente. 
Ento, 
ele 
torna 
a 
tentar. 
Da 
primeira 
vez 
que 
isso 
lhe 
aconteceu, 
o 
cone 
lhe 
deu 
o 
sinal 
positivo 
de 
polegar 
levantado 
depois 
das 
duas 
tentativas, 
e 
ele 
pensou 
que 
a 
mensagem 
foi 
enviada." 


"Mas 
quando 
ele 
voltou 
a 
tentar", 
continuou 
Lucy, 
"aconteceu 
a 
mesma 
coisa, 
e 
fiz 
com 
que 
ele 
tentasse 
mais 
uma 
vez. 
A 
idia 
 
mant-
lo 
na 
linha 
por 
um 
tempo 
que 
nos 
permita 
descobrir 
a 
procedncia 
da 
mensagem." 


"Ns?" 


Lucy 
pegou 
o 
pequeno 
controle 
remoto 
bege 
que 
eu 
a 
vira 
agarrar 
antes. 
"Meu 
boto 
do 
medo", 
disse 
ela. 
"Ele 
vai 
direto, 
via 
sinais 
de 
rdio, 
para 
a 
ERR." 


"Suponho 
que 
Wesley 
ficou 
sabendo 
desse 
modem 
logo 
que 
voc 


o 
descobriu." 
#
"Exato." 


"Queria 
que 
voc 
me 
explicasse 
uma 
coisa", 
pedi 
a 
ela. 


"Claro." 
Ela 
me 
deu 
toda 
a 
sua 
ateno. 


"Mesmo 
com 
Gault 
e 
Carrie 
tendo 
esse 
modem 
escondido, 
e 
seu 
nmero 
secreto, 
e 
quanto 
 
sua 
senha? 
Como 
eles 
poderiam 
entrar 
como 
usurios 
autorizados? 
No 
existem 
comandos 
UNIX 
que 
poderiam 
ser 
digitados 
para 
saber 
se 
um 
outro 
usurio 
ou 
aparelho 
estava 
conectado?" 


"Carrie 
programou 
o 
vrus 
para 
captar 
o 
meu 
nome 
de 
usurio 
e 
a 
minha 
senha, 
sempre 
que 
eu 
a 
mudasse. 
As 
formas 
eram 
decodificadas 
e 
enviadas 
a 
Gault 
via 
E-mail. 
Assim, 
ele 
podia 
entrar 
no 
sistema 
como 
eu, 
e 
o 
vrus 
no 
o 
deixava 
entrar 
a 
menos 
que 
eu 
tambm 
estivesse 
conectada." 


"Quer 
dizer 
ento 
que 
ele 
se 
esconde 
atrs 
de 
voc." 


"Como 
uma 
sombra. 
Ele 
usou 
meu 
nome 
de 
dispositivo. 
Meu 
prprio 
nome 
de 
usurio 
e 
senha. 
Eu 
descobri 
isso 
quando 
dei 
um 
comando 
QUEM 
certo 
dia 
e 
meu 
nome 
de 
usurio 
apareceu 
duas 
vezes." 


"Se 
o 
CAIN 
chama 
os 
usurios 
para 
verificar 
sua 
legitimidade, 
por 
que 
o 
nmero 
de 
telefone 
de 
Gault 
no 
apareceu 
na 
conta 
telefnica 
do 
DPE?" 


"Isso 
tambm 
 
obra 
do 
vrus. 
Ele 
instrui 
o 
sistema 
a 
debitar 
a 
conta 
num 
carto 
de 
crdito 
da 
AT&T. 
Assim, 
as 
chamadas 
nunca 
apareceram 
na 
conta 
do 
FBI. 
Elas 
caem 
na 
conta 
do 
pai 
de 
Gault." 


"Espantoso", 
comentei. 


"Ao 
que 
parece, 
Gault 
est 
com 
o 
carto 
telefnico 
do 
pai 
e 
com 
o 
seu 
cdigo." 


"Ser 
que 
ele 
sabe 
que 
o 
filho 
o 
est 
usando?" 


Um 
dos 
telefones 
tocou. 
Lucy 
atendeu. 


"Sim." 
Fez 
uma 
pausa. 
"Eu 
sei. 
Ns 
chegamos 
perto. 
Est 
bem, 
vou 
lhe 
levar 
os 
prints 
imediatamente." 
Ela 
desligou. 


"Acho 
que 
ningum 
contou 
a 
ele", 
disse 
Lucy. 


"Ningum 
aqui 
disse 
nada 
ao 
pai 
de 
Gault?" 


"Isso 
mesmo. 
Era 
Wesley 
no 
telefone." 


#
"Preciso 
falar 
com 
ele. 
Voc 
no 
se 
importa 
que 
eu 
leve 
os 
prints 
para 
ele?" 


Lucy 
olhava 
novamente 
para 
o 
monitor. 
O 
descanso 
de 
tela 
voltara, 
e 
os 
tringulos 
brilhantes 
passavam 
uns 
pelos 
outros, 
entrelaando-se 
como 
geometria 
fazendo 
amor. 


"Pode 
levar", 
concordou, 
enquanto 
digitava 
Prodigy. 
"Antes 
de 
ir... 
Puxa, 
est 
chegando 
mais 
correspondncia 
para 
voc." 


"Quantas?", 
perguntei, 
me 
aproximando 
dela. 


"Opa. 
At 
agora 
s 
uma." 
Ela 
a 
abriu. 


Lia-se: 
O 
que 
 
restaurao 
de 
ouro? 


"Com 
certeza 
vamos 
receber 
muitas 
dessas", 
disse 
ela, 


Sally 
estava 
no 
balco 
de 
recepo 
quando 
entrei 
na 
Academia. 
Ela 
me 
permitiu 
entrar 
sem 
se 
incomodar 
com 
o 
registro 
e 
o 
passe 
de 
visitante. 
Atravessei 
resolutamente 
o 
comprido 
corredor 
marrom 
e 
passei 
pela 
agncia 
do 
correio 
e 
pela 
sala 
de 
limpeza 
das 
armas. 
Eu 
sempre 
vou 
amar 
o 
cheiro 
de 
Hoppes 
nmero 
9-

Havia 
apenas 
um 
homem 
de 
servio, 
aplicando 
jatos 
de 
ar 
comprimido 
no 
tambor 
de 
um 
rifle. 
Fileiras 
e 
fileiras 
de 
negros 
balces 
estavam 
nuas 
e 
perfeitamente 
limpas, 
e 
pensei 
nos 
longos 
anos 
de 
turmas 
de 
homens 
e 
mulheres 
que 
eu 
vira, 
e 
do 
tempo 
que 
eu 
passara 
limpando 
minha 
prpria 
arma. 
Costumava 
observar 
novos 
agentes 
entrando 
e 
saindo. 
Eu 
os 
vira 
correr, 
lutar, 
atirar 
e 
suar. 
Fui 
sua 
instrutora 
e 
me 
preocupei 
com 
eles. 


Apertei 
o 
boto 
do 
elevador, 
entrei 
e 
desci 
para 
o 
andar 
de 
baixo. 
Muitos 
funcionrios 
estavam 
em 
suas 
salas 
e 
acenaram 
para 
mim 
quando 
passei. 
A 
secretria 
de 
Wesley 
estava 
de 
frias, 
ento 
passei 
por 
sua 
mesa 
e 
bati 
na 
porta 
fechada. 
Ouvi 
a 
voz 
de 
Wesley 
e 
uma 
cadeira 
se 
mexendo. 
Ele 
andou 
at 
a 
porta 
e 
a 
abriu. 


"Ol", 
disse 
ele, 
surpreso. 


"Aqui 
esto 
os 
prints 
que 
voc 
pediu 
a 
Lucy", 
disse-lhe, 
entregando-os. 


"Obrigado. 
Por 
favor, 
entre." 
Ele 
ps 
os 
culos 
para 
leitura 
e 
leu 
as 
mensagens 
que 
Gault 
enviara. 


#
Ele 
estava 
sem 
a 
jaqueta, 
com 
uma 
camiseta 
branca 
dobrada 
em 
volta 
dos 
suspensrios 
de 
couro 
tranado. 
Wesley 
tinha 
suado 
e 
precisava 
fazer 
a 
barba. 


"Voc 
andou 
perdendo 
mais 
peso?", 
perguntei. 


"Eu 
nunca 
me 
peso." 
Ele 
olhou 
para 
mim 
por 
cima 
dos 
culos, 
enquanto 
se 
sentava 
atrs 
de 
sua 
escrivaninha. 


"Parece 
que 
voc 
no 
est 
muito 
bem." 


"Ele 
est 
perdendo 
as 
estribeiras", 
comentou 
Wesley. 
"Voc 
pode 
notar 
isso 
por 
essa 
mensagem. 
Gault 
est 
ficando 
mais 
ousado, 
mais 
atrevido. 
Eu 
arriscaria 
dizer 
que 
l 
pelo 
final 
da 
semana 
vamos 
conseguir 
localiz-lo." 
., 
"E 
ento?" 
Eu 
no 
estava 
convencida. 


"Vamos 
pr 
em 
campo 
a 
ERR." 


"Entendo", 
disse-lhe, 
secamente. 
"A 
eles 
vo 
descer 
de 
um 
helicptero 
usando 
cordas 
e 
explodir 
o 
edifcio." 


Wesley 
olhou 
para 
mim 
novamente. 
Ele 
ps 
o 
papel 
sobre 
a 
escrivaninha 
e 
falou: 
"Voc 
est 
com 
raiva". 


"No, 
Benton. 
Estou 
com 
raiva 
de 
voc, 
no 
 
uma 
raiava 
difusa." 


"Porqu?" 


"Eu 
lhe 
pedi 
que 
no 
envolvesse 
a 
Lucy." 


"No 
tenho 
escolha." 


"Sempre 
existe 
a 
possibilidade 
de 
optar. 
Eu 
no 
ligo 
a 
mnima 
para 
o 
que 
os 
outros 
dizem." 


"Para 
tentar 
localizar 
Gault, 
Lucy 
 
a 
nossa 
nica 
esperana 
nesse 
momento." 
Ele 
fez 
uma 
pausa 
e 
ficou 
olhando 
diretamente 
para 
mim. 
"Ela 
pensa 
por 
sua 
prpria 
cabea." 


"Sim, 
pensa. 
E 
 
por 
isso 
mesmo. 
Lucy 
no 
tem 
um 
boto 
de 
desligar. 
Nem 
sempre 
tem 
noo 
de 
limites." 


"No 
vamos 
lev-la 
a 
fazer 
nada 
que 
a 
ponha 
em 
perigo", 
disse 
ele. 


"Ela 
j 
est 
correndo 
riscos." 


"Voc 
precisa 
deixar 
que 
ela 
cresa, 
Kay." 


Eu 
o 
fitei. 


#
"Ela 
vai 
se 
graduar 
pela 
universidade 
nessa 
primavera. 
Ela 
 
uma 
mulher 
feita." 


"No 
quero 
que 
ela 
volte 
para 
c", 
disse-lhe. 


Ele 
deu 
um 
pequeno 
sorriso, 
mas 
seus 
olhos 
tinham 
uma 
expresso 
triste 
e 
exausta. 
"Espero 
que 
ela 
volte 
para 
c. 
Precisamos 
de 
agentes 
como 
Lucy 
e 
Janet. 
Precisamos 
de 
tudo 
o 
que 
pudermos 
conseguir." 


"Ela 
esconde 
muita 
coisa 
de 
mim. 
Fica 
parecendo 
que 
vocs 
dois 
conspiram 
contra 
mim 
e 
eu 
fico 
por 
fora 
de 
tudo. 
 
muito 
ruim 
que..." 
Eu 
me 
contive. 


"Kay, 
isso 
no 
tem 
nada 
a 
ver 
com 
meu 
relacionamento 
com 
voc." 


"Eu 
gostaria 
mesmo 
que 
no 
tivesse." 


"Voc 
quer 
saber 
tudo 
o 
que 
Lucy 
est 
fazendo?", 
perguntou 
ele. 


"Claro." 


"Voc 
lhe 
diz 
tudo 
quando 
est 
trabalhando 
num 
caso?" 


"De 
forma 
alguma." 


"Entendo." 


"Por 
que 
bateu 
o 
telefone 
na 
minha 
cara?" 


"Voc 
ligou 
numa 
hora 
imprpria", 
respondeu 
ele. 


"Voc 
nunca 
tinha 
feito 
isso 
antes, 
independentemente 
de 
se 
a 
hora 
era 
ou 
no 
imprpria." 


Ele 
tirou 
os 
culos 
e 
guardou-os 
cuidadosamente. 
Estendeu 
a 
mo 
para 
a 
caneca 
de 
caf, 
olhou 
para 
dentro 
dela 
e 
viu 
que 
estava 
vazia. 
Ele 
a 
segurou 
com 
as 
duas 
mos. 


"Eu 
estava 
com 
uma 
pessoa 
e 
no 
queria 
que 
ela 
soubesse 
que 
voc 
estava 
na 
linha", 
explicou. 


"Quem 
era 
essa 
pessoa?" 


"Algum 
do 
Pentgono. 
No 
posso 
lhe 
dizer 
o 
nome." 


"Do 
Pentgono?" 


Ele 
ficou 
em 
silncio. 


"Por 
que 
voc 
iria 
se 
importar 
se 
algum 
do 
Pentgono 
soubesse 
que 
eu 
estava 
ligando 
para 
voc?", 
perguntei. 


#
"Parece 
que 
voc 
criou 
um 
problema", 
disse 
Wesley 
com 
toda 
a 
naturalidade, 
repondo 
a 
caneca 
de 
caf 
no 
lugar. 
"Seria 
melhor 
se 
no 
tivesse 
rondado 
pelo 
Forte 
Lee." 


Eu 
estava 
aparvalhada. 
"O 
doutor 
Gruber, 
seu 
amigo, 
pode 
ser 
demitido. 
Voc 
deve 


evitar 
entrar 
em 
contato 
com 
ele 
daqui 
para 
a 
frente." 
"Isso 
tem 
a 
ver 
com 
o 
Luther 
Gault?" 
"Sim, 
com 
o 
general 
Gault." 
"Eles 
no 
podem 
fazer 
nada 
contra 
o 
doutor 
Gruber", 
protestei. 
"Receio 
que 
sim", 
disse 
Wesley. 
"O 
doutor 
Gruber 
fez 
uma 


pesquisa 
no-autorizada 
num 
arquivo 
militar. 
Ele 
lhe 
passou 
informaes 
confidenciais." 
"Confidenciais?", 
perguntei. 
"Isso 
 
um 
absurdo. 
 
uma 


informao 
de 
rotina. 
Voc 
paga 
vinte 
dlares 
para 
ter 
acesso 
a 
ela 
quando 
visita 
o 
Museu 
do 
Quartel-Mestre. 
No 
 
como 
se 
eu 
tivesse 
pedido 
uma 
droga 
dum 
arquivo 
do 
Pentgono." 


"Voc 
s 
pode 
pagar 
os 
vinte 
dlares 
para 
ter 
acesso 
a 
informaes 
de 
carter 
sigiloso 
se 
for 
a 
pessoa 
interessada 
ou 
tiver 
um 
mandado 
judicial 
para 
isso." 


"Benton, 
estamos 
falando 
de 
um 
serial 
killer. 
Ser 
que 
todo 
mundo 
ficou 
maluco? 
Quem 
 
que 
est 
ligando 
para 
um 
arquivo 
de 
computador?" 


"O 
exrcito 
liga." 
"Trata-se 
de 
um 
caso 
de 
segurana 
nacional?" 
Wesley 
no 
respondeu. 
Como 
ele 
no 
acrescentou 
mais 
nada, 
eu 
disse: 
"timo. 
Vocs 


rapazes 
podem 
ter 
os 
seus 
segredinhos. 
Minha 
nica 
preocupao 
 
evitar 
mais 
mortes. 
Eu 
j 
no 
sei 
mais 
o 
que 
 
que 
lhe 
interessa." 
Meu 
olhar 
era 
implacvel 
e 
sentido. 


"Por 
favor", 
impacientou-se 
Wesley. 
"Sabe, 
tem 
dias 
em 
que 
eu 
gostaria 
de 
fumar 
desbragadamente, 
como 
Marino." 
Ele 
bufou 
exasperado. 
"O 
general 
Gault 
no 
tem 
a 
menor 
importncia 
nessa 
investigao. 
Ele 
no 
precisa 
ser 
arrastado 
para 
ela." 


#
"Acho 
que 
tudo 
o 
que 
pudermos 
saber 
sobre 
a 
famlia 
de 
Temple 
Gault 
 
importante. 
E 
nem 
consigo 
acreditar 
que 
voc 
no 
pense 
assim. 
Informaes 
sobre 
o 
background 
so 
vitais 
para 
traar 
perfis 
e 
prever 
comportamentos." 


"Eu 
estou 
lhe 
dizendo 
que 
o 
general 
Gault 
est 
fora 
disso." 


"Por 
qu?" 


"Por 
uma 
questo 
de 
respeito." 


"Meu 
Deus, 
Benton." 
Eu 
me 
inclinei 
para 
a 
frente 
em 
minha 
cadeira. 
"Gault 
pode 
ter 
matado 
duas 
pessoas 
usando 
um 
diabo 
de 
um 
par 
de 
botas 
de 
seu 
tio. 
E 
voc 
acha 
que 
o 
exrcito 
iria 
gostar 
de 
ver 
isso 
na 
revista 
Timee 
na 
Newsweek? 


"No 
ameace." 


"Vou 
ameaar 
sim. 
Vou 
fazer 
mais 
do 
que 
ameaar, 
se 
no 
fizerem 
o 
certo. 
Fale-me 
do 
general. 
Eu 
j 
sei 
que 
os 
olhos 
do 
sobrinho 
puxaram 
aos 
dele. 
E 
o 
general 
gostava 
de 
se 
pavonear, 
pois, 
ao 
que 
parece, 
ele 
preferia 
ser 
fotografado 
em 
uniformes 
de 
gala, 
como 
Eisenhower." 


"Ele 
pode 
ter 
sido 
vaidoso, 
mas 
era 
um 
homem 
excelente, 
pelo 
que 
todos 
dizem." 


"Quer 
dizer 
que 
ele 
era 
tio 
de 
Gault? 
Voc 
est 
admitindo 
isso?" 


Wesley 
hesitou. 
"Luther 
Gault 
 
tio 
de 
Gault." 


"Fale 
um 
pouco 
mais 
disso." 


"Ele 
nasceu 
em 
Albany 
e 
se 
graduou 
pela 
Citadel, 
em 
1942. 
Dois 
anos 
mais 
tarde, 
quando 
j 
era 
capito, 
sua 
diviso 
se 
transferiu 
para 
a 
Frana, 
onde 
ele 
se 
tornou 
heri 
na 
batalha 
de 
Ardenas. 
Ganhou 
a 
Medalha 
de 
Honra 
e 
foi 
promovido 
novamente. 
Depois 
da 
guerra, 
mandaram-no 
para 
o 
Forte 
Lee 
como 
encarregado 
da 
diviso 
de 
pesquisas 
na 
rea 
de 
uniformes 
da 
Corporao 
do 
Quartel-Mestre." 


"Quer 
dizer 
ento 
que 
as 
botas 
eram 
dele." 


"Bem 
que 
poderiam 
ser." 


"Ele 
era 
alto?" 


"Disseram-me 
que 
ele 
e 
Gault 
eram 
da 
mesma 
altura 
quando 
o 
general 
era 
mais 
jovem." 


#
Pensei 
na 
fotografia 
do 
general 
vestido 
em 
uniforme 
de 
gala. 
Ele 
era 
magro 
e 
no 
muito 
alto. 
Seu 
rosto 
era 
forte, 
olhos 
resolutos, 
mas 
ele 
no 
parecia 
ser 
indelicado. 


"Luther 
Gault 
tambm 
serviu 
na 
Coria", 
continuou 
Wesley. 
"Ele 
foi 
destacado 
para 
trabalhar 
no 
Pentgono 
por 
algum 
tempo, 
como 
subchefe 
de 
equipe, 
e 
depois 
voltou 
a 
Forte 
Lee, 
como 
subcomandante. 
Ele 
terminou 
sua 
carreira 
no 
CMA-V." 


"Eu 
no 
sei 
o 
que 
 
isso", 
disse-lhe. 


"Comando 
Militar 
Auxiliar 
-Vietnam." 


"E 
depois 
disso 
ele 
se 
reformou 
e 
foi 
para 
Seattle?", 
perguntei. 


"Ele 
e 
a 
mulher 
mudaram-se 
para 
l." 


"Filhos 


"Dois 
meninos." 


"E 
como 
eram 
as 
relaes 
do 
general 
com 
o 
irmo?" 


"No 
sei. 
Ele 
faleceu 
e 
seu 
irmo 
no 
vai 
querer 
conversar 
conosco." 


"Ento 
no 
poderemos 
saber 
como 
as 
botas 
do 
tio 
foram 
parar 
nas 
mos 
de 
Gault." 


"Kay, 
existe 
um 
cdigo 
para 
os 
ganhadores 
da 
Medalha 
de 
Honra. 
Eles 
pertencem 
a 
uma 
classe 
diferente. 
O 
exrcito 
lhes 
d 
um 
status 
especial 
e 
eles 
so 
rigorosamente 
protegidos." 


"Todo 
esse 
segredo 
 
por 
causa 
disso?", 
quis 
saber. 


"O 
exrcito 
no 
vai 
gostar 
nada 
nada 
de 
que 
o 
mundo 
saiba 
que 
um 
agraciado 
por 
sua 
Medalha 
de 
Honra, 
general 
de 
duas 
estrelas, 
 
tio 
de 
um 
dos 
mais 
notrios 
psicopatas 
que 
o 
nosso 
pas 
j 
conheceu. 
O 
Pentgono 
no 
vai 
ficar 
nem 
um 
pouco 
satisfeito 
em 
deixar 
transpirar 
que 
esse 
assassino 
 
como 
voc 
j 
disse 
 
pode 
ter 
golpeado 
muitas 
pessoas 
at 
a 
morte, 
usando 
as 
botas 
do 
general 
Gault." 


Levantei 
de 
minha 
cadeira. 
"Estou 
cansada 
de 
homenzinhos 
com 
seus 
cdigos 
de 
honra. 
Estou 
cansada 
da 
cumplicidade 
masculina 
e 
de 
seus 
segredinhos. 
No 
somos 
crianas 
brincando 
de 
ndio 
e 
de 
caubi, 
nem 
meninos 
de 
bairro 
brincando 
de 
guerra." 
Eu 
estava 
exausta. 
"Pensei 
que 
voc 
fosse 
mais 
evoludo." 


#
Ele 
tambm 
se 
levantou, 
enquanto 
meu 
pager 
comeou 
a 
tocar. 
"Voc 
est 
entendendo 
a 
coisa 
de 
forma 
errada", 
disse 
ele. 


Olhei 
para 
a 
telinha 
do 
pager. 
O 
cdigo 
era 
de 
Seattle 
e, 
sem 
pedir 
permisso 
a 
Wesley, 
usei 
seu 
telefone. 


"Al", 
disse 
uma 
voz 
desconhecida. 


"Recebi 
uma 
ligao 
desse 
nmero 
para 
o 
meu 
pager." 


"No 
liguei 
para 
nenhum 
pager. 
De 
onde 
a 
senhora 
est 
ligando?" 


"Virgnia." 
Eu 
estava 
quase 
desligando. 


"Acabei 
de 
ligar 
para 
Virgnia. 
Espere 
um 
minuto. 
 
sobre 
a 
Prodigy?" 


"Oh. 
Talvez 
o 
senhor 
tenha 
falado 
com 
a 
Lucy?" 


"Cdigo 
LUCYTALK?" 


"Sim." 


"Acabamos 
de 
trocar 
mensagens. 
Estou 
respondendo 
 
sua 
consulta 
sobre 
restauraes 
de 
ouro. 
Sou 
dentista 
em 
Seattle 
e 
membro 
da 
Academia 
Americana 
de 
Restauraes 
de 
Ouro. 
A 
senhora 
 
patologista 
forense?" 


"Sim", 
respondi. 
"Muito 
obrigada 
por 
responder. 
Estou 
tentando 
identificar 
uma 
jovem 
morta 
com 
muitas 
restauraes 
de 
ouro." 


"Por 
favor, 
descreva-as." 


Contei-lhe 
sobre 
os 
trabalhos 
odontolgicos 
feitos 
em 
Jane 
e 
sobre 
os 
problemas 
com 
os 
seus 
dentes. 
" 
possvel 
que 
ela 
tenha 
sido 
instrumentista", 
acrescentei. 
"Talvez 
ela 
tocasse 
saxofone." 


"Houve 
uma 
jovem, 
que 
no 
era 
daqui, 
que 
parecia 
ter 
essas 
caractersticas." 


"Ela 
esteve 
em 
Seattle?" 


"Sim. 
Todos 
na 
nossa 
Academia 
sabiam 
sobre 
ela 
porque 
tinha 
uma 
boca 
incrvel. 
Suas 
restauraes 
de 
ouro 
e 
anomalias 
dentrias 
foram 
usadas 
em 
slides 
em 
muitos 
de 
nossos 
encontros." 


"O 
senhor 
se 
lembra 
de 
seu 
nome?" 


"Sinto 
muito. 
Ela 
no 
era 
minha 
paciente. 
Mas 
me 
lembro 
de 
ter 
ouvido 
falar 
que 
ela 
era 
instrumentista 
profissional 
at 
sofrer 
um 


#
terrvel 
acidente. 
Foi 
a 
que 
comearam 
seus 
problemas 
com 
os 
dentes." 


"A 
moa 
de 
quem 
estou 
falando 
tinha 
perdido 
muito 
do 
esmalte 
dos 
dentes", 
disse-lhe. 
"Provavelmente 
por 
excesso 
de 
escovao." 


"Ah, 
sim. 
A 
daqui 
tambm." 


"No 
me 
parece 
que 
a 
moa 
de 
que 
o 
senhor 
est 
falando 
fosse 
uma 
pessoa 
da 
rua", 
comentei. 


"No 
podia 
ser. 
Algum 
pagou 
por 
aquela 
boca." 


"A 
garota 
de 
que 
falo 
vivia 
na 
rua 
quando 
morreu, 
em 
Nova 
York." 
: 


"Jesus, 
isso 
me 
deixa 
triste. 
Imagino 
que, 
fosse 
quem 
fosse, 
essa 
pessoa 
no 
tinha 
condies 
de 
se 
cuidar 
sozinha." 


"Qual 
 
o 
seu 
nome?", 
perguntei. 


"Sou 
Jay 
Bennet." 


"Doutor 
Bennet, 
o 
senhor 
se 
lembra 
de 
mais 
alguma 
coisa 
dita 
num 
desses 
encontros 
com 
apresentao 
de 
slides?" 


Seguiu-se 
um 
longo 
silncio. 
"Sim, 
sim. 
 
uma 
coisa 
muito 
vaga." 
Ele 
hesitou 
novamente. 
"Ah, 
j 
sei", 
disse 
ele. 
"A 
moa 
daqui 
era 
parente 
de 
algum 
importante. 
Na 
verdade, 
ela 
devia 
estar 
morando 
na 
casa 
dessa 
pessoa 
quando 
desapareceu." 


Dei-lhe 
mais 
informaes 
para 
que 
ele 
pudesse 
ligar 
para 
mim 
novamente. 
Eu 
desliguei 
o 
telefone 
e 
meus 
olhos 
encontraram-se 
com 
os 
de 
Wesley. 


"Acho 
que 
Jane 
 
irm 
de 
Gault", 
afirmei. 


"O 
qu?" 
Ele 
parecia 
muito 
chocado. 


"Acho 
que 
Temple 
Gault 
assassinou 
a 
prpria 
irm", 
repeti. 
"Por 
favor, 
diga-me 
que 
ainda 
no 
sabia 
disso." 


Wesley 
se 
sobressaltou. 


"Tenho 
que 
verificar 
a 
identidade 
dela", 
disse-lhe. 
J 
no 
me 
restava 
mais 
nenhuma 
emoo 
naquele 
momento. 


"Seu 
pronturio 
odontolgico 
no 
pode 
esclarecer 
isso?" 


"Se 
o 
acharmos. 
Se 
ainda 
existirem 
as 
radiografias. 
Se 
o 
exrcito 
no 
me 
atrapalhar." 


"O 
exrcito 
nada 
sabe 
sobre 
ela." 
Ele 
fez 
uma 
pausa 
e 
por 
um 


#
instante 
seus 
olhos 
brilharam, 
cheios 
de 
lgrimas. 
Wesley 
desviou 
o 
olhar. 
"Ele 
disse 
o 
que 
fez 
quando 
mandou 
a 
mensagem 
do 
CAIN 
hoje." 


"Sim", 
concordei. 
"Que 
CAIN 
matou 
o 
irmo. 
A 
descrio 
de 
Gault 
com 
ela 
em 
Nova 
York 
parecia 
ser 
mais 
de 
dois 
homens 
do 
que 
de 
uma 
mulher 
e 
de 
um 
homem." 
Fiz 
uma 
pausa. 
"Gault 
tem 
outros 
irmos?" 


"Apenas 
uma 
irm. 
Soubemos 
que 
ela 
viveu 
na 
Costa 
Oeste, 
mas 
nunca 
conseguimos 
saber 
onde, 
porque 
ela 
no 
sabia 
dirigir. 
O 
Departamento 
de 
Trnsito 
no 
tem 
nenhum 
registro 
da 
carteira 
de 
motorista. 
Na 
verdade, 
nunca 
soubemos 
se 
ela 
chegou 
a 
existir." 


"Agora 
no 
existe 
mais", 
respondi. 


Ele 
estremeceu 
e 
desviou 
o 
olhar. 


"Ela 
no 
viveu 
em 
lugar 
nenhum 
 
pelo 
menos 
nos 
ltimos 
anos", 
continuei, 
lembrando-me 
de 
seus 
pobres 
pertences 
e 
de 
seu 
corpo 
mal 
nutrido. 
"Jane 
viveu 
na 
rua, 
por 
um 
tempo. 
Pra 
falar 
a 
verdade, 
acho 
que 
estava 
conseguindo 
sobreviver 
assim, 
at 
que 
seu 
irmo 
chegou 
 
cidade." 


Wesley 
parecia 
desesperado 
quando 
disse, 
com 
a 
voz 
trmula: 
"Como 
pode 
algum 
ter 
feito 
uma 
coisa 
dessas?". 


Envolvi-o 
com 
meus 
braos. 
No 
me 
importava 
se 
algum 
entrasse 
e 
nos 
visse 
assim. 
Abracei-o 
como 
uma 
amiga. 


"Benton", 
disse-lhe. 
"V 
para 
casa." 


#
17 


Passei 
o 
fim 
de 
semana 
e 
o 
Ano-Novo 
em 
Quantico, 
e 
embora 
houvesse 
uma 
grande 
quantidade 
de 
mensagens 
da 
Prodigy, 
a 
perspectiva 
de 
descobrir 
a 
identidade 
de 
Jane 
no 
era 
nada 
promissora. 


Seu 
dentista 
se 
aposentara 
no 
ano 
anterior 
e 
seus 
raios 
X 
Panorex 
tinham 
sido 
reutilizados 
para 
aproveitamento 
da 
prata. 
A 
falta 
desses 
filmes 
foi 
uma 
grande 
decepo, 
porque 
eles 
poderiam 
mostrar 
velhas 
fraturas, 
configurao 
do 
seio 
paranasal 
e 
anomalias 
sseas 
que 
permitiriam 
uma 
identificao. 
Quanto 
s 
fichas 
dentrias, 
quando 
toquei 
no 
assunto, 
seu 
dentista, 
que 
morava 
em 
Los 
Angeles, 
foi 
evasivo. 


"O 
senhor 
ainda 
as 
tem, 
no 
?" 
. 
"Tenho 
um 
milho 
de 
caixas 
na 
garagem." 


"Duvido 
que 
tenha 
um 
milho." 


"Tenho 
bastante." 


"Por 
favor. 
Estamos 
falando 
de 
uma 
mulher 
que 
ainda 
no 
conseguimos 
identificar. 
Todos 
os 
seres 
humanos 
tm 
o 
direito 
de 
serem 
enterrados 
com 
o 
prprio 
nome." 


"Eu 
vou 
ver 
isso, 
est 
bem?" 


Minutos 
mais 
tarde, 
falei 
com 
Marino 
ao 
telefone: 
"Temos 
que 
tentar 
identificar 
pelo 
DNA 
OU 
por 
um 
ID 
visual". 


"Sei", 
disse 
ele, 
zombeteiramente. 
"E 
a, 
o 
que 
 
que 
voc 
vai 
fazer? 
Mostrar 
a 
fotografia 
a 
Gault 
e 
perguntar 
se 
a 
mulher 
em 
quem 
ele 
fez 
aquele 
servio 
se 
parece 
com 
sua 
irm?" 


"Acho 
que 
o 
dentista 
a 
andou 
enganando. 
J 
vi 
isso 
acontecer 
antes." 


"O 
que 
voc 
est 
querendo 
dizer?" 


"s 
vezes 
isso 
acontece. 
Eles 
declaram 
ter 
feito 
um 
trabalho 
que 
no 
fizeram, 
de 
forma 
a 
receber 
dinheiro 
da 
Previdncia 
ou 
dos 
planos 
de 
sade." 


"Mas 
fizeram 
um 
monto 
de 
trabalhos 
em 
sua 
boca." 


"E 
ele 
poderia 
muito 
bem 
ter 
registrado 
outro 
tanto 
a 
mais. 


#
Acredite. 
O 
dobro 
de 
restauraes 
de 
ouro, 
por 
exemplo. 
Isso 
poderia 
significar 
milhares 
de 
dlares. 
Ele 
diz 
que 
fez, 
sem 
ter 
feito. 
Jane 
tem 
uma 
leso 
no 
crebro 
e 
mora 
com 
um 
tio 
velho. 
Como 
eles 
poderiam 
saber?" 


"Odeio 
gente 
babaca." 


"Se 
eu 
pudesse 
conseguir 
suas 
fichas 
dentrias, 
iria 
denunci-
lo. 
Mas 
ele 
no 
vai 
me 
passar. 
Alis, 
elas 
nem 
elevem 
existir 
mais." 


"Voc 
vai 
ter 
que 
participar 
de 
uma 
sesso 
de 
jri 
s 
oito 
da 
manh", 
disse 
Marino. 
"Rose 
ligou 
para 
me 
avisar." 


"Isso 
quer 
dizer 
que 
eu 
devo 
sair 
daqui 
amanh 
cedo." 


"V 
direto 
para 
sua 
casa 
que 
eu 
te 
pego." 


"Vou 
direto 
para 
o 
tribunal." 


"No, 
no 
vai. 
Voc 
no 
vai 
sair 
por 
a, 
dirigindo 
na 
cidade 
nessa 
circunstncia." 


"Sabemos 
que 
Gault 
no 
est 
em 
Richmond", 
disse-lhe. 
"Ele 
est 
no 
seu 
esconderijo 
de 
sempre, 
um 
apartamento 
ou 
sala 
com 
o 
computador." 


"Tucker 
no 
suspendeu 
a 
ordem 
de 
proteo 
policial 
para 
voc." 


"Ele 
no 
pode 
dar 
nenhuma 
ordem 
em 
relao 
a 
mim. 
Ele 
nem 
ao 
menos 
pode 
me 
fazer 
um 
pedido 
num 
restaurante." 


"Ah, 
pode 
sim. 
 
s 
ele 
destacar 
alguns 
policiais 
para 
te 
acompanhar. 
Ou 
voc 
aceita 
a 
situao, 
ou 
tenta 
fugir 
deles. 
Se 
ele 
quiser 
fazer 
o 
pedido 
de 
uma 
droga 
de 
almoo 
para 
voc, 
pode 
fazer 
isso 
tambm." 


Na 
manh 
seguinte, 
liguei 
para 
o 
Departamento 
de 
Medicina 
Legal 
de 
Nova 
York 
e 
deixei 
um 
recado 
para 
o 
dr. 
Horowitz, 
sugerindo 
que 
ele 
comeasse 
a 
anlise 
do 
DNA 
do 
sangue 
de 
Jane. 
Ficou 
combinado 
que 
Marino 
me 
pegaria 
em 
casa 
logo 
cedo. 
Quando 
ele 
chegou, 
os 
vizinhos 
olhavam 
pelas 
janelas 
e 
abriam 
suas 
belas 
portas 
para 
pegar 
os 
jornais. 
Trs 
radiopatrulhas 
estavam 
estacionadas 
na 
frente 
do 
Ford 
de 
Marino, 
sem 
identificao, 
parado 
na 
entrada 
da 
garagem. 
Windsor 
Farms 
acordava, 
ia 
ao 
trabalho 
e 
me 
via 
sendo 
escoltada 
por 
policiais. 
Os 
gramados, 
perfeitos, 
estavam 
brancos 
com 
a 


#
geada, 
e 
o 
cu, 
quase 
azul. 


Quando 
cheguei 
ao 
Tribunal 
John 
Marshall, 
seguiu-se 
uma 
rotina 
 
qual 
eu 
j 
estava 
bastante 
acostumada. 
Mas 
o 
policial 
que 
se 
encontrava 
na 
portaria 
no 
entendeu 
o 
que 
eu 
estava 
fazendo 
ali. 


"Bom 
dia, 
doutora 
Scarpetta", 
disse 
ele, 
abrindo 
um 
largo 
sorriso. 
"E 
essa 
neve, 
hein? 
No 
parece 
que 
estamos 
vivendo 
num 
carto 
de 
Natal 
Hallmark? 
E 
bom 
dia 
para 
o 
senhor 
tambm, 
capito", 
acrescentou 
ele, 
dirigindo-se 
a 
Marino. 


A 
mquina 
de 
raios 
X 
disparou 
quando 
passei. 
Apareceu 
uma 
policial 
para 
me 
revistar, 
enquanto 
o 
que 
apreciava 
a 
neve, 
vasculhava 
minha 
bolsa. 
Marino 
e 
eu 
descemos 
pelas 
escadas 
e 
chegamos 
a 
uma 
sala 
com 
carpete 
cor 
de 
laranja 
e 
filas 
de 
cadeiras 
com 
uma 
ou 
outra 
pessoa 
sentada. 
Sentamos 
na 
fileira 
de 
trs, 
e 
ficamos 
ouvindo 
pessoas 
dormitando, 
mexendo 
em 
papis, 
tossindo 
ou 
assoando 
o 
nariz. 
Um 
homem 
com 
jaqueta 
de 
couro 
com 
as 
fraldas 
da 
camisa 
penduradas 
folheava 
revistas 
enquanto 
um 
outro, 
de 
cashmere 
lia 
um 
romance. 
Na 
sala 
vizinha, 
um 
aspirador 
de 
p 
zumbia, 
balia 
na 
porta 
da 
sala 
cor 
de 
laranja 
e 
voltava. 


Contando 
com 
Marino, 
havia 
trs 
policiais 
uniformizados 
a 
minha 
volta, 
naquela 
sala 
aborrecida. 
s 
oito 
e 
cinqenta 
da 
manh 
entrou 
a 
oficial 
de 
justia, 
atrasada, 
e 
subiu 
num 
estrado 
para 
nos 
dar 
algumas 
orientaes. 


"Temos 
duas 
mudanas", 
disse 
ela, 
olhando 
diretamente 
para 
mim. 
"O 
xerife 
que 
vamos 
ver 
no 
videoteipe 
no 
mais 
xerife." 


Marino 
sussurrou 
ao 
meu 
ouvido: 
"Porque 
ele 
j 
morreu". 


"E", 
continuou 
ela, 
"o 
filme 
vai 
dizer 
a 
vocs 
que 
os 
emolumentos 
pela 
participao 
no 
jri 
so 
de 
trinta 
dlares, 
mas 
ainda 
so 
de 
vinte 
dlares." 


"Puxa", 
Marino 
voltou 
a 
pendurar 
no 
meu 
ouvido. 
"Ser 
que 
voc 
vai 
precisar 
de 
um 
emprstimo?" 


Assistimos 
ao 
vdeo 
e 
aprendi 
muita 
coisa 
sobre 
o 
meu 
importante 
dever 
cvico 
e 
sobre 
os 
privilgios 
correspondentes. 
Observei 


o 
xerife 
Brown 
novamente, 
agradecendo-me 
por 
prestar 
aquele 
#
importante 
servio. 
Ele 
me 
informou 
que 
eu 
fora 
chamada 
para 
decidir 


o 
destino 
de 
outra 
pessoa, 
e 
ento 
me 
mostrou 
o 
computador 
que 
usara 
para 
me 
selecionar. 
"Os 
nomes 
indicados 
so 
tirados 
de 
uma 
urna", 
afirmou 
ele, 
com 
um 
sorriso. 
"Nossa 
justia 
depende 
da 
cuidadosa 
apreciao 
dos 
indcios 
e 
das 
provas. 
Nossa 
justia 
depende 
de 
ns." 


Ele 
deu 
um 
nmero 
de 
telefone 
para 
o 
qual 
poderamos 
ligar, 
e 
nos 
lembrou 
de 
que 
a 
xcara 
de 
caf 
custava 
vinte 
e 
cinco 
centavos 
e 
que 
eles 
no 
tinham 
troco. 


Depois 
do 
vdeo, 
a 
oficial 
de 
justia, 
uma 
bela 
negra, 
aproximou-
se 
de 
mim. 


"Voc 
 
policial?", 
perguntou 
ela, 
em 
voz 
baixa. 


"No", 
respondi, 
explicando-lhe 
quem 
eu 
era, 
enquanto 
ela 
olhava 
para 
Marino 
e 
para 
os 
outros 
policiais. 


"Devemos 
desculpas 
a 
voc", 
sussurrou 
ela. 
"No 
devia 
estar 
aqui. 
Devia 
ter 
nos 
telefonado 
para 
nos 
informar. 
No 
tenho 
a 
menor 
idia 
de 
por 
que 
voc 
est 
aqui." 


Os 
outros 
sorteados 
estavam 
olhando 
para 
ns. 
Isso 
desde 
que 
entramos, 
e 
a 
razo 
se 
tornou 
clara. 
Eles 
ignoravam 
totalmente 
o 
sistema 
judicial, 
e 
eu 
me 
via 
rodeada 
de 
policiais. 
Alm 
disso, 
a 
oficial 
de 
justia 
tambm 
estava 
l. 
Eu 
devia 
ser 
a 
r. 
Provavelmente 
eles 
no 
sabiam 
que 
os 
rus 
no 
lem 
revistas 
na 
mesma 
sala 
que 
os 
membros 
do 
jri. 


Na 
hora 
do 
almoo 
eu 
j 
tinha 
ido 
embora, 
me 
perguntando 
se 
alguma 
vez 
na 
vida 
eu 
iria 
participar 
de 
um 
jri. 
Marino 
me 
deixou 
na 
porta 
do 
meu 
edifcio 
e 
eu 
fui 
para 
minha 
sala. 
Liguei 
novamente 
para 
Nova 
York 
e 
o 
dr. 
Horowitz 
atendeu 
ao 
telefone. 


"Ela 
foi 
enterrada 
ontem", 
disse 
ele, 
referindo-se 
a 
Jane. 
Senti-me 
muito 
triste. 
"Eu 
achava 
que 
vocs 
esperassem 
um 
pouco 
mais." 
"Dez 
dias. 
J 
faz 
mais 
ou 
menos 
isso, 
Kay. 
Voc 
sabe 
que 
temos 
problema 
de 
espao." 
"Mas 
ns 
podemos 
identific-la 
pelo 
DNA." 


#
"Por 
que 
no 
pelos 
registros 
dentrios?" 


Eu 
expliquei 
o 
problema. 


" 
uma 
pena." 
O 
dr. 
Horowitz 
fez 
uma 
pausa 
e, 
quando 
recomeou 
a 
falar, 
estava 
meio 
relutante. 
"Sinto 
lhe 
dizer 
que 
tivemos 
uma 
tremenda 
confuso 
por 
aqui." 
Fez 
nova 
pausa. 
"Francamente. 
Gostaria 
que 
no 
a 
tivssemos 
enterrado. 
Mas 
enterramos." 


"O 
que 
aconteceu?" 


"Parece 
que 
ningum 
sabe. 
Guardamos 
uma 
amostra 
de 
sangue 
em 
papel 
filtro 
para 
teste 
de 
DNA, 
como 
sempre 
fazemos. 
E 
mantemos 
tambm, 
 
claro, 
um 
vaso 
com 
sees 
dos 
rgos 
maiores^etc. 
A 
amostra 
de 
sangue 
parece 
ter 
sido 
colocada 
em 
lugar 
errado, 
e 
o 
vaso 
foi 
jogado 
fora 
por 
engano." 


"No 
pode 
ter 
acontecido 
isso!", 
exclamei. 


O 
dr. 
Horowitz 
ficou 
em 
silncio. 


"E 
quanto 
aos 
tecidos 
nas 
placas 
de 
parafina 
para 
histologia?", 
perguntei 
ento, 
pois 
o 
tecido 
poderia 
ser 
usado 
para 
testes 
de 
DNA, 
se 
as 
outras 
alternativas 
falhassem. 


"No 
tiramos 
tecidos 
para 
exames 
quando 
a 
causa 
da 
morte 
 
clara", 
respondeu 
ele. 


Eu 
no 
sabia 
o 
que 
dizer. 
Ou 
o 
dr. 
Horowitz 
dirigia 
um 
departamento 
terrivelmente 
incompetente, 
ou 
esses 
enganos 
no 
eram 
bem 
"enganos". 
Sempre 
tive 
certeza 
de 
que 
ele 
era 
um 
homem 
muito 
escrupuloso. 
Talvez 
tivesse 
me 
enganado. 
Eu 
sabia 
como 
eram 
as 
coisas 
na 
cidade 
de 
Nova 
York. 
Os 
polticos 
no 
conseguiam 
ficar 
longe 
do 
necrotrio. 


" 
preciso 
traz-la 
para 
c", 
disse-lhe. 
"No 
vejo 
alternativa. 
Ela 
foi 
embalsamada?" 


"Raramente 
embalsamamos 
corpos 
destinados 
 
ilha 
Hart", 
respondeu, 
referindo-se 
 
ilha 
do 
East 
River 
onde 
ficava 
o 
Cemitrio 
de 
Indigentes. 
"Vai 
ser 
preciso 
localizar 
o 
seu 
nmero 
de 
identificao, 
exum-la 
e 
traz-la 
de 
volta 
na 
balsa. 
Podemos 
fazer 
isso. 
 
s 
o 
que 
podemos 
fazer. 
Isso 
vai 
levar 
alguns 
dias." 


"Doutor 
Horowitz", 
disse-lhe, 
cautelosa, 
"o 
que 
 
que 
est 


#
havendo?" 


Sua 
voz 
estava 
firme 
mas 
desapontada, 
quando 
respondeu: 
"No 
tenho 
a 
menor 
idia". 


Sentei 
 
minha 
escrivaninha 
tentando 
pensar 
no 
que 
poderia 
fazer. 
Por 
que 
o 
exrcito 
tinha 
que 
se 
preocupar 
com 
o 
fato 
de 
Jane 
ser 
identificada? 
Se 
ela 
era 
sobrinha 
do 
general 
Gault, 
e 
o 
exrcito 
sabia 
que 
ela 
morrera, 
era 
de 
se 
esperar 
que 
eles 
quisessem 
confirmar 
sua 
identidade 
e 
enterr-la 
de 
forma 
devida. 


"Doutora 
Scarpetta", 
disse 
Rose, 
na 
porta 
que 
ligava 
minha 
sala 
 
sua, 
" 
Brent, 
do 
banco." 


Ela 
transferiu 
a 
ligao. 


"Tenho 
uma 
nova 
despesa", 
disse 
ele. 


"Sei", 
afirmei, 
tensa. 


"Foi 
ontem. 
Um 
lugar 
chamado 
Fino, 
em 
Nova 
York. 
Eu 
verifiquei. 
 
na 
rua 
36 
Leste. 
O 
valor 
 
de 
104,13 
dlares." 


Fino 
tinha 
uma 
excelente 
comida 
da 
Itlia 
setentrional. 
Meus 
avs 
eram 
do 
norte 
da 
Itlia 
e 
Gault 
se 
fez 
passar 
por 
Benelli, 
um 
nome 
italiano. 
Tentei 
ligar 
para 
Wesley, 
mas 
ele 
no 
estava. 
Tambm 
no 
encontrei 
Lucy, 
que 
no 
estava 
nem 
no 
DPE, 
nem 
em 
seu 
alojamento. 
Marino 
era 
a 
nica 
pessoa 
a 
quem 
eu 
podia 
dizer 
que 
Gault 
voltara 
para 
Nova 
York. 


"Ele 
est 
aprontando 
de 
novo", 
disse 
Marino, 
chateado. 
"Sabe 
que 
estamos 
acompanhando 
essas 
despesas 
do 
carto, 
doutora. 
Ele 
no 
est 
fazendo 
nada 
que 
no 
queira 
que 
a 
gente 
saiba." 


"Sei 
disso." 


"No 
vamos 
peg-lo 
pelo 
American 
Express. 
O 
que 
voc 
deve 
fazer 
 
cancelar 
o 
carto." 


Mas 
eu 
no 
podia 
fazer 
isso. 
Meu 
carto 
era 
como 
o 
modem 
que 
Lucy 
sabia 
estar 
sob 
o 
assoalho. 
Ambos 
eram 
tnues 
fios 
que 
levavam 
a 
Gault. 
Ele 
estava 
aprontando 
das 
suas, 
mas 
mais 
dia, 
menos 
dia, 
ele 
ia 
se 
exceder. 
Ia 
ficar 
muito 
despreocupado 
e, 
no 
embalo 
da 
cocana, 
cometeria 
um 
erro. 


"Doutora", 
continuou 
Marino, 
"voc 
est 
ficando 
muito 
nervosa 


#
com 
isso. 
Precisa 
relaxar." 


Gault 
queria 
que 
eu 
o 
achasse, 
pensei. 
Toda 
vez 
que 
ele 
usava 
o 
carto, 
estava 
mandando 
uma 
mensagem 
para 
mim. 
Dando-me 
mais 
informaes 
sobre 
ele. 
Eu 
sabia 
o 
que 
ele 
gostava 
de 
comer 
e 
que 
no 
gostava 
de 
vinho 
tinto. 
Sabia 
dos 
cigarros 
que 
fumava, 
as 
roupas 
que 
usava, 
e 
pensei 
em 
suas 
botas. 


"Voc 
est 
me 
ouvindo?", 
ouvi 
Marino 
perguntar. 


Ns 
sempre 
partimos 
da 
hiptese 
de 
que 
as 
botas 
eram 
de 
Gault. 


"As 
botas 
pertenciam 
a 
sua 
irm", 
pensei 
alto. 


"Do 
que 
 
que 
voc 
est 
falando?", 
perguntou 
Marino, 
impaciente. 


"Ela 
deve 
ter 
recebido 
do 
tio 
anos 
atrs 
e 
a 
Gault 
tomou-as 
dela." 


"Quando? 
Ele 
no 
fez 
isso 
em 
Cherry 
Hill, 
na 
neve." 


"No 
sei 
quando 
foi. 
Pode 
ter 
sido 
pouco 
antes 
de 
ela 
morrer. 
Ou 
dentro 
do 
Museu 
de 
Histria 
Natural. 
Eles 
usavam 
praticamente 
o 
mesmo 
nmero 
de 
sapato. 
Podem 
ter 
trocado 
as 
botas. 
Pode 
ser 
qualquer 
coisa. 
Mas 
duvido 
que 
ela 
as 
tenha 
dado 
voluntariamente. 
Pelo 
fato 
de 
que 
as 
botas 
deviam 
ser 
muito 
boas 
para 
enfrentar 
a 
neve. 
Era 
muito 
melhor 
usar 
aquelas 
do 
que 
as 
que 
encontramos 
no 
antro 
de 
Benny." 


Marino 
ficou 
em 
silncio 
mais 
um 
pouco. 
Ento 
ele 
disse: 
"Por 
que 
ele 
tomaria 
suas 
botas?". 


" 
simples", 
respondi. 
"Porque 
as 
queria." 


Naquela 
tarde 
fui 
ao 
aeroporto 
de 
Richmond 
com 
uma 
pasta 
cheia 
e 
um 
pequeno 
saco 
de 
viagem. 
No 
liguei 
para. 
meu 
agente 
de 
viagens 
porque 
no 
queria 
que 
ningum 
soubesse 
para 
onde 
eu 
iria. 
No 
balco 
da 
USAir, 
comprei 
uma 
passagem 
para 
Hilton 
Head, 
Carolina 
do 
Sul. 


"Ouvi 
dizer 
que 
l 
 
muito 
bonito", 
disse 
a 
comunicativa 
moa 
que 
me 
atendeu. 
"Muita 
gente 
vai 
at 
l 
para 
jogar 
golfe 
e 
tnis." 
Ela 
registrou 
minha 
sacola 
de 
viagem. 


"Voc 
precisa 
pr 
uma 
etiqueta." 
Baixei 
a 
voz: 
"Tem 
uma 
arma 


#
de 
fogo 
dentro 
dela". 


Ela 
fez 
que 
sim 
e 
me 
deu 
uma 
etiqueta 
laranja 
berrante, 
informando 
que 
eu 
levava 
uma 
arma 
de 
fogo 
descarregada. 


"Vou 
deixar 
que 
a 
senhora 
a 
leve 
a 
dentro", 
disse-me 
ela. 
"Sua 
sacola 
fecha?" 


Fechei 
o 
zper 
com 
um 
cadeado 
e 
observei-a, 
enquanto 
ela 
punha 
a 
sacola 
na 
esteira 
rolante. 
Ela 
me 
devolveu 
a 
passagem 
e 
subi 
para 
o 
porto, 
que 
estava 
cheio 
de 
gente 
que 
no 
parecia 
muito 
feliz 
em 
voltar 
para 
casa, 
ou 
para 
o 
trabalho, 
depois 
dos 
feriados. 


O 
vo 
para 
Charlotte 
pareceu 
demorar 
mais 
de 
uma 
hora, 
porque 
eu 
no 
podia 
usar 
meu 
telefone 
celular 
e 
meu 
pager 
tocou 
duas 
vezes. 
Passei 
os 
olhos 
pelo 
Wall 
Street 
Journale 
pelo 
Washington 
Post, 
enquanto 
meus 
pensamentos 
vagavam 
por 
caminhos 
traioeiros. 
Eu 
imaginava 
como 
iria 
falar 
aos 
pais 
de 
Temple 
Gault 
sobre 
a 
mulher 
assassinada 
que 
chamvamos 
de 
Jane. 


Eu 
nem 
ao 
menos 
tinha 
certeza 
de 
que 
os 
Gault 
iriam 
me 
receber, 
porque 
eu 
no 
tinha 
telefonado 
antes. 
Seu 
endereo 
e 
telefone 
no 
constavam 
do 
catlogo. 
Mas 
eu 
achava 
que 
no 
devia 
ser 
to 
difcil 
encontrar 
a 
propriedade 
que 
eles 
haviam 
comprado, 
perto 
de 
Beauford. 
A 
fazenda 
Live 
Oaks 
era 
uma 
das 
mais 
velhas 
da 
Carolina 
do 
Sul, 
e 
as 
pessoas 
do 
lugar 
saberiam 
de 
alguma 
coisa 
sobre 
esse 
casal 
que 
tinha 
perdido 
a 
casa 
e 
as 
instalaes 
na 
enchente 
de 
Albany. 


No 
aeroporto 
de 
Charlotte 
tive 
bastante 
tempo 
para 
responder 
s 
chamadas 
ao 
meu 
pager. 
Ambas 
eram 
de 
Rose,que 
me 
pedia 
para 
verificar 
o 
tempo 
livre 
na 
minha 
agenda, 
porque 
haviam 
chegado 
muitas 
intimaes. 


"E 
Lucy 
queria 
falar 
com 
a 
senhora", 
disse 
ela. 


"Ela 
tem 
o 
nmero 
do 
meu 
pager", 
afirmei, 
surpresa. 


"Perguntei-lhe 
se 
ela 
tinha 
o 
nmero", 
falou 
a 
secretria. 
"Ela 
disse 
que 
ligava 
outra 
hora." 


"Disse 
de 
onde 
estava 
ligando?" 


"No. 
Acho 
que 
de 
Quantico." 


No 
tive 
tempo 
de 
perguntar 
mais 
nada, 
porque 
o 
terminal 
D 
era 


#
muito 
comprido 
e 
o 
avio 
para 
Hilton 
Head 
partiria 
dentro 
de 
quinze 
minutos. 
Fiz 
todo 
o 
caminho 
correndo 
e 
tive 
tempo 
de 
comprar 
um 
pozinho 
macio 
sem 
sal. 
Peguei 
tambm 
vrios 
pacotinhos 
de 
mostarda, 
e 
levei 
a 
bordo 
a 
nica 
refeio 
daquele 
dia. 
O 
executivo 
sentado 
ao 
meu 
lado 
ficou 
olhando 
meu 
lanche, 
como 
se 
dissesse 
que 
eu 
era 
uma 
dona 
de 
casa 
grosseira 
que 
no 
sabia 
nada 
sobre 
viagens 
areas. 


Quando 
j 
tnhamos 
levantado 
vo, 
peguei 
a 
mostarda 
e 
pedi 
um 
usque 
com 
gelo. 


"Por 
acaso 
o 
senhor 
poderia 
me 
trocar 
uma 
nota 
de 
vinte?", 
perguntei 
ao 
meu 
vizinho, 
porque 
ouvira 
a 
comissria 
de 
bordo 
reclamar 
de 
que 
estava 
sem 
troco. 


Ele 
pegou 
sua 
carteira 
enquanto 
eu 
abria 
o 
New 
York 
Times. 
Deu-me 
uma 
nota 
de 
dez 
e 
duas 
de 
cinco, 
ento 
eu 
paguei 
seu 
drinque. 
"Fica 
uma 
coisa 
pela 
outra", 
disse-lhe. 


" 
muita 
gentileza 
sua", 
agradeceu 
ele, 
num 
sotaque 
sulista 
xaroposo. 
"Imagino 
que 
a 
senhora 
deve 
ser 
de 
Nova 
York." 


"Sim", 
menti. 


"Por 
acaso 
est 
indo 
a 
Hilton 
Head 
para 
a 
Conveno 
de 
Lojas 
de 
Convenincia 
da 
Carolina? 
Vai 
ser 
no 
Hyatt." 


"No. 
Estou 
indo 
para 
a 
Conveno 
das 
Casas 
Funerrias", 
menti 
novamente. 
"Vai 
ser 
no 
Holiday 
Inn." 


"Ah", 
disse 
ele. 
E 
no 
falou 
mais 
nada. 


O 
aeroporto 
de 
Hilton 
Head 
estava 
cheio 
de 
pequenos 
avies 
particulares 
e 
Learjets, 
pertencentes 
s 
pessoas 
muito 
ricas 
que 
tinham 
casas 
na 
ilha. 
O 
terminal 
era 
um 
pouco 
maior 
que 
uma 
cabana, 
e 
a 
bagagem 
ficava 
amontoada 
do 
lado 
de 
fora, 
numa 
plataforma 
de 
madeira. 
Fazia 
frio, 
o 
cu 
estava 
escuro 
e 
instvel, 
e 
enquanto 
os 
passageiros 
corriam 
apressados 
para 
os 
carros 
que 
os 
esperavam 
e 
para 
os 
trens, 
eu 
ouvia 
suas 
queixas. 


"Que 
merda", 
exclamou 
o 
homem 
que 
estivera 
sentado 
ao 
meu 
lado. 
Ele 
carregava 
tacos 
de 
golfe 
quando 
se 
ouviu 
um 
trovo 
logo 
depois 
de 
um 
raio, 
que 
iluminou 
uma 
parte 
do 
cu 
como 
se 
tivesse 
comeado 
uma 
guerra. 


#
Aluguei 
um 
Lincoln 
prateado 
e 
passei 
algum 
tempo 
abrigada 
dentro 
dele 
no 
estacionamento 
do 
aeroporto. 
A 
chuva 
tamborilava 
no 
teto 
do 
carro, 
e 
eu 
no 
conseguia 
ver 
nada 
atravs 
do 
pra-brisa, 
enquanto 
estudava 
o 
mapa 
que 
a 
Hertz 
me 
dera. 
A 
casa 
de 
Anna 
Zenner 
era 
em 
Palmetto 
Dunes, 
no 
muito 
longe 
do 
Hyatt, 
para 
onde 
o 
homem 
do 
avio 
fora. 
Tentei 
ver 
se 
seu 
carro 
ainda 
estava 
no 
estacionamento, 
mas 
tanto 
quando 
pude 
ver, 
ele 
e 
seus 
tacos 
de 
golfe 
tinham 
sumido. 


A 
chuva 
amainou 
e 
peguei 
a 
sada 
do 
aeroporto 
que 
dava 
para 
a 
alameda 
William 
Hilton, 
que 
me 
levou 
 
Queens 
Folly. 
Tinha 
percorrido 
um 
pequeno 
trecho 
dessa 
rodovia 
quando 
achei 
a 
casa. 
Eu 
esperava 
uma 
coisa 
menor. 
O 
refgio 
de 
Anna 
no 
era 
um 
bangal, 
e 
sim 
um 
esplndido 
solar 
rstico 
com 
teto 
de 
madeira 
e 
vidro 
inclinados 
para 
dar 
vazo 
 
gua 
da 
chuva. 
O 
quintal 
onde 
estacionei 
tinha 
muitas 
palmeiras 
e 
carvalhos 
cheios 
de 
barbas-de-velho. 
Um 
esquilo 
desceu 
de 
uma 
rvore 
quando 
eu 
estava 
subindo 
os 
degraus 
que 
davam 
para 
o 
alpendre. 
Ele 
chegou 
bem 
perto 
e 
ficou 
de 
p, 
sobre 
as 
patas 
traseiras, 
as 
bochechas 
mexendo-se 
rapidamente 
como 
se 
ele 
tivesse 
um 
monte 
de 
coisas 
a 
me 
dizer. 


"Aposto 
como 
ela 
d 
comida 
para 
voc, 
no?", 
disse-lhe, 
enquanto 
apanhava 
a 
chave. 


Ele 
continuou 
com 
as 
patas 
dianteiras 
levantadas, 
como 
se 
protestasse. 


"Bem, 
no 
tenho 
absolutamente 
nada, 
apenas 
a 
lembrana 
de 
um 
pozinho", 
disse 
eu. 
"Sinto 
muito." 
Fiz 
uma 
pequena 
pausa, 
e 
ele 
pulou 
para 
um 
pouco 
mais 
perto. 
"E 
se 
voc 
estiver 
com 
hidrofobia, 
vou 
ter 
que 
matar 
voc." 


Entrei 
decepcionada, 
porque 
no 
havia 
alarme 
contra 
roubo. 


"Isso 
 
ruim", 
comentei, 
mas 
eu 
no 
ia 
mudar 
de 
lugar. 


Fechei 
a 
porta 
e 
passei 
o 
ferrolho. 
Ningum 
sabia 
que 
eu 
estava 
ali. 
Eu 
ia 
ficar 
bem. 
Fazia 
muitos 
anos 
que 
Anna 
vinha 
para 
Hilton 
Head 
e 
nunca 
sentiu 
necessidade 
de 
pr 
um 
sistema 
de 
segurana. 
Gault 
estava 
em 
Nova 
York 
e 
eu 
no 
via 
como 
ele 
poderia 
ter 
me 
seguido. 
Andei 
at 
a 
sala 
de 
madeira 
rstica 
e 
janelas 
que 
subiam 


#
desde 
o 
cho 
at 
o 
teto. 
A 
madeira 
de 
lei 
era 
coberta 
por 
um 
brilhante 
tapete 
indiano, 
e 
a 
moblia 
era 
de 
mogno 
branqueado, 
guarnecido 
de 
tecidos 
com 
adorveis 
matizes. 


Andei 
de 
sala 
em 
sala 
cada 
vez 
mais 
faminta, 
enquanto 
o 
oceano 
se 
transformava 
em 
chumbo 
lquido 
e 
um 
resoluto 
peloto 
de 
nuvens 
negras 
marchava, 
vindo 
do 
norte. 
Um 
comprido 
passeio 
"de 
tbuas 
comeava 
na 
casa 
e 
se 
estendia 
at 
as 
dunas, 
e 
eu 
levei 
caf 
at 
o 
seu 
extremo. 
Fiquei 
olhando 
as 
pessoas 
caminhando 
e 
andando 
de 
bicicleta, 
e 
um 
ou 
outro 
fazendo 
jogging. 
A 
areia 
era 
dura 
e 
cinzenta, 
e 
bandos 
de 
pelicanos 
marrons 
voavam 
em 
formao 
como 
que 
preparando 
um 
ataque 
a 
uma 
nao 
de 
peixes 
inimigos 
ou 
talvez 
ao 
tempo. 


Uma 
toninha 
emergiu 
quando 
homens 
jogaram 
bolas 
de 
golfe 
no 
mar, 
e 
ento 
uma 
prancha 
de 
Styrofoam 
voou 
das 
mos 
de 
um 
menino. 
Ela 
foi 
carregada 
pela 
praia 
enquanto 
ele 
corria 
desabaladamente. 
Fiquei 
observando 
a 
perseguio 
que 
se 
estendeu 
por 
um 
quarto 
de 
milha, 
at 
que 
sua 
presa 
deslizou 
pela 
grama, 
subiu 
na 
minha 
duna 
e 
pulou 
minha 
sebe. 
Desci 
os 
degraus 
e 
peguei-a 
antes 
que 
o 
vento 
a 
carregasse 
novamente, 
e 
o 
menino 
diminuiu 
a 
marcha 
quando 
me 
viu 
olhando 
para 
ele. 


Ele 
no 
teria 
mais 
do 
que 
oito 
ou 
nove 
anos: 
Trajava 
jeans 
e 
suter. 
L 
longe, 
na 
praia, 
sua 
me 
tentava 
alcan-lo. 


"Voc 
pode 
me 
dar 
minha 
prancha, 
por 
favor?", 
disse 
ele, 
olhando 
para 
a 
areia. 


"Voc 
quer 
que 
o 
ajude 
a 
lev-la 
de 
volta 
a 
sua 
me?", 
perguntei, 
carinhosamente. 
"Com 
esse 
vento 
 
difcil 
uma 
pessoa 
conseguir 
levar 
sozinha. 
" 


"No, 
obrigado", 
respondeu 
ele 
timidamente, 
estendendo 
as 
mos. 


Senti-me 
rejeitada 
enquanto 
observava, 
do 
caminho 
de 
tbuas 
de 
Anna, 
o 
menino 
lutando 
contra 
o 
vento. 
Finalmente, 
ele 
colou 
a 
prancha 
ao 
corpo 
como 
uma 
tbua 
de 
passar 
e 
foi 
caminhando 
com 
dificuldade 
pela 
areia 
mida. 
Continuei 
olhando 
para 
ele 
e 
sua 
me 
at 
se 
tornarem 
pontinhos 
que, 
de 
vez 
em 
quando, 
eu 
perdia 
de 
vista. 


#
Tentei 
imaginar 
para 
onde 
estavam 
indo. 
Para 
um 
hotel 
ou 
para 
uma 
casa? 
Onde 
costumam 
ficar 
os 
menininhos 
e 
suas 
mes 
em 
noites 
chuvosas 
neste 
lugar? 


Quando 
eu 
ainda 
era 
criana, 
nunca 
viajara 
de 
frias 
porque 
no 
tnhamos 
dinheiro, 
e 
agora 
eu 
no 
tinha 
filhos. 
Pensei 
em 
Wesley 
e 
tive 
vontade 
de 
ligar 
para 
ele, 
ao 
ouvir 
o 
barulho 
das 
ondas 
quebrando 
na 
praia. 
Apareceram 
estrelas 
por 
entre 
as 
negras 
nuvens, 
e 
as 
vozes 
eram 
levadas 
pelo 
vento 
de 
forma 
que 
eu 
no 
podia 
entender 
uma 
palavra. 
Poderia 
muito 
bem 
estar 
ouvindo 
o 
coaxar 
de 
sapos 
ou 
o 
canto 
de 
pssaros. 
Levei 
minha 
xcara 
de 
caf 
vazia 
para 
dentro 
de 
casa, 
e, 
pela 
primeira 
vez, 
no 
senti 
medo. 


Ocorreu-me 
que 
talvez 
no 
houvesse 
nenhuma 
comida, 
e 
que 
eu 
teria 
que 
me 
contentar 
com 
o 
pozinho 
que 
comera 
horas 
antes. 


"Obrigada, 
Anna", 
disse, 
ao 
encontrar 
uma 
proviso 
de 
alimentos 
dietticos. 


Esquentei 
peru 
e 
legumes 
sortidos, 
liguei 
a 
lareira 
a 
gs 
e 
adormeci 
num 
sof 
branco, 
com 
minha 
Browning 
no 
muito 
longe 
de 
mim. 
Eu 
estava 
cansada 
demais 
para 
sonhar. 
O 
sol 
e 
eu 
levantamos 
 
mesma 
hora, 
e 
a 
minha 
misso 
s 
me 
pareceu 
real 
quando 
olhei 
para 
a 
sacola 
de 
viagem 
e 
pensei 
no 
que 
havia 
dentro 
dela. 
Era 
cedo 
demais 
para 
sair, 
ento 
pus 
um 
suter 
e 
um 
jeans 
e 
sa 
para 
dar 
um 
passeio. 


A 
areia 
estava 
firme 
e 
lisa 
para 
os 
lados 
de 
Sea 
Pines, 
e 
o 
sol 
era 
uma 
mancha 
amarelo-clara 
na 
gua. 
O 
canto 
dos 
pssaros 
somava-se 
ao 
barulho 
das 
ondas. 
Narcejas 
andavam 
em 
busca 
de 
crustceos 
e 
gusanos, 
gaivotas 
pairavam 
no 
vento, 
e 
corvos 
zanzavam 
como 
salteadores 
de 
estrada 
com 
capuzes 
pretos. 


As 
pessoas 
mais 
velhas 
passeavam 
quela 
hora, 
em 
que 
o 
sol 
era 
mais 
fraco, 
e 
enquanto 
eu 
andava, 
deleitava-me 
com 
a 
brisa 
marinha 
que 
afagava 
meu 
corpo. 
Sentia 
que 
podia 
respirar 
plenamente. 
Eu 
me 
enternecia 
com 
o 
sorriso 
das 
pessoas 
estranhas 
que 
caminhavam 
de 
mos 
dadas, 
e 
acenava 
para 
elas 
quando 
acenavam 
para 
mim. 
Os 
namorados 
andavam 
abraados, 
e 
as 
pessoas 
sozinhas 
tomavam 
caf 
nos 
passeios 
de 
madeira 
e 
olhavam 
para 
a 
gua. 


#
De 
volta 
 
casa 
de 
Anna, 
comi 
uma 
rosquinha 
que 
encontrei 
no 
freezer 
e 
tomei 
um 
longo 
banho. 
Em 
seguida, 
pus 
o 
blazer 
e 
a 
cala 
preta 
que 
estava 
usando 
antes. 
Arrumei 
minhas 
coisas 
e 
fechei 
a 
casa 
como 
se 
no 
fosse 
voltar. 
No 
tive 
nenhuma 
sensao 
de 
estar 
sendo 
observada 
at 
o 
momento 
em 
que 
o 
esquilo 
reapareceu. 


"Oh, 
no", 
exclamei, 
abrindo 
a 
porta 
do 
carro. 
"Voc 
de 
novo?" 


Ele 
se 
ps 
de 
p 
nas 
patas 
traseiras 
e 
ficou 
me 
fazendo 
um 
sermo. 


"Oua, 
a 
dona 
da 
casa 
disse 
que 
eu 
podia 
ficar 
aqui. 
Sou 
muito 
amiga 
de 
Anna." 


Seus 
bigodes 
se 
mexiam 
enquanto 
ele 
me 
mostrava 
sua 
barriguinha 
branca. 


"Se 
voc 
est 
me 
contando 
os 
seus 
problemas, 
no 
se 
d 
a 
esse 
trabalho." 
Joguei 
minha 
bolsa 
no 
banco 
de 
trs. 
"Anna 
 
que 
 
a 
psiquiatra. 
No 
eu." 


Abri 
a 
porta 
do 
lado 
do 
motorista. 
Ele 
pulou 
para 
mais 
perto 
e 
eu 
no 
pude 
mais 
agentar. 
Mexi 
na 
minha 
sacola 
e 
encontrei 
um 
pacote 
de 
amendoins 
do 
avio. 
O 
esquilo 
estava 
de 
p 
sobre 
as 
patas 
traseiras 
mastigando 
furiosamente 
quando 
sa 
de 
r 
sob 
a 
sombra 
das 
rvores. 
Ele 
ficou 
me 
olhando 
ir 
embora. 


Peguei 
a 
278 
Oeste 
e 
fui 
dirigindo 
por 
uma 
paisagem 
luxuriante 
cheia 
de 
taboas, 
rosas 
de 
gueldres, 
giestas 
e 
juncos. 
As 
lagoas 
eram 
cobertas 
de 
lotos 
e 
lrios, 
e 
a 
toda 
hora 
via 
falces 
adejando 
pelo 
campo. 
Longe 
das 
ilhas 
parecia 
que 
a 
maioria 
das 
pessoas 
era 
pobre, 
exceto 
no 
interior. 
Estradas 
estreitas 
mostravam 
igrejinhas 
brancas 
e 
trailers 
usados 
como 
residncia, 
ainda 
enfeitados 
com 
as 
luzes 
de 
Natal. 
Mais 
perto 
de 
Beaufort, 
viam-se 
oficinas 
mecnicas, 
pequenos 
motis 
em 
terrenos 
estreis, 
e 
uma 
barbearia 
que 
ostentava 
uma 
bandeira 
confederada. 
Parei 
duas 
vezes 
para 
consultar 
o 
mapa. 


Na 
ilha 
de 
Santa 
Helena 
passei 
por 
um 
trator 
que 
levantava 
poeira 
 
margem 
da 
estrada, 
e 
comecei 
a 
procurar 
um 
lugar 
onde 
pudesse 
pedir 
informaes. 
Passei 
por 
edifcios 
abandonados, 
feitos 
de 
escria 
de 
hulha, 
que 
outrora 
tinham 
sido 
armazns. 
Havia 


#
enfardadeiras 
de 
tomates, 
casas 
de 
fazenda 
e 
casas 
funerrias, 
ao 
longo 
de 
ruas 
com 
alamedas 
de 
carvalhos 
e 
pomares 
vigiados 
por 
espantalhos. 
S 
parei 
quando 
cheguei 
a 
Tripp 
Island 
e 
achei 
um 
lugar 
para 
almoar. 


O 
restaurante 
chamava-se 
Gullah 
House, 
e 
a 
mulher 
que 
me 
atendeu 
era 
alta 
e 
negra. 
Ela 
estava 
bonita 
num 
gracioso 
vestido 
de 
cores 
tropicais 
e, 
quando 
falou 
por 
sobre 
o 
balco 
com 
um 
garom, 
a 
lngua 
deles 
me 
soou 
muito 
musical 
e 
cheia 
de 
palavras 
estranhas. 
O 
dialeto 
era 
uma 
mistura 
de 
falares 
indgenas 
e 
ingls 
elisabetano. 
Era 
a 
lngua 
falada 
pelos 
escravos. 


Esperei 
em 
minha 
mesa 
de 
madeira 
pelo 
ch 
gelado, 
e 
com 
receio 
de 
que 
as 
pessoas 
que 
trabalhavam 
ali 
no 
soubessem 
me 
dizer 
onde 
viviam 
os 
Gault. 


"O 
que 
mais 
deseja, 
querida?" 
A 
garonete 
voltou 
com 
uma 
jarra 
de 
vidro 
com 
ch, 
gelo 
e 
limo. 


Apontei 
no 
cardpio 
Biddy 
een 
de 
Fiel 
porque 
no 
sabia 
pronunciar 
aquilo. 
A 
traduo 
anunciava 
peito 
de 
frango 
grelhado 
com 
alface. 


"No 
quer 
batata-doce 
frita 
ou 
talvez 
fritada 
de 
siri, 
para 
comear?" 
Seu 
olhar 
vagava 
pelo 
restaurante 
enquanto 
falava. 


"No, 
obrigada." 


Resolvida 
a 
fazer 
com 
que 
sua 
cliente 
tivesse 
mais 
do 
que 
uma 
refeio 
ligeira, 
ela 
me 
mostrou 
camares 
fritos 
dos 
Pases 
Baixos 
no 
fim 
do 
menu. 
"Hoje 
temos 
tambm 
camares 
frescos 
fritos. 
So 
to 
gostosos 
que 
vo 
faz-la 
se 
sentir 
nas 
nuvens." 


Olhei 
para 
ela. 
"Bem, 
ento 
acho 
que 
vou 
querer 
um 
pratinho 
de 
acompanhamento." 


"Quer 
dizer 
que 
vai 
querer 
os 
dois." 


"Por 
favor." 


O 
servio 
continuou 
em 
seu 
ritmo 
lento, 
e 
j 
era 
quase 
uma 
da 
tarde 
quando 
paguei 
a 
conta. 
A 
senhora 
com 
o 
belo 
vestido, 
que 
conclu 
ser 
a 
gerente, 
se 
encontrava 
l 
fora, 
no 
estacionamento, 
falando 
com 
uma 
outra 
mulher 
negra, 
que 
estava 
ao 
volante 
de 
um 
furgo. 
Do 
lado 


#
estava 
escrito 
GULLAH 
TOURS. 


"Por 
favor", 
disse-lhe. 


Seus 
olhos 
pareciam 
vidro 
vulcnico, 
desconfiados, 
mas 
no 
hostis. 
"Quer 
fazer 
um 
tour 
pela 
ilha?", 
perguntou 
ela. 


"No, 
preciso 
descobrir 
um 
endereo", 
respondi. 
"Voc 
conhece 
a 
fazenda 
Live 
Oaks?" 


"No 
est 
em 
nenhum 
roteiro 
turstico. 
No 
mais." 


"Quer 
dizer 
que 
no 
posso 
ir 
at 
l?" 


A 
gerente 
virou 
o 
rosto 
e 
me 
olhou 
de 
lado. 
"Mudou 
um 
pessoal 
novo 
para 
l. 
Eles 
no 
gostam 
de 
visitas, 
est 
entendendo?" 


"Estou 
sim", 
disse-lhe. 
"Mas 
preciso 
ir 
at 
l. 
No 
quero 
dar 
uma 
volta 
pela 
ilha. 
S 
quero 
saber 
como 
se 
chega 
l." 


Ocorreu-me 
que 
a 
lngua 
que 
eu 
estava 
falando 
no 
era 
bem 
a 
que 
a 
gerente 
 
que 
provavelmente 
era 
tambm 
a 
dona 
do 
Gullah 
Tours 
 
queria 
ouvir. 


"Que 
tal 
se 
eu 
pagar 
por 
um 
tour 
e 
voc 
me 
levar 
 
Live 
Oaks?" 


Isso 
lhe 
pareceu 
uma 
boa 
proposta. 
Passei-lhe 
vinte 
dlares 
e 
fomos 
embora, 
eu 
a 
seguindo. 
A 
distncia 
no 
era 
to 
grande 
e 
logo 
o 
furgo 
diminuiu 
a 
velocidade. 
Um 
brao 
metido 
numa 
manga 
colorida 
apontou 
pela 
janela 
quilmetros 
de 
nogueiras 
por 
trs 
de 
uma 
sebe 
branca. 
O 
porto 
estava 
aberto 
no 
final 
de 
um 
longo 
caminho 
de 
terra, 
e 
meia 
milha 
mais 
adiante 
enxerguei 
tlias 
e 
um 
velho 
telhado. 
No 
havia 
nenhuma 
placa 
indicando 
o 
nome 
do 
proprietrio, 
nem 
nenhuma 
indicao 
de 
que 
era 
a 
fazenda 
Live 
Oaks. 


Dobrei 
 
esquerda, 
entrei 
na 
estradinha 
e 
corri 
os 
olhos 
pelos 
espaos 
entre 
as 
velhas 
nogueiras, 
cujos 
frutos 
j 
haviam 
sido 
colhidos. 
Passei 
por 
uma 
lagoa 
coberta 
de 
lentilhas-d'gua 
 
beira 
da 
qual 
caminhava 
uma 
gara. 
No 
vi 
ningum, 
mas 
quando 
me 
aproximei 
de 
uma 
magnfica 
casa 
estilo 
pr-guerra, 
avistei 
um 
carro 
e 
uma 
camioneta. 
Atrs 
havia 
um 
velho 
celeiro 
com 
teto 
de 
zinco 
perto 
de 
um 
silo 
de 
tabi. 
O 
tempo 
escurecera, 
e 
minha 
jaqueta 
me 
parecia 
muito 
fina 
quando 
subi 
os 
ngremes 
degraus 
da 
varanda. 
Toquei 
a 
campainha. 


Percebi 
pela 
expresso 
do 
homem 
que 
se 
aproximava 
que 
o 


#
porto 
l 
da 
frente 
no 
deveria 
ter 
sido 
deixado 
aberto. 


"Isto 
aqui 
 
propriedade 
particular", 
afirmou 
ele, 
secamente. 


Se 
Temple 
Gault 
era 
seu 
filho, 
eu 
no 
via 
nenhuma 
semelhana 
entre 
os 
dois. 
Era 
um 
homem 
rijo 
com 
cabelos 
grisalhos, 
rosto 
comprido 
e 
marcado 
pelas 
intempries. 
Usava 
Top-Siders, 
calas 
caqui 
e 
um 
suter 
cinza 
com 
um 
capuz. 


"Gostaria 
de 
falar 
com 
Peyton 
Gault", 
disse-lhe, 
sustentando 
seu 
olhar 
enquanto 
segurava 
minha 
sacola. 


"O 
porto 
devia 
estar 
fechado. 
Voc 
no 
viu 
as 
placas 
de 
PROIBIDA 
A 
ENTRADA? 
Faz 
pouco 
tempo 
que 
as 
preguei 
em 
cada 
um 
dos 
moures 
da 
cerca. 
O 
que 
voc 
quer 
com 
ele?" 


"S 
posso 
dizer 
ao 
prprio 
Peyton 
Gault 
o 
que 
quero 
dele", 
respondi. 


Ele 
me 
olhou 
com 
ateno, 
os 
olhos 
cheios 
de 
indeciso. 
"Voc 
no 
 
reprter 
ou 
coisa 
assim, 
no 
?" 


"No, 
senhor, 
no 
sou. 
Sou 
legista-titular 
do 
Departamento 
de 
Medicina 
Legal 
de 
Virgnia." 
Dei-lhe 
o 
meu 
carto. 


Ele 
se 
encostou 
na 
ombreira 
da 
porta 
como 
se 
estivesse 
se 
sentindo 
mal. 
"Deus 
tenha 
piedade 
de 
ns", 
murmurou. 
"Por 
que 
vocs 
no 
nos 
deixam 
em 
paz?" 


Para 
mim, 
era 
inimaginvel 
o 
seu 
tormento 
ntimo 
pelo 
que 
havia 
criado, 
pois 
em 
algum 
recndito 
de 
seu 
corao, 
ele 
ainda 
amava 


o 
filho. 
"Senhor 
Gault", 
disse-lhe, 
"Por 
favor, 
permita-me 
falar 
com 
o 
senhor." 
O 
homem 
apertou 
o 
canto 
dos 
olhos 
com 
o 
polegar 
e 
o 
indicador 
para 
evitar 
chorar. 
As 
rugas 
ficaram 
mais 
fundas 
na 
pele 
queimada, 
e 
um 
sbito 
raio 
de 
sol 
que 
passara 
por 
entre 
as 
nuvens 
tingiu 
a 
sua 
barba 
cor 
de 
areia. 


"No 
estou 
aqui 
por 
curiosidade", 
continuei. 
"Ou 
para 
inquisies. 
Por 
favor." 
"Ele 
nunca 
agiu 
de 
maneira 
correta 
desde 
o 
dia 
em 
que 
nasceu", 
disse 
Peyton 
Gault, 
enxugando 
os 
olhos. 


#
"Eu 
sei 
que 
 
terrvel 
para 
o 
senhor. 
 
um 
horror 
indizvel. 
Mas 
eu 
entendo." 


"Ningum 
consegue 
entender", 
corrigiu 
ele. 


"Por 
favor, 
deixe-me 
tentar." 


"O 
que 
 
que 
se 
ganha 
com 
isso?" 


"S 
temos 
a 
ganhar", 
respondi. 
"Estou 
aqui 
para 
fazer 
o 
que 
tem 
que 
ser 
feito." 


Ele 
me 
lanou 
um 
olhar 
cheio 
de 
indeciso. 
"Quem 
a 
mandou 
aqui?" 


"Ningum. 
Vim 
por 
conta 
prpria." 


"E 
como 
voc 
nos 
achou?" 


"Pedi 
informaes 
pelo 
caminho", 
falei, 
e 
lhe 
contei 
como 
chegara 
at 
l. 


"Voc 
no 
parece 
bem 
agasalhada 
nessa 
jaqueta." 


"Estou 
quente 
o 
bastante." 


"Bem", 
disse 
ele. 
"Vamos 
para 
o 
per." 


Seu 
embarcadouro 
cruzava 
pntanos 
que 
se 
estendiam 
at 
onde 
a 
vista 
alcanava, 
e 
as 
ilhas 
Barrier 
pareciam 
uma 
caixa-d'gua 
perdida 
no 
horizonte. 
Debruamo-nos 
nos 
balastres 
e 
ficamos 
observando 
os 
us 
agitando-se 
na 
lama 
escura. 
De 
vez 
em 
quando 
uma 
ostra 
espumava. 


"Na 
poca 
da 
Guerra 
Civil 
chegou 
a 
ter 
uns 
duzentos 
e 
cinqenta 
escravos 
aqui", 
contou-me 
ele, 
como 
se 
tivssemos 
ido 
at 
ali 
para 
ter 
uma 
conversa 
amigvel. 
"Antes 
de 
ir 
embora 
voc 
deve 
dar 
uma 
passadinha 
na 
Capela 
da 
Paz. 
Agora 
no 
passa 
de 
uma 
estrutura 
de 
tabi 
com 
ferro 
batido 
enferrujado, 
junto 
a 
um 
pequeno 
cemitrio." 


Deixei-o 
falar. 


"Naturalmente, 
os 
tmulos 
foram 
saqueados 
h 
mais 
tempo 
do 
que 
as 
pessoas 
conseguem 
lembrar. 
Imagino 
que 
a 
capela 
foi 
construda 
por 
volta 
de 
1740." 


Fiquei 
calada. 


Ele 
suspirou, 
e 
ficou 
olhando 
o 
mar. 


"Trouxe 
umas 
fotografias 
que 
gostaria 
de 
mostrar 
ao 
senhor", 


#
disse-lhe, 
calmamente. 


"Sabe", 
sua 
voz 
voltou 
a 
ficar 
emocionada, 
" 
quase 
como 
se 
aquela 
enchente 
fosse 
um 
castigo 
por 
algo 
que 
fiz. 
Nasci 
naquela 
fazenda 
em 
Albany." 
Olhou 
para 
mim. 
"Ela 
resistiu 
a 
quase 
dois 
sculos 
de 
guerra 
e 
mau 
tempo. 
Ento 
veio 
a 
tempestade 
e 
o 
rio 
Flint 
subiu 
mais 
de 
seis 
metros." 


"A 
polcia 
estadual 
e 
a 
polcia 
militar 
ajudaram 
a 
fazer 
tapagens 
em 
tudo", 
continuou. 
"A 
gua 
atingiu 
o 
telhado 
da 
casa 
de 
minha 
famlia, 
sem 
falar 
nas 
rvores. 
No 
que 
a 
gente 
dependesse 
das 
nogueiras 
para 
ter 
comida 
na 
mesa. 
Mas 
durante 
certo 
tempo 
minha 
mulher 
e 
eu 
vivemos 
como 
os 
sem-teto, 
num 
abrigo 
com 
umas 
trezentas 
pessoas." 


"No 
foi 
seu 
filho 
quem 
provocou 
essa 
enchente", 
disse-lhe, 
suavemente. 
"Nem 
mesmo 
ele 
poderia 
provocar 
um 
desastre 
natural." 


"Ainda 
bem 
que 
a 
gente 
se 
mudou. 
As 
pessoas 
ficavam 
rodeando 
todo 
o 
tempo, 
tentando 
ver 
onde 
ele 
tinha 
nascido. 
Isso 
afetava 
os 
nervos 
de 
Rachael." 


"Rachael 
 
sua 
esposa?" 


Ele 
fez 
que 
sim. 


"E 
a 
sua 
filha?" 


" 
outra 
histria 
triste. 
Tivemos 
que 
mandar 
Jayne 
para 
o 
oeste 
quando 
ela 
tinha 
onze 
anos." 


"Esse 
 
o 
seu 
nome?", 
perguntei, 
atnita. 


"Na 
verdade 
 
Rachael. 
Mas 
o 
segundo 
nome 
 
Jayne, 
com 
y. 
No 
sei 
se 
voc 
sabia, 
mas 
Temple 
e 
Jayne 
so 
gmeos." 


"No, 
eu 
no 
sabia", 
afirmei. 


"E 
ele 
sempre 
teve 
cime 
dela. 
Era 
terrvel 
ver 
aquilo, 
porque 
ela 
era 
louca 
por 
ele. 
Eles 
eram 
duas 
coisinhas 
loiras 
muito 
bonitinhas 
de 
se 
ver, 
e 
era 
como 
se 
desde 
o 
primeiro 
dia 
Temple 
tivesse 
querido 
esmag-la 
como 
um 
inseto. 
Ele 
era 
cruel." 
O 
sr. 
Gault 
fez 
uma 
pausa. 


Uma 
gaivota 
passou 
voando, 
gritando, 
e 
bandos 
de 
us 
se 
refugiaram 
numa 
moita 
de 
taboas. 


Ele 
passou 
a 
mo 
na 
nuca 
e 
apoiou 
o 
p 
numa 
das 
traves 
baixas 


#
do 
balastre. 
"Eu 
pensei 
que 
j 
tinha 
visto 
tudo, 
e 
ento, 
quando 
eles 
tinham 
cinco 
anos, 
Jayne 
ganhou 
um 
cachorrinho. 
Um 
cachorrinho 
muito 
bonitinho, 
um 
vira-lata." 
Fez 
mais 
uma 
pausa. 
"Bem", 
sua 
voz 
estava 
embargada, 
"ele 
desapareceu, 
e 
na 
mesma 
noite 
ela 
acordou 
e 
achou-o 
morto 
em 
sua 
cama. 
Provavelmente 
Temple 
o 
tinha 
estrangulado." 


"O 
senhor 
disse 
que 
Jayne 
morou 
na 
Costa 
Oeste?", 
perguntei. 


"Rachael 
e 
eu 
no 
sabamos 
o 
que 
fazer. 
Eu 
sabia 
que 
mais 
dia, 
menos 
dia, 
ele 
iria 
mat-la, 
era 
s 
uma 
questo 
de 
tempo. 
Coisa 
que 
quase 
conseguiu 
mais 
tarde, 
 
o 
que 
acho. 
Sabe, 
eu 
tinha 
um 
irmo 
em 
Seattle. 
Luther." 


"O 
general", 
afirmei. 


Ele 
continuou 
olhando 
para 
a 
frente. 
"Acho 
que 
vocs 
devem 
saber 
muito 
sobre 
ns. 
Tudo 
por 
causa 
de 
Gault. 
Daqui 
a 
uns 
tempos 
vamos 
estar 
lendo 
coisas 
sobre 
isso 
nos 
livros 
e 
vendo 
nos 
filmes." 
Ele 
bateu 
de 
leve 
com 
o 
punho 
na 
trave 
do 
balastre. 


"Jayne 
foi 
morar 
com 
o 
tio 
e 
sua 
mulher?" 


"E 
ficamos 
com 
Temple, 
em 
Albany. 
Acredite-me, 
se 
eu 
pudesse 
mand-lo 
embora 
e 
ficar 
com 
ela, 
era 
isso 
que 
teria 
feito. 
Ela 
era 
uma 
criana 
to 
doce 
e 
sensvel. 
Muito 
sonhadora 
e 
carinhosa." 
As 
lgrimas 
corriam-lhe 
pelas 
faces. 
"Ela 
sabia 
tocar 
piano 
e 
saxofone, 
e 
Luther 
amava-a 
como 
uma 
filha. 
Ele 
tinha 
filhos." 


"Tudo 
corria 
bem, 
considerando-se 
o 
problema 
que 
tnhamos 
em 
mos", 
continuou. 
"Rachael 
e 
eu 
amos 
a 
Seattle 
muitas 
vezes 
por 
ano. 
Vou 
lhe 
dizer 
uma 
coisa: 
no 
era 
fcil 
para 
mim, 
mas 
isso 
quase 
arrebentou 
o 
corao 
dela. 
Ento 
cometemos 
um 
grande 
erro." 


Ele 
fez 
uma 
pausa 
at 
ficar 
em 
condies 
de 
prosseguir, 
temperando 
a 
garganta 
muitas 
vezes. 
"Jayne, 
num 
certo 
vero, 
insistiu 
que 
queria 
vir 
para 
casa. 
Acho 
que 
foi 
quando 
ela 
estava 
para 
completar 
vinte 
e 
cinco 
anos, 
e 
queria 
passar 
o 
aniversrio 
junto 
com 
todo 
mundo. 
Ento 
ela, 
Luther 
e 
sua 
mulher, 
Sara, 
vieram 
de 
Seattle 
para 
Albany. 
Temple 
agiu 
como 
se 
estivesse 
totalmente 
indiferente, 
e 
eu 
me 
lembro..." 


Pigarreou 
novamente. 
"Lembro-me 
bem 
de 
que 
eu 
pensei 
que 


#
tudo 
daria 
certo. 
Talvez 
ele 
tivesse 
superado 
seja 
l 
o 
que 
o 
possua. 
Jayne 
se 
divertiu 
muito 
em 
sua 
festa, 
e 
decidiu 
sair 
para 
passear 
com 
nosso 
velho 
co 
Snaggletooth. 
Ela 
queria 
que 
tirssemos 
uma 
fotografia 
sua, 
e 
ns 
tiramos. 
Entre 
as 
nogueiras. 
Ento 
todos 
entramos 
em 
casa, 
exceto 
ela 
e 
Temple." 


"Ele 
voltou 
l 
pela 
hora 
da 
ceia", 
continuou, 
"e 
eu 
lhe 
perguntei: 
'Onde 
est 
a 
sua 
irm?'. 
Temple 
respondeu: 
'Ela 
disse 
que 
ia 
cavalgar 
um 
pouco'." 


"Bem, 
esperamos, 
esperamos 
e 
esperamos, 
e 
nada 
dela 
voltar. 
Ento 
Luther 
e 
eu 
samos 
para 
procur-la. 
Encontramos 
o 
cavalo 
ainda 
com 
a 
sela 
e 
andando 
pelo 
estbulo, 
e 
ela 
estava 
no 
cho, 
com 
sangue 
espalhado 
por 
toda 
parte." 


Ele 
enxugou 
o 
rosto 
com 
as 
mos, 
e 
no 
tenho 
palavras 
para 
descrever 
a 
piedade 
que 
senti 
por 
aquele 
homem 
e 
por 
sua 
filha 
Jayne. 
Eu 
tinha 
medo 
de 
dizer 
a 
ele 
que 
aquela 
histria 
terminara. 


"O 
mdico", 
prosseguiu 
ele, 
com 
dificuldade, 
"sups 
que 
ela 
tivesse 
levado 
um 
coice 
do 
cavalo, 
mas 
eu 
fiquei 
desconfiado. 
Pensei 
que 
Luther 
mataria 
o 
rapaz. 
Sabe 
como 
, 
ele 
no 
recebeu 
uma 
Medalha 
de 
Honra 
por 
distribuir 
marmitas. 
Ento, 
quando 
Jayne 
melhorou 
o 
bastante 
para 
sair 
do 
hospital, 
Luther 
levou-a 
de 
volta 
para 
sua 
casa. 
Mas 
ela 
nunca 
mais 
se 
recuperou 
totalmente." 


"Senhor 
Gault", 
disse-lhe. 
"O 
senhor 
tem 
alguma 
idia 
de 
onde 
sua 
filha 
est 
agora?" 


"Bem, 
ela 
passou 
a 
viver 
por 
conta 
prpria, 
h 
uns 
quatro 
ou 
cinco 
anos, 
desde 
que 
Luther 
morreu. 
A 
gente 
costuma 
receber 
notcias 
dela 
nos 
aniversrios, 
Natal, 
ou 
quando 
lhe 
d 
na 
telha." 


"Teve 
notcias 
dela 
neste 
Natal?", 
perguntei. 


"No 
exatamente 
no 
dia 
de 
Natal, 
mas 
uma 
ou 
duas 
semanas 
antes." 
Ele 
se 
concentrou, 
uma 
expresso 
estranha 
no 
rosto. 


"Onde 
ela 
estava?" 


"Ela 
ligou 
da 
cidade 
de 
Nova 
York 
." 


"O 
senhor 
sabe 
o 
que 
ela 
estava 
fazendo 
l, 
senhor 
Gault?" 


"Eu 
nunca 
sei 
o 
que 
ela 
anda 
fazendo. 
Acho 
que 
ela 


#
simplesmente 
perambula 
por 
a 
e 
liga 
quando 
precisa 
de 
dinheiro, 
essa 
 
que 
 
a 
verdade." 
Ele 
ficou 
observando 
uma 
gara 
branca 
pousada 
num 
toco 
de 
rvore. 


"Quando 
ela 
ligou 
de 
Nova 
York", 
insisti, 
"pediu 
dinheiro?" 


"Importa-se 
que 
eu 
fume?" 


"Claro 
que 
no." 


Ele 
pegou 
um 
mao 
de 
Merits 
do 
bolso 
e 
tentou 
acender 
o 
fogo 
no 
vento. 
Deu 
as 
costas 
para 
o 
vento 
e 
eu 
ento 
juntei 
minha 
mo 
 
sua 
e 
risquei 
o 
fsforo. 
Ele 
estava 
trmulo. 


" 
muito 
importante 
saber 
sobre 
o 
dinheiro", 
disse-lhe. 
"Com 
que 
freqncia 
e 
quanto 
ela 
costumava 
receber?" 


Fez 
uma 
pausa. 
"Sabe, 
Rachael 
 
quem 
cuida 
dessas 
coisas." 


"Ela 
manda 
dinheiro? 
Ou 
seria 
cheque?" 


"Acho 
que 
voc 
no 
conhece 
minha 
filha. 
Ningum 
iria 
pagar 
um 
cheque 
a 
ela. 
Rachael 
lhe 
manda 
dinheiro 
para 
um 
lugar 
determinado. 
Sabe, 
Jayne 
tem 
que 
tomar 
remdios 
para 
prevenir 
ataques. 
Por 
causa 
do 
que 
aconteceu 
com 
sua 
cabea." 


"Para 
onde 
o 
dinheiro 
 
enviado?", 
perguntei. 


"Para 
uma 
agncia 
da 
Western 
Union. 
Rachael 
sabe 
dizer 
qual." 


"E 
quanto 
a 
seu 
filho? 
O 
senhor 
se 
comunica 
com 
ele?" 


Seu 
rosto 
endureceu. 
"De 
forma 
alguma." 


"Ele 
nunca 
tentou 
voltar 
para 
casa?" 


"No." 


"E 
quanto 
a 
este 
novo 
endereo? 
Ele 
sabe 
que 
o 
senhor 
est 
aqui?" 


"A 
nica 
comunicao 
que 
quero 
ter 
com 
Temple 
 
com 
uma 
arma 
de 
fogo 
de 
tambor 
duplo." 
Os 
msculos 
de 
suas 
mandbulas 
se 
contraram. 
"No 
quero 
nem 
saber 
se 
ele 
 
meu 
filho." 


"O 
senhor 
sabia 
que 
ele 
est 
usando 
seu 
carto 
da 
AT&T?" 


Ele 
empertigou-se 
e 
bateu 
uma 
cinza 
que 
foi 
levada 
pelo 
vento. 
"No 
pode 
ser." 


"Sua 
mulher 
paga 
as 
contas?" 


"Bem, 
quem 
faz 
esse 
tipo 
de 
coisa 
 
ela." 


#
"Entendo." 


Jogou 
o 
cigarro 
na 
lama 
e 
um 
caranguejo 
foi 
atrs 
dele. 


Ele 
disse.-"Jayne 
morreu, 
no 
? 
Voc 
 
legista 
e 
por 
isso 
veio 
aqui". 


"Sim, 
senhor 
Gault. 
Sinto 
muitssimo." 


"Logo 
desconfiei, 
quando 
voc 
me 
disse 
quem 
era. 
Minha 
menininha 
 
a 
mulher 
que 
eles 
supem 
ter 
sido 
morta 
por 
Temple 
no 
Central 
Park." 


" 
por 
isso 
que 
estou 
aqui", 
disse-lhe. 
"Mas 
preciso 
de 
sua 
ajuda 
para 
provar 
que 
ela 
 
sua 
filha." 


O 
sr. 
Gault 
me 
olhou 
nos 
olhos, 
e 
percebi 
que 
se 
sentia 
aliviado. 
"Senhora, 
no 
quero 
minha 
filha 
numa 
sepultura 
miservel 
de 
um 
cemitrio 
de 
indigentes. 
Quero-a 
aqui 
comigo 
e 
com 
a 
Rachael. 
Finalmente 
ela 
pode 
viver 
conosco, 
porque 
agora 
ele 
j 
no 
pode 
lhe 
fazer 
nenhum 
mal." 


Andamos 
ao 
longo 
do 
per. 


"Posso 
fazer 
com 
que 
isso 
se 
realize", 
falei, 
enquanto 
o 
vento 
vergava 
a 
grama 
e 
revolvia 
nossos 
cabelos. 
"S 
preciso 
de 
uma 
amostra 
do 
seu 
sangue, 
senhor 
Gault." 


#
18 


Antes 
de 
entrarmos 
na 
casa, 
o 
sr. 
Gault 
me 
avisou 
que 
sua 
mulher 
nunca 
soube 
lidar 
com 
situaes 
difceis. 
Ele 
explicou, 
com 
o 
mximo 
de 
cuidado 
de 
que 
era 
capaz, 
que 
Rachael 
Gault 
nunca 
encarara 
a 
realidade 
do 
terrvel 
destino 
de 
seus 
filhos. 


"No 
 
que 
ela 
v 
cair 
desmaiada", 
explicou-me 
em 
voz 
baixa, 
enquanto 
subamos 
os 
degraus 
da 
varanda. 
"Ela 
simplesmente 
no 
vai 
aceitar 
a 
realidade, 
se 
 
que 
voc 
me 
entende." 


"O 
senhor 
quer 
ver 
as 
fotografias 
aqui 
fora?", 
indaguei. 


"De 
Jayne?" 
Ele 
mostrou-se 
cansado, 
novamente. 


"Dela 
e 
de 
suas 
pegadas." 


"Pegadas?" 
Passou 
os 
dedos 
calejados 
pelos 
cabelos. 


"O 
senhor 
se 
lembra 
se 
ela 
possua 
um 
par 
de 
botas 
do 
exrcito?", 
perguntei-lhe. 


"No." 
Ele 
balanou 
a 
cabea. 
"Mas 
Luther 
tinha 
muita 
coisa 
desse 
tipo." 


"Sabe 
que 
nmero 
de 
sapato 
ele 
calava?" 


"O 
p 
dele 
era 
menor 
que 
o 
meu. 
Suponho 
que 
ele 
calava 
trinta 
e 
nove 
ou 
quarenta." 


"O 
senhor 
sabe 
se 
ele 
deu 
um 
par 
de 
botas 
a 
Temple?" 


"Uh", 
disse 
ele, 
rapidamente. 
"A 
nica 
forma 
de 
Luther 
dar 
botas 
a 
Temple 
seria 
chutando-lhe 
o 
traseiro 
com 
elas 
metidas 
nos 
ps." 


"As 
botas 
poderiam 
ter 
pertencido 
a 
Jayne." 


"Sim, 
claro. 
Ela 
e 
Luther 
provavelmente 
usavam 
o 
mesmo 
nmero. 
Ela 
era 
uma 
moa 
alta, 
mais 
ou 
menos 
do 
tamanho 
de 
Temple. 
E 
eu 
sempre 
desconfiei 
que 
isso 
tinha 
a 
ver 
com 
o 
problema 
dele." 


O 
sr. 
Gault 
teria 
ficado 
ali 
fora, 
no 
vento, 
falando 
o 
dia 
inteiro. 
Ele 
no 
queria 
que 
eu 
abrisse 
a 
sacola 
porque 
sabia 
o 
que 
havia 
dentro. 


"No 
somos 
obrigados 
a 
fazer 
isso. 
O 
senhor 
no 
precisa 
olhar 
nada", 
disse-lhe. 
"Podemos 
usar 
o 
DNA." 


"Se 
voc 
no 
se 
incomoda", 
falou-me 
com 
os 
olhos 
brilhando, 
quando 
estendeu 
a 
mo 
em 
direo 
 
porta, 
"acho 
que 
 
melhor 
eu 


#
mesmo 
contar 
a 
Rachael." 


A 
entrada 
da 
casa 
era 
pintada 
de 
cinza-claro. 
Um 
velho 
candelabro 
de 
lato 
pendia 
do 
teto 
alto 
e 
uma 
graciosa 
escada 
em 
espiral 
levava 
ao 
pavimento 
superior. 
Na 
sala 
de 
estar 
havia 
objetos 
antigos 
da 
Inglaterra, 
tapetes 
orientais 
e 
formidveis 
retratos 
a 
leo 
de 
pessoas 
que 
viveram 
h 
muito 
tempo. 
A 
sra. 
Gault 
estava 
sentada 
num 
sof 
simples, 
com 
um 
bordado 
no 
colo. 
Por 
uma 
grande 
arcada 
pude 
ver 
que 
as 
cadeiras 
da 
sala 
de 
jantar 
eram 
forradas 
com 
aquele 
tipo 
de 
bordado. 


"Rachael?" 
O 
sr. 
Gault 
ficou 
diante 
dela 
como 
um 
solteiro 
tmido, 
com 
o 
chapu 
na 
mo. 
"Temos 
visita." 


Ela 
ia 
enfiando 
e 
puxando 
a 
agulha. 
"Oh, 
que 
bom!" 
Sorriu 
e 
deixou 
o 
trabalho 
de 
lado. 


Rachael 
Gault 
outrora 
fora 
bonita; 
tinha 
pele, 
olhos 
e 
cabelos 
bonitos. 
Fiquei 
impressionada 
com 
o 
fato 
de 
que 
Jayne 
e 
Temple 
pareciam-se 
com 
a 
me 
e 
com 
o 
tio, 
e 
resolvi 
no 
especular 
sobre 
isso, 
mas 
atribuir 
o 
fato 
s 
leis 
de 
dominncia 
de 
Mendel 
ou 
s 
probabilidades 
genticas. 


O 
sr. 
Gault 
sentou-se 
no 
sof 
e 
ofereceu-me 
uma 
cadeira 
de 
espaldar 
alto. 


"Como 
est 
o 
tempo 
l 
fora?", 
perguntou 
a 
sra. 
Gault, 
com 
o 
sorriso 
fino 
do 
filho 
e 
as 
cadncias 
hipnticas 
da 
fala 
arrastada 
do 
sudeste. 
"Eu 
queria 
saber 
se 
sobrou 
algum 
camaro." 
Ela 
olhou 
diretamente 
para 
mim. 
"Sabe, 
no 
sei 
o 
seu 
nome. 
Agora, 
Peyton, 
no 
vamos 
ser 
grosseiros. 
Apresente-me 
a 
sua 
nova 
amiga." 


"Rachael", 
tentou 
o 
sr. 
Gault 
novamente. 
Com 
as 
mos 
nos 
joelhos, 
ele 
inclinou 
um 
pouco 
a 
cabea. 
"Ela 
 
uma 
mdica 
da 
Virgnia." 


"Oh?" 
Suas 
mos 
delicadas 
agarraram 
rpido 
o 
tecido 
em 
seu 
colo. 


"Ela 
 
mdica-legista." 
Ele 
olhou 
para 
a 
mulher. 
"Querida, 
Jayne 
est 
morta." 


A 
sra. 
Gault 
recomeou 
a 
trabalhar 
no 
bordado 
com 
dedos 
geis. 


#
"Sabe, 
tnhamos 
um 
p 
de 
magnlia 
que 
durou 
uns 
cem 
anos, 
antes 
que 
um 
raio 
o 
abatesse 
na 
primavera. 
Pode 
imaginar 
isso?" 
Ela 
continuava 
a 
sua 
costura. 
"Temos 
tempestades 
por 
aqui. 
Como 
 
o 
lugar 
onde 
voc 
mora?" 


"Eu 
moro 
em 
Richmond", 
respondi. 


"Ah, 
sim", 
disse 
ela, 
a 
agulha 
mergulhando 
mais 
fundo. 
"Agora, 
veja, 
tivemos 
sorte 
de 
no 
ter 
todos 
nossos 
bens 
queimados 
pela 
guerra. 
Aposto 
como 
voc 
teve 
algum 
bisav 
que 
lutou 
nela, 
no?" 


"Sou 
de 
origem 
italiana", 
disse-lhe. 
"Nasci 
em 
Miami." 


"Bem, 
l 
com 
certeza 
 
muito 
quente." 


O 
sr. 
Gault 
parecia 
desamparado 
em 
seu 
sof. 
Ele 
desistiu 
de 
olhar 
para 
quem 
quer 
que 
fosse. 


"Senhora 
Gault." 
Fiz 
uma 
pausa. 
"Eu 
vi 
Jayne 
em 
Nova 
York." 


" 
mesmo?" 
Ela 
parecia 
muito 
contente 
com 
isso. 
"Conte-me 
direitinho 
como 
foi." 
Suas 
mos 
eram 
como 
beija-flores. 


"Quando 
eu 
a 
vi, 
ela 
estava 
muito 
magra 
e 
com 
o 
cabelo 
cortado." 


"Jayne 
nunca 
ficava 
satisfeita 
com 
os 
prprios 
cabelos. 
Quando 
estava 
de 
cabelo 
curto, 
parecia-se 
com 
Temple. 
Eles 
so 
gmeos 
e 
as 
pessoas 
costumavam 
confundi-los, 
pensando 
que 
ela 
era 
um 
rapaz. 
Por 
isso 
ela 
sempre 
usava 
cabelos 
compridos, 
e 
 
por 
isso 
que 
me 
surpreendi 
quando 
voc 
disse 
que 
ela 
estava 
de 
cabelo 
curto." 


"A 
senhora 
fala 
com 
seu 
filho?", 
perguntei. 


"Ele 
no 
liga 
tanto 
quanto 
devia, 
esse 
menino 
mal-educado. 
Mas 
ele 
sabe 
que 
pode 
fazer 
isso." 


"Jayne 
ligou 
para 
c 
umas 
duas 
semanas 
antes 
do 
Natal", 
disse-
lhe. 


Ela 
ficou 
calada, 
enquanto 
continuava 
costurando. 


"Ela 
disse 
alguma 
coisa 
 
senhora 
sobre 
ter 
encontrado 
o 
irmo?" 


A 
sra. 
Gault 
permanecia 
calada. 


"Eu 
pergunto 
isso 
porque 
ele 
tambm 
estava 
em 
Nova 
York 
." 


"Com 
certeza 
eu 
disse 
a 
ele 
que 
visitasse 
a 
irm 
e 
que 
lhe 


#
desejasse 
um 
feliz 
Natal", 
explicou 
a 
sra. 
Gault, 
enquanto 
o 
marido 
se 


encolhia. 


"A 
senhora 
lhe 
enviou 
dinheiro?", 
continuei. 


Ela 
olhou 
para 
mim. 
"Agora 
acho 
que 
voc 
est 
sendo 
um 
pouco 
indiscreta." 


"Sim, 
senhora. 
Receio 
que 
tenha 
que 
fazer 
perguntas 
indiscretas." 


Ela 
enfiou 
uma 
linha 
azul-brilhante 
na 
agulha. 


"Os 
mdicos 
fazem 
perguntas 
indiscretas", 
continuei, 
tentando 
uma 
outra 
ttica. 
"Faz 
parte 
do 
nosso 
trabalho." 


Ela 
sorriu 
um 
pouco. 
"Bem, 
 
assim 
mesmo. 
Acho 
que 
 
por 
isso 
que 
odeio 
ir 
ao 
mdico. 
Eles 
acham 
que 
podem 
curar 
qualquer 
coisa 
com 
leite 
de 
magnsia. 
 
como 
tomar 
tinta 
branca. 
Peyton, 
voc 
poderia 
me 
trazer 
um 
copo 
de 
gua 
com 
uma 
pedrinha 
de 
gelo? 
E 
pergunte 
se 
a 
nossa 
visitante 
deseja 
alguma 
coisa." 


"Nada", 
disse-lhe, 
calmamente, 
enquanto 
ele 
se 
levantou 
relutante 
e 
saiu 
da 
sala. 


"Foi 
muita 
ateno 
da 
senhora 
mandar 
dinheiro 
para 
a 
sua 
filha", 
comentei. 
"Por 
favor, 
diga-me 
como 
a 
senhora 
manda 
esse 
dinheiro 
para 
uma 
cidade 
to 
grande 
e 
to 
movimentada 
como 
Nova 
York 
." 


"Mandei 
via 
Western 
Union, 
como 
sempre 
fao." 


"Para 
onde 
exatamente 
a 
senhora 
mandou?" 


"Para 
Nova 
York 
, 
onde 
Jayne 
est." 


" 
Onde 
em 
Nova 
York, 
senhora 
Gault? 
E 
a 
senhora 
fez 
isso 
outras 
vezes?" 


"Mandei 
para 
uma 
farmcia 
l. 
Porque 
ela 
tem 
que 
comprar 
os 
seus 
remdios." 


"Por 
causa 
dos 
ataques. 
Seu 
difeniliadantona." 


"Jayne 
disse 
que 
no 
era 
uma 
parte 
da 
cidade 
muito 
boa." 
Ela 
continuava 
bordando 
e 
bordando. 
"Chamava-se 
Houston. 
S 
que 
no 
se 
pronuncia 
como 
a 
cidade 
do 
Texas." 


"Houston 
e 
o 
qu?", 
perguntei. 


#
"O 
qu? 
No 
sei 
o 
que 
voc 
quer 
dizer." 
Ela 
estava 
comeando 
a 
ficar 
agitada. 


"Uma 
rua 
transversal. 
Preciso 
de 
um 
endereo." 


"Mas 
pra 
que 
voc 
precisa 
disso, 
meu 
Deus 
do 
cu?" 


"Porque 
esse 
pode 
ser 
o 
lugar 
aonde 
sua 
filha 
foi 
antes 
de 
morrer." 


Ela 
bordava 
cada 
vez 
mais 
rpido, 
os 
lbios 
apertados 
num 
linha 
fina. 


"Por 
favor, 
ajude-me, 
senhora 
Gault." 


"Ela 
anda 
muito 
de 
nibus. 
Diz 
que 
v 
a 
Amrica 
deslizando 
pela 
janela 
como 
num 
filme, 
quando 
est 
no 
nibus." 


"Eu 
sei 
que 
a 
senhora 
no 
quer 
que 
ningum 
mais 
morra." 


Ela 
fechou 
os 
olhos 
com 
fora. 


"Por 
favor." 


"Agora 
deixe-me 
descansar." 


"O 
qu?" 


"Rachael." 
O 
sr. 
Gault 
voltou 
 
sala. 
"No 
temos 
nenhum 
gelo. 
No 
sei 
o 
que 
aconteceu." 


"Para 
a 
cama", 
disse 
ela. 
Aturdida, 
olhei 
para 
seu 
marido. 
"Com 
Deus 
me 
deito, 
com 
Deus 
me 
levanto, 
com 
a 
graa 
de 
Deus 
e 
do 
Esprito 
Santo", 
disse 
o 
sr. 
Gault, 
olhando 
para 
sua 
esposa. 
"A 
gente 
rezava 
assim 
com 
as 
crianas 
todas 
as 
noites, 
quando 
elas 
eram 
pequenas. 
 
nisso 
que 
voc 
est 
pensando, 
no 
, 
querida?" 
.. 


"Essa 
era 
a 
senha 
para 
a 
Western 
Union", 
disse 
a 
sra. 
Gault. 


"Porque 
Jayne 
no 
tinha 
carteira 
de 
identidade", 
conclu. 
"Evidente. 
Por 
isso 
eles 
a 
faziam 
dizer 
a 
senha, 
para 
pegar 
o 
dinheiro 
e 
a 
receita." 


"Ah, 
sim. 
Era 
assim 
que 
vnhamos 
fazendo 
por 
muitos 
anos." 


"E 
paraTemple?" 


"Para 
ele 
tambm." 


O 
sr. 
Gault 
passou 
a 
mo 
no 
rosto. 
"Rachael, 
voc 
no 
tem 
mandado 
dinheiro 
para 
ele 
tambm. 
Por 
favor, 
no 
v 
me 
dizer 
que..." 


" 
o 
meu 
dinheiro. 
Eu 
tenho 
o 
dinheiro 
que 
recebi 
de 
minha 


#
famlia, 
da 
mesma 
forma 
que 
voc." 
Ela 
recomeou 
a 
bordar, 
girando 
o 
tecido 
de 
um 
lado 
para 
o 
outro. 


"Senhora 
Gault", 
disse-lhe, 
"Temple 
sabia 
que 
Jayne 
recebia 
dinheiro 
pela 
Western 
Union?" 


"Claro 
que 
sim. 
Ele 
 
seu 
irmo. 
Temple 
disse 
que 
pegaria 
o 
dinheiro 
para 
Jayne 
porque 
ela 
no 
estava 
muito 
bem. 
Desde 
que 
o 
cavalo 
lhe 
deu 
um 
coice. 
Ela 
nunca 
foi 
to 
inteligente 
quanto 
Temple. 
E 
eu 
mandava 
um 
dinheirinho 
para 
ele 
tambm." 


"De 
quanto 
em 
quanto 
tempo 
a 
senhora 
mandava 
dinheiro?", 
perguntei, 
novamente. 


Ela 
fez 
um 
n 
e 
ficou 
olhando 
em 
volta, 
como 
se 
tivesse 
perdido 
alguma 
coisa. 


"Senhora 
Gault, 
no 
vou 
sair 
desta 
casa 
at 
a 
senhora 
responder 
 
minha 
pergunta 
ou 
me 
pr 
para 
fora." 


"Depois 
que 
Luther 
morreu, 
no 
havia 
ningum 
para 
cuidar 
de 
Jayne, 
e 
ela 
no 
quis 
vir 
para 
c", 
disse 
ela. 
"Ela 
no 
queria 
ficar 
numa 
casa. 
Ento, 
sempre 
me 
avisava 
onde 
estava 
e 
eu 
a 
ajudava 
quando 
podia." 


"Voc 
nunca 
me 
contou 
isso." 
Seu 
marido 
estava 
arrasado. 


"Desde 
quando 
ela 
estava 
em 
Nova 
York 
?", 
perguntei. 


"Desde 
1 
de 
dezembro. 
Mandei 
dinheiro 
regularmente, 
um 
pouco 
de 
cada 
vez. 
Cinqenta 
dlares 
aqui, 
cem 
dlares 
ali. 
Mandei 
algum 
dinheiro 
no 
sbado 
passado, 
como 
de 
costume. 
 
por 
isso 
que 
soube 
que 
Jayne 
est 
bem. 
Ela 
soube 
dizer 
a 
senha. 
Isso 
quer 
dizer 
que 
ela 
estava 
firme." 


Perguntava 
a 
mim 
mesma 
desde 
quando 
Temple 
vinha 
interceptando 
o 
dinheiro 
de 
sua 
pobre 
irm. 
O 
meu 
desprezo 
por 
ele 
era 
tal 
que 
chegava 
a 
me 
assustar. 


"Ela 
no 
gostou 
da 
Filadlfia", 
continuou 
a 
sra. 
Gault, 
falando 
mais 
depressa. 
"Era 
l 
que 
estava 
antes 
de 
ir 
para 
Nova 
York. 
Que 
bela 
'cidade 
do 
amor 
fraterno', 
hein? 
Roubaram 
seu 
instrumento 
l. 
Arrancaram 
de 
sua 
mo." 


"A 
flauta 
de 
metal?", 
perguntei. 


#
"Seu 
saxofone. 
Sabe, 
meu 
pai 
tocava 
violino." 


O 
sr. 
Gault 
e 
eu 
olhamos 
para 
ela. 


"Talvez 
tenham 
roubado 
o 
saxofone. 
Puxa, 
no 
me 
lembro 
de 
todos 
os 
lugares 
onde 
ela 
esteve. 
Querido, 
lembra-se 
de 
quando 
ela 
veio 
para 
o 
aniversrio 
e 
saiu 
para 
passear 
entre 
as 
nogueiras 
com 
o 
cachorro?" 
Suas 
mos 
ficaram 
quietas. 


"Isso 
foi 
em 
Albany. 
No 
 
onde 
estamos 
agora." 


Ela 
fechou 
os 
olhos. 
"Ela 
tinha 
vinte 
e 
cinco 
anos 
e 
nunca 
tinha 
sido 
beijada." 
A 
sra. 
Gault 
sorriu. 
"Lembro-me 
dela 
ao 
piano, 
tocando 
enquanto 
a 
tempestade 
caa 
l 
fora, 
cantando 
Parabns 
a 
voc 
at 
no 
poder 
mais. 
Ento 
Temple 
a 
levou 
ao 
celeiro. 
Ela 
o 
seguiria 
para 
qualquer 
lugar. 
Nunca 
entendi 
por 
qu. 
Mas 
Temple 
sabe 
ser 
envolvente." 


Uma 
lgrima 
escorreu 
de 
seus 
olhos. 


"Ela 
saiu 
para 
cavalgar 
aquele 
maldito 
Priss 
e 
no 
voltou." 
Mais 
lgrimas. 
"Oh, 
Peyton, 
nunca 
mais 
vi 
minha 
filhinha." 


O 
sr. 
Gault 
falou 
em 
voz 
trmula: 
"Temple 
a 
matou, 
Rachael. 
Isso 
no 
pode 
continuar". 


Voltei 
de 
carro 
para 
Hilton 
Head 
e 
peguei 
o 
primeiro 
vo 
para 
Charlotte. 
Dali 
voei 
para 
Richmond 
e 
peguei 
meu 
carro. 
No 
fui 
para 
casa. 
Estava 
tomada 
de 
um 
sentimento 
de 
urgncia 
que 
me 
fazia 
arder. 
No 
consegui 
entrar 
em 
contato 
com 
Wesley 
em 
Quantico, 
e 
Lucy 
no 
respondera 
a 
nenhum 
de 
meus 
telefonemas. 


Eram 
quase 
nove 
horas 
quando 
passei 
pelos 
negros 
estandes 
de 
tiro 
e 
pelos 
quartis, 
as 
rvores 
estendendo 
suas 
sombras 
de 
ambos 
os 
lados 
da 
estrada 
estreita. 
Eu 
estava 
exausta 
e 
perturbada, 
observando 
os 
sinais 
que 
indicavam 
travessia 
de 
gamos, 
quando 
vi 
um 
facho 
de 
luz 
azul 
no 
espelho 
retrovisor. 
No 
sabia 
o 
que 
era, 
mas 
sabia 
que 
no 
se 
tratava 
de 
uma 
patrulha 
da 
polcia, 
porque 
estas 
tinham 
outros 
faris, 
alm 
daquele 
que 
fica 
na 
altura 
do 
radiador. 


Segui 
em 
frente. 
Lembrei-me 
de 
casos 
em 
que 
eu 
trabalhei 
de 
mulheres 
sozinhas 
que 
tinham 
parado 
para 
carros 
que 
elas 
imaginavam 
ser 
da 
polcia. 
Muitas 
vezes, 
ao 
longo 
dos 
anos, 
eu 
avisara 
Lucy 
para 


#
nunca 
parar 
para 
carros 
sem 
identificao, 
por 
nenhuma 
razo, 
e 
principalmente 
 
noite. 
O 
carro 
vinha 
colado 
ao 
meu, 
mas 
s 
parei 
quando 
cheguei 
 
cabine 
do 
guarda, 
em 
frente 
 
Academia. 


O 
carro 
no-identificado 
parou 
atrs 
do 
meu, 
e 
dele 
saiu 
imediatamente 
um 
PM 
uniformizado 
que 
veio 
para 
junto 
da 
janela 
do 
meu 
carro, 
com 
a 
pistola 
em 
punho. 
Meu 
corao 
pareceu 
parar. 


"Saia 
com 
as 
mos 
para 
cima!", 
ordenou 
ele. 


No 
me 
mexi. 


Ele 
recuou 
e 
eu 
supus 
que 
o 
guarda 
tenha 
lhe 
dito 
alguma 
coisa. 
Ento 
o 
guarda 
saiu 
da 
guarita 
e 
o 
PM 
grudou 
no 
vidro 
da 
minha 
janela. 
Eu 
baixei 
o 
vidro 
enquanto 
o 
PM 
baixava 
sua 
arma, 
sempre 
de 
olho 
em 
mim. 
Ele 
no 
parecia 
ter 
mais 
do 
que 
dezenove 
anos. 


"A 
senhora 
vai 
ter 
que 
sair." 
O 
PM 
estava 
bravo 
e 
bastante 
embaraado. 


"Saio 
se 
voc 
guardar 
a 
arma 
e 
sair 
da 
frente", 
disse-lhe, 
enquanto 
o 
guarda 
da 
Academia 
recuava. 
"E 
estou 
com 
uma 
pistola 
entre 
os 
bancos. 
Estou 
dizendo 
isso 
para 
que 
voc 
no 
se 
assuste." 


"A 
senhora 
 
do 
Departamento 
de 
Combate 
s 
Drogas?", 
disse 
o 
PM, 
enquanto 
examinava 
meu 
Mercedes. 


Ele 
tinha 
o 
que 
parecia 
ser 
o 
resqucio 
acinzentado 
de 
um 
bigode. 
Meu 
sangue 
fervia. 
Eu 
sabia 
que 
ele 
estava 
se 
preparando 
para 
dar 
um 
show 
de 
macheza 
para 
o 
guarda 
da 
Academia, 
que 
permanecia 
quieto, 
olhando. 


Sa 
do 
carro, 
as.luzes 
azuis 
pulsando 
em 
nossos 
rostos. 


"Quer 
saber 
se 
sou 
do 
Departamento 
de 
Combate 
s 
Drogas?" 


"Sim." 


"No." 


"Do 
FBI?" 


"No," 


Ele 
foi 
ficando 
cada 
vez 
mais 
desconcertado. 
"Ento 
o, 
que 
a 
senhora 
?" 


"Sou 
uma 
mdica-legista", 
disse-lhe. 


"Quem 
 
seu 
chefe?" 


#
"No 
tenho 
chefe." 


"A 
senhora 
tem 
que 
ter 
um 
chefe." 


"Meu 
chefe 
 
o 
governador 
da 
Virgnia." 


"Preciso 
ver 
sua 
carteira 
de 
motorista", 
disse 
ele. 


"S 
quando 
voc 
me 
disser 
do 
que 
estou 
sendo 
acusada." 


"A 
senhora 
estava 
dirigindo 
a 
quarenta 
e 
cinco 
por 
hora 
numa 
estrada 
cuja 
velocidade 
mxima 
 
trinta 
e 
cinco. 
E 
tentou 
fugir." 


"Todo 
mundo 
que 
foge 
da 
polcia 
militar 
vai 
direto 
para 
a 
cabine 
de 
um 
guarda?" 


"Quero 
ver 
a 
sua 
carteira 
de 
motorista." 


"E 
eu 
quero 
que 
voc 
me 
diga, 
recruta", 
disse-lhe 
com 
veemncia, 
"por 
que 
motivo 
voc 
acha 
que 
no 
parei 
naquela 
estrada 
deserta 
 
noite?" 


"No 
tenho 
a 
menor 
idia." 


"Viaturas 
sem 
identificao 
raramente 
interceptam 
carros, 
mas 
psicopatas 
muitas 
vezes 
fazem 
isso." 


A 
luz 
azul 
pulsava 
em 
seu 
rosto 
pateticamente 
jovem. 
Ele 
provavelmente 
nem 
sabia 
o 
que 
era 
um 
psicopata. 


"Nunca 
vou 
parar 
para 
um 
Chevrolet 
se 
eu 
e 
voc 
tivermos 
a 
infelicidade 
de 
repetir 
essa 
cena 
ridcula 
algum 
dia. 
Voc 
est 
entendendo?" 


Um 
carro 
saiu 
em 
velocidade 
da 
Academia 
e 
parou 
do 
outro 
lado 
da 
guarita. 


"Voc 
veio 
para 
cima 
de 
mim", 
continuei 
meu 
discurso, 
indignada, 
enquanto 
a 
porta 
de 
um 
carro 
batia. 
"Voc 
sacou 
uma 
droga 
duma 
nove-milmetros 
e 
apontou 
para 
mim. 
Ser 
que 
ningum 
lhe 
ensinou 
o 
sentido 
de 
abuso 
de 
autoridade?" 


"Kay?", 
Wesley 
apareceu 
na 
escurido, 
palpitante. 


Imaginei 
que 
o 
guarda 
o 
tinha 
chamado, 
mas 
eu 
no 
entendia 
por 
que 
ele 
estaria 
ali 
quela 
hora. 
Wesley 
no 
pode 
ter 
vindo 
de 
sua 
casa. 
Ele 
morava 
quase 
em 
Fredericksburg. 


"Boa 
noite", 
disse 
ele 
secamente 
ao 
PM. 


Eles 
se 
afastaram 
um 
pouco 
e 
no 
ouvi 
o 
que 
conversaram. 
Mas 


#
o 
rapaz 
voltou 
ao 
seu 
carro 
pequeno 
e 
leve. 
As 
luzes 
azuis 
se 
apagaram 
e 
ele 
foi 
embora. 
"Obrigado", 
disse 
Wesley 
ao 
guarda. 
"Vamos." 
Olhou 
para 
mim. 
"Siga-me." 
Ele 
no 
entrou 
no 
estacionamento 
que 
eu 
costumava 
usar, 
mas 
numa 
rea 
reservada, 
atrs 
do 
Jefferson. 
No 
havia 
nenhum 
outro 
carro 
no 
estacionamento, 
apenas 
uma 
grande 
pick-up, 
que 
reconheci 
ser 
de 
Marino. 
Sa. 


"O 
que 
est 
havendo?", 
perguntei, 
o 
hlito 
condensando-se 
com 


o 
frio. 
"Marino 
est 
na 
Unidade." 
Wesley 
trajava 
um 
suter 
preto 
e 
calas 
pretas, 
e 
percebi 
que 
havia 
alguma 
coisa 
no 
ar. 


"Onde 
est 
Lucy?", 
perguntei, 
rapidamente. 


Ele 
ficou 
em 
silncio, 
enquanto 
introduzia 
seu 
carto 
de 
segurana 
numa 
abertura 
para 
entrarmos 
por 
uma 
porta 
reservada. 


"Ns 
precisamos 
conversar." 


"No." 
Eu 
sabia 
o 
que 
ele 
queria 
dizer. 
"Estou 
muito 
preocupada." 


"Kay, 
no 
sou 
seu 
inimigo." 


"s 
vezes 
voc 
tem 
agido 
como 
se 
fosse." 


Andvamos 
depressa, 
e 
nem 
pensamos 
em 
pegar 
o 
elevador. 


"Sinto 
muito", 
disse 
ele. 
"Eu 
amo 
voc 
e 
no 
sei 
o 
que 
fazer." 


"Entendo." 
Eu 
estava 
abalada. 
"Tambm 
no 
sei 
o 
que 
fazer. 
Preciso 
que 
algum 
me 
diga. 
Mas 
no 
quero 
continuar 
com 
isso, 
Benton. 
Eu 
no 
lamento 
o 
que 
houve 
entre 
ns, 
mas 
no 
quero 
isso 
sempre." 


Ele 
ficou 
calado 
por 
um 
instante. 


"Lucy 
fez 
um 
ponto 
contra 
o 
CAIN", 
disse 
ele, 
em 
tom 
indiferente. 
"Mobilizamos 
a 
ERR." 


"Quer 
dizer 
que 
ela 
est 
aqui?", 
perguntei 
aliviada. 


"Ela 
est 
em 
Nova 
York. 
E 
estamos 
indo 
para 
l." 
Ele 
olhou 
o 


relgio. 
"No 
estou 
entendendo", 
disse-lhe, 
quando 
nossos 
passos 


#
comearam 
a 
ressoar 
nas 
escadas. 


Atravessamos 
depressa 
um 
longo 
corredor, 
no 
qual 
os 
homens 
cuja 
funo 
era 
negociar 
com 
seqestradores 
passavam 
o 
dia, 
quando 
no 
estavam 
fora, 
negociando 
com 
terroristas 
escondidos 
em 
edifcios 
ou 
com 
seqestradores 
de 
avies. 


"No 
entendo 
por 
que 
ela 
est 
em 
Nova 
York", 
disse, 
nervosa. 
"Por 
que 
Lucy 
precisa 
estar 
l?" 


Entramos 
em 
sua 
sala, 
onde 
vi 
Marino 
agachado, 
junto 
a 
uma 
sacola 
de 
viagem. 
Ela 
estava 
aberta, 
e 
no 
carpete 
havia 
um 
aparelho 
de 
barbear 
e 
trs 
pentes 
de 
balas 
para 
sua 
Sig-Sauer. 
Ele 
parecia 
procurar 
alguma 
coisa 
quando 
olhou 
para 
mim. 


Ele 
disse 
a 
Wesley: 
"Voc 
acredita 
numa 
coisa 
dessas? 
Esqueci 
minha 
lmina 
de 
barbear". 


"Existem 
lminas 
em 
Nova 
York", 
disse 
Wesley, 
secamente. 


"Estive 
na 
Carolina 
do 
Sul", 
disse 
eu. 
"Falei 
com 
os 
Gault." 


Marino 
parou 
de 
mexer 
na 
sacola 
e 
tornou 
a 
olhar 
para 
mim. 
Wesley 
sentou-se 
 
sua 
escrivaninha. 


"Espero 
que 
eles 
no 
saibam 
onde 
est 
o 
filho", 
foi 
o 
comentrio 
esquisito 
que 
ele 
fez. 


"No 
h 
nenhum 
indcio 
de 
que 
saibam." 
Olhei 
para 
ele 
curiosa. 


"Bem, 
talvez 
isso 
no 
tenha 
importncia." 
Wesley 
esfregou 
os 
olhos. 
"S 
no 
quero 
que 
ningum 
o 
avise." 


"Lucy 
conseguiu 
mant-lo 
no 
CAIN 
tempo 
suficiente 
para 
que 
o 
localizssemos, 
 
isso?" 


Marino 
levantou-se 
e 
sentou-se 
numa 
cadeira. 
"O 
verme 
se 
entocou 
no 
Central 
Park." 


"Onde?", 
perguntei. 


"No 
Dakota." 


Wesley 
e 
eu 
pensamos 
justamente 
isso 
no 
Natal, 
quando 
passamos 
em 
frente 
ao 
Dakota. 
Gault 
talvez 
nos 
estivesse 
observando. 
De 
seu 
quarto 
dava 
para 
ver 
nossas 
luzes. 


"Ele 
no 
tem 
dinheiro 
para 
ficar 
no 
Dakota", 
disse 
a 
eles. 


"Lembra-se 
de 
sua 
identidade 
falsa?", 
perguntou 
Marino. 
"O 


#
italiano 
chamado 
Benelli?" 


" 
o 
apartamento 
dele?" 


"Sim", 
respondeu 
Wesley. 
"Parece 
que 
o 
senhor 
Benelli 
 
o 
herdeiro 
excntrico 
da 
fortuna 
de 
sua 
famlia. 
A 
gerncia 
supe 
que 
o 
atual 
ocupante 
 
um 
parente 
dele 
italiano. 
De 
resto, 
eles 
no 
costumam 
fazer 
muitas 
perguntas 
l, 
e 
ele 
est 
falando 
com 
sotaque. 
 
muito 
conveniente, 
porque 
o 
senhor 
Benelli 
no 
paga 
as 
despesas. 
Quem 
paga 
 
o 
pai, 
que 
mora 
em 
Verona." 


"Por 
que 
no 
se 
pode 
ir 
ao 
Dakota 
e 
pegar 
Gault?", 
perguntei. 
"Por 
que 
a 
ERR 
no 
pode 
fazer 
isso?" 


"Melhor 
no. 
 
muito 
arriscado", 
disse 
Wesley. 
"No 
se 
trata 
de 
uma 
guerra, 
Kay. 
No 
queremos 
que 
haja 
baixas, 
e 
estamos 
presos 
 
lei. 
As 
pessoas 
do 
Dakota 
poderiam 
ser 
feridas. 
No 
sabemos 
onde 
Benelli 
est. 
Ele 
poderia 
estar 
na 
sala." 


"Sim, 
numa 
sacola 
de 
plstico 
numa 
mala", 
disse 
Marino. 


"Sabemos 
onde 
Gault 
est, 
mantemos 
o 
edifcio 
sob 
vigilncia. 
Mas 
Manhattan 
no 
 
bem 
a 
regio 
que 
escolheramos 
para 
agarrar 
esse 
sujeito. 
Tem 
gente 
demais. 
Se 
se 
arma 
um 
tiroteio 
 
no 
importa 
se 
voc 
 
bom 
ou 
no 
, 
algum 
sai 
ferido, 
algum 
que 
nada 
tem 
a 
ver 
com 
a 
histria. 
Acontece 
de 
uma 
mulher, 
um 
homem, 
uma 
criana 
passar 
na 
hora 
errada..." 


"Entendo", 
disse-lhe. 
"No 
discordo 
de 
voc. 
Gault 
est 
no 
apartamento 
agora? 
E 
a 
Carrie?" 


Wesley 
respondeu: 
"Nenhum 
dos 
dois 
foi 
visto, 
no 
temos 
razo 
para 
acreditar 
que 
Carrie 
esteja 
com 
ele". 


"Ele 
no 
usou 
o 
meu 
carto 
de 
crdito 
para 
comprar 
as 
passagens 
de 
avio 
dela", 
comentei. 
"Isso 
eu 
posso 
dizer." 


"Sabemos 
que 
Gault 
estava 
no 
apartamento 
pelo 
menos 
at 
as 
oito 
da 
manh 
de 
hoje", 
disse 
Wesley. 
"Foi 
nessa 
hora 
que 
ele 
entrou 
no 
sistema 
e 
Lucy 
o 
pegou." 


"Ela 
o 
pegou?", 
perguntei, 
olhando 
para 
os 
dois 
homens. 
"Lucy 
o 
localizou 
daqui 
e 
depois 
foi 
embora?.Foi 
mobilizada 
com 
a 
ERR?" 


Imaginei 
uma 
cena 
esquisita: 
Lucy, 
de 
botas 
pretas 
e 
uniforme, 


#
com 
um 
grupo 
de 
habilssimos 
pilotos 
de 
helicptero, 
atiradores 
de 
elite 
e 
peritos 
em 
explosivos, 
e 
minha 
incredulidade 
aumentou. 


Os 
olhos 
de 
Wesley 
encontraram 
os 
meus. 
"Ela 
est 
em 
Nova 
York 
h 
dois 
dias, 
trabalhando 
no 
computador 
da 
Polcia 
de 
Trnsito. 
Lucy 
o 
pegou 
j 
em 
Nova 
York." 


"Por 
que 
no 
trabalhar 
onde 
fica 
a 
sede 
do 
CAIN?" 
Eu 
gostaria 
de 
saber, 
porque 
no 
queria 
Lucy 
em 
Nova 
York. 
No 
queria 
ela 
no 
mesmo 
estado 
em 
que 
se 
achava 
Temple 
Gault. 


"A 
Polcia 
de 
Trnsito 
tem 
um 
sistema 
extremamente 
sofisticado", 
disse 
ele. 


Marino 
falou. 
"Eles 
tm 
coisas 
que 
a 
gente 
no 
tem, 
doutora." 


"O 
qu, 
por 
exemplo?" 


"Um 
mapa 
computadorizado 
de 
todas 
as 
galerias 
do 
metr." 
Marino 
chegou 
um 
pouco 
para 
mais 
perto 
de 
mim, 
os 
braos 
apoiados 
nos 
joelhos. 
Ele 
entendia 
o 
que 
eu 
estava 
sentindo. 
Dava 
para 
perceber 
isso 
pelo 
seu 
olhar. 
"Achamos 
que 
foi 
com 
esse 
mapa 
que 
Gault 
se 
orientou 
em 
suas 
andanas 
pelo 
metr." 


Wesley 
explicou: 
"Carrie 
deve 
ter 
conseguido 
fazer 
Gault 
entrar 
no 
computador 
da 
Polcia 
de 
Trnsito 
pelo 
CAIN. 


Com 
isso, 
ele 
bolou 
uma 
maneira 
de 
se 
deslocar 
pelas 
galerias 
do 
metr 
para 
conseguir 
suas 
drogas 
e 
cometer 
seus 
crimes. 
Ele 
teve 
acesso 
a 
plantas 
detalhadas 
que 
incluem 
estaes, 
passarelas, 
tneis 
e 
sadas 
de 
emergncia". 


"Que 
sadas 
de 
emergncia?" 


"O 
metr 
tem 
sadas 
que 
levam 
para 
fora 
das 
galerias, 
para 
o 
caso 
de 
um 
trem 
ter 
que 
parar 
por 
algum 
motivo. 
Os 
passageiros 
podem 
passar 
pela 
sada 
de 
emergncia 
e 
chegar 
de 
volta 
 
superfcie. 
O 
Central 
Park 
tem 
muitas 
dessas 
sadas." 


Wesley 
levantou-se 
e 
se 
aproximou 
de 
sua 
sacola 
de 
viagem. 
Ele 
a 
abriu 
e 
tirou 
um 
grosso 
rolo 
de 
papel 
branco. 
Depois 
de 
retirar 
a 
borracha 
que 
o 
envolvia, 
foi 
desdobrando 
enormes 
plantas 
das 
galerias 
do 
metr 
de 
Nova 
York, 
que 
incluam 
trilhos 
e 
estruturas, 
poos 
de 
inspeo, 
lixeiras, 
sinais 
luminosos, 
plataformas. 
Essas 
plantas 


#
cobriam 
quase 
toda 
a 
rea 
da 
sala 
de 
Wesley, 
algumas 
com 
quase 
dois 


metros. 
Eu 
as 
examinei, 
fascinada. 


"Isto 
 
da 
comandante 
Penn?", 
perguntei. 


"Isso 
mesmo", 
respondeu 
Wesley. 
"E 
o 
que 
ela 
tem 
no 
computador 
 
muito 
mais 
detalhado. 
Por 
exemplo", 
ele 
se 
acocorou, 
apontando 
e 
afastando 
a 
gravata. 
"Em 
maro 
de 
1979, 
as 
catracas 
da 
CB 
nmero 
300 
foram 
retiradas. 
 
bem 
aqui." 
Ele 
me 
mostrou 
um 
mapa 
da 
estao 
da 
rua 
110, 
na 
avenida 
Lennox, 
e 
da 
rua 
112. 


"E 
agora 
uma 
mudana 
como 
esta 
vai 
diretamente 
para 
o 
sistema 
de 
computao 
da 
Polcia 
de 
Trnsito." 


"Isso 
quer 
dizer 
que 
qualquer 
mudana 
logo 
 
registrada 
nos 
mapas 
computadorizados", 
falei. 


"Exato." 
Ele 
abriu 
mais 
uma 
planta, 
esta 
da 
estao 
do 
Museu 
de 
Histria 
Natural 
da 
rua 
81. 
"O 
motivo 
pelo 
qual 
achamos 
que 
Gault 
est 
usando 
esses 
mapas 
est 
aqui." 
Wesley 
mostrou 
uma 
rea 
sob 
vigilncia 
que 
indicava 
uma 
sada 
de 
emergncia 
bem 
perto 
de 
Cherry 
Hill. 


"Se 
Gault 
tivesse 
esse 
mapa", 
continuou 
Wesley, 
"muito 
provavelmente 
ele 
teria 
escolhido 
essa 
sada 
de 
emergncia 
para 
entrar 
e 
sair 
quando 
cometeu 
o 
assassinato 
no 
Central 
Park. 
Por 
aqui, 
ele 
e 
sua 
vtima 
poderiam 
andar 
pelas 
galerias 
sem 
serem 
vistos, 
depois 
de 
sair 
do 
museu, 
e 
quando 
chegassem 
ao 
parque, 
j 
estariam 
bem 
perto 
do 
chafariz 
onde 
ele 
tencionava 
expor 
o 
corpo. 


"Mas 
o 
que 
voc 
no 
fica 
sabendo 
por 
esse 
mapa 
de 
trs 
meses 
atrs 
 
que 
um 
dia 
antes 
do 
assassinato, 
o 
Departamento 
de 
Obras 
bloqueou 
essa 
sada 
para 
conserto. 
Achamos 
que 
foi 
por 
isso 
que 
Gault 
e 
sua 
vtima 
saram 
bem 
perto 
da 
Ramble", 
disse 
ele. 
"Algumas 
pegadas 
encontradas 
nessa 
rea, 
como 
se 
viu 
depois, 
so 
semelhantes 
s 
suas. 
E 
elas 
foram 
encontradas 
prximo 
de 
uma 
sada 
de 
emergncia." 


"Ento 
a 
gente 
tem 
que 
se 
perguntar 
como 
ele 
sabia 
que 
a 
sada 
perto 
de 
Cherry 
Hill 
estava 
bloqueada", 
falou 
Marino. 


"Suponho 
que 
ele 
poderia 
ter 
verificado 
isso 
antes", 
disse-lhe. 


"Voc 
no 
pode 
fazer 
isso 
de 
cima 
porque 
as 
portas 
s 
se 
abrem 


#
de 
dentro 
da 
galeria", 
continuou 
Marino. 


"Talvez 
ele 
estivesse 
na 
galeria 
e 
tenha 
visto 
de 
dentro 
que 
a 
porta 
estava 
bloqueada", 
argumentei, 
pois 
sabia 
aonde 
a 
coisa 
ia 
chegar 
e 
no 
estava 
gostando 
nada 
daquilo. 


"Claro 
que 
 
possvel", 
disse 
Wesley, 
sensatamente. 
"Os 
policiais 
do 
trnsito 
entram 
muito 
nas 
galerias. 
Estavam 
todos 
nas 
plataformas 
e 
estaes 
e 
ningum 
se 
lembra 
de 
ter 
visto 
Gault. 
Acho 
que 
ele 
se 
desloca 
l 
embaixo 
orientando-se 
pelo 
computador 
e 
sobe 
s 
ruas 
quando 
lhe 
convm." 


"Qual 
o 
papel 
de 
Lucy 
nisso 
tudo?", 
perguntei. 


"Manipular", 
respondeu 
Marino. 


"No 
conheo 
computao", 
acrescentou 
Wesley. 
"Mas 
pelo 
que 
entendi, 
ela 
programou 
o 
computador 
de 
forma 
que, 
quando 
ele 
acessa 


o 
mapa, 
o 
que 
ele 
na 
verdade 
est 
vendo 
 
um 
mapa 
que 
ela 
vai 
modificando." 


"Modificando 
para 
qu?" 


"Esperamos 
descobrir 
uma 
forma 
de 
peg-lo 
como 
um 
rato 
num 
labirinto." 


"Achei 
que 
a 
ERR 
tinha 
sido 
mobilizada." 


"Vamos 
tentar 
tudo 
o 
que 
for 
possvel." 


"Bem, 
deixe-me 
sugerir 
que 
a 
gente 
considere 
um 
outro 
plano. 
Gault 
vai 
 
farmcia 
Houston 
Professional 
quando 
precisa 
de 
dinheiro." 


Eles 
me 
olharam 
como 
se 
eu 
estivesse 
louca. 


" 
para 
l 
que 
a 
me 
dele 
tem 
mandado 
dinheiro 
para 
a 
irm 
de 
Temple, 
Jayne. 


"Espere 
um 
pouco", 
interrompeu 
Marino. 


Mas 
eu 
continuei: 
"Tentei 
ligar 
antes 
para 
avisar 
a 
vocs. 
Sei 
que 
ele 
andou 
interceptando 
o 
dinheiro, 
porque 
a 
senhora 
Gault 
mandou 
dinheiro 
para 
Jayne 
quando 
ela 
j 
estava 
morta. 
E 
algum 
o 
recebeu, 
assinando 
o 
recibo. 
Essa 
pessoa 
conhecia 
a 
senha". 


"Espere 
um 
pouco", 
disse 
Marino. 
"Espere 
uma 
droga 
de 
minuto. 
Voc 
est 
querendo 
dizer 
que 
esse 
filho 
da 
puta 
matou 
a 
prpria 
irm?" 
"Sim", 
respondi. 
"Ela 
era 
irm 
gmea 
dele." 


#
"Jesus. 
Ningum 
me 
falou 
isso." 
Ele 
olhou 
acusadora-mente 
para 
Wesley. 


"Voc 
chegou 
dois 
minutos 
antes 
de 
Kay 
ser 
presa", 
disse-lhe 
Wesley. 


"Eu 
no 
fui 
presa", 
afirmei. 
"Seu 
segundo 
nome 
 
Jayne, 
com 
y", 
acrescentei, 
e 
informei-os 
de 
tudo. 


"Isso 
muda 
tudo", 
disse 
Wesley, 
e 
ligou 
para 
Nova 
York. 


Eram 
quase 
onze 
horas 
quando 
ele 
largou 
o 
telefone. 
Ele 
se 
levantou 
e 
pegou 
sua 
pasta, 
o 
seu 
saco 
de 
viagem 
e 
um 
rdio 
porttil 
que 
estava 
na 
escrivaninha. 
Marino 
tambm 
se 
levantou 
da 
cadeira. 


"Unidade 
trs 
para 
unidade 
dezessete", 
falou 
Wesley 
no 
rdio. 


"Dezessete." 


"Estamos 
indo 
para 
a." 


"Sim, 
senhor." 


"Vou 
com 
voc", 
disse-lhe. 


Ele 
olhou 
para 
mim. 
Eu 
no 
estava 
na 
lista 
original 
de 
passageiros. 


"Est 
bem", 
afirmou 
ele. 
"Vamos." 


9 


9 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de 
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes 
Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. 
Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer 
receb-lo em nosso grupo. 

#
19 


Discutimos 
o 
plano 
no 
ar, 
enquanto 
nosso 
piloto 
rumava 
para 
Manhattan. 
O 
FBI, 
seo 
de 
Nova 
York, 
iria 
enviar 
um 
agente 
 
paisana 
para 
a 
farmcia 
da 
rua 
Houston 
com 
a 
Segunda 
Avenida, 
enquanto 
dois 
agentes 
de 
Atlanta 
seguiriam 
para 
a 
fazenda 
Live 
Oaks. 
Tudo 
isso 
acontecia 
enquanto 
conversvamos 
pelos 
microfones 
de 
bordo. 


Se 
a 
sra. 
Gault 
mantivesse 
o 
esquema 
habitual, 
faria 
mais 
uma 
remessa 
de 
dinheiro 
no 
dia 
seguinte. 
Como 
Gault 
no 
desconfiava 
de 
que 
seus 
pais 
j 
sabiam 
da 
morte 
da 
filha, 
ele 
deveria 
estar 
pensando 
que 
o 
dinheiro 
chegaria, 
como 
de 
costume. 


"Uma 
coisa 
que 
ele 
no 
vai 
fazer 
de 
forma 
alguma 
 
pegar 
um 
txi 
e 
ir 
para 
a 
farmcia", 
a 
voz 
de 
Wesley 
encheu 
meu 
fone 
de 
ouvido, 
enquanto 
eu 
olhava 
para 
plancies 
de 
trevas. 


"Agora", 
disse 
Marino, 
"eu 
duvido. 
Ele 
sabe 
que 
todo 
mundo, 
menos 
a 
rainha 
da 
Inglaterra, 
est 
em 
seu 
encalo." 


"Queremos 
que 
ele 
v 
para 
as 
galerias 
do 
metr." 


"L 
embaixo 
parece 
ser 
mais 
arriscado", 
comentei, 
pensando 
em 
Davila. 
"Tudo 
escuro. 
E 
ainda 
h 
os 
trilhos 
condutores 
e 
os 
trens." 


"Eu 
sei", 
disse 
Wesley. 
"Mas 
ele 
tem 
a 
mentalidade 
de 
um 
terrorista. 
Ele 
no 
se 
importa 
com 
quem 
mata. 
No 
podemos 
ter 
um 
tiroteio 
em 
Manhattan 
em 
pleno 
meio-dia." 


Eu 
tinha 
plena 
conscincia 
disso. 


"E 
como 
garantir 
que 
ele 
v 
 
farmcia 
passando 
pela 
galerias?", 
perguntei. 


"Ns 
apertamos 
o 
cerco 
sem 
o 
espantar." 


"Como 
assim?" 


"Amanh 
haver 
uma 
passeata 
contra 
a 
violncia." 


"Vem 
mesmo 
a 
calhar", 
disse-lhe, 
ironicamente. 
"Vai 
ser 
pelo 
Bowery?" 


"Sim. 
O 
trajeto 
pode 
ser 
facilmente 
desviado 
para 
a 
rua 
Houston 
e 
a 
Segunda 
Avenida." 


Marino 
interrompeu. 
"Basta 
deslocar 
os 
cones 
de 
sinalizao." 


#
"O 
Departamento 
de 
Polcia 
de 
Trnsito 
pode 
mandar 
uma 
comunicao 
via 
computador, 
avisando 
a 
polcia 
de 
que 
na 
Bowery 
haver 
uma 
passeata 
a 
tal 
hora. 
Gault 
ver 
no 
computador 
que 
a 
passeata 
vai 
passar 
pela 
rea 
exatamente 
na 
hora 
em 
que 
imaginamos 
que 
ele 
ir 
apanhar 
o 
dinheiro. 
Ele 
ver 
que 
a 
estao 
de 
metr 
da 
Segunda 
Avenida 
foi 
fechada 
temporariamente." 


Uma 
usina 
nuclear 
em 
Delaware 
brilhava 
como 
uma 
resistncia 
eltrica, 
e 
o 
ar 
frio 
se 
infiltrava, 
chegando 
at 
ns. 


"A 
ele 
vai 
ver 
que 
no 
 
uma 
boa 
hora 
para 
ficar 
andando 
pela 
rua", 
falei. 


"Exatamente! 
Onde 
tem 
passeata, 
tem 
policiais." 


"O 
que 
me 
preocupa 
 
que 
ele 
pode 
desistir 
de 
ir 
pegar 
o 
dinheiro", 
disse 
Marino. 


"Ele 
vai 
atrs 
do 
dinheiro", 
afirmou 
Wesley, 
como 
se 
tivesse 
certeza. 


"Sim", 
concordei. 
"Ele 
 
um 
viciado. 
Isso 
 
uma 
motivao 
mais 
forte 
que 
qualquer 
medo 
que 
ele 
possa 
ter." 


"Voc 
acha 
que 
ele 
matou 
a 
irm 
por 
causa 
do 
dinheiro?", 
perguntou 
Marino. 


"No", 
respondeu 
Wesley. 
"Mas 
as 
pequenas 
quantias 
que 
sua 
me 
mandava 
eram 
mais 
uma 
coisa 
de 
que 
ele 
se 
apropriava. 
No 
final, 
ele 
tirou 
tudo 
o 
que 
sua 
irm 
possura." 


"No, 
no 
tirou", 
disse-lhe. 
"Ela 
nunca 
foi 
m 
como 
ele. 
Isso 
 
a 
melhor 
coisa 
que 
ela 
possua 
e 
Gault 
no 
lhe 
tirou 
isso." 


"Estamos 
chegando 
armados 
 
Big 
Apple", 
falou 
Marino, 
sem 
usar 
o 
microfone. 


"Droga! 
Esqueci 
a 
minha 
bolsa", 
reclamei. 


"A 
primeira 
coisa 
que 
vou 
fazer 
 
falar 
com 
o 
comissrio", 
continuou 
Marino. 


Aterrissamos 
no 
heliporto 
de 
Hudson, 
perto 
do 
porta-avies 
Intrepid, 
que 
ainda 
estava 
enfeitado 
com 
luzes 
de 
Natal. 
Uma 
radiopatrulha 
da 
Polcia 
de 
Trnsito 
nos 
esperava 
e 
lembrei-me 
de 
ter 
chegado 
ali 
h 
bem 
pouco 
tempo 
e 
de 
ter 
sido 
apresentada 
 


#
comandante 
Penn. 
Lembrei-me 
tambm 
da 
viso 
do 
sangue 
de 
Jayne 
na 


neve, 
quando 
eu 
ainda 
no 
sabia 
da 
terrvel 
verdade 
sobre 
ela. 


Chegamos 
novamente 
ao 
Athletic 
Club 
de 
Nova 
York. 


"Em 
que 
sala 
Lucy 
est?", 
perguntei 
a 
Wesley, 
enquanto 
fazamos 
o 
nosso 
registro 
com 
um 
velho 
que 
parecia 
ter 
passado 
a 
vida 
toda 
trabalhando 
altas 
horas 
da 
noite. 


"Ela 
no 
est." 
Wesley 
nos 
passou 
as 
chaves. 


Afastamo-nos 
do 
balco. 


"Est 
bem", 
disse-lhe. 
"Agora 
me 
conte." 


Marino 
bocejou. 
"Ns 
a 
vendemos 
para 
uma 
fbrica 
do 
bairro 
txtil." 


"Ela 
est 
sob 
custdia 
ou 
coisa 
assim", 
disse 
Wesley 
com 
um 
risinho, 
quando 
q 
elevador 
se 
abriu. 
"Ela 
est 
com 
a 
comandante 
Penn." 


No 
meu 
quarto, 
tirei 
a 
roupa 
e 
pendurei 
no 
chuveiro. 
Eu 
a 
vaporizei, 
como 
tinha 
feito 
nas 
duas 
ltimas 
noites, 
e 
pensei 
em 
jog-la 
fora 
se 
algum 
dia 
tivesse 
a 
chance 
de 
trocar 
de 
roupa. 
Dormi 
debaixo 
de 
vrios 
cobertores 
e 
com 
as 
janelas 
totalmente 
abertas. 
Acordei 
s 
seis 
horas, 
antes 
de 
o 
despertador 
tocar. 
Tomei 
um 
banho 
e 
pedi 
um 
pozinho 
e 
caf. 


s 
sete, 
Wesley 
ligou 
e 
logo 
ele 
e 
Marino 
estavam 
 
minha 
porta. 
Descemos 
at 
o 
saguo 
e 
fomos 
para 
um 
carro 
de 
polcia 
que 
nos 
esperava. 
Minha 
Browning 
estava 
na 
minha 
pasta, 
e 
esperava 
que 
Wesley 
conseguisse 
autorizao 
especial 
de 
porte, 
porque 
no 
queria 
infringir 
as 
leis 
de 
Nova 
York. 
Pensei 
em 
Bernhard 
Goetz. 


"Eis 
o 
que 
vamos 
fazer", 
disse 
Wesley, 
enquanto 
nos 
dirigamos 
 
baixa 
Manhattan. 
"Vou 
passar 
a 
manh 
no 
telefone. 
Marino, 
quero 
que 
voc 
fique 
na 
rua, 
com 
os 
policiais 
de 
trnsito. 
Providencie 
para 
que 
essas 
drogas 
desses 
cones 
fiquem 
exatamente 
no 
lugar 
onde 
devem 
ficar." 


"Certo." 


"Kay, 
quero 
voc 
junto 
com 
a 
comandante 
Penn 
e 
com 
Lucy. 
Elas 
vo 
ficar 
em 
contato 
direto 
com 
os 
agentes 
que 
se 
encontram 
na 
Carolina 
do 
Sul 
e 
com 
o 
que 
est 
na 
farmcia." 
Wesley 
olhou 
o 
relgio. 


#
"Os 
agentes 
da 
Carolina 
do 
Sul, 
alis, 
devem 
estar 
chegando 
 
fazenda 
dentro 
de 
uma 
hora, 
no 
mximo." 


"Vamos 
torcer 
para 
que 
os 
Gault 
no 
estraguem 
tudo", 
disse 
Marino, 
que 
estava 
no 
banco 
ao 
lado 
do 
motorista. 


Wesley 
olhou 
para 
mim. 


"Quando 
me 
despedi 
deles, 
eles 
pareciam 
dispostos 
a 
colaborar", 
disse-lhe. 
"Mas 
ser 
que 
a 
gente 
no 
pode 
mandar 
o 
dinheiro 
para 
Gault 
no 
nome 
da 
me, 
e 
deix-la 
de 
fora 
dessa 
histria?" 


Wesley 
falou: 
"A 
gente 
poderia 
sim. 
Mas 
quanto 
menos 
chamarmos 
a 
ateno 
sobre 
o 
que 
estamos 
fazendo, 
melhor. 
A 
senhora 
Gault 
mora 
num 
vilarejo. 
Se 
os 
agentes 
mandam 
dinheiro 
de 
l, 
algum 
poderia 
comentar." 


"E 
como 
Gault 
iria 
ficar 
sabendo 
desse 
comentrio?", 
perguntei, 
ceticamente. 


"Se 
o 
agente 
da 
Western 
Union, 
em 
Beaufort, 
desse 
algum 
toque 
a 
algum 
aqui 
em 
Nova 
York, 
isso 
poderia 
espantar 
Gault. 
No 
queremos 
correr 
esse 
risco, 
e 
quanto 
menos 
gente 
estiver 
envolvida, 
melhor." 


"Entendo." 


"H 
um 
outro 
motivo 
para 
que 
voc 
fique 
com 
a 
comandante", 
continuou 
Wesley. 
"Se 
a 
senhora 
Gault 
quiser 
fazer 
algum 
tipo 
de 
interferncia, 
vou 
precisar 
que 
voc 
fale 
com 
ela 
para 
que 
volte 
a 
se 
comportar 
direitinho." 


"Gault 
tem 
que 
aparecer 
na 
farmcia", 
falou 
Marino. 
"Ele 
s 
deve 
saber 
que 
no 
veio 
dinheiro 
nenhum 
quando 
chegar 
ao 
balco, 
se 
 
isso 
que 
vai 
acontecer, 
caso 
a 
velha 
desconfie 
de 
ns 


"No 
sabemos 
o 
que 
ele 
vai 
fazer", 
disse 
Wesley. 
"Mas 
acho 
que 
ele 
pode 
ligar 
antes." 


"A 
sra. 
Gault 
eleve 
mandar 
o 
dinheiro", 
concordei. 
"Ela 
tem 
que 
continuar 
com 
isso. 
E 
isso 
 
duro." 


"Claro, 
trata-se 
de 
seu 
filho", 
acrescentou 
Wesley. 


"E 
a, 
o 
que 
vai 
acontecer?", 
indaguei. 


"Arranjamos 
as 
coisas 
para 
que 
a 
passeata 
comece 
s 
duas, 
que 


#
 
a 
hora 
em 
que 
costumam 
chegar 
ordens 
de 
pagamento. 
Vamos 
ter 
a 
ERR 
em 
campo 
 
alguns 
dos 
agentes 
estaro 
na 
passeata. 
E 
haver 
tambm 
outros 
agentes. 
Mais 
policiais 
 
paisana. 
Estes 
ficaro 
principalmente 
no 
metr 
e 
em 
reas 
prximas 
s 
sadas 
de 
emergncia." 


"E 
na 
farmcia?", 
perguntei. 


Wesley 
fez 
uma 
pausa. 
"Vamos 
ter, 
claro, 
dois 
agentes 
l. 
Mas 
no 
queremos 
agarrar 
Gault 
nem 
na 
farmcia, 
nem 
perto 
dela. 
Ele 
pode 
comear 
a 
atirar 
a 
torto 
e 
a 
direito. 
Se 
tiver 
que 
haver 
baixas, 
que 
seja 
s 
uma." 


"Eu 
s 
queria 
ser 
o 
felizardo 
a 
providenciar 
isso", 
comentou 
Marino. 
"Depois 
disso, 
podia 
me 
aposentar." 


"Ns 
temos 
que 
peg-lo 
nas 
galerias 
cio 
metr", 
disse 
Wesley, 
enfaticamente. 
"No 
sabemos 
de 
que 
armas 
ele 
dispe 
no 
momento. 
Nem 
quantas 
pessoas 
ele 
pode 
pr 
fora 
de 
combate 
com 
o 
carat. 
A 
gente 
ignora 
muita 
coisa. 
Acho 
que 
cada 
vez 
mais 
ele 
se 
afunda 
na 
cocana 
e 
est 
perdendo 
o 
controle. 
E 
ele 
no 
tem 
medo. 
 
por 
isso 
que 
 
to 
perigoso." 


"Para 
onde 
ns 
vamos?", 
perguntei, 
olhando 
os 
edifcios 
sombrios 
passando 
por 
ns, 
enquanto 
comeava 
a 
cair 
uma 
chuva 
fraca. 
No 
era 
um 
bom 
dia 
para 
uma 
passeata. 


"Penn 
instalou 
um 
posto 
de 
comando 
na 
rua 
Bleecker, 
que 
fica 
perto 
da 
farmcia 
Houston, 
mas 
a 
uma 
distncia 
segura", 
explicou 
Wesley. 
"Sua 
equipe 
passou 
a 
noite 
toda 
l, 
levando 
equipamentos 
de 
computao 
e 
coisas 
assim. 
Lucy 
est 
com 
eles." 


"E 
isso 
 
dentro 
da 
prpria 
estao 
de 
metr?" 


O 
policial 
que 
estava 
dirigindo 
respondeu: 
"Sim, 
senhora. 
 
uma 
parada 
local 
que 
opera 
apenas 
durante 
a 
semana. 
Os 
trens 
no 
param 
l 
nos 
fins 
de 
semana, 
portanto 
ela 
fica 
tranqila. 
Os 
policiais 
de 
trnsito 
tm 
um 
mini 
distrito 
que 
cobre 
o 
Bowery". 


Ele 
estacionou 
em 
frente 
s 
escadarias 
que 
desciam 
para 
a 
estao. 
As 
caladas 
e 
as 
ruas 
estavam 
cheias 
de 
pessoas 
com 
guarda-
chuvas 
ou 
com 
jornais 
na 
cabea. 


" 
s 
descer 
e 
j 
se 
v 
a 
porta 
de 
madeira 
 
esquerda 
das 


#
catracas. 
Fica 
perto 
do 
guich 
de 
informaes", 
disse 
o 
policial. 


Ele 
pegou 
o 
microfone. 
"Unidade 
um-onze." 


"Unidade 
um-onze", 
respondeu 
o 
controlador. 


"Dez-cinco, 
unidade 
trs." 


O 
controlador 
contatou 
a 
unidade 
trs 
e 
reconheci 
a 
voz 
da 
comandante 
Penn. 
Ela 
sabia 
que 
eu 
tinha 
chegado. 
Wesley, 
Marino 
e 
eu 
descemos 
com 
cuidado 
os 
degraus 
escorregadios, 
enquanto 
a 
chuva 
comeava 
a 
cair 
mais 
pesada. 
Os 
ladrilhos 
do 
interior 
da 
estao 
estavam 
midos 
e 
sujos, 
e 
no 
havia 
ningum 
por 
l. 
Eu 
ficava 
cada 
vez 
mais 
ansiosa. 


Passamos 
pelo 
guich 
de 
informaes, 
e 
Wesley 
bateu 
numa 
porta 
de 
macieira. 
Ela 
se 
abriu 
e 
o 
detetive 
Maier, 
que 
eu 
e 
Marino 
conhecramos 
no 
dia 
da 
autpsia 
de 
Davila, 
fez-nos 
entrar 
num 
espao 
que 
se 
transformara 
numa 
sala 
de 
controle. 
Havia 
monitores 
de 
circuitos 
fechados 
de 
tev 
numa 
mesa 
comprida, 
e 
minha 
sobrinha 
estava 
sentada 
junto 
a 
um 
consolo 
equipado 
com 
telefones, 
equipamentos 
de 
rdio 
e 
computadores. 


Francs 
Penn, 
trajando 
um 
suter 
preto 
de 
comando 
e 
calas 
de 
uniforme 
do 
seu 
grupo, 
veio 
em 
minha 
direo 
e 
me 
deu 
um 
caloroso 
aperto 
de 
mo. 


"Kay, 
estou 
to 
feliz 
por 
voc 
estar 
aqui", 
disse 
ela, 
que 
parecia 
cheia 
de 
energia. 


Lucy 
estava 
absorvida 
numa 
linha 
de 
quatro 
monitores. 
Cada 
um 
exibia 
uma 
planta 
de 
uma 
parte 
diferente 
do 
metr. 


Wesley 
disse 
 
comandante 
Penn: 
"Tenho 
que 
ir 
para 
a 
rea 
de 
operao. 
Marino 
vai 
estar 
fora 
com 
seus 
homens, 
como 
combinamos". 


Ela 
fez 
que 
sim 
com 
a 
cabea. 


"Isso 
quer 
dizer 
que 
a 
doutora 
Scarpetta 
vai 
ficar 
aqui." 


"Muito 
bom." 


"Onde 
ns 
estamos, 
exatamente?", 
perguntei. 


"Bem, 
estamos 
perto 
da 
estao 
da 
Segunda 
Avenida, 
onde 
fica 
a 
farmcia", 
respondeu-me 
a 
comandante 
Penn. 
"Vamos 
bloquear 
a 
entrada 
com 
cones 
de 
sinalizao 
e 
cavaletes. 
No 
podemos 
arriscar 
um 


#
confronto 
com 
civis 
por 
perto. 
Esperamos 
que 
ele 
venha 
pelo 
tnel, 
margeando 
os 
trilhos 
que 
vo 
em 
direo 
norte, 
ou 
saia 
por 
ele, 
e 
Gault 
estar 
mais 
inclinado 
a 
pegar 
a 
Segunda 
Avenida 
se 
ele 
no 
estiver 
aberto. 
Voc 
vai 
entender 
melhor 
quando 
sua 
sobrinha 
o 
mostrar 
na 
tela." 


"Quer 
dizer 
que 
vocs 
pretendem 
peg-lo 
em 
algum 
ponto 
dentro 
dessa 
estao?", 
perguntei. 


" 
isso 
o 
que 
a 
gente 
espera", 
disse 
Wesley. 
"Vamos 
ter 
o 
nosso 
pessoal 
no 
escuro. 
A 
ERR 
vai 
estar 
l, 
e 
em 
toda 
a 
rea 
prxima. 
O 
ponto 
central 
 
que 
queremos 
peg-lo 
longe 
das 
aglomeraes 
de 
pessoas." 


"Claro", 
respondi. 


Maier 
estava 
olhando 
para 
ns 
atentamente. 
"Como 
voc 
sups 
que 
a 
moa 
do 
parque 
era 
irm 
dele?", 
perguntou 
ele, 
olhando 
diretamente 
para 
mim. 


Dei-lhe 
um 
breve 
resumo 
da 
histria, 
acrescentando: 
"Vamos 
usar 
o 
teste 
de 
DNA 
para 
confirmar". 


"Pelo 
que 
ouvi 
falar 
no 
 
bem 
assim", 
disse 
ele. 
"Ouvi 
falar 
que 
perderam 
seu 
sangue 
e 
matria 
fecal 
no 
necrotrio." 


"Onde 
voc 
ouviu 
isso?", 
perguntei. 


"Conheo 
um 
monte 
de 
caras 
que 
trabalham 
l. 
Sabe, 
detetives 
da 
Diviso 
de 
Desaparecidos 
do 
DPNY." 


"Ns 
vamos 
identific-la", 
disse-lhe, 
os 
olhos 
fixos 
nele. 


"Bem, 
se 
voc 
quer 
saber, 
vai 
ser 
uma 
pena 
se 
eles 
descobrirem." 


A 
comandante 
Penn 
estava 
ouvindo 
com 
toda 
a 
ateno. 
Percebi 
que 
ela 
e 
eu 
estvamos 
chegando 
 
mesma 
concluso. 


"Por 
que 
voc 
diz 
isso?", 
ela 
lhe 
perguntou." 


Maier 
estava 
ficando 
com 
raiva. 
"Porque 
a 
forma 
como 
as 
coisas 
funcionam 
nesta 
bosta 
de 
sistema 
nessa 
merda 
de 
cidade 
 
assim: 
a 
gente 
agarra 
o 
filho 
da 
puta 
aqui, 
certo? 
Ento, 
ele 
 
acusado 
de 
matar 
essa 
moa 
porque 
no 
existem 
provas 
de 
que 
ele 
matou 
Jimmy 
Davila. 
E 
ns 
no 
temos 
pena 
de 
morte 
em 
Nova 
York. 
E 
o 
caso 
arrefece 
se 
a 
moa 
 
uma 
annima 
qualquer 
 
se 
ningum 
souber 
quem 
 
ela." 


"Est 
me 
parecendo 
que 
voc 
quer 
que 
esse 
caso 
caia 
no 


#
esquecimento", 
disse 
Wesley. 


". 
Est 
parecendo 
porque 
 
isso 
mesmo." 


Marino 
olhava 
para 
ele 
sem 
nenhuma 
expresso 
no 
rosto. 
"Aquele 
verme", 
disse 
ele, 
"acabou 
com 
o 
Davila 
com 
sua 
prpria 
arma. 
O 
certo 
seria 
ele 
ir 
para 
a 
cadeira 
eltrica." 


"Voc 
est 
coberto 
de 
razo", 
continuou 
Maier, 
com 
as 
mandbulas 
crispadas. 
"Ele 
liquidou 
um 
policial. 
Um 
puta 
dum 
policial 
que 
est 
sendo 
acusado 
de 
uma 
porrada 
de 
coisas, 
porque 
 
assim 
que 
acontece 
quando 
voc 
 
morto 
no 
cumprimento 
do 
dever. 
As 
pessoas, 
os 
polticos, 
poltica 
interna 
 
todos 
tm 
suas 
prioridades. 
Todo 
mundo 
tem. 
Seria 
muito 
melhor 
se 
Gault 
fosse 
julgado 
na 
Virgnia 
e 
no 
aqui." 


Ele 
olhou 
para 
mim 
novamente. 
Eu 
sabia 
o 
que 
acontecera 
com 


o 
material 
para 
exame 
de 
Jayne. 
O 
detetive 
Maier 
pedira 
aos 
seus 
amigos 
do 
necrotrio 
que 
lhe 
fizessem 
um 
favorzinho, 
em 
honra 
do 
seu 
colega 
assassinado. 
E 
embora 
aquele 
ato 
fosse 
absolutamente 
errado, 
eu 
quase 
no 
podia 
conden-los 
por 
isso. 
"Existe 
cadeira 
eltrica 
na 
Virgnia, 
onde 
Gault 
tambm 
cometeu 
assassinatos", 
disse 
ele. 
"E 
o 
que 
dizem 
por 
a 
 
que 
a 
doutora 
 
recordista 
em 
conseguir 
sentenci-los 
por 
assassinato. 
S 
que 
se 
o 
filho 
da 
puta 
for 
julgado 
em 
Nova 
York, 
provavelmente 
voc 
no 
vai 
testemunhar, 
vai?" 


"No 
sei", 
respondi. 
"Est 
vendo? 
Ela 
no 
sabe. 
Isso 
quer 
dizer 
que 
a 
gente 
pode 
tirar 


o 
cavalinho 
da 
chuva." 
Ele 
olhou 
para 
cada 
uma 
das 
pessoas 
em 
volta, 
como 
se 
tivesse 
feito 
uma 
demonstrao 
irrefutvel. 
"O 
canalha 
precisa 
ir 
para 
a 
Virgnia 
para 
ser 
cozido, 
se 
 
que 
um 
de 
ns 
no 
vai 
acert-lo 
aqui 
mesmo." 
"Detetive 
Maier", 
disse 
a 
comandante 
Penn 
com 
toda 
a 
calma. 
"Vamos 
para 
a 
minha 
sala." 


Eles 
saram, 
passando 
por 
uma 
porta 
que 
ficava 
no 
fundo. 
Maier 
iria 
ser 
excluido 
da 
operao 
porque 
no 
podia 
ser 
controlado. 
Ela 
faria 
um 
relatrio 
sobre 
o 
caso 
e, 
com 
certeza, 
ele 
seria 
suspenso. 


"Estamos 
saindo", 
falou 
Wesley. 


#
"Sim", 
disse 
Marino. 
"Agora 
vocs 
s 
vo 
nos 
ver 
na 
tev." 
Ele 
eslava 
se 
referindo 
aos 
monitores 
que 
havia 
na 
sala 
de 
controle. 


Eu 
estava 
tirando 
o 
casaco 
e 
as 
luvas 
e 
falando 
com 
Lucy 
quando 
a 
porta 
se 
abriu 
c 
Maier 
entrou. 
Ele 
veio 
at 
mim, 
andando 
com 
passos 
rpidos 
e 
raivosos. 


"Faa 
isso 
por 
Jimmy", 
disse 
ele, 
comovido. 
"No 
deixe 
esse 
filho 
da 
puta 
sair 
por 
a 
impune." 


As 
veias 
de 
seu 
pescoo 
estavam 
saltadas 
e 
ele 
olhou 
para 
o 
teto. 
"Desculpe." 
Ele 
piscou 
para 
evitar 
as 
lgrimas 
e 
quase 
no 
conseguia 
falar 
quando 
abriu 
a 
porta 
e 
saiu. 


"Lucy?", 
disse-lhe. 
Estvamos 
sozinhas. 


Ela 
estava 
digitando, 
concentradssima. 
"Ol", 
respondeu. 


Aproximei-me 
dela 
e 
beijei 
o 
alto 
de 
sua 
cabea. 


"Sente-se", 
disse 
ela, 
sem 
desviar 
os 
olhos 
do 
que 
estava 
fazendo. 


Dei 
uma 
olhada 
nos 
monitores. 
Havia 
setas 
indicando 
os 
trens 
que 
iam 
em 
direo 
a 
Manhattan, 
Brooklyn, 
Queens, 
e 
uma 
intrincada 
grade 
indicando 
ruas, 
escolas 
e 
clnicas 
mdicas. 
Tudo 
estava 
numerado. 
Sentei-me 
ao 
lado 
dela 
e 
tirei 
os 
culos 
de 
minha 
pasta 
quando 
a 
comandante 
Penn 
voltou, 
mostrando-se 
bastante 
tensa. 


"No 
foi 
nada 
fcil 
fazer 
isso", 
disse, 
de 
p, 
atrs 
de 
ns. 
Ela 
estava 
to 
perto 
que 
o 
revlver 
em 
sua 
cintura 
quase 
encostava 
na 
minha 
orelha. 


"O 
que 
so 
esses 
desenhos 
piscantes 
que 
parecem 
escadas 
em 
espiral?", 
indaguei, 
apontando 
alguns 
deles 
na 
tela. 


"So 
as 
sadas 
de 
emergncia", 
respondeu 
a 
comandante 
Penn. 


"Vocs 
podem 
me 
explicar 
o 
que 
esto 
fazendo 
aqui?" 


"Explique 
voc, 
Lucy", 
falou 
a 
comandante 
Penn. 


" 
uma 
coisa 
muito 
simples", 
disse 
Lucy, 
mas 
eu 
nunca 
acreditava 
quando 
ela 
dizia 
aquilo. 
"Supomos 
que 
Gault 
tambm 
est 
olhando 
esses 
mapas. 
Ento 
fao 
com 
que 
ele 
veja 
o 
que 
ns 
queremos 
que 
ele 
veja." 


Ela 
digitou 
vrias 
teclas 
e 
apareceu 
uma 
nova 
parte 
do 
metr, 


#
com 
seus 
smbolos 
e 
a 
representao 
dos 
trilhos 
interminveis. 
Lucy 
continuou 
digitando 
e 
apareceu 
uma 
rea 
tracejada 
em 
vermelho. 


"Este 
 
o 
trajeto 
que 
imaginamos 
que 
ele 
v 
fazer", 
disse 
ela. 
"Pela 
lgica, 
ele 
deve 
entrar 
no 
metr 
neste 
ponto." 


Lucy 
apontou 
para 
o 
monitor 
 
sua 
esquerda. 
"Este 
apresenta 
a 
estao 
do 
Museu 
de 
Histria 
Natural. 
Como 
voc 
pode 
ver, 
h 
trs 
sadas 
de 
emergncia 
aqui 
 
direita, 
prximo 
ao 
planetrio 
Hayden, 
e 
uma 
perto 
do 
conjunto 
habitacional 
Beresford. 
Ele 
poderia 
ir 
tambm 
em 
direo 
sul, 
mais 
prximo 
ao 
Kenilworth, 
e 
entrar 
nas 
galerias 
do 
metr 
por 
esse 
lado, 
dirigindo-se 
para 
qualquer 
plataforma, 
quando 
quiser 
tomar 
o 
trem." 


"No 
mudei 
nada 
nessa 
rea 
sob 
controle", 
continuou 
Lucy. 
" 
mais 
importante 
confundi-lo 
na 
outra 
ponta, 
onde 
ele 
entra 
para 
o 
Bowery." 


Ela 
ia 
digitando 
rapidamente 
e 
foram 
aparecendo, 
uma 
a 
uma, 
outras 
imagens 
em 
cada 
um 
dos 
monitores. 
Lucy 
conseguia 
mexer 
e 
manipular 
aquilo 
como 
se 
fossem 
maquetes 
em 
suas 
mos. 
No 
monitor 
do 
centro, 
que 
ficava 
 
sua 
frente, 
o 
diagrama 
representando 
uma 
sada 
de 
emergncia 
estava 
iluminado 
e 
circunscrito 
por 
um 
quadrado. 


"Acho 
que 
a 
sua 
toca 
 
aqui", 
falou 
Lucy. 
"Uma 
sada 
de 
emergncia 
onde 
a 
Quarta 
e 
a 
Terceira 
se 
encontram 
no 
bowery." 
Ela 
apontou. 
"Aqui 
por 
trs 
dessa 
grande 
construo 
castanho-
avermelhada, 
o 
Cooper 
Union 
Foundation 
Kuilding. 


A 
comandante 
Penn 
falou: 
"O 
motivo 
que 
nos 
leva 
a 
achar 
que 
ele 
est 
usando 
essa 
sada 
 
que 
descobrimos 
que 
ela 
foi 
forada. 
Enfiaram 
uma 
lmina 
de 
alumnio 
entre 
a 
porta 
e 
o 
caixilho, 
de 
forma 
que 
se 
pudesse 
entrar 
vindo 
de 
cima". 


"Essa 
sada 
tambm 
 
a 
mais 
prxima 
da 
farmcia", 
continuou 
ela. 
"Fica 
afastada, 
aqui 
por 
trs 
desse 
edifcio, 
praticamente 
numa 
passagem 
entre 
contineres 
de 
lixo. 
Gault 
poderia 
entrar 
e 
sair 
quando 
quisesse, 
e 
era 
muito 
improvvel 
que 
algum 
o 
visse, 
mesmo 
em 
plena 
luz 
do 
dia." 


"E 
h 
uma 
outra 
coisa", 
disse 
Lucy. 
"No 
quarteiro 
da 
Cooper 
h 


#
uma 
famosa 
loja 
de 
instrumentos 
musicais. 
A 
Carl 
Fisher 
Instrumentos 
Musicais." 


"Certo", 
falou 
a 
comandante 
Penn. 
"Uma 
pessoa 
que 
trabalha 
l 
se 
lembra 
de 
Jayne. 
De 
vez 
em 
quando 
ela 
entrava 
na 
loja 
para 
dar 
uma 
olhada. 
Isso 
deve 
ter 
acontecido 
l 
por 
dezembro." 


"Algum 
falou 
com 
ela?", 
perguntei, 
e 
aquilo 
me 
deixou 
triste. 


"Eles 
s 
lembram 
que 
ela 
estava 
interessada 
em 
partituras 
de 
jazz. 
No 
sabemos 
bem 
o 
que 
Gault 
tem 
a 
ver 
com 
essa 
rea. 
Mas 
ele 
pode 
ter 
muito 
mais 
a 
ver 
do 
que 
imaginamos." 


"O 
que 
fizemos", 
disse 
Lucy, 
"foi 
excluir 
essa 
sada 
de 
emergncia. 
A 
polcia 
a 
bloqueou." 


Ela 
continuou 
trabalhando 
no 
teclado. 
O 
desenho 
no 
estava 
mais 
iluminado 
e 
havia 
uma 
legenda 
dizendo 
Desativada. 


"Acho 
que 
a 
seria 
um 
bom 
lugar 
para 
peg-lo", 
comentei. 
"Por 
que 
no 
peg-lo 
ali, 
atrs 
do 
Cooper 
Union 
Building?" 


"Pelo 
mesmo 
motivo", 
disse 
a 
comandante 
Penn. 
"Fica 
bem 
prximo 
a 
uma 
regio 
muito 
movimentada 
e 
cheia 
de 
gente, 
e 
Gault 
poderia 
voltar 
para 
dentro 
da 
galeria, 
mergulhando 
bem 
fundo 
nela. 
Literalmente, 
nas 
entranhas 
do 
Bowery. 
Uma 
perseguio 
naquele 
lugar 
seria 
perigosa, 
e 
talvez 
no 
consegussemos 
peg-lo. 
Eu 
imagino 
que 
ele 
saiba 
se 
orientar 
naquela 
rea 
muito 
mais 
do 
que 
ns." 


"Certo. 
E 
a, 
como 
vai 
ser?" 


"O 
que 
vai 
acontecer 
 
que, 
j 
que 
Gault 
no 
vai 
poder 
usar 
sua 
sada 
de 
emergncia 
preferida, 
ele 
tem 
duas 
alternativas: 
ou 
pegar 
outra 
sada, 
que 
fica 
mais 
ao 
norte, 
acompanhando 
os 
trilhos, 
ou 
continuar 
andando 
pelas 
galerias, 
subindo 
para 
a 
rua 
na 
plataforma 
da 
Segunda 
Avenida." 


"Achamos 
que 
Gault 
no 
vai 
pegar 
outra 
sada", 
disse 
a 
comandante 
Penn. 
"Isso 
faria 
com 
ele 
ficasse 
muito 
tempo 
na 
superfcie, 
fora 
das 
galerias. 
E 
com 
uma 
passeata 
acontecendo, 
ele 
sabe 
que 
haver 
muitos 
policiais 
circulando 
por 
ali. 
Por 
isso, 
estamos 
supondo 
que 
ele 
vai 
querer 
ficar 
o 
maior 
tempo 
possvel 
dentro 
das 
galerias 
do 
metr." 


#
"Certo", 
concordou 
Lucy. 
" 
perfeito. 
Gault 
sabe 
que 
a 
estao 
foi 
fechada 
temporariamente. 
Ningum 
vai 
v-lo 
quando 
ele 
subir, 
vindo 
dos 
trilhos. 
E 
ele 
j 
vai 
sair 
praticamente 
do 
lado 
da 
farmcia. 
Pega 
o 
dinheiro, 
e 
volta 
pelo 
mesmo 
caminho." 


"Talvez 
sim. 
Mas 
pode 
ser 
que 
no." 


"Ele 
sabe 
da 
passeata", 
disse 
Lucy, 
peremptoriamente.. 
"Ele 
sabe 
que 
a 
estao 
da 
Segunda 
Avenida 
est 
fechada.. 
Ele 
sabe 
que 
a 
sada 
de 
emergncia 
que 
ele 
forou 
est 
bloqueada. 
Ele 
sabe 
simplesmente 
tudo 
o 
que 
queremos 
que 
ele 
saiba." 


Lancei-lhe 
um 
olhar 
ctico. 
"Por 
favor, 
por 
que 
voc 
tem 
tanta 
certeza?" 


"Trabalhei 
o 
sistema 
de 
forma 
que 
eu 
seja 
informada, 
imediatamente, 
toda 
vez 
que 
esses 
arquivos 
forem 
acessados. 
Eu 
sei 
que 
todos 
eles 
foram 
acessados 
e 
quando 
foram." 
Seus 
olhos 
fuzilavam 
de 
raiva. 


"Ser 
que 
no 
poderia 
ter 
sido 
outra 
pessoa?" 


"No 
da 
forma 
como 
eu 
armei 
as 
coisas." 


"Kay", 
disse 
a 
comandante 
Penn. 
"Tem 
outra 
parte 
muito 
importante. 
Veja 
aqui." 
Ela 
me 
mostrou 
a 
linha 
de 
monitores 
do 
circuito 
fechado 
numa 
mesa 
comprida. 
"Lucy, 
mostre 
a 
ela." 


Lucy 
mexeu 
no 
teclado 
e 
cada 
um 
dos 
monitores 
passou 
a 
mostrar 
uma 
diferente 
estao 
do 
metr. 
Podamos 
ver 
as 
pessoas 
passando. 
Os 
guarda-chuvas 
estavam 
fechados, 
debaixo 
do 
brao, 
e 
cheguei 
a 
reconhecer 
sacolas 
com 
o 
logotipo 
das 
lojas 
Bloomingdale's, 
do 
mercado 
Dean 
& 
DeLuca 
e 
da 
Delicatessen 
da 
Segunda 
Avenida. 
.. 


"Est 
parando 
de 
chover", 
observei. 


"Agora 
veja 
isto", 
disse 
Lucy. 


Ela 
deu 
mais 
alguns 
comandos, 
sincronizando 
o 
circuito 
fechado 
com 
os 
diagramas 
computadorizados. 
Quando 
um 
entrava 
na 
tela, 
o 
outro 
tambm 
entrava. 


"O 
que 
podemos 
fazer", 
explicou 
ela, 
" 
atuar 
como 
o 
pessoal 
que 
faz 
controle 
de 
trfego 
areo. 
Se 
Gault 
fizer 
algo 
inesperado, 
vou 
estar 
em 
contato 
permanente 
com 
os 
policiais, 
os 
federais, 
via 
rdio." 


#
"Por 
exemplo, 
se 
 
queira 
Deus 
que 
no 
 
ele 
conseguir 
fugir 
e 
se 
internar 
pelas 
galerias 
ao 
longo 
desses 
trilhos 
aqui", 
a 
comandante 
Penn 
apontou 
para 
um 
mapa 
na 
tela, 
"Lucy 
pode 
avisar 
a 
polcia 
pelo 
rdio 
que 
existe 
uma 
barricada 
de 
madeira 
 
direita. 
Ou 
uma 
plataforma, 
trilhos 
de 
trens 
expressos, 
uma 
sada 
de 
emergncia, 
um 
corredor, 
um 
poste 
de 
sinalizao." 


"Isso 
se 
ele 
escapar 
e 
a 
gente 
tiver 
que 
ir 
busc-lo 
no 
inferno 
onde 
ele 
matou 
Davila", 
acrescentei. 
"Isso 
 
o 
pior 
que 
pode 
acontecer." 


Francs 
Penn 
olhou 
para 
mim. 
"O 
que 
 
o 
pior 
quando 
a 
gente 
lida 
com 
ele?" 


"Espero 
que 
a 
gente 
j 
tenha 
visto", 
disse-lhe. 


"Voc 
sabe 
que 
a 
Polcia 
de 
Trnsito 
dispe 
de 
um 
sistema 
telefnico 
com 
tela 
de 
toque, 
no 
?" 
Lucy 
me 
mostrou. 
"Se 
os 
nmeros 
estiverem 
no 
computador, 
voc 
pode 
discar 
de 
qualquer 
parte 
do 
mundo. 
O 
que 
 
bom 
mesmo 
 
o 
911 
. 
Se 
for 
discado 
da 
superfcie, 
a 
chamada 
cai 
no 
DPNY. 
Se 
for 
discado 
de 
dentro 
das 
galerias 
do 
metr, 
cai 
na 
Polcia 
de 
Trnsito." 


"Quando 
vocs 
vo 
fechar 
a 
estao 
da 
Segunda 
Avenida?", 
levantei-me 
e 
perguntei 
 
comandante 
Penn. 


Ela 
olhou 
o 
relgio. 
"Em 
pouco 
menos 
de 
uma 
hora." 
"Os 
trens 
vo 
continuar 
passando?" 
"Claro", 
disse 
ela, 
"s 
que 
no 
vo 
parar 
l." 


#
20 


A 
passeata 
contra 
a 
violncia 
comeou 
na 
hora 
marcada, 
com 
a 
participao 
de 
quinze 
grupos 
religiosos 
e 
um 
aglomerado 
de 
homens, 
mulheres 
e 
crianas 
que 
queriam 
ter 
os 
seus 
espaos 
de 
volta. 
O 
tempo 
tinha 
piorado, 
e 
a 
neve 
provocava 
ventos 
gelados, 
que 
obrigavam 
as 
pessoas 
a 
tomar 
txis 
e 
metr, 
porque 
estava 
frio 
demais 
para 
andar. 


s 
duas 
e 
quinze, 
Lucy, 
a 
comandante 
Penn 
e 
eu 
estvamos 
na 
sala 
de 
controle, 
com 
todos 
os 
monitores, 
tev 
e 
rdio 
ligados. 
Wesley 
permanecia 
num 
dos 
muitos 
carros 
do 
FBI 
que 
o 
DPE 
havia 
pintado 
para 
parecerem 
txis, 
equipados 
com 
rdios 
e 
outros 
aparelhos 
de 
comunicao 
e 
de 
vigilncia. 
Marino 
estava 
na 
rua, 
com 
os 
policiais 
de 
trnsito 
e 
com 
agentes 
do 
FBI 
 
paisana. 
O 
pessoal 
da 
ERR 
estava 
dividido: 
parte 
no 
Dakota 
e 
parte 
na 
farmcia 
e 
na 
rua 
Bleecker. 
No 
sabamos 
exatamente 
a 
posio 
de 
cada 
um, 
porque 
todos 
l 
em 
cima 
estavam 
se 
movimentando, 
e 
ns 
nos 
mantnhamos 
ali, 
paradas. 


"Por 
que 
ningum 
ligou?", 
queixou-se 
Lucy. 


"Ele 
ainda 
no 
foi 
visto", 
disse 
a 
comandante 
Penn, 
com 
a 
voz 
firme 
mas 
exasperada. 


"Imagino 
que 
a 
passeata 
j 
tenha 
comeado", 
comentei. 


"Est 
na 
Lafayette, 
vindo 
para 
c", 
afirmou 
a 
comandante 
Penn. 


Ela 
e 
Lucy 
usavam 
fones 
de 
ouvido 
ligados 
ao 
consolo. 
Elas 
estavam 
em 
canais 
diferentes. 


"Est 
bem, 
est 
bem", 
disse 
a 
comandante 
Penn, 
ajeitando-se 
na 
cadeira. 
"J 
o 
localizamos. 
Plataforma 
nmero 
sete", 
exclamou 
para 
Lucy, 
cujos 
dedos 
voaram. 
"Ele 
acabou 
de 
sair 
de 
uma 
passarela. 
Entrou 
na 
galeria 
do 
metr, 
vindo 
de 
um 
tnel 
que 
passa 
por 
baixo 
do 
parque." 


A 
plataforma 
nmero 
sete 
apareceu 
no 
televisor 
preto 
e 
branco. 
Observamos 
um 
vulto 
usando 
um 
comprido 
casaco 
preto. 
Usava 
botas, 
chapu 
e 
culos 
escuros, 
e 
estava 
afastado 
dos 
outros 
passageiros, 
na 
extremidade 
da 
plataforma. 
Lucy 
chamou 
outro 
mapa 
na 
tela 
enquanto 
a 
comandante 
Penn 
ficava 
 
escuta 
no 
rdio. 
Fiquei 
observando 


#
passageiros 
andando, 
sentados, 
olhando 
mapas 
e 
de 
p. 
Ouviu-se 
o 
rudo 
de 
um 
trem 
que 
diminuiu 
a 
velocidade 
e 
parou. 
As 
portas 
se 
abriram 
e 
ele 
entrou. 


"Em 
que 
direo 
ele 
est 
indo?", 
perguntei. 


"Sul. 
Gault 
est 
vindo 
para 
c", 
disse 
a 
comandante 
Penn, 
excitada. 


"Ele 
est 
na 
linha 
A", 
informou 
Lucy, 
examinando 
seus 
monitores. 


"Certo." 
A 
comandante 
Penn 
entrou 
no 
ar. 
"O 
mais 
longe 
que 
ele 
pode 
ir 
 
at 
a 
Washington 
Square", 
disse 
ela 
a 
algum. 
"A 
ele 
pode 
passar 
para 
a 
linha 
F 
direto 
para 
a 
Segunda 
Avenida." 


Lucy 
disse: 
"Vamos 
checar 
as 
estaes 
uma 
a 
uma. 
No 
sabemos 
onde 
ele 
vai 
descer. 
Mas 
ele 
tem 
que 
sair 
em 
algum 
lugar 
para 
poder 
voltar 
s 
galerias." 


"Gault 
vai 
ter 
que 
fazer 
isso 
em 
direo 
 
Segunda 
Avenida", 
falou 
a 
comandante 
Penn 
pelo 
rdio. 
"Ele 
no 
pode 
pegar 
o 
trem 
naquela 
estao, 
porque 
ele 
no 
est 
parando 
l." 


Lucy 
manipulava 
os 
monitores 
do 
circuito 
fechado 
de 
tev. 
Ia 
mostrando 
a 
intervalos 
rpidos 
diferentes 
estaes, 
enquanto 
um 
trem 
que 
no 
vamos 
vinha 
em 
nossa 
direo. 


"Ele 
no 
est 
na 
42", 
disse 
ela. 
"Tambm 
no 
o 
estamos 
vendo 
na 
estao 
Penn, 
nem 
na 
23." 


Os 
monitores 
piscavam, 
mostrando 
plataformas 
e 
pessoas 
que 
no 
sabiam 
que 
estavam 
sendo 
observadas. 


"Se 
ele 
ficou 
naquele 
trem, 
deve 
estar 
na 
rua 
43", 
afirmou 
a 
comandante 
Penn. 


Mas 
se 
estava, 
no 
desembarcou, 
ou 
pelo 
menos 
no 
o 
vimos. 
Ento, 
de 
repente, 
nossa 
sorte 
virou 
e 
de 
forma 
totalmente 
inesperada. 


"Meu 
Deus", 
gritou 
Lucy. 
"Ele 
est 
na 
estao 
Grand 
Central! 
Como 
diabos 
ele 
foi 
parar 
l?" 


"Ele 
deve 
ter 
mudado 
de 
direo, 
indo 
para 
leste 
antes 
que 
a 
gente 
pensasse 
que 
o 
faria, 
e 
cruzou 
a 
Times 
Square", 
disse 
a 
comandante 
Penn. 


#
"Mas 
por 
qu?", 
perguntou 
Lucy. 
"Isso 
no 
faz 
o 
menor 
sentido." 


A 
comandante 
Penn 
contatou 
pelo 
rdio 
a 
unidade 
dois, 
que 
era 
a 
de 
Wesley. 
Ela 
perguntou-lhe 
se 
Gault 
j 
tinha 
passado 
pela 
farmcia. 
Ela 
tirou 
o 
fone 
de 
ouvido 
e 
ps 
o 
microfone 
nele, 
para 
que 
pudssemos 
ouvir 
o 
que 
Wesley 
dizia. 


"No, 
ele 
no 
passou", 
foi 
a 
resposta 
dele. 


"Nossos 
monitores 
acabaram 
de 
mostr-lo 
na 
Grand 
Central", 
explicou 
ela. 


"O 
qu?" 


"No 
sei 
por 
que 
ele 
foi 
parar 
l. 
Mas 
h 
tantos 
trajetos 
alternativos. 
Ele 
poderia 
sair 
em 
qualquer 
lugar 
que 
quisesse, 
por 
um 
motivo 
qualquer." 


"Temo 
que 
sim." 


"E 
quanto 
 
Carolina 
do 
Sul?", 
perguntou 
a 
comandante 
Penn. 


"Est 
tudo 
certo. 
O 
pssaro 
levantou 
vo 
e 
pousou", 
disse 
Wesley. 


A 
sra. 
Gault 
enviara 
o 
dinheiro, 
ou 
o 
FBI 
O 
fizera. 
Ns 
observvamos 
seu 
filho, 
vagando 
entre 
pessoas 
que 
no 
sabiam 
que 
ele 
era 
um 
monstro. 


"Espere 
um 
pouco", 
continuou 
a 
comandante 
Penn, 
falando 
pelo 
rdio. 
"Ele 
est 
na 
rua 
43 
com 
a 
Union 
Square, 
indo 
em 
direo 
sul, 
exatamente 
onde 
voc 
est." 


Eu 
estava 
louca 
pelo 
fato 
de 
no 
podermos 
peg-lo. 
A 
gente 
o 
via, 
mas 
isso 
de 
nada 
adiantava. 


"A 
impresso 
que 
se 
tem 
 
que 
ele 
est 
mudando 
de 
trem 
o 
tempo 
todo", 
comentou 
Wesley. 


A 
comandante 
Penn 
disse: 
"L 
vai 
ele 
novamente. 
O 
trem 
j 
partiu. 
Temos 
Astor 
Place 
na 
tela. 
 
a 
ltima 
parada, 
a 
menos 
que 
ele 
passe 
por 
ns 
e 
saia 
no 
Bowery". 


"O 
trem 
est 
parando", 
afirmou 
Lucy. 


Observamos 
as 
pessoas 
no 
monitor 
e 
no 
vimos 
Gault. 


"Bem, 
ele 
deve 
estar 
no 
trem", 
falou 
a 
comandante 
Penn 
ao 
microfone. 


#
"Ns 
o 
perdemos", 
disse 
Lucy. 


Ela 
ia 
mudando 
as 
imagens 
dos 
canais 
de 
tev 
calada, 
desapontada. 
No 
o 
vimos. 


"Merda", 
praguejou 
ela. 


"Onde 
 
que 
ele 
teria 
se 
enfiado?", 
perguntou 
a 
comandante 
Penn, 
desconcertada. 
"Ele 
tem 
que 
sair 
em 
algum 
lugar. 
Se 
 
que 
vai 
 
farmcia. 
Ele 
no 
pode 
usar 
a 
sada 
do 
Cooper 
Union." 
Ela 
olhou 
para 
Lucy. 
" 
isso. 
Talvez 
ele 
v 
tentar. 
Mas 
no 
vai 
conseguir 
sair. 
Est 
bloqueada. 
Mas 
pode 
ser 
que 
ele 
no 
saiba." 


Lucy 
respondeu: 
"Gault 
sabe 
sim. 
Ele 
leu 
as 
mensagens 
eletrnicas 
que 
lhe 
enviamos". 


Ela 
continuou 
vasculhando 
os 
monitores. 
Ele 
continuava 
desaparecido, 
e 
o 
rdio 
permanecia 
num 
silncio 
carregado 
de 
tenso. 


"Desgraa!", 
disse 
Lucy. 
"Ele 
deve 
estar 
na 
linha 
seis 
novamente. 
Vamos 
ver 
Astor 
Place 
e 
Lafayette 
mais 
uma 
vez." 


No 
adiantou 
nada. 


Ficamos 
em 
silncio 
por 
um 
tempo, 
olhando 
para 
a 
poria 
fechada, 
de 
madeira, 
que 
dava 
para 
a 
nossa 
estao 
vazia. 
L 
em 
cima, 
centenas 
de 
pessoas 
andavam 
por 
ruas 
encharcadas 
para 
demonstrar 
que 
j 
estavam 
fartas 
de 
violncia. 
Comecei 
a 
olhar 
o 
mapa 
do 
metr. 


A 
comandante 
Penn 
disse: 
"Agora 
ele 
deve 
estar 
na 
Segunda 
Avenida. 
Deve 
ter 
descido 
uma 
estao 
antes 
ou 
depois, 
e 
feito 
o 
resto 
do 
caminho 
a 
p, 
pelas 
galerias." 


Veio-me 
ento 
um 
pensamento 
terrvel. 
"Ele 
pode 
fazer 
a 
mesma 
coisa 
aqui. 
No 
estamos 
to 
perto 
da 
farmcia, 
mas 
tambm 
estamos 
na 
linha 
seis." 


"Sim", 
disse 
Lucy, 
voltando-se 
para 
olhar 
para 
mim. 
"Daqui 
ao 
Bowery 
 
um 
pulo." 


"Mas 
estamos 
trancadas", 
afirmei. 


Lucy 
voltou 
ao 
teclado. 


Levantei-me 
da 
cadeira 
e 
olhei 
para. 
a 
comandante 
Penn. 
"Estamos 
sozinhas 
aqui. 
Estamos 
s 
ns 
trs. 
Os 
trens 
no 
param 
aqui 
nos 
fins 
de 
semana. 
No 
h 
mais 
ningum. 
Todo 
mundo 
est 
na 


#
Segunda 
Avenida 
e 
na 
farmcia." 


"Estao 
de 
base 
para 
unidade 
dois", 
disse 
Lucy 
no 
rdio. 


"Unidade 
dois", 
disse 
Wesley. 


"Tudo 
certo 
a? 
Porque 
o 
perdemos 
de 
vista." 


"Continuem 
a 
postos." 


Abri 
minha 
pasta 
e 
peguei 
minha 
arma. 
Engatilhei-a 
e 
pus 
a 
trava 
de 
segurana. 


"Qual 
 
o 
seu 
dez-vinte?", 
perguntou 
a 
comandante 
Penn, 
para 
saber 
onde 
eles 
se 
encontravam. 


"Perto 
da 
farmcia." 


As 
telas 
brilhavam 
loucamente 
enquanto 
Lucy 
tentava 
localizar 
Gault. 


"Esperem 
a. 
Esperem 
a", 
ouvimos 
a 
voz 
de 
Wesley 
no 
ar. 


Ento 
ouvimos 
Marino. 
"Parece 
que 
o 
localizamos." 


"Vocs 
o 
localizaram?", 
perguntou 
a 
comandante 
Penn, 
incrdula. 
"Onde 
ele 
est?" 


"Ele 
est 
andando 
em 
direo 
 
farmcia." 
Era 
Wesley 
de 
volta. 
"Espere 
um 
pouco. 
Espere 
um 
pouco." 


Houve 
um 
silncio. 
Ento 
Wesley 
disse: 
"Ele 
est 
no 
caixa 
pegando 
o 
dinheiro. 
Esperem". 


Esperamos 
num 
silncio 
carregado 
de 
tenso. 


Passaram-se 
trs 
minutos. 
Wesley 
voltou 
a 
falar 
pelo 
rdio. 
"Ele 
est 
saindo. 
Vamos 
fechar 
o 
cerco 
logo 
que 
ele 
entrar 
no 
terminal. 
Fiquem 
firmes." 


"Como 
ele 
est 
vestido?", 
perguntei. 
"Voc 
tem 
certeza 
de 
que 
 
a 
mesma 
pessoa 
que 
pegou 
o 
metr 
no 
museu?" 


Ningum 
deu 
a 
mnima. 


"Oh, 
Cristo", 
exclamou 
Lucy 
de 
repente, 
e 
olhamos 
para 
os 
monitores. 


Estvamos 
vendo 
as 
plataformas 
da 
estao 
da 
Segunda 
Avenida 
e 
a 
ERR 
irrompendo 
da 
escurido 
dos 
trilhos. 
Vestidos 
de 
uniformes 
pretos 
e 
botas 
de 
combate, 
eles 
cruzaram 
correndo 
a 
plataforma 
e 
subiram 
as 
escadas 
que 
do 
acesso 
 
rua. 


#
"Alguma 
coisa 
deu 
errado", 
disse 
a 
comandante 
Penn. 
"Eles 
esto 
tentando 
peg-lo 
na 
rua!" 


Vozes 
ricocheteavam 
no 
rdio. 


"Ns 
o 
pegamos." 


"Ele 
est 
tentando 
correr." 


"Certo, 
certo, 
pegamos 
a 
arma 
dele. 
Ele 
caiu." 


"Voc 
o 
algemou?" 


Dentro 
da 
sala 
de 
controle, 
uma 
sirene 
disparou. 
No 
teto, 
lmpadas 
vermelho-sangue 
se 
acenderam 
e 
um 
cdigo 
vermelho 
429 
comeou 
a 
brilhar 
na 
tela 
do 
computador. 


"Mayday!", 
exclamou 
a 
comandante 
Penn. 
"Um 
policial 
est 
cado! 
Ele 
acionou 
o 
boto 
de 
emergncia 
de 
seu 
rdio!" 
Ela 
fitava 
a 
tela 
do 
computador 
incrdula 
e 
sem 
ao. 


"O 
que 
est 
acontecendo?", 
perguntou 
Lucy 
pelo 
rdio. 


"No 
sei", 
foi 
a 
resposta 
de 
Wesley. 
"Algo 
est 
errado. 
Espere 
um 
pouco." 


"No 
 
l 
que 
ele 
est. 
O 
Mayday 
no 
 
na 
estao 
da 
Segunda 
Avenida", 
disse 
a 
comandante 
Penn, 
assustada. 
"Esse 
cdigo 
que 
est 
na 
tela 
 
do 
Davila." 


"Davila?" 
Eu 
estava 
estupefata. 
"Jimmy 
Davila?" 


"Ele 
era 
a 
unidade 
429. 
Esse 
era 
seu 
cdigo. 
Ele 
no 
foi 
cancelado. 
Continua 
vlido." 


Olhamos 
para 
a 
tela. 
O 
cdigo 
vermelho 
se 
deslocava 
numa 
grade 
computadorizada. 
Eu 
estava 
pasma 
pelo 
fato 
de 
ningum 
ter 
pensado 
nisso 
antes. 


"O 
rdio 
de 
Davila 
estava 
com 
ele 
quando 
o 
encontraram?", 
perguntei. 


A 
comandante 
Penn 
continuava 
paralisada. 


"Gault 
ficou 
com 
o 
rdio!", 
exclamei. 
"Ele 
ficou 
com 
o 
rdio 
de 
Davila." 


A 
voz 
de 
Wesley 
voltou 
ao 
ar. 
Ele 
no 
sabia 
o 
que 
nos 
afligia. 
No 
podia 
saber 
sobre 
o 
Mayday. 


"No 
estamos 
bem 
certos 
de 
t-lo 
pegado", 
disse 
Wesley. 
"No 


#
estamos 
bem 
certos 
de 
quem 
pegamos." 


Lucy 
olhou 
para 
mim 
intensamente. 
"Carrie", 
disse 
ela. 
"Eles 
no 
sabem 
se 
pegaram 
Carrie 
ou 
Gault. 
Os 
dois 
provavelmente 
esto 
vestidos 
da 
mesma 
forma 
de 
novo." 


Dentro 
de 
nossa 
pequena 
sala 
de 
controle 
sem 
janelas 
e 
sem 
ningum 
por 
perto, 
fitvamos 
o 
cdigo 
Mayday 
piscante 
e 
vermelho 
movendo-se 
na 
tela 
do 
computador, 
aproximando-se 
do 
lugar 
onde 
estvamos. 


"Est 
na 
galeria 
que 
vai 
na 
direo 
sul", 
disse 
a 
comandante 
Penn 
com 
uma 
crescente 
entonao 
de 
urgncia. 


"Ela 
no 
recebeu 
a 
mensagem 
que 
enviamos", 
considerou 
Lucy. 


"Ela?", 
perguntou 
a 
comandante 
Penn, 
lanando-lhe 
um 
olhar 
estranho. 


"Ela 
no 
sabe 
da 
passeata, 
nem 
que 
a 
Segunda 
Avenida 
est 
fechada", 
continuou 
Lucy. 
"Ela 
deve 
ter 
tentado 
passar 
pela 
sada 
de 
emergncia 
na 
travessa, 
mas 
no 
pde 
sair 
porque 
est 
bloqueada. 
Ento 
ela 
ficou 
rodando 
l 
por 
baixo 
desde 
que 
a 
vimos 
na 
Grand 
Central." 


"No 
vimos 
Gault 
ou 
Carrie 
nas 
plataformas 
das 
estaes 
prximas 
de 
ns", 
afirmei. 
"E 
voc 
no 
sabe 
se 
 
ela." 


"Existem 
tantas 
estaes", 
disse 
a 
comandante 
Penn. 
"Algum 
pode 
ter 
descido 
sem 
que 
a 
gente 
visse." 


"Gault 
mandou-a 
 
farmcia 
em 
seu 
lugar", 
falei, 
cada 
vez 
mais 
nervosa. 
"Ele 
sabe 
tudo 
o 
que 
estamos 
fazendo." 


"CAIN", 
murmurou 
Lucy. 


"Sim. 
Isso, 
alm 
do 
que 
ele 
deve 
ter 
estado 
observando." 


Lucy 
tinha 
o 
local 
em 
que 
estvamos, 
a 
parada 
da 
rua 
Bleecker, 
no 
circuito 
fechado 
de 
tev. 
Trs 
monitores 
mostravam 
a 
plataforma 
e 
as 
catracas 
de 
diferentes 
ngulos, 
mas 
um 
quarto 
monitor 
estava 
escuro. 


"Alguma 
coisa 
deve 
estar 
tapando 
uma 
das 
cmaras", 
disse 
Lucy. 


"E 
ela 
estava 
assim 
antes?", 
perguntei. 


#
"Quando 
a 
gente 
chegou 
aqui, 
no", 
respondeu 
ela. 
"Mas 
no 
estvamos 
monitorando 
a 
estao 
onde 
estamos. 
No 
parecia 
haver 
nenhuma 
razo 
para 
vigi-la." 


Estvamos 
olhando 
o 
cdigo 
vermelho 
mover-se 
lentamente 
na 
tela. 


"Temos 
que 
ficar 
fora 
do 
ar", 
falei 
 
comandante 
Penn. 
"Ele 
est 
com 
um 
rdio", 
acrescentei, 
porque 
sabia 
que 
aquele 
cdigo 
vermelho 
da 
tela 
era 
Gault. 
Eu 
no 
tinha 
a 
menor 
dvida. 
"Ele 
est 
ligado 
e 
ouvindo 
cada 
uma 
das 
palavras 
que 
estamos 
dizendo." 


"Por 
que 
o 
Mayday 
ainda 
est 
l?", 
perguntou 
Lucy. 
"Ser 
que 
ela 
quer 
que 
a 
gente 
saiba 
onde 
ela 
est?" 


Eu 
olhei 
para 
ela. 
Era 
como 
se 
Lucy 
estivesse 
em 
transe. 


"O 
boto 
deve 
ter 
sido 
acionado 
inadvertidamente", 
disse 
a 
comandante 
Penn. 
"Se 
voc 
no 
conhece 
o 
boto, 
no 
vai 
imaginar 
que 
 
para 
Maydays. 
E 
como 
se 
trata 
de 
um 
alarme 
silencioso, 
ele 
pode 
ficar 
ligado 
sem 
que 
voc 
saiba." 


Mas 
eu 
no 
acreditava 
que 
tudo 
o 
que 
estava 
acontecendo 
era 
por 
engano. 
Gault 
estava 
vindo 
em 
nossa 
direo 
porque 
era 
para 
c 
que 
ele 
queria 
vir. 
Ele 
era 
um 
tubaro 
nadando 
na 
escurido 
das 
galerias, 
e 
lembrei-me 
do 
que 
Anna 
dissera 
sobre 
o 
presente 
hediondo 
que 
ele 
me 
dera. 


"Ele 
est 
quase 
no 
poste 
de 
sinalizao." 
Lucy 
estava 
apontando 
para 
a 
tela. 
"Demnio, 
ele 
est 
bem 
perto." 


Ns 
no 
sabamos 
o 
que 
fazer. 
Se 
falssemos 
com 
Wesley 
pelo 
rdio, 
Gault 
iria 
ouvir 
e 
desaparecer 
nas 
galerias. 
Se 
no 
nos 
comunicssemos 
com 
ele, 
os 
homens 
no 
saberiam 
o 
que 
estava 
acontecendo. 
Lucy 
estava 
na 
porta, 
e 
a 
abriu 
um 
pouco. 


"O 
que 
 
que 
voc 
est 
fazendo?", 
perguntei 
a 
ela, 
quase 
gritando. 


Ela 
fechou 
a 
porta 
rapidamente. 
" 
o 
banheiro 
feminino. 
Acho 
que 
uma 
faxineira 
abriu 
a 
porta 
quando 
estava 
limpando 
e 
deixou 
aberta. 
A 
porta 
est 
tapando 
a 
cmara." 


"Voc 
viu 
algum 
a 
fora?", 
perguntei. 


#
"No", 
disse 
ela, 
os 
olhos 
cheios 
de 
dio. 
"Eles 
acham 
que 
a 
pegaram. 
Como 
eles 
sabem 
que 
no 
 
Gault? 
Talvez 
seja 
ela 
quem 
esteja 
com 
o 
rdio 
de 
Davila. 
Eu 
a 
conheo. 
Provavelmente 
ela 
sabe 
que 
estou 
aqui." 


A 
comandante 
Penn 
estava 
tensa 
quando 
me 
disse: 
"H 
algumas 
armas 
a 
dentro". 


"Sim." 


Entramos 
num 
espao 
atulhado 
com 
escrivaninhas 
e 
cadeiras 
quebradas. 
Ela 
abriu 
um 
armrio 
e 
pegamos 
escopetas, 
caixas 
de 
balas 
e 
roupas 
de 
Kevlar. 
Ficamos 
alguns 
minutos 
ali 
e 
quando 
voltamos 
para 
a 
sala 
de 
controle, 
Lucy 
no 
estava 
mais 
l. 


Olhei 
para 
o 
circuito 
fechado 
de 
tev 
e 
vi 
uma 
imagem 
piscar 
na 
quarta 
tela, 
quando 
algum 
fechou 
a 
porta 
do 
sanitrio 
feminino. 
O 
sinal 
brilhante 
na 
grade 
do 
mapa 
estava 
agora 
no 
interior 
da 
estao, 
numa 
passarela. 
A 
qualquer 
momento 
estaria 
na 
plataforma. 
Procurei 
minha 
pistola 
Browning, 
mas 
ela 
no 
estava 
no 
consolo 
onde 
eu 
a 
deixara. 


"Ela 
levou 
minha 
arma", 
disse, 
atnita. 
"Ela 
saiu 
daqui. 
Lucy 
foi 
atrs 
de 
Carrie!" 


Carregamos 
escopetas 
o 
mais 
rpido 
que 
pudemos, 
mas 
no 
gastamos 
tempo 
com 
roupas. 
Minhas 
mos 
estavam 
desajeitadas 
e 
frias. 


"Voc 
tem 
que 
falar 
com 
Wesley 
pelo 
rdio", 
disse 
 
comandante 
Penn, 
nervosa. 
"Tem 
que 
fazer 
alguma 
coisa 
para 
que 
eles 
venham 
para 
c." 


"Voc 
no 
pode 
sair 
daqui 
sozinha", 
disse 
ela. 


"No 
posso 
deixara 
Lucy 
sozinha 
a 
fora." 


"Ento 
vamos 
ns 
duas. 
Pegue 
uma 
lanterna." 


"No. 
Pea 
socorro. 
Pea 
que 
venha 
algum." 


Sa 
correndo 
sem 
saber 
o 
que 
iria 
encontrar 
l 
fora. 
Mas 
a 
estao 
estava 
deserta. 
Fiquei 
absolutamente 
imvel 
com 
a 
escopeta 
preparada. 
Notei 
a 
cmara 
instalada 
na 
parede 
revestida 
com 
ladrilhos 
verdes, 
prximo 
aos 
banheiros. 
A 
plataforma 
estava 
vazia, 
e 
ouvi 
um 


#
trem 
ao 
longe. 
Ele 
passou 
direto 
porque 
no 
parava 
naquela 
estao 
aos 
sbados. 
Pela 
janela, 
vi 
passageiros 
dormindo, 
lendo. 
Poucos 
tiveram 
tempo 
de 
ver 
uma 
mulher 
de 
escopeta 
em 
punho 
ou 
de 
estranhar 
aquilo. 


Eu 
me 
perguntei 
se 
Lucy 
podia 
estar 
no 
banheiro, 
mas 
aquilo 
no 
fazia 
sentido. 
Havia 
um 
banheiro 
anexo 
 
sala 
de 
controle 
onde 
passramos 
o 
dia 
inteiro. 
Eu 
me 
aproximava 
da 
plataforma 
quando 
meu 
corao 
disparou. 
A 
temperatura 
era 
baixa 
e 
eu 
estava 
sem 
casaco. 
Meus 
dedos 
comearam 
a 
ficar 
entorpecidos 
em 
volta 
da 
coronha 
da 
arma. 


Fiquei 
um 
pouco 
aliviada 
ao 
me 
ocorrer 
que 
Lucy 
poderia 
ter 
sado 
para 
buscar 
socorro. 
Talvez 
ela 
tenha 
fechado 
a 
porta 
do 
banheiro 
e, 
em 
seguida, 
corrido 
para 
a 
Segunda 
Avenida. 
Mas, 
e 
se 
ela 
no 
tivesse 
feito 
isso? 
Olhei 
para 
a 
porta 
fechada, 
sem 
querer 
passar 
por 
ela. 


Aproximei-me, 
p 
ante 
p, 
desejando 
estar 
com 
uma 
pistola. 
Uma 
escopeta 
 
muito 
imprpria 
para 
lugares 
acanhados 
e 
esquinas. 
Quando 
cheguei 
 
porta, 
meu 
corao 
quase 
me 
saa 
pela 
boca. 
Peguei 
a 
maaneta, 
dei 
um 
firme 
puxo 
e 
entrei 
com 
a 
escopeta 
em 
riste. 
A 
rea 
prxima 
 
pia 
estava 
vazia. 
Eu 
no 
ouvia 
nenhum 
rudo. 
Olhei 
por 
baixo 
das 
portas 
dos 
sanitrios 
e 
minha 
respirao 
ficou 
suspensa. 
Vi 
calas 
azuis 
e 
um 
par 
de 
botas 
de 
trabalho 
grandes 
demais 
para 
serem 
de 
mulher. 
Ouvi 
um 
tinido 
metlico. 


Brandi 
a 
escopeta, 
trmula, 
enquanto 
ordenava: 
"Saia 
com 
as 
mos 
para 
o 
alto!". 


Um 
grande 
rumor 
soou 
no 
assoalho. 
O 
homem 
da 
limpeza, 
vestido 
de 
macaco 
e 
de 
casaco, 
parecia 
 
beira 
de 
um 
ataque 
cardaco 
quando 
apareceu 
na 
porta. 
Estava 
de 
olhos 
esbugalhados, 
olhando 
para 
mim 
e 
para 
a 
escopeta. 


"S 
estou 
limpando 
esse 
banheiro. 
No 
tenho 
nenhum 
dinheiro", 
disse 
ele, 
aterrorizado, 
os 
braos 
levantados 
como 
algum 
que 
tivesse 
acabado 
de 
fazer 
um 
gol. 


"Voc 
est 
em 
meio 
a 
uma 
operao 
policial", 
exclamei, 


#
apontando 
a 
escopeta 
para 
o 
teto 
e 
puxando 
a 
trava 
de 
segurana. 
"Voc 
tem 
que 
sair 
daqui 
agora!" 


No 
foi 
preciso 
pedir 
duas 
vezes. 
Ele 
no 
pegou 
seus 
instrumentos 
de 
trabalho, 
nem 
ps 
o 
cadeado 
na 
porta 
do 
banheiro. 
Voou 
escada 
acima, 
em 
direo 
 
rua, 
enquanto 
eu 
recomeava 
a 
andar 
pela 
plataforma 
novamente. 
Localizei 
cada 
uma 
das 
cmaras, 
perguntando 
a 
mim 
mesma 
se 
a 
comandante 
Penn 
me 
via 
pelos 
monitores. 
Eu 
estava 
quase 
voltando 
para 
a 
sala 
de 
controle, 
quando 
olhei 
para 
os 
trilhos 
mergulhados 
na 
escurido 
e 
tive 
a 
impresso 
de 
ouvir 
vozes. 
De 
repente, 
houve 
um 
arrastar 
de 
ps 
e 
o 
que 
pareceu 
ser 
um 
grunhido. 
Lucy 
comeou 
a 
gritar. 


"No! 
No! 
No 
faa 
isso!" 


Ouviu-se 
um 
grande 
estouro, 
parecido 
com 
uma 
exploso 
dentro 
de 
um 
tambor 
de 
metal. 
Fagulhas 
voaram 
na 
escurido 
de 
onde 
partiu 


o 
rudo, 
e 
as 
luzes 
da 
estao 
da 
rua 
Bleecker 
comearam 
a 
piscar. 
No 
havia 
luz 
ao 
longo 
dos 
trilhos, 
e 
eu 
no 
enxergava 
nada, 
porque 
no 
ousava 
acender 
a 
lanterna 
que 
levava. 
Fui 
tateando 
por 
uma 
passarela 
de 
metal 
e 
desci 
com 
todo 
o 
cuidado 
uma 
escadaria 
estreita 
que 
levava 
 
galeria. 


Enquanto 
ia 
avanando 
devagar, 
a 
respirao 
ofegante, 
meus 
olhos 
comearam 
a 
se 
acostumar 
ao 
escuro. 
Conseguia 
ver 
vagamente 
a 
forma 
das 
arcadas, 
trilhos, 
e 
as 
partes 
de 
concreto 
onde 
os 
sem-teto 
dormiam. 
Eu 
tropeava 
no 
lixo 
e 
fazia 
barulho 
quando 
pisava 
em 
objetos 
de 
metal 
ou 
de 
vidro. 


Eu 
mantinha 
a 
escopeta 
levantada 
 
minha 
frente, 
para 
proteger 
a 
cabea 
de 
algum 
ressalto 
de 
concreto 
que 
por 
acaso 
no 
visse. 
Sentia 
cheiro 
de 
lixo, 
dejetos 
humanos 
e 
de 
queimado 
recente. 
Quanto 
mais 
eu 
avanava, 
mais 
forte 
era 
o 
mau 
cheiro. 
Surgiu 
ento 
uma 
luz 
forte, 
como 
se 
fosse 
a 
lua, 
quando 
um 
trem 
apareceu 
nos 
trilhos 
que 
iam 
em 
direo 
norte. 
Temple 
Gault 
estava 
a 
menos 
de 
cinco 
metros 
de 
distncia. 


Ele 
segurava 
Lucy 
pelo 
pescoo, 
com 
uma 
faca 
em 
sua 
garganta. 
No 
muito 
longe 
deles, 
o 
detetive 
Maier 
estava 
preso 
ao 
trilho 
condutor 


#
da 
via 
sul, 
mos 
e 
dentes 
cerrados, 
a 
corrente 
eltrica 
passando 
pelo 
seu 
corpo 
sem 
vida. 
O 
trem 
passou 
fazendo 
um 
tremendo 
barulho, 
e 
a 
escurido 
voltou. 


"Solte-a." 
Minha 
voz 
tremeu 
quando 
acendi 
a 
lanterna. 


Piscando, 
Gault 
escondeu 
o 
rosto 
da 
luz. 
Ele 
estava 
to 
plido 
que 
parecia 
albino, 
e 
dava 
para 
ver 
msculos 
e 
tendes 
em 
suas 
mos 
nuas, 
que 
seguravam 
a 
faca 
de 
ao 
que 
ele 
me 
roubara. 
Com 
um 
movimento 
rpido, 
ele 
podia 
cortar 
a 
garganta 
de 
Lucy 
at 
a 
espinha 
dorsal. 
Ela 
olhava 
para 
mim, 
paralisada 
pelo 
terror. 


"No 
 
ela 
que 
voc 
quer", 
disse-lhe 
avanando 
um 
pouco. 


"Tire 
a 
luz 
do 
meu 
rosto", 
falou 
ele. 
"Largue 
a 
lanterna." 


No 
apaguei 
a 
lanterna, 
mas 
coloquei-a 
devagar 
num 
ressalto 
do 
concreto, 
de 
onde 
ela 
lanava 
uma 
luz 
irregular 
que 
incidia 
diretamente 
na 
cabea 
ensangentada 
e 
queimada 
do 
detetive 
Maier. 
Eu 
me 
perguntava 
por 
que 
Gault 
no 
me 
pedira 
para 
largar 
a 
escopeta. 
Talvez 
ele 
no 
a 
pudesse 
ver. 
Eu 
a 
mantinha 
apontada 
para 
cima. 
Estava 
a 
menos 
de 
dois 
metros 
dele. 


Os 
lbios 
de 
Gault 
estavam 
rachados 
e 
ele 
fungou 
ruidosamente. 
Ele 
parecia 
magro 
e 
desgrenhado, 
e 
eu 
me 
perguntava 
se 
ele 
estava 
entrando 
ou 
saindo 
de 
um 
estado 
de 
euforia 
produzido 
pelas 
drogas. 
Gault 
usava 
jeans, 
botas 
de 
selva 
e 
um 
casaco 
preto 
de 
couro 
gasto 
e 
rasgado. 
Na 
lapela 
ele 
trazia 
o 
caduceu 
que 
imaginei 
ser 
o 
que 
comprara 
em 
Richmond, 
alguns 
dias 
antes 
do 
Natal. 


"Ela 
no 
 
nenhum 
brinquedo." 
No 
podia 
impedir 
minha 
voz 
de 
tremer. 


Seus 
olhos 
terrveis 
estavam 
vidrados 
quando 
um 
fio 
de 
sangue 
escorreu 
pelo 
pescoo 
de 
Lucy. 
Minhas 
mos 
se 
crisparam 
em 
volta 
da 
escopeta. 


"Largue-a. 
Vamos 
ser 
s 
eu 
e 
voc. 
 
a 
mim 
que 
voc 
quer." 


Uma 
luz 
brilhou 
em 
seus 
olhos, 
e 
eu 
quase 
adivinhava 
a 
sua 
estranha 
cor 
azul 
na 
penumbra. 
Suas 
mos 
se 
mexeram 
subitamente, 
empurrando 
Lucy 
para 
o 
trilho 
condutor, 
e 
eu 
pulei 
na 
direo 
dela. 
Agarrei-a 
pelo 
suter, 
puxei-a 
para 
mim 
e 
ambas 
camos 
no 
cho. 
A 


#
escopeta 
disparou 
e 
produziu 
fagulhas, 
pois 
a 
bala 
foi 
atrada 
pelo 
voraz 
trilho 
condutor. 


Gault 
sorriu, 
empunhando 
a 
minha 
Browning 
e 
jogando 
a 
faca 
de 
lado. 
Ele 
engatilhou 
a 
arma, 
segurando-a 
com 
ambas 
as 
mos, 
apontando 
para 
a 
cabea 
de 
Lucy. 
Ele 
estava 
acostumado 
com 
a 
sua 
Glock 
e 
parecia 
no 
saber 
que 
a 
minha 
Browning 
tinha 
uma 
trava 
de 
segurana. 
Gault 
acionou 
ento 
o 
gatilho, 
mas 
nada 
aconteceu. 
Ele 
no 
entendeu 
o 
que 
estava 
se 
passando. 


"Corra!", 
gritei 
para 
Lucy, 
empurrando-a. 
"CORRA!" 


Ele 
engatilhou 
a 
arma 
mas, 
como 
j 
o 
tinha 
feito, 
no 
saiu 
nenhum 
cartucho, 
e 
ela 
ficou 
sobrecarregada. 
Enfurecido, 
ele 
apertou 
o 
gatilho, 
mas 
a 
pistola 
permanecia 
emperrada. 


"CORRA!", 
gritei. 


Eu 
estava 
cada 
no 
cho 
e 
no 
tentei 
sair, 
porque 
achava 
que 
Gault 
no 
iria 
correr 
atrs 
dela 
se 
eu 
continuasse 
ali. 
Ele 
tentava 
abrir 


o 
cursor, 
sacudindo 
a 
arma. 
Lucy 
comeou 
a 
chorar, 
tropeando 
na 
escurido. 
A 
faca 
estava 
junto 
ao 
trilho 
condutor 
e, 
quando 
estendi 
a 
mo 
para 
peg-la, 
um 
rato 
passou 
por 
cima 
de 
minhas 
pernas. 
Assustada, 
me 
cortei 
em 
cacos 
de 
vidro 
que 
havia 
no 
cho. 
Minha 
cabea 
estava 
perigosamente 
perto 
das 
botas 
de 
Gault. 
Ele 
no 
conseguia 
consertar 
a 
arma 
e 
vi 
que 
me 
olhava 
muito 
tenso. 
Eu 
sabia 
muito 
bem 
o 
que 
ele 
estava 
pensando. 
Segurei 
com 
mais 
fora 
o 
frio 
cabo 
de 
ao. 
Sabia 
o 
que 
ele 
era 
capaz 
de 
fazer 
com 
os 
ps, 
e 
no 
podia 
atingir 
seu 
peito 
ou 
um 
vaso 
maior 
do 
pescoo 
porque 
no 
dava 
tempo. 
Eu 
estava 
de 
joelhos. 
Quando 
ele 
tomou 
posio 
para 
me 
chutar, 
levantei 
a 
faca 
e 
enfiei 
a 
lmina 
em 
sua 
coxa. 
Com 
as 
duas 
mos, 
cortei 
o 
mais 
que 
pude, 
enquanto 
ele 
gritava. 


O 
sangue 
arterial 
espirrou 
em 
meu 
rosto 
quando 
puxei 
a 
faca. 
A 
artria 
femural, 
cortada, 
vertia 
sangue 
aos 
borbotes, 
no 
ritmo 
das 
batidas 
daquele 
corao 
hediondo. 
Afastei-me 
dele 
o 
mais 
rpido 
que 
pude. 
Sabia 
que 
a 
ERR 
estava 
esperando, 
de 
olho 
nele. 


"Voc 
me 
feriu", 
disse 
Gault, 
mostrando 
uma 
incredulidade 
infantil. 
Encurvado, 
ele 
olhava 
fascinado 
o 
sangue 
escorrer 
por 
entre 
os 


#
dedos 
crispados 
sobre 
a 
perna. 
"Isso 
no 
vai 
parar. 
Voc 
 
mdica. 
Faa 
parar." 


Olhei 
para 
ele. 
Sob 
o 
bon, 
percebia-se 
a 
cabea 
raspada. 
Pensei 
na 
sua 
irm 
gmea 
morta 
e 
no 
pescoo 
de 
Lucy. 
Um 
rifle 
de 
mira 
telescpica 
disparou 
duas 
vezes 
de 
dentro 
da 
galeria, 
de 
onde 
estava 
a 
estao. 
Balas 
silvaram, 
e 
Gault 
caiu 
junto 
do 
trilho 
sobre 
o 
qual 
ele 
quase 
jogara 
Lucy. 
Um 
trem 
vinha 
se 
aproximando, 
mas 
no 
fiz 
nada 
para 
afast-lo 
dos 
trilhos. 
Afastei-me 
e 
no 
olhei 
para 
trs. 


Lucy, 
Wesley 
e 
eu 
samos 
de 
Nova 
York 
na 
segunda-feira, 
e 
o 
helicptero 
voou 
primeiro 
na 
direo 
leste. 
Sobrevoamos 
penhascos 
e 
as 
manses 
de 
Westchester, 
chegando 
finalmente 
 
escabrosa 
e 
maldita 
ilha 
que 
no 
figurava 
nos 
mapas 
tursticos. 
Uma 
chamin 
caindo 
aos 
pedaos 
elevava-se 
das 
runas 
de 
Lima 
velha 
penitenciria 
de 
tijolos. 
Sobrevoamos 
em 
crculos 
o 
Cemitrio 
de 
Indigentes, 
enquanto 
prisioneiros 
e 
seus 
guardas 
levantavam 
os 
olhos 
naquela 
manh 
enevoada. 


O 
Belljet 
Ranger 
desceu 
o 
mais 
que 
pde 
e 
eu 
torci 
para 
que 
nada 
nos 
obrigasse 
a 
aterrissar. 
Eu 
no 
queria 
ficar 
perto 
dos 
homens 
da 
ilha 
Rikers. 
Pedras 
tumulares 
pareciam 
dentes 
bancos 
emergindo 
do 
gramado 
irregular, 
e 
algum 
formara 
uma 
cruz 
com 
pedras. 
Um 
caminho-plataforma 
estava 
estacionado 
prximo 
a 
um 
tmulo 
aberto, 
e 
os 
homens 
estavam 
retirando 
o 
caixo 
novo 
de 
pinho. 


Eles 
pararam 
para 
nos 
olhar 
quando 
passamos, 
deslocando 
o 
ar 
com 
mais 
fora 
que 
os 
ventos 
com 
os 
quais 
eles 
estavam 
acostumados. 
Os 
prisioneiros; 
agasalhados 
por 
causa 
do 
inverno, 
no 
acenaram 
para 
ns. 
Uma 
balsa 
enferrujada 
balanava 
na 
gua, 
esperando 
para 
levar 
o 
caixo 
at 
Manhattan, 
para 
o 
ltimo 
exame. 
A 
irm 
gmea 
de 
Gault 
iria 
atravessar 
o 
rio 
naquele 
mesmo 
dia. 


Jayne, 
finalmente, 
voltaria 
para 
casa. 


(.`...-> 
 
F
FFFFI
IIIIM 
MMMM 
<-....) 


#
Patrcia 
D. 
Cornwell 
deixou 
a 
reportagem 
policial 
para 
se 
tornar 
escritora. 
Seus 
livros 
vm 
acumulando 
prmios 
e 
freqentam 
sistematicamente 
as 
listas 
de 
mais 
vendidos. 
De 
sua 
autoria 
a 
Companhia 
das 
Letras 
j 
lanou: 
Corpo 
de 
delito, 
Desumano 
e 
degradante, 
Lavoura 
de 
corpos, 
Post-mortem, 
Restos 
mortais 
e 
Causa 
mortis. 



#
Contra 
capa 


NatalemNovaYork.Hneveealegriaportodaparte.0rudodasfestasnosabedossonsassustadoresqueabafa;aluzdaslojaservoresenfeitadasnopercebeassombrasquecria.
NingumouveotirodisparadonocoraodoCentralPark,
ningumvocorpo,mutiladoenu,numdosmilharesdebancosdaimensapraabranca.
Quandoadra.KayScarpetta,mdicalegista,examinaocadver,oscortescruisnocorpointeiroeofuroprecisonatmpora,elatemacertezadequeoMalestdevolta.Edessavez,TempleBrooksGault,oserialkille

rqueinvadiusuavida,foimuitoalmdohorrorquesepoderiaesperardele.
http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros 
http://groups.google.com/group/digitalsource 


#
